{"id":104004,"date":"2020-07-21T09:30:43","date_gmt":"2020-07-21T12:30:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/?p=104004"},"modified":"2020-07-20T17:55:28","modified_gmt":"2020-07-20T20:55:28","slug":"ufsb-ciencia-em-artigo-pesquisador-aponta-para-impactos-do-racismo-na-carreira-de-professores-negros-de-lingua-inglesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2020\/07\/21\/ufsb-ciencia-em-artigo-pesquisador-aponta-para-impactos-do-racismo-na-carreira-de-professores-negros-de-lingua-inglesa\/","title":{"rendered":"UFSB Ci\u00eancia:  pesquisador aponta impactos do racismo na carreira de professores negros de l\u00edngua inglesa"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-104007\" src=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/rac1-300x200.jpg\" alt=\"rac\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/rac1-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/rac1.jpg 640w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>por Heleno Naz\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<div><\/div>\n<div>H\u00e1 diversas barreiras impostas pelo preconceito racial, sem esquecer do cruzamento com os problemas de classe social. Um artigo derivado de pesquisa em n\u00edvel de doutorado realizada pelo professor Gabriel Nascimento, atuante no Campus Sos\u00edgenes Costa (Porto Seguro), trata da desconfian\u00e7a quanto \u00e0 capacidade de pessoas negras serem capazes de exercer a doc\u00eancia de l\u00edngua inglesa. O artigo\u00a0<strong><a href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1590\/1984-6398201914813\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=http:\/\/dx.doi.org\/10.1590\/1984-6398201914813&amp;source=gmail&amp;ust=1595362095533000&amp;usg=AFQjCNG2pzjeiME1p_Yt-MwRxnHgKw-40A\">Racism in English Language Teaching? Autobiographical Narratives of Black English Language Teachers in Brazil<\/a><\/strong>, publicado na Revista Brasileira de Lingu\u00edstica Aplicada e derivado da tese doutoral, analisa os efeitos do racismo na trajet\u00f3ria de professoras negras que ensinam o idioma ingl\u00eas no Sul da Bahia.<\/div>\n<div><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-104005\" src=\"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/rac-2-300x176.png\" alt=\"rac 2\" width=\"300\" height=\"176\" srcset=\"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/rac-2-300x176.png 300w, https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/rac-2.png 943w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Trata-se de um estudo com metodologia autobiogr\u00e1fica, no qual as participantes contribuem diretamente com relatos de suas experi\u00eancias e suas hist\u00f3rias de vida. No caso, duas professoras contam sobre o processo de forma\u00e7\u00e3o docente e o exerc\u00edcio da profiss\u00e3o em sala de aula. S\u00e3o v\u00e1rios momentos e modos em que a quest\u00e3o racial se mostra como obst\u00e1culo para a carreira das duas docentes. Essa situa\u00e7\u00e3o tende a gerar um dilema entre as identidades que essas pessoas forjam para si: de resist\u00eancia na\/pela linguagem, persistindo na profiss\u00e3o e usando a linguagem para isso, ou de resist\u00eancia \u00e0 linguagem, desistindo do exerc\u00edcio profissional.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<p><!--more--><\/p>\n<div>\n<div>O tema\u00a0est\u00e1 relacionado a outros trabalhos recentes do professor Gabriel, em que o ensino de L\u00edngua Inglesa \u00e9 analisado de um ponto de partida decolonial. Neste artigo, reconhecendo a possibilidade de articula\u00e7\u00e3o do ensino do idioma ingl\u00eas a processos de controle imperialista de novos territ\u00f3rios e a ideias racistas, o pesquisador argumenta que a express\u00e3o em l\u00edngua inglesa deve ser vista por pessoas negras como oportunidade de existir em um status de igualdade, como participantes de plenos direitos lingu\u00edsticos, inclusive como estudiosos e docentes nessa \u00e1rea. Se expressar em ingl\u00eas \u00e9 tamb\u00e9m afirmar e\u00a0<span id=\"m_3982070713003221305OBJ_PREFIX_DWT88_com_zimbra_date\"><span id=\"m_3982070713003221305OBJ_PREFIX_DWT155_com_zimbra_date\">ter<\/span><\/span>\u00a0reconhecida a sua compet\u00eancia lingu\u00edstica para todos os fins. As hist\u00f3rias das professoras, relatadas na pesquisa, mostram os trajetos, os obst\u00e1culos e as t\u00e1ticas que elas empregam para vencer esse terreno.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A pesquisa do professor Gabriel dialoga com outros estudos que analisam as rela\u00e7\u00f5es entre as pr\u00e1ticas da linguagem e do racismo, e o percurso de investiga\u00e7\u00e3o inspirou a cria\u00e7\u00e3o do\u00a0<strong><span id=\"m_3982070713003221305OBJ_PREFIX_DWT89_com_zimbra_url\"><span id=\"m_3982070713003221305OBJ_PREFIX_DWT156_com_zimbra_url\"><a href=\"http:\/\/dgp.cnpq.br\/dgp\/espelhogrupo\/573184\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=http:\/\/dgp.cnpq.br\/dgp\/espelhogrupo\/573184&amp;source=gmail&amp;ust=1595362095533000&amp;usg=AFQjCNFmWOoFwHoJc0PDoPfcokmvDPMG0g\">Grupo de Pesquisa\u00a0em Linguagem e Racismo<\/a><\/span><\/span><\/strong>.\u00a0O professor Gabriel Nascimento falou sobre o estudo em entrevista concedida por e-mail.<\/div>\n<hr \/>\n<div>\n<div><b>ACS: Os relatos apresentados no artigo mostram como a situa\u00e7\u00e3o educacional da rede p\u00fablica se torna uma barreira adicional para as pessoas negras estudarem e posteriormente ensinarem a l\u00edngua inglesa, sem falar em melhoria de suas condi\u00e7\u00f5es de vida. Em termos de pol\u00edtica p\u00fablica, o que se pode sugerir para reparar essa situa\u00e7\u00e3o?<\/b><\/div>\n<div><\/div>\n<div><strong>Professor Gabriel Nascimento:<\/strong>\u00a0A escola tem que ser um lugar seguro para professores negros e estudantes negros. Um lugar que n\u00e3o marque suas trajet\u00f3rias como se essas pessoas fossem sem-l\u00edngua. Ao contr\u00e1rio, muitas j\u00e1 falam diversas l\u00ednguas de suas comunidades antes de chegar na escola. O que pode ser feito sempre tem a ver com o projeto pol\u00edtico pedag\u00f3gico daquela escola. Tem a ver com um curr\u00edculo em que ensino de conhecimentos afrobrasileiros n\u00e3o sejam o transversal, mas algo naturalizado no cotidiano da escola. O ensino de l\u00edngua inglesa precisa ser plenamente democratizado, o que n\u00e3o \u00e9\u00a0<span id=\"m_3982070713003221305m_-1458970552711569944m_-2262897697733968672OBJ_PREFIX_DWT306_com_zimbra_date\"><span id=\"m_3982070713003221305m_-1458970552711569944m_-2262897697733968672OBJ_PREFIX_DWT339_com_zimbra_date\"><span id=\"m_3982070713003221305OBJ_PREFIX_DWT90_com_zimbra_date\"><span id=\"m_3982070713003221305OBJ_PREFIX_DWT157_com_zimbra_date\">hoje<\/span><\/span><\/span><\/span>. Atualmente o ingl\u00eas ainda ocupa o lugar de complementa\u00e7\u00e3o de carga hor\u00e1ria, por exemplo. \u00c9 preciso que os professores negros de l\u00edngua inglesa n\u00e3o sejam vistos como mais estrangeiros na l\u00edngua e que a escola ensine que o ingl\u00eas n\u00e3o \u00e9 um selo de l\u00edngua mais civilizada, mas uma l\u00edngua a mais que ser\u00e1 importante para o desenvolvimento do aluno. Aprender as mais diversas formas de falar o idioma, incluindo as variantes africanas do ingl\u00eas, \u00e9 uma boa forma de incluir, por meio de v\u00eddeos, m\u00fasicas, textos, o conhecimento, os sotaques e as formas leg\u00edtimas da pessoa negra existir na l\u00edngua inglesa.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Existir na l\u00edngua \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o importante da minha pesquisa. \u00c9 preciso que a escola, mais do que contribuir para reproduzir mitos de que quem\u00a0aprende ingl\u00eas \u00e9 quem viaja para outros pa\u00edses, que n\u00e3o se aprende ingl\u00eas na escola. Essas s\u00e3o formas racistas de tratar o ensino de ingl\u00eas na escola que t\u00eam a ver com uma autoestima de coloniza\u00e7\u00e3o reproduzida pelos professores de maioria branca no ensino de l\u00edngua inglesa. Ao se sentirem inferiores aos professores de ingl\u00eas que s\u00e3o falantes nativos, eles imp\u00f5em isso para os estudantes negros. A l\u00edngua, de dif\u00edcil, se torna imposs\u00edvel.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><b>ACS: A desconfian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 capacidade de uma pessoa negra em aprender e ensinar um segundo idioma, no caso o ingl\u00eas, parece brotar do mesmo solo que as a\u00e7\u00f5es mais violentas, por\u00e9m em vers\u00e3o mais dissimulada. A esse trabalho se pode remeter algumas das preocupa\u00e7\u00f5es de um artigo anterior de sua autoria, sobre os aspectos do Ensino da L\u00edngua Inglesa, em especial a imposi\u00e7\u00e3o de padr\u00f5es definidos pelos falantes nativos. Pelas suas experi\u00eancias e pesquisas, como a linguagem e o racismo se conectam nos ambientes educacionais?\u00a0 \u00a0<\/b><\/div>\n<div><\/div>\n<div><strong>Professor Gabriel Nascimento:<\/strong>\u00a0O racismo naturaliza as condi\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia para as pessoas negras. Isso at\u00e9 parece algo normal, como a chuva que cai. Ele tamb\u00e9m desnaturaliza o sucesso de pessoas negras. A rela\u00e7\u00e3o da linguagem e racismo se funda nesse aspecto. A linguagem \u00e9 o lugar que\u00a0 usamos para naturalizar e desnaturalizar processos. Ent\u00e3o, em primeiro lugar o pr\u00f3prio corpo negro n\u00e3o \u00e9 visto como natural no \u00e2mbito de falantes de uma\u00a0<span id=\"m_3982070713003221305m_-1458970552711569944m_-2262897697733968672OBJ_PREFIX_DWT307_com_zimbra_date\"><span id=\"m_3982070713003221305m_-1458970552711569944m_-2262897697733968672OBJ_PREFIX_DWT340_com_zimbra_date\"><span id=\"m_3982070713003221305OBJ_PREFIX_DWT91_com_zimbra_date\"><span id=\"m_3982070713003221305OBJ_PREFIX_DWT158_com_zimbra_date\">segunda<\/span><\/span><\/span><\/span>\u00a0l\u00edngua. Nem uma primeira. Muita gente negra \u00e9 acusada de nem &#8220;saber falar portugu\u00eas direito&#8221;, quanto mais ingl\u00eas. Ou seja, a impossibilidade de\u00a0<span id=\"m_3982070713003221305m_-1458970552711569944m_-2262897697733968672OBJ_PREFIX_DWT308_com_zimbra_date\"><span id=\"m_3982070713003221305m_-1458970552711569944m_-2262897697733968672OBJ_PREFIX_DWT341_com_zimbra_date\"><span id=\"m_3982070713003221305OBJ_PREFIX_DWT92_com_zimbra_date\"><span id=\"m_3982070713003221305OBJ_PREFIX_DWT159_com_zimbra_date\">ter<\/span><\/span><\/span><\/span>\u00a0uma primeira l\u00edngua supostamente faz o negro ser incapaz de aprender uma\u00a0<span id=\"m_3982070713003221305m_-1458970552711569944m_-2262897697733968672OBJ_PREFIX_DWT309_com_zimbra_date\"><span id=\"m_3982070713003221305m_-1458970552711569944m_-2262897697733968672OBJ_PREFIX_DWT342_com_zimbra_date\"><span id=\"m_3982070713003221305OBJ_PREFIX_DWT93_com_zimbra_date\"><span id=\"m_3982070713003221305OBJ_PREFIX_DWT160_com_zimbra_date\">segunda<\/span><\/span><\/span><\/span>\u00a0ou outras l\u00ednguas adicionais. \u00c9 incr\u00edvel como o racismo desumaniza atrav\u00e9s da linguagem. Ao ser ensinado voc\u00ea sempre \u00e9 lembrado do seu status de n\u00e3o-falante. Nunca tratamos nossos estudantes como j\u00e1 falantes daquela\u00a0<span id=\"m_3982070713003221305m_-1458970552711569944m_-2262897697733968672OBJ_PREFIX_DWT310_com_zimbra_date\"><span id=\"m_3982070713003221305m_-1458970552711569944m_-2262897697733968672OBJ_PREFIX_DWT343_com_zimbra_date\"><span id=\"m_3982070713003221305OBJ_PREFIX_DWT94_com_zimbra_date\"><span id=\"m_3982070713003221305OBJ_PREFIX_DWT161_com_zimbra_date\">segunda<\/span><\/span><\/span><\/span>\u00a0l\u00edngua, porque \u00e9 exatamente isso que eles s\u00e3o. Falar n\u00e3o \u00e9 necessariamente se expressar com uma qualidade idealizada. \u00c9 se expressar.<\/div>\n<div>Os ambientes educacionais, assim, s\u00e3o espa\u00e7os de conforma\u00e7\u00e3o dessa identidade condicionada pelo racismo. As identidades brancas, quase raridade nos espa\u00e7os de concentra\u00e7\u00e3o do ensino p\u00fablico, v\u00e3o sendo vistas como mais competentes ou com mais qualidade e as pessoas negras, j\u00e1 bombardeadas pelo racismo, s\u00e3o ainda mais invisibilizadas ou t\u00eam seu conhecimento exterminado, o que temos chamado de epistemic\u00eddio.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><b>ACS:\u00a0Pode explicar mais sobre como as no\u00e7\u00f5es de resist\u00eancia na\/ atrav\u00e9s da linguagem e resist\u00eancia \u00e0 linguagem descrevem as experi\u00eancias das pessoas negras com o aprendizado e a atua\u00e7\u00e3o como docentes de ingl\u00eas?<\/b><\/div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<div><strong>Professor Gabriel Nascimento:<\/strong>\u00a0O fato das pessoas aprenderem a falar v\u00e1rios idiomas quase nunca tem a ver com a capacidade delas. Mas com as vari\u00e1veis sociais e raciais. Seria muito bom que a resist\u00eancia fosse sempre vista como algo que j\u00e1 existe nessas pessoas. Ou seja, mesmo com as imensas dificuldades, essas pessoas s\u00e3o multil\u00edngues em sua natureza. A forma de falar com o filho e diferente da forma de falar no mercado e \u00e9 diferente da conversa na beira do rio quando se pesca. Ao irem para a escola, aquelas e aqueles que conseguem resistir na e atrav\u00e9s da l\u00edngua, resistem com as resist\u00eancias que j\u00e1 t\u00eam. J\u00e1 vi muit\u00edssimos alunos negros com facilidade em l\u00edngua inglesa, com vontade de aprender, mas vejo uma escola que os quer monol\u00edngues. Os professores que entrevistei n\u00e3o ca\u00edram de paraquedas no ensino de l\u00edngua inglesa. Sempre gostaram de ingl\u00eas, mas resistiram vendo as necessidades reais e adiamentos e a vida nos trouxe at\u00e9 aqui em alguma oportunidade que nos agarramos.<\/div>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<p style=\"text-align: left;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Heleno Naz\u00e1rio H\u00e1 diversas barreiras impostas pelo preconceito racial, sem esquecer do cruzamento com os problemas de classe social. 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