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Daniel Thame, jornalista no Sul da Bahia, com experiência em radio, tevê, jornal, assessoria de imprensa e marketing político danielthame@gmail.com

março 2023
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A Morte do Marechal Francisco Solano López

André Maynart

 

Francisco acordou sabendo que estava morto. Há 20 dias era homem morto.

Cerro Corá era praticamente uma ilha. Cercada por mata fechada, serras, o arroio Tacuara e arroio Aquidaban, o acampamento surgiu após uma viagem heróica – ou um via crucis – de Assunção, passando pela cordilheira, por fome e pela peste, até chegar perto da fronteira com o Brasil. Foi lá que Francisco, mesmo avisado pelos indígenas da região que os cambá – negros, em guarani, ou seja, brasileiros – estavam próximos, decidiu ficar.

Francisco, o único homem gordo entre crianças soldadas, mulheres condenadas a recuar por serras e montes, velhos servindo ao Marechal sob mira de fuzil, poucos homens em idade de serviço com ossos finos à mostra, a carne de outrora comida pela fome. Pelo reino de López em Cerro Corá se dispersavam corpos nus, chamados por desespero de soldados, esquálidos a ponto de comer a terra do chão para ter algo para encher o estômago, tendo à disposição um rifle para cada cinco homens; oficiais que deviam sua presença a um misto de lealdade militar e medo dos pelotões de fuzilamento; corridas de desertores, que reencontravam a esperança da vida; canhões sacrílegos feitos de sinos de igrejas; cadáveres assassinados pela doença da cólera, outros assassinados pela psicose paranóica do Marechal.

Francisco acordou sabendo que estava morto. Francisco foi acordado pela notícia de que havia sido achado pelo exército brasileiro. Um rumor de que suas defesas no arroio Tacuara estavam sob ataque não pode ser confirmado, até que os canhões no arroio Aquidabã soassem.

Os canhões de sino disparavam desespero: ossos humanos, pedras, areia, terra eram disparados contra o exército imperial às margens do rio Aquidabã. Os postados contra o arroio Tacuara nem se deram ao trabalho de disparar, devido à falta de munição. Os soldados imperiais, frente aqueles moribundos que se chamavam de tropas e brincavam de atirar pó, não travaram combate. Já estavam mortos.

Entre os rumores de Tacuara e os tiros de Aquidabã, López se restringiu a enviar tropas para investigar a situação e conversar com os oficiais se valia a pena combater. E nesse entretempo, teve tempo para a reflexão. O que pensou López nesse momento? O que pensou o tirano feito herói quando, após tantos encontros de longe com a Morte, ela repousava a mão no seu ombro? Sobre o que refletiu quando viu tropas de inválidos e crianças marchando em ritmo, armadas com pedras e coisas que poderiam, dificilmente serem chamadas de facas e baionetas, marchando à morte?

 

Ele se arrependeu quando viu que mães furavam a carne de vacas mortas, para dar o sangue do cadáver a seus filhos? Não se encheu de remorso quando viu a longa fileira de civis, andando entre a cólera e a inanição, desfilando por pântanos e montes? Não viu incongruência quando via que era o único uniformizado em branco, em meio a nus e seminus? Ou quando viu que era o único que ainda tinha algo de gordura? Não pensou que aquela guerra tivesse sido o pior dos erros, senão dos delírios, que aquele continente tinha visto? Que nem ele poderia dizer por que começou? Que nem Francisco poderia dizer porque Francisco não seguiu a última ordem do seu pai, de nunca entrar em guerra com o Brasil?

Só a mata que escutava o que ele pensava sabe.

E quando, ao conversar com os oficiais, a rendição se mostrava, pela primeira vez, uma ideia razoável, López deve ter levado em consideração o que disse à mata. Se antes se matava quem falasse em rendição, agora os oficiais só viram a morte – sem vir do marechal – minutos mais tarde, talvez por necessidade, talvez por empatia. E os oficiais, em eufemismos e ironias, sugeriam a ideia de não morrer naquele dia. Cabia ao presidente vitalício, filho de outro presidente vitalício, a decisão final, fruto de sua reflexão.

López respirou fundo. Olhou para o céu azul, para os montes, para a mata cerrada. E com o mesmo tom com que condenou a morte inocentes, com a mesma convicção com que insistiu numa guerra perdida no primeiro dia, com a mesma cadência com que condenou sua mãe e sua irmã à prisão, com o mesmo delírio com que fuzilava oficiais, generais, ministros e bispos, com a mesma decisão com que declarou uma guerra à três países tantas, inúmeras vezes maior que o dele, o marechal Francisco Solano López, herói nacional do Paraguai, declarou:

Morro com a minha pátria.

E foi só quando, ferido por lança em seu ventre, frente a um destacamento inimigo, às margens do Aquidabã, tendo sacado seu sabre e repetido essas palavras, sua loucura pode ser morta. Por uma bala no peito de autor desconhecido.

3 respostas para “A Morte do Marechal Francisco Solano López”

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