{"id":102476,"date":"2020-06-03T13:53:00","date_gmt":"2020-06-03T16:53:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/?p=102476"},"modified":"2020-06-03T10:03:34","modified_gmt":"2020-06-03T13:03:34","slug":"ufsb-ciencia-pesquisadores-abordam-em-artigo-a-relacao-entre-diversidade-de-percepcoes-de-risco-e-a-cooperacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/2020\/06\/03\/ufsb-ciencia-pesquisadores-abordam-em-artigo-a-relacao-entre-diversidade-de-percepcoes-de-risco-e-a-cooperacao\/","title":{"rendered":"UFSB Ci\u00eancia: pesquisadores abordam em artigo a rela\u00e7\u00e3o entre diversidade de percep\u00e7\u00f5es de risco e a coopera\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>A modelagem estat\u00edstica de comportamentos sociais, m\u00e9todo empregado em estudos da Sociof\u00edsica, ajuda a entender como determinados fen\u00f4menos acontecem, como a competi\u00e7\u00e3o e a coopera\u00e7\u00e3o. Com computadores e os chamados\u00a0<em>toy models<\/em>\u00a0(um toy model \u00e9 um modelo matem\u00e1tico usado em diversas \u00e1reas para simplificar uma realidade da natureza, permitindo que se aprenda sobre a matem\u00e1tica e os modelos abstratos para estudo, aprendizado e eventual aplica\u00e7\u00e3o em problemas reais, como o\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/ufsb.edu.br\/ufsb-ciencia\/1830-em-artigo-pesquisadores-usam-modelo-de-epidemia-zumbi-para-estudar-propagacao-de-rumores-e-fake-news\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/ufsb.edu.br\/ufsb-ciencia\/1830-em-artigo-pesquisadores-usam-modelo-de-epidemia-zumbi-para-estudar-propagacao-de-rumores-e-fake-news&amp;source=gmail&amp;ust=1591272747414000&amp;usg=AFQjCNFb6wRwR5I4ZFLHpq2RZ9kLvdX2sQ\">uso do modelo de epidemia zumbi aplicada ao estudo da dissemina\u00e7\u00e3o de not\u00edcias falsas<\/a><\/strong>), pesquisadores buscam entender como determinadas escolhas s\u00e3o feitas a partir da combina\u00e7\u00e3o entre a matem\u00e1tica e as situa\u00e7\u00f5es sociais, com determinante contribui\u00e7\u00e3o da Teoria dos Jogos. \u00c9 a essa vertente interdisciplinar que se vincula a pesquisa descrita no artigo\u00a0<strong><em><a href=\"https:\/\/royalsocietypublishing.org\/doi\/10.1098\/rspa.2020.0116\" target=\"_blank\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/royalsocietypublishing.org\/doi\/10.1098\/rspa.2020.0116&amp;source=gmail&amp;ust=1591272747414000&amp;usg=AFQjCNGec1FvVus-eYS7-yXflkJZzD5hxQ\">Heterogeneity in evolutionary games: an analysis of the risk perception<\/a><\/em><\/strong>, assinado pelos pesquisadores Marco Ant\u00f4nio Amaral (Campus Paulo Freire &#8211; UFSB) e Marco A. Javarone (University College London) e publicado na revista cient\u00edfica\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/royalsocietypublishing.org\/journal\/rspa\" target=\"_blank\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/royalsocietypublishing.org\/journal\/rspa&amp;source=gmail&amp;ust=1591272747414000&amp;usg=AFQjCNF8PrrXBEQBqAg9M5wtdmwvXcBJlA\">Proceedings of Royal Society A<\/a><\/strong>. O intuito das modelagens descritas no texto \u00e9 saber se a diferen\u00e7a das percep\u00e7\u00f5es de risco e de recompensa \u00e9 um fator que favorece o surgimento da coopera\u00e7\u00e3o em um dado grupo.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"CToWUd a6T\" tabindex=\"0\" src=\"https:\/\/ci5.googleusercontent.com\/proxy\/ADClCPpz_gdkF-10lo-RH3IGWko8FCkc1WVSYKfB7Cbdi3UAW4ZKlgFn4Nv-yWZ1qghvQu8G0cW0YJ90aJxfYCFT-_Vm2QZ_clmVchjJmmmPDBUDBL0_2obdQUiSV60ho7sMW35lMY5ZbjwVI527mx0fpC_dwB_-EkNhyAwh=s0-d-e1-ft#https:\/\/ufsb.edu.br\/images\/imagens_noticias\/2020\/maio\/ufsb_ciencia_marco_antonio_amaral\/rspa20200116f01.jpg\" alt=\"rspa20200116f01\" width=\"400\" height=\"205\" \/>Para isso, os autores simularam grupos em que essa diferen\u00e7a de percep\u00e7\u00e3o de risco e recompensa, representada pela ades\u00e3o a diferentes \u201cjogos\u201d, como o dilema do prisioneiro e a harmonia, est\u00e1 presente e evolui em um dado per\u00edodo. Conforme a escolha, um indiv\u00edduo pode ser altru\u00edsta e cooperar pela comunidade ou ser ego\u00edsta e buscar ganhos apenas para si. Em algumas dessas amostras, a matriz de resultados, que determina o que cada um pode ganhar ou perder de acordo com sua a\u00e7\u00e3o, foi alterada para verificar como as comunidades mudariam suas estrat\u00e9gias ao longo do tempo. Assim, os autores simularam tr\u00eas escalas de perturba\u00e7\u00f5es na matriz de resultados: em todas as comunidades, apenas nas comunidades homog\u00eaneas (onde s\u00f3 h\u00e1 ou altru\u00edstas ou ego\u00edstas) e apenas nas comunidades heterog\u00eaneas, que mesclam altru\u00edstas e ego\u00edstas.<\/p>\n<p><em>Na figura, os quadrantes representam diferentes jogos sobre coopera\u00e7\u00e3o e competi\u00e7\u00e3o:<br \/>\nharmonia (HG), jogo da galinha (SD), dilema do prisioneiro (PD) e ca\u00e7a ao cervo (SG).<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Nas simula\u00e7\u00f5es, os pesquisadores tamb\u00e9m inclu\u00edram uma vari\u00e1vel de irracionalidade, e consideraram que um indiv\u00edduo pode ou n\u00e3o influir com sua escolha na decis\u00e3o de um vizinho, que por seu turno pode ou n\u00e3o mudar a sua ades\u00e3o a um jogo, ou seja, preferir deixar de competir para ajudar o pr\u00f3ximo a obter um \u201cpr\u00eamio\u201d maior.<\/p>\n<p>O resultado refor\u00e7ou a rela\u00e7\u00e3o entre a diferen\u00e7a de percep\u00e7\u00f5es e o surgimento da coopera\u00e7\u00e3o, mas ressaltou que ainda \u00e9 preciso mais pesquisas para entender bem alguns aspectos dessa rela\u00e7\u00e3o, que \u00e9 de dif\u00edcil predi\u00e7\u00e3o. Por exemplo, em comunidades homog\u00eaneas (nas quais as estrat\u00e9gias dos indiv\u00edduos s\u00e3o altru\u00edstas) o surgimento da coopera\u00e7\u00e3o ap\u00f3s as altera\u00e7\u00f5es na matriz de resultados \u00e9 mais intenso que quando a perturba\u00e7\u00e3o afeta todas as comunidades. J\u00e1 nas comunidades heterog\u00eaneas, em que ego\u00edstas e altru\u00edstas convivem, a altera\u00e7\u00e3o na matriz de resultados inicia fomentando a competi\u00e7\u00e3o e, ap\u00f3s certo ponto, a coopera\u00e7\u00e3o surge e floresce.<\/p>\n<p>O professor Marco Ant\u00f4nio Amaral, que mant\u00e9m\u00a0<a href=\"https:\/\/ufsb.edu.br\/ufsb-ciencia\/1947-a-sociofisica-explicada-com-leveza\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/ufsb.edu.br\/ufsb-ciencia\/1947-a-sociofisica-explicada-com-leveza&amp;source=gmail&amp;ust=1591272747414000&amp;usg=AFQjCNEFkV2NQol72HMjGo8oIyQqTkur-g\"><strong>um blog em que divulga seus estudos na \u00e1rea da Sociof\u00edsica<\/strong><\/a>, explica a pesquisa e sua relev\u00e2ncia em entrevista a seguir.<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Conforme os resultados apontados, a diferen\u00e7a de percep\u00e7\u00e3o de risco, que \u00e9 um atributo individual, entre indiv\u00edduos na comunidade, tem uma rela\u00e7\u00e3o com o surgimento da coopera\u00e7\u00e3o, mas essa rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 simples de predizer. Como isso pode ser explicado?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Marco Ant\u00f4nio Amaral:\u00a0<\/strong>Exatamente. Acho que o ponto central aqui \u00e9 notar o qu\u00e3o n\u00e3o-intuitivo esse resultado \u00e9. Claro, se n\u00f3s fiz\u00e9ssemos um sistema em que todos percebessem o risco de cooperar com um valor, digamos 10,\u00a0mas uma parcela da popula\u00e7\u00e3o tivesse a percep\u00e7\u00e3o de risco de cooperar menor, digamos 5, o resultado seria \u00f3bvio, a coopera\u00e7\u00e3o aumentaria. Isso porque nesse cen\u00e1rio hipot\u00e9tico estar\u00edamos &#8220;ajudando&#8221; a coopera\u00e7\u00e3o de maneira for\u00e7ada, isto \u00e9, estar\u00edamos somente diminuindo a percep\u00e7\u00e3o de risco de cooperar de uma parcela da popula\u00e7\u00e3o. Com mais pessoas tendendo a cooperar, o esperado \u00e9 que a coopera\u00e7\u00e3o global aumente. Por\u00e9m nosso estudo utilizou perturba\u00e7\u00f5es sim\u00e9tricas, isto \u00e9, sempre que diminu\u00edamos a percep\u00e7\u00e3o do risco de cooperar de um indiv\u00edduo, ao mesmo tempo aument\u00e1vamos na mesma medida essa percep\u00e7\u00e3o em outro. Em outras palavras, fizemos um modelo em que a perturba\u00e7\u00e3o m\u00e9dia era zero, sempre que havia algu\u00e9m mais favor\u00e1vel a coopera\u00e7\u00e3o, deveria haver algu\u00e9m igualmente mais desfavor\u00e1vel.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"CToWUd a6T\" tabindex=\"0\" src=\"https:\/\/ci4.googleusercontent.com\/proxy\/l7A0kn6rJGIHHMFkNaVJb_l0lcOdbFwODKQaa3_FoaZb2WXnqOXpGydb5brnTZW5W7p76Pb52oPxl5LVrkGFK4z2qUF0Ln92-bS8pDouUrQYsxqxrItzNZ8Zmvi4kZXmVWTaRP2Ul5UAoJkl9xR3kAH8Pe7veRqYoBHpGrLtP_8=s0-d-e1-ft#https:\/\/ufsb.edu.br\/images\/imagens_noticias\/2020\/maio\/ufsb_ciencia_marco_antonio_amaral\/hand-1917895_1920.png\" alt=\"hand 1917895 1920\" width=\"400\" height=\"300\" \/>Nesse sentido, o resultado obtido \u00e9 totalmente n\u00e3o-intuitivo: a coopera\u00e7\u00e3o \u00e9 estimulada mesmo que a diversidade seja sim\u00e9trica. A explica\u00e7\u00e3o desse fen\u00f4meno foi dif\u00edcil de ser entendida justamente por ele ser t\u00e3o n\u00e3o-intuitivo. Mas de maneira resumida, o que vimos s\u00e3o correla\u00e7\u00f5es temporais de\u00a0segunda\u00a0ordem. Isto \u00e9, inicialmente voc\u00ea iria esperar que a coopera\u00e7\u00e3o n\u00e3o se alterasse, j\u00e1 que para cada pessoa &#8220;mais cooperativa&#8221;, existira algu\u00e9m &#8220;menos cooperativo&#8221;. At\u00e9 a\u00ed ok, e faz sentido. Por\u00e9m, olhando a evolu\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o ao longo do tempo, o que notamos \u00e9\u00a0que uma pessoa &#8220;mais cooperativa&#8221; vai funcionar como uma semente de coopera\u00e7\u00e3o. Isto \u00e9, a pessoa &#8220;mais cooperativa&#8221; vai tender a influenciar seus vizinhos a se tornarem cooperadores, e com o tempo teremos um n\u00facleo compacto de cooperadores que ser\u00e1 muito resistente \u00e0 invas\u00e3o de desertores.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, mesmo a perturba\u00e7\u00e3o sendo sim\u00e9trica, esse efeito de longo prazo n\u00e3o surge entre desertores. Isto \u00e9, uma pessoa &#8220;mais ego\u00edsta&#8221; tender\u00e1 sim a se manter como traidora. Por\u00e9m, as pessoas nos arredores desse desertor poder\u00e3o imitar sua estrat\u00e9gia inicialmente, mas a longo prazo os ganhos dessa &#8220;ilha de desertores&#8221; ser\u00e1 muito pequena. Em outras palavras, no longo prazo essa ilha de desertores se tornar\u00e1 inst\u00e1vel, com um baixo retorno, e qualquer flutua\u00e7\u00e3o m\u00ednima far\u00e1 com que eles progressivamente se tornem cooperadores, mesmo que a perturba\u00e7\u00e3o os fa\u00e7a ter uma percep\u00e7\u00e3o do risco de cooperar desfavor\u00e1vel \u00e0 coopera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em resumo, apesar das perturba\u00e7\u00f5es serem sim\u00e9tricas, cooperadores tem uma capacidade inerente de se beneficiarem de ciclos de autoalimenta\u00e7\u00e3o positivos (feedback positivo), onde um cooperador mais fraternal gera outros cooperadores, que por sua vez melhoram os ganhos do cooperador inicial. J\u00e1 desertores n\u00e3o tem tal capacidade, de modo que mesmo eles tendo uma vantagem localizada, o agrupamento de desertores n\u00e3o conseguir\u00e1 manter tal vantagem a longo prazo.<\/p>\n<p>Isso s\u00f3 mostra a robustez da coopera\u00e7\u00e3o em gerar ciclos autoalimentados positivos, de modo que cooperadores conseguem tirar vantagem de ambientes contendo diversidade enquanto desertores n\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Que exemplos podem ajudar a explicar a no\u00e7\u00e3o de perturba\u00e7\u00f5es na matriz de resultados, e como isso se traduziria em exemplos do cotidiano?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Marco Ant\u00f4nio Amaral:\u00a0<\/strong>Essa \u00e9 uma excelente pergunta! Nosso modelo tenta simplificar atrav\u00e9s de perturba\u00e7\u00f5es estoc\u00e1sticas no ganho dos jogadores um cen\u00e1rio cotidiano: a varia\u00e7\u00e3o de recursos e est\u00edmulos. Pense assim, um dono de um Uno antigo e bem \u201cacabado\u201d vai\u00a0ter\u00a0uma percep\u00e7\u00e3o de risco ao manobrar numa vaga estreita muito diferente de um dono de BMW rec\u00e9m sa\u00edda da loja. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 a mesma nos dois casos, mas um indiv\u00edduo\u00a0ter\u00e1 muito mais medo de m\u00ednimo aranh\u00e3o na lataria do que o outro. Da mesma forma, em um determinado emprego, um estagi\u00e1rio rec\u00e9m contratado\u00a0ter\u00e1 muito mais medo de tomar uma decis\u00e3o de risco do que um funcion\u00e1rio antigo da casa. O ponto \u00e9 que diante da mesma situa\u00e7\u00e3o geral, indiv\u00edduos\u00a0ter\u00e3o\u00a0uma grande gama de respostas devido a percep\u00e7\u00f5es diferentes quanto ao risco e recompensa.<\/p>\n<p>Mas isso n\u00e3o se limita somente a decis\u00f5es empresariais. A diversidade da percep\u00e7\u00e3o individual do risco\/recompensa existe em centenas de casos. A confian\u00e7a ao se negociar certas a\u00e7\u00f5es na bolsa de valores ir\u00e1 variar entre indiv\u00edduos de acordo com seu hist\u00f3rico mais recente de vit\u00f3rias e derrotas. A agressividade entre animais (e mesmo humanos) ao tentar defender seu territ\u00f3rio ir\u00e1 depender da disponibilidade mais recente de alimentos e parceiros de c\u00f3pula. Mesmo a percep\u00e7\u00e3o do ganho em uma negocia\u00e7\u00e3o entre empresas ir\u00e1 variar at\u00e9 de acordo com o humor dos negociadores no dia, e um xingamento no tr\u00e2nsito, uma briga conjugal ou mesmo a nota baixa do filho na escola poder\u00e1 influenciar profundamente a percep\u00e7\u00e3o de risco de um acionista da empresa. N\u00e3o somos 100% racionais, e flutua\u00e7\u00f5es aleat\u00f3rias do nosso cotidiano ir\u00e3o sempre gerar perturba\u00e7\u00f5es em como percebemos uma situa\u00e7\u00e3o. Afinal, quem nunca tomou uma decis\u00e3o de cabe\u00e7a quente e horas depois ficou remoendo a situa\u00e7\u00e3o, pensando que nunca teria tomado tal decis\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es normais?<\/p>\n<p>Essa pesquisa teve o foco de analisar justamente como essas flutua\u00e7\u00f5es aleat\u00f3rias na percep\u00e7\u00e3o poderiam influenciar no desenvolvimento da coopera\u00e7\u00e3o. E a grande novidade \u00e9 que justamente a flutua\u00e7\u00e3o sim\u00e9trica de percep\u00e7\u00f5es tem o poder de aumentar a coopera\u00e7\u00e3o, quando comparada com a situa\u00e7\u00e3o base sem flutua\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Um dos resultados encontrados foi a contribui\u00e7\u00e3o, por assim dizer, do \u00edndice de irracionalidade para uma redu\u00e7\u00e3o da coopera\u00e7\u00e3o. O que esse resultado permite apontar na rela\u00e7\u00e3o com contextos reais?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Marco Ant\u00f4nio Amaral:\u00a0<\/strong>Nos chegamos a falar um pouco da irracionalidade, mas na verdade isso foi feito com o intuito central de demostrar que as flutua\u00e7\u00f5es de percep\u00e7\u00e3o tem um resultado independente da irracionalidade. Digo isso porque o efeito que voc\u00ea citou da irracionalidade foi estudado inicialmente pelo Szabo em seu artigo. Mas de fato, esse \u00e9 um ponto fascinante. Como voc\u00ea pode ver na figura 5, a coopera\u00e7\u00e3o apresenta um comportamento n\u00e3o-mon\u00f3tono com o valor da irracionalidade (k). Isto \u00e9, ao contr\u00e1rio do que esperamos, na verdade a irracionalidade pode ajudar ou piorar a coopera\u00e7\u00e3o. De fato, um cen\u00e1rio totalmente racional, k=0, iria levar \u00e0 extin\u00e7\u00e3o da coopera\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, um cen\u00e1rio totalmente irracional geraria a mesma coisa. Existe um valor \u00f3timo de irracionalidde (o pico de coopera\u00e7\u00e3o da figura), onde a coopera\u00e7\u00e3o ser\u00e1 m\u00e1xima. De fato essa \u00e9 uma quest\u00e3o fascinante e do ponto de vista evolutivo, ela inclusive aponta que muito possivelmente um n\u00edvel m\u00ednimo de irracionalidade \u00e9 desej\u00e1vel, e mesmo necess\u00e1rio, entre esp\u00e9cies para que a coopera\u00e7\u00e3o surja. Isso entra em contato direto com a psicologia evolutiva e outras \u00e1reas de biologia evolutiva, indicando justamente o caminho para que comportamentos irracionais possam surgir num contexto evolutivo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Como os resultados encontrados ajudam a avan\u00e7ar o tema na \u00e1rea da Sociof\u00edsica?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Marco Ant\u00f4nio Amaral:\u00a0<\/strong>Eu acredito que o ponto central foi mostrar que a diversidade promove a coopera\u00e7\u00e3o, dentro de um arcabou\u00e7o matem\u00e1tico robusto. Sabemos disso empiricamente. Empresas (s\u00e9rias)\u00a0hoje\u00a0em dia primam por contratar funcion\u00e1rios com diferentes backgrounds. Universidades t\u00eam pol\u00edticas de diversidade tanto entre matr\u00edculas de alunos quanto de contrata\u00e7\u00e3o de funcion\u00e1rios. Grupos de trabalho sabem que para um cen\u00e1rio mais eficiente, \u00e9 necess\u00e1rio diversidade de pontos de vista e habilidades. Mas ainda mais profundamente, qualquer gestor financeiro sabe que um bom portf\u00f3lio de a\u00e7\u00f5es deve ser diversificado, e n\u00e3o focado somente em um setor. Governos sabem que especializa\u00e7\u00e3o de ind\u00fastrias gera inevitavelmente profundas crises, e um setor diversificado \u00e9 mais robusto. Bi\u00f3logos sabem, h\u00e1 s\u00e9culos, que um bioma variado \u00e9 infinitamente mais robusto a pragas, oscila\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas e danos irreevers\u00edveis do que um bioma altamente especializado e sem diversidade.<\/p>\n<p>O que eu quero dizer \u00e9 que a robustez que a diversidade traz n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno \u00fanico e pontual. \u00c9 mais como um princ\u00edpio geral. E como a vasta maioria dos padr\u00f5es naturais, nos vemos esse princ\u00edpio ocorrendo em diversas escalas e em diversos cen\u00e1rios no mundo. A m\u00e3e natureza \u00e9 extremamente pregui\u00e7osa. Ela encontra um padr\u00e3o que funciona e o repete no m\u00e1ximo de situa\u00e7\u00f5es poss\u00edveis. \u00c9 assim com a propor\u00e7\u00e3o \u00e1urea, \u00e9 assim com diversos tipos de fractais, \u00e9 assim com o princ\u00edpio de minimiza\u00e7\u00e3o de energia. E vemos algo extremamente similar na robustez trazida pela diversidade.<\/p>\n<div><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A modelagem estat\u00edstica de comportamentos sociais, m\u00e9todo empregado em estudos da Sociof\u00edsica, ajuda a entender como determinados fen\u00f4menos acontecem, como a competi\u00e7\u00e3o e a coopera\u00e7\u00e3o. Com computadores e os chamados\u00a0toy models\u00a0(um toy model \u00e9 um modelo matem\u00e1tico usado em diversas \u00e1reas para simplificar uma realidade da natureza, permitindo que se aprenda sobre a matem\u00e1tica e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[15217],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/102476"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=102476"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/102476\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":102477,"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/102476\/revisions\/102477"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=102476"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=102476"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdothame.blog.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=102476"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}