Daniel `Fagundes` na Bodeguita del Medio

Daniel Thame
2017, Cuba. Em meio à avalanche de críticas (na verdade xenofobia e preconceito mal disfarçados) à presença de profissionais cubanos no Programa Mais Médicos lançado pela então presidenta Dilma Roussef, o governo da Ilha convidou um grupo de jornalistas brasileiros para mostrar que as universidades e o sistema de saúde de lá, apesar de todas as agruras provocadas pelo criminoso embargo imposto pelos EUA, tinham um padrão de excelência inquestionável. Como de fato tinham!
No grupo, este ex-jornalista em atividade e o jornalista José Carlos Teixeira, falecido recentemente.
Entre as visitas a universidades, hospitais e clínicas num roteiro de cinco cidades em sete dias, eu e Teixeira achamos tempo pra degustar um mojito na célebre Bodeguita del Medio, no coração de Havana Velha.
Um mojito é modéstia, posto que ambos, além da paixão pelo jornalismo, éramos mestres na arte do bem beber.
Estávamos nós degustando nosso mojito a 5 euros a dose, quase 20 reais no câmbio a época, quando um dos garcons se dirige pra mim e diz todo entusiasmado;
-Es usted! Es usted!
(É você, é você)
Inebriado pelos mojitos (no plural mesmo), pensei “puta que pariu, será meu livro Vassoura foi publicado aqui e virei celebridade…”
O garçom parecia um monocórdio:
-Es usted! Es usted!
(E o boteco todo já querendo saber quem era eu sem ter a mais remota idéia de quem era eu).
Como eu não estava entendendo porra nenhuma, ele completou:
-El ator de la novela…
Aí caiu a ficha. Na noite anterior, vi no quarto do hotel que umas das novelas da Globo, que faziam um sucesso absurdo em Cuba, estrelada por Antônio Fagundes, estava sendo exibida pela chatíssima tevê estatal.
“Cacete, esse garçom deve ter bebido mais do que eu e você juntos pra me confundir com o Antônio Fagundes”, comentei com Teixeira…
Ao que Teixeira, que além de um dos melhores jornalistas que essa Bahia já produziu, era um tremendo gozador, respondeu baixinho:
-Confirma que você é mesmo o Antônio Fagundes, e dá um autógrafo pra ele, pra ver se esses mojitos saem de graça…
A sugestão era boa, mas preferi ´morrer` com 50 euros do meu suado dinheirinho, ou seja, 10 mojitos, pra se ter a dimensão de como bebíamos.
Vai que Antonio Fagundes, o verdadeiro, aparece de repente na Bodeguita e o garçom, com toda justiça, nos mandaria ao paredón…
“Hay que beber, pero sin perder el honor jamás”.












