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Daniel Thame, jornalista no Sul da Bahia, com experiência em radio, tevê, jornal, assessoria de imprensa e marketing político danielthame@gmail.com

junho 2024
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“nossos reclames gratuitos”

É tanta gente alardeando que vai fazer
a verdadeira mudança, que é o caso de se perguntar:

Afinal, é eleição pra prefeito de Itabuna ou pra gerente da Transportadora Ramos?

HOMEM SAMAMBAIA

TV Cabrália, início da década de 90. O recém inaugurado Hotel Transamérica, na paradisíaca (que certa feita um repórter da emissora confundiu com afrodisíaca, sabe-se lá porque) Ilha de Comandatuba, recebia famosos e endinheirados de São Paulo, Rio e Brasília.,
A gente tinha um esquema lá que sempre que chegava alguém famoso era avisado. Para uma tevê regional, era uma festa entrevistar personalidades que só apareciam na então monopolista Rede Globo.
Os vips sentiam a nossa empolgação e quase sempre colaboravam, dando entrevistas para a Cabrália como se estivessem falando para o mundo. A gente fazia a gravação e ia almoçar no continente, porque a grana da diária não dava pra encarar um copo de água mineral no hotel, quanto mais um almoço.
Até que certa feita, fomos entrevistar o então governador de São Paulo, Orestes Quércia, que descansava no hotel com a família.
Político não pode ver um microfone, seja ele a BBC, seja ele do serviço de alto falante de Potiraguá.
E deu uma longa entrevista, que a gente poderia usar durante uma semana nos telejornais. Encerrada a gravação, Quércia convidou a equipe para almoçar.
Para quem iria pegar um rango mulambento, aquilo era o que se pode chamar de convite irrecusável.
Não recusamos. O almoço, como se previa, era um banquete. Todo tipo de saladas, pratos frios, pratos quentes, sobremesas. De se lamber os beiços.
Na equipe, havia um auxiliar de cinegrafista (função que hoje nem existe mais) chamado Bolinho. Meio caipirão, ele ficou observando como as pessoas se serviam, pra não passar vergonha.
O excesso de cuidados não evitou que ele, na hora de colocar a salada no prato, pegasse um vistoso pedaço de samambaia, que obviamente foi colocada na mesa como decoração. A gente percebeu, mas ninguém teve coragem de falar nada. Foi um milagre conter o riso.
O almoço estava uma delícia e todo mundo se fartou. Quércia foi muito simpático e fez questão de convidar a gente pra voltar outro dia, o que era apenas gentileza, não era pra valer.
Quando a equipe entrou na balsa pra pegar o carro e voltar pra Itabuna, Bolinho, exibindo o ar de felicidade de quem acabara de ser apresentado ao paraíso, saiu-se com essa:
-Almoço bom da porra! Só não gostei daquela salada. Rico tem cada gosto estranho.
Quase vinte anos depois, tem gente que dá um braço para comer uma tal de Mulher Samambaia.

Suprema Impunidade

Em dois dias seguidos, o Supremo Tribunal Federal, a principal instituição do judiciário brasileiro, tomou decisões que, mesmo sob o pretexto de garantir o direito de defesa e evitar constrangimentos, deixam no ar a velha e conhecida sensação de impunidade.
Primeiro, decidiu que políticos que respondem a processos, incluindo-se aí a improbidade administrativa, popularmente conhecida como “meter a mão no dinheiro público”, poderão ser candidatos nas eleições deste ano. A exceção fica por conta dos julgamentos em que não cabe recurso.
Como sempre há uma brecha jurídica e os processos se arrastam por décadas, na prática isso significa que sujeito pode se candidatar indefinidamente e, se essa for a sua vocação, roubar indefinidamente, porque a lei, mesmo de forma enviesada estará ao seu lado.
Políticos envolvidos em roubalheiras, algumas delas fartamente documentadas, estão aí de novo na disputa eleitoral, boa parte deles com chances concretas de vitória.
A decisão do STF vai de encontro aos anseios da sociedade, farta de tantos escândalos, de tanta rapinagem. O impedimento para que esses maus políticos (para usar uma expressão leve) se candidatassem, poderia servir como uma espécie de freio.
Ocorreu justamente o contrário. A sinalização é de estímulo à corrupção, mesmo que evidentemente não tenha sido essa a intenção do Supremo.
Enquanto isso, o cidadão comum que é aprovado num concurso público e que por uma circunstância qualquer foi parar no Serviço de Proteção ao Crédito, como não pagar uma prestação de loja ou a conta de telefone, fica impedido de assumir o cargo até quitar o débito.
Ninguém está aqui incentivando o calote, mas não deixa de ser uma ironia que a lei seja uma para o sujeito que deixou de pagar 80 reais de prestação e vai parar no SPC e outra para o político que rouba milhões de reais e pode se candidatar, sob as bênçãos dos STF.
Em outra decisão igualmente polêmica, Supremo Tribunal Federal decidiu que algemas só podem ser usadas em casos excepcionais ou de evidente perigo de fuga. Na verdade, o STF estava julgando um caso isolado, de um condenado que apelou da sentença por se sentir constrangido a usar algemas diante dos jurados.
O Supremo não só anulou o tal julgamento como, aproveitando a deixa, estendeu o benefício para todo mundo.
Todo mundo?
Um Daniel Dantas, um Paulo Maluf, um Zuleido Veras, um empresário ou político de peso sempre terão um advogado ou assessor para lembrar à polícia que eles não podem ser constrangidos com o uso das algemas. Mais um pouco e os policiais terão que usar a polidez, tipo: “por favor, se não for incômodo, queira fazer a gentileza de nos acompanhar”.
Camburão, nem pensar, que isso também constrange. Que tal dispor de uma frota de limusines?
Será que o pobre coitado que roubou um quilo de feijão no supermercado ou mesmo o bandido que surrupiou um aparelho de DVD, terão tratamento idêntico?
Ou continuarão sendo algemados e caindo na porrada, como acontece nas melhorias famílias, perdão, nas melhores delegacias?
Num país em que perante a lei todos são iguais, mas que na prática uns são mais iguais que os outros, a impunidade pode até ser suprema.
Mas é para poucos.

“nossos reclames gratuitos”

É Velox, mas pode
chamar de Lentox

Nestor, a seu dispor!

Jailton do Raio X, Caburé, Rosildo do Banco de Sangue, Zé Zoiudo, Aquiles da Parabólica, Ganso do Posto, Quina, Vavá dos 8 Baixos, Papagaio, Marechal o Popular Deputado, Lula Bar, Eliseu do Pastel, Juarez da Honda, Néu do Bar, Chico Bateria e Pedro da Funerária Santa Fé.
Tantos apelidos, que dão para compor um time com seus respectivos reservas, podem nos remeter aos tempos em que os times eram recheados de craques cujos nomes de batismo a torcida praticamente desconhecia e que se jogava aquilo que a gente conhecia por futebol, no sentido de genialidade e talento.
Como o Santos de Pelé, Zito e Pepe. O Botafogo de Didi e Garrincha. O São Paulo de Zizinho e Canhoteiro. Ou o Flamengo de Zico e Tita. Times de antologia, em que os nomes dos jogadores não eram pomposos como os de hoje, recheados de nomes compostos como Marcelo Augusto, André Dias, Fernando Diniz, Alan Delon, Fernando Henrique e quetais.
Mas o jogo era mais vistoso.
Os nomes que abrem esse texto bem que poderiam ser de um time de futebol, mas não são. Eles lutam, e lutam muito, para conseguir um lugar ao sol em outro campo: a política.
Todos eles, a bordo de seus apelidos devidamente registrados na Justiça Eleitoral, são candidatos a vereador em Itabuna. Disputam, no sentido literal da palavra, uma cobiçada vaga na Câmara de Vereadores.
Os apelidos sugerem disposição para ajudar.
Está difícil conseguir um exame nesse período de saúde pública caótica? Nada que Jailton do Raio X ou Rosildo do Banco de Sangue não possam resolver.
Sua televisão está com a imagem pior do que a de certos deputados envolvidos em seguidos escândalos? Chama o Aquiles da Parabólica.
Acabou a gasolina no meio da rua? Ganso do Posto a seu dispor. Se o problema for a bateria, chama o Chico, rapaz!
Ruim de grana? Que tal uma fezinha na Quina? Precisa animar a festa? Lá vem o Vavá dos 8 Baixos…
Bateu aquela vontade de tomar uma cervejinha gelada? Lula Bar e Neu do Bar fazem até fiado.
Se depois cerveja, der fome, liga pro Juarez do Pastel.
Cansou de esperar horas e horas pelo transporte coletivo? O Juarez avisa que a Honda tem uma promoção incrível pra você sair de moto zerinha.
E se as coisas andam pela hora da morte, é só contar com os préstimos do Pedro da Funerária Santa Fé.
E tem até o Marechal, que ainda nem se elegeu vereador e já se apresenta como o Popular Deputado. Otimismo assim nem nos melhores livros de auto-ajuda.
É por demais injusto limitar a participação desses candidatos na campanha eleitoral ao exotismo, como se eles entrassem na disputa apenas para dar um toque de graça num processo onde a conquista de votos muitas vezes impõe golpes abaixo da linha da cintura.
Apesar dos apelidos curiosos, todos eles são sujeitos honrados, batalhadores, que tem o legítimo direito de postular uma vaga na Câmara de Vereadores e, a depender da vontade do eleitor, se eleger, exercer um mandato decente e lutar pelos interesses da população.
Assim como qualquer torcedor prefere um Pelé a um Alfredo Orlando, é preferível um vereador com apelido curioso, do que um político de nome lustroso e conduta lamacenta.
Boa sorte, portanto, ao time dos apelidos.
E,isso vale para todos os demais candidatos, que se jogue o jogo limpo.
A torcida -ou neste caso, o eleitor- penhoradamente agradece.

ELEIÇÃO É FORD !!!!!

Banho de Coca Cola

A inauguração da TV Cabrália, em dezembro de 1987, não apenas levantou a auto-estima de Itabuna (afinal, tratava-se da primeira emissora de televisão numa cidade do interior do Norte/Nordeste, o que não era nem é pouca coisa), como produziu situações que hoje parecem lenda, mas que à época eram rotineiras.
Ainda não havia a global TV Santa Cruz, que só seria inaugurada um ano depois, e a Cabrália reinava soberana. E eu, que nem sabia como funcionava uma emissora de televisão, fui guindado à condição de gerente de jornalismo, pela extrema generosidade de Nestor Amazonas. Não sei quem foi mais maluco: ele, por me nomear, ou eu, por aceitar o cargo.
Segue o bonde…
Para se ter uma idéia do que a televisão representava, até eventos importantes eram marcados de acordo com a disponibilidade da equipe de jornalismo fazer a cobertura, para a devida veiculação nos telejornais.
É claro que não faltavam pedidos inusitados, que a gente não sabia se achava graça ou se mandava o sujeito pra puta que pariu.
E não é que um pai cismou que a equipe da Cabrália teria que cobrir a festa de aniversário da filha? Era o presente que ele havia prometido à pimpolha e ligava todo dia pra perguntar se a gente iria mesmo.
Não adiantava explicar que aquilo era impossível, alegar que se cobríssemos a festa da filha dele teríamos que cobrir outros tantos aniversários e por extensão, batizados, primeira comunhão, casamentos, velórios e quetais.
Resolvi apelar e pra me livrar do sujeito disse que se ele enchesse uma banheira com Coca Cola e colocasse a filha dentro, a gente iria fazer a cobertura do aniversário.
Pronto, dessa mala estamos livres.
Livres? No dia seguinte, véspera do tal aniversário, o cara me liga e diz que havia comprado Coca Cola suficiente para encher uma banheira e dar um banho de refrigernte na filhota.
Não sei se além de chato, o cara era um gozador e resolveu sacanear comigo. Ou se era só chato mesmo e realmente ia dar um banho de Coca Cola na filha, só pelo prazer de vê-la na telinha da Cabrália.
Na dúvida, preferi ficar na dúvida mesmo.
O aniversário, com ou sem banho de Coca Cola, permaneceu para sempre no anonimato.

Uma rua chamada Medo

Há pouco menos de cinco anos, a rua Henrique Alves era um exemplo de um Pontalzinho boêmio, com uma vida noturna efervescente, e ao mesmo tempo com ares de cidade interiorana, onde os vizinhos colocavam cadeiras na calçada para jogar conversa fora, as crianças brincavam livremente e casais de namorados davam seus amassos discretos ou nem tanto na porta de casa.
O chamado bairro ideal, com tudo perto. Farmácia, padaria, mercado, açougue e uma profusão de bares, estrelado pelo Katiquero, com sua cerveja sempre gelada e caranguejos que merecem ser degustados de joelhos.
Essa rua e esse bairro, infelizmente não existem mais, embora a padaria, a farmácia, o mercado, o açougue e o Katiquero continuem nos mesmos lugares.
A rua Henrique Alves, que de tão pacata às vezes parecia modorrenta, tornou-se a síntese de uma violência que se estende a todas as ruas e a todos os bairros dessa cidade sitiada pela bandidagem.
Não passa um dia sem que haja um assalto, não passa uma semana sem que haja um arrombamento de casa ou estabelecimento comercial. E vieram também os assassinatos. O ultimo deles vitimou um engenheiro de 48 anos, morto a tiros durante uma tentativa de assalto.
Tornou-se banal, em qualquer hora do dia, alguém gritar que teve seu telefone celular roubado. Os marginais, sozinhos ou em duplas, agem livremente. O simples barulho de uma moto provoca calafrios, tantos são os motobandidos cometendo crimes com a quase certeza da impunidade.
O que era paz, virou pavor. É raro encontrar alguém na rua a partir das 20 horas. Pais só se tranqüilizam quando os filhos retornam para casa, como se chegar vivo do trabalho, da escola ou do lazer fosse uma espécie de prêmio de loteria.
As residências viraram verdadeiras fortalezas, com grades, correntes e sistemas de vigilância eletrônica. Uma falsa sensação de segurança, já que ninguém passa a vida toda trancado. E também porque nem esse aparato evita a ação dos bandidos, cada vez mais ousados e destemidos.
Beira o inacreditável, mas há cerca de dois meses, um marginal escalou três andares para roubar roupas que estavam secando na varanda de uma casa. As grades que deveriam servir de proteção, serviram como escada para o ladrão.
Parte dessa tranqüilidade perdida deve-se à expansão do consumo de crack, essa droga devastadora que leva empurra os viciados ao mundo do crime.
Roupas, calçados, celulares, pulseiras e anéis se transformam em moeda de troca na hora de adquirir as pedras que eles consomem sem parar.
E o bairro, que já foi uma espécie de paraíso na terra para quem quer conciliar as facilidades da cidade grande com a tranqüilidade de uma pequena cidade, se transformou num inferno, onde as pessoas não estão seguras nem dentro de casa.

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Talvez com saudade de um tempo que não volta mais, uma moradora colou a cadeira na calçada e ficou observando o movimento. O telefone tocou e ela entrou em casa para atender.
Quando retornou minutos depois, haviam roubado a cadeira…

Faltam dois

Era uma vez um vilarejo surgido às margens de um rio de águas tão caudalosas que recebeu o nome de Cachoeira. O vilarejo, quase um entreposto no efervescente comércio alimentado pela expansão de um fruto de ouro, se transformou em vila, até que, em 1910, a luta incansável pela emancipação fez nascer o município de Itabuna.
Começava aí a saga de uma cidade que em poucas décadas se consolidaria como um dos principais pólos econômicos do Norte/Nordeste e que ao longo do tempo demonstraria uma inacreditável capacidade de superar crises, vencer adversidades, renascer.
Um exemplo dessa superação, entre os tantos que foram dados ao longo de sua história, é recente.
As duas últimas décadas do século passado prenunciavam o apocalipse. A cidade foi jogada no olho do furacão por conta da devastação causada pela vassoura-de-bruxa.
O empobrecimento dos pequenos e médios municípios, que dependiam única e exclusivamente do cacau, não apenas estancou o fluxo de consumidores a Itabuna, como enviou para as bordas da periferia uma legião de desempregados do setor rural, pressionando uma demanda por serviços públicos que era praticamente impossível atender.
O que parecia o fim revelou-se o recomeço.
A cidade, com o dinamismo e a força empreendedora que são característicos de sua população, conseguiu se reerguer e é hoje, de maneira indiscutível, o principal pólo comercial, prestador de serviços, educacional e de saúde do Sul da Bahia.
Alguns de seus bairros, como o São Caetano, o Santo Antonio, o Conceição, Fátima e Califórnia tem estrutura similar aos médios municípios da região.
O Centro, com suas incontáveis opções de comércio, serviços e lazer, se equivale a várias capitais do Nordeste.
Existem problemas, sim, e eles não podem ser mascarados. Os serviços públicos (e o mais notório deles é o sistema de saúde) são deficientes, os bairros sofrem com o descaso e a violência atinge níveis alarmantes. A falta de planejamento, combinada com o crescimento econômico, tornou o trânsito caótico nas áreas centrais, e o transporte coletivo está longe do ideal.
O crescimento gerado pela iniciativa privada, se associado a uma administração pública eficiente, será capaz de produzir desenvolvimento sustentável, que resulta na atividade econômica associado à qualidade de vida.
Faltando dois anos para o seu primeiro centenário, data histórica que irá coroar um sonho transformado em realidade no distante ano de 1910, Itabuna reúne todas as condições de ser a metrópole que todos nós, seus filhos nascidos aqui e os que a cidade recebeu de braços abertos, desejamos.
Mais do que desejar, podemos fazer acontecer.

Exame de "Prostógenes"





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