por Heleno Nazário

Um sistema web que permite predizer casos de evasão escolar é o primeiro invento desenvolvido na Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) a ser objeto de um contrato de transferência de tecnologia na história da instituição. O invento está devidamente protegido por patente. A Coordenação de Criação e Inovação da Pró-reitoria de Pesquisa e Pós-graduação (CCI/PROPPG) atuou no preparo do contrato e da proteção intelectual do sistema. A primazia desse tipo de contrato coube à startup IMOIE, com sede na cidade de Porto Seguro. O coordenador de Criação e Inovação, professor Rodrigo Ferreira, afirma que o  contrato é um marco importante para a instituição, “por ser ainda uma universidade jovem e por reafirmar o compromisso com o desenvolvimento econômico e social com a criação de propriedade intelectual e soluções tecnológicas”.

A tecnologia foi desenvolvida pelo professor Leonardo da Silva Souza (f0to)  no Instituto de Humanidades, Artes e Ciências do Campus Sosígenes Costa (IHAC-CSC), e o contrato de transferência de tecnologia foi redigido seguindo as normas da Lei Federal nº 13.243 de 2016 (Lei da Inovação) e seu decreto nº 9.283 de 2018, e as orientações da Câmara Permanente de Ciência e Tecnologia da Procuradoria Federal.

Em 2020, o professor Leonardo divulgou seu trabalho sobre uma metodologia e tecnologia de Inteligência Artificial para Redução da Evasão Escolar, sendo contemplado com recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa da Bahia (FAPESB) pelo seu caráter de inovação em Educação e pelo programa CATALISA ICT. A tecnologia se propõe em ajudar a reduzir o abandono escolar. Trata-se de um sistema web integrado ao Sistema de Gestão Escolar das escolas que serve para identificar e apresentar estudantes em situação de risco de evasão. O sistema usa um método preciso e de simples visualização para a predição de abandono, se valendo dos aspectos de momento, concentração e quantidade de faltas e atrasos, os quais têm o diferencial de identificar o abandono escolar com antecedência de meses, enquanto os estudantes ainda estão na escola.
A possibilidade de prever a evasão, de forma integrada aos sistemas de gestão de dados das escolas, concede maior precisão e rapidez na identificação de estudantes em risco de abandono, apresentando o resultado visualmente e com simplicidade, oferecendo suporte para a tomada de decisão por parte dos gestores escolares.

Entendendo e prevendo a evasão escolar

O professor e inventor Leonardo Souza conta que o interesse intelectual no tema da evasão escolar surgiu em 2012, quando lecionou em uma escola técnica de nível médio. “Todos os estudantes tinham bolsa de estudos, refeição gratuita e auxílio transporte, alem de a escola ter uma equipe docente extremamente qualificada e dedicada e uma infraestrutura admirável. Foi quando notei que a evasão era elevada (mais de 60%) e criei um grupo de pesquisa junto com estudantes para entender o tema da evasão”, detalha.

O trabalho do grupo incluiu monitorar informações tais como a avaliação, a frequência e pontualidade dos estudantes. Foi então que encontraram uma correlação que antecedia a ocorrência da evasão escolar. “Após anos acompanhando as turmas, criei uma metodologia para classificar os casos de risco de evasão e em 2018, já na UFSB,  criei uma forma automatizada de fazer isso. Então, usando um algoritmo de síntese de classificadores que desenvolvi, redes neurais artificiais e um sistema de gestão de conteúdos (Plone) aliado à geolocalização, criei um sistema de gestão escolar voltado para escolas e com foco no mapeamento e identificação preventiva de risco da evasão escolar”, explica o professor Leonardo, que conta ainda que a tecnologia foi contemplada pela FAPESB e Finep, além de fazer parte da seleção de pesquisas inovadoras do programa CATALISA ICT.

A capacidade de integrar e tratar os dados tidos como preditores da evasão para além da quantidade de faltas, por exemplo, é um diferencial da tecnologia transferida para a startup. No caso, o sistema permite não apenas contar o número de faltas ou de atrasos, mas saber em quais dias e componentes curriculares isso está acontecendo. Essa riqueza de informações pode ajudar a gestão da escola a tratar do assunto com antevisão, como explica o professor e inventor Leonardo. “Um exemplo disso é o diálogo entre estudante e escola para a manutenção do vínculo. Nessas conversas, que podem estar integradas à invenção, há indícios que podem gerar alertas. Mas também há uma dimensão qualitativa sobre, por exemplo, a urgência de tomada de de decisão por acompanhando por parte da escola. Assim, a melhor correlação para se compreender essa dimensão qualitativa presente na nossa invenção é essa entre a antecedência e a urgência. Encontramos o estudante em risco de evasão enquanto ele ainda está na escola e com cinco níveis de urgência”, detalha.

Com base nas predições que o sistema de gestão pode fornecer, afirma o professor Leonardo, abre-se a via para a liderança pedagógica baseada em evidências, que ele considera um importante pilar do trabalho da equipe diretiva: “A invenção de minha autoria, que a UFSB patenteou, produz as evidências suficientes para subsidiar, por exemplo, um geomapeamento dos casos de evasão na região, possibilitando um conjunto de ações e parcerias estratégicas no entorno da escola. Já dentro da escola, com as evidências e indicadores produzidos pela invenção, elas otimizam a gestão escolar pois identificam os estudantes com risco de evasão com antecedência, enquanto o estudante ainda está da escola, fortalecendo, por exemplo, uma orientação de percurso, acompanhamento psicólogo ou ações de reengajamento no contra-turno”.