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Encontros, desencontros. Reencontro.

Pioneiros celebram os 30 anos da TV Cabrália

Pioneiros celebram 30 anos da TV Cabrália

RELEASE-Pioneiros comemoraram 30 anos da Cabralia

Foi uma festa marcada pela emoção,  a confraternização  realizada por funcionários pioneiros da TV Cabrália no último dia 18, na sede da Associação dos Funcionários da Ceplac-AFC, para marcar os 30 anos de implantação da primeira emissora de televisão do interior do Norte/Nordeste.

los 3Mais de cem pessoas vieram de Salvador, Conquista, Itabuna, Ilhéus, Itacimirim, Arraiá d´Ajuda, Feira, Jequié, Eunápolis e as mais distantes de São Paulo e Brasília, para um reencontro histórico, para a maioria de pessoas que não se viam há quase 30 anos atrás.

O evento começou  com uma mensagem do fundador Enrique Marques, homenagem ao primeiro Superintendente Nestor Amazonas e continuou com mensagens em texto e vídeo de várias personalidades que já passaram pela Cabrália como Madalena Braga, diretamente de Feira, de Vilma Medina e Napo Fernandez, de Miami e Sonia Neres, de Roma. A cantora Selma Aguiar, ex-repórter da emissora, deu um show na apresentação musical.

Após o reencontro, parte do grupo assumiu o compromisso de um novo encontro na segunda quinzena de novembro de 2018.

 

selma

 

No ar, a TV Cabrália

Daniel Thame

 

Dt w6newsO mês era dezembro e o ano era 1987.

Em Itabuna, todas as cores no ar anunciavam a chegada de uma nova estação. Não era o verão.

Quem chegava -e lá se vão 30 anos- era a TV Cabrália, primeira emissora de televisão do interior do Norte/Nordeste, não apenas uma repetidora da programação da Rede Manchete, a quem era afiliada.

Mas uma emissora com programação própria, vida própria e, principalmente, com a alma do Sul da Bahia.

A chegada de TV Cabrália, como era de se esperar, gerou expectativa e euforia, numa civilização orgulhosa de seu fruto de ouro e de ter forjado o próprio desenvolvimento.

O fruto de ouro, dois anos depois, perderia seu brilho, esplendor e pujança por conta de uma doença com poderes de bruxa malvada.

A TV Cabrália, símbolo daquele tempo, atravessou sobressaltos, mas resistiu ao apocalipse econômico e social  que as bruxarias provocaram, fez história. E que história.

Começou como afiliada da Rede Manchete, depois SBT e, adquirida pela Igreja Universal do Reino de Deus, passou pela Rede Record, teve uma incipiente fase na Rede Mulher e hoje integra a Rede Record.

É possível dizer que mudou sem mudar, porque ao longo destas três décadas, continua sendo o que sempre se propôs a ser: uma televisão com a cara e as cores do Sul da Bahia, com uma profunda identidade regional.

Gestada pelo espírito empreendedor do Dr. Luiz Viana Neto e que ganhou forma nas mãos do visionário Nestor Amazonas, a TV Cabrália, além de acompanhar os principais acontecimentos e se envolver nas grandes causas sulbaianas nestes 30 anos, foi uma espécie de escola de profissionais de televisão, profissão até então inexistente por essas plagas amadianas e/ou pragas vassorianas, com o perdão do trocadilho irresistível.

Vilma Medina, Mauricio Maron, Claudia Barthel,  Paula Maciel, Eduardo Lins, Roger Sarmento, Napoleão Fernandez, Madalena Braga, Andrea Silva, Adriana Quadros, Valdenor Ferreira, Renata Smith, Antonio Junior, Iruman Contreiras, Junior Patente, Ramiro Aquino, Paulo Lavinsky, Cícero Dantas, Jota Borges, Barbosa Filho,  Adriana Dantas, Tom Ribeiro, Carlos Barbosa,  Auriana Bacelar. Uma seleção do melhor jornalismo, em qualidade e comprometimento com a profissão.

No comercial, Rui Carvalho , os saudosos  Rogélio Duran e Carlos Hellstrom;  Cristine Ribeiro. Gente que fez história neste que é um momento histórico para as telecomunicações baianas.

30 anos batendo à porta! E que venham os 50, os 75, os 100 anos dessa TV Cabrália que é e sempre será o nosso primeiro amor.

 

(*) Daniel Thame, paulista de Osasco, radicado há 30 anos em Itabuna, foi gerente de jornalismo da TV Cabrália  desde a sua fundação em 1987 até o ano 2000. É também o primeiro funcionário registrado da emissora, o que não é muita coisa, mas também é muita coisa.

 

TV Cabrália, 30 anos – `Seu` Diógenes e Fernando Gomes, um duelo na portaria

 

Daniel Thame

daniel thame FlicaNos primórdios da TV Cabrália, e deve ser assim até hoje,  a ordem era clara: sem se identificar, ninguém tinha acesso à emissora.

`Seu` Diogénes, o porteiro, era alguém para quem ordem não se discutia. Funcionário só entrava com crachá e visitante só com apresentação de documento  de identificação. Ponto final!

Eis que um belo dia, o prefeito de Itabuna,  Fernando Gomes, em seu segundo dos cinco mandatos, chega para conceder uma entrevista ao Repórter Regional , numa tentativa da direção da emissora de estreitar as relações com o alcaide, que não eram necessariamente amistosas, em função do jornalismo demasiadamente independente praticado pela Cabrália naqueles tempos de antanho.

E eis que ao se dirigir à porta de entrada, Fernando Gomes é abordado por `seu` Diógenes:

-Documentos, por favor…

Fernando achou que só poderia ser  uma  brincadeira:

-Mas que documento, rapaz? Sou Fernando Gomes, o prefeito…

Não era uma brincadeira:

-Sem apresentar a identificação o senhor não entra…

Fernando começou a ficar impaciente, aquilo não estava no script.

E foi ai que ´seu` Diógenes perpetrou:

-Como é que o senhor quer entrar sem se identificar? Eu já pedi documento de identificação  até pra Waldir Pires…

(Abre parêntese: Waldir Pires era à época ninguém menos que o governador da Bahia e conta a lenda que, com aquela simplicidade de monge beneditino, se identificou e entrou. Fecha parêntese).

A citação a Waldir Pires, com quem Fernando já estava rompido, foi a gota d´água. O prefeito simplesmente  virou as costas e foi embora sem dar a entrevista.

Fernando Gomes retornou dias depois, após as devidas escusas da direção, que providencialmente escalou um outro porteiro para recebe-lo.

Porque para  ´seu` Diogenes, hoje gozando a merecida aposentadoria,  sem documento não entrava, fosse ele Fernando Gomes, Waldir Pires ou Papa, posto que ainda eram tempos em que um Papa, caso se aventurasse nas terras do cacau, seria recebido de braços abertos na emissora.

Depois de se identificar para  ´seu`  Diógenes, per supuesto.

 

 

TV Cabrália, uma história de 30 anos

RELEASE-Uma historia de 30 anos-Grupo OrganizadorEste ano, a 12 de dezembro, a primeira emissora de televisão do interior nordestino, a TV Cabrália, completa 30 anos de inaugurada. Ubaldo Porto Dantas era o Prefeito de Itabuna, Waldir Pires era o Governador da Bahia e na Presidência da República estava José Sarney.   O então Senador Luiz Viana Filho deu nome ao complexo televisivo, uma iniciativa do filho Luiz Viana Neto, associado a Enrique Marques Barros e outros companheiros que já comandavam a TV Aratu, em Salvador. A obra foi edificada em menos de seis meses, atuou inicialmente como afiliada da Rede Manchete, sendo mais tarde vinculada ao SBT, Rede Família e Record News e, como sendo autorizada a atuar como emissora geradora por pouco tempo atuou como emissora independente.

Hoje fazendo parte da Rede Record, a primeira televisão do interior nordestino é parte integrante da história recente das comunicações nas regiões sul, sudoeste e extremo-sul da Bahia, num ano rico para a imprensa regional onde nasceram também o Jornal A Região, em abril e a Rádio Morena FM, em dezembro.

A saga dos pioneiros

RELEASE-Uma historia de 30 anos-Ilheus Nos seus primeiros seis anos sob o controle da família Viana, tendo como diretor geral o jornalista Nestor Amazonas, a emissora é ainda hoje considerada um marco nessa história, revolucionando as comunicações no sul da Bahia com a iniciativa da criação de novas agências publicitárias e a fomentação de novos profissionais, que mais tarde viriam a sair também do cursos acadêmicos que surgiram.

Em dezembro de 2016 almoçaram no Bataclan, em Ilhéus, o primeiro Superintendente, Nestor Amazonas, o primeiro Chefe de Jornalismo, Daniel Thame, o primeiro Repórter, Maurício Maron, o primeiro Apresentador, Ramiro Aquino e o primeiro Diretor Comercial, Rui Carvalho. Desse encontro de pioneiros saiu a decisão de comemorar os 30 anos da emissora, reunindo em novembro, para não conflitar com os festejos oficiais da emissora, todos aqueles que quisessem o reencontro.

Já está próxima a data escolhida, 18 de novembro, um sábado, na Associação dos Funcionários da Ceplac, a partir das 9 hs, o que os organizadores estão chamando de Grande Encontro. Os contatos, através das redes sociais, e-mails e telefones, confirmaram mais de 100 presenças, que com os familiares, alcançam 130 pessoas.

Brasil e exterior

Vem gente de várias regiões do Brasil e até de outros países. Tem profissionais morando na Alemanha, na Itália, nos Estados Unidos, em Portugal e outros na Bahia, Brasília, Ceará, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Pará, Paraná, Rio e São Paulo. A maioria permanece em Itabuna, Ilhéus.

Para a programação, além da feijoada com entrada de acarajé, está prevista música com os artistas da casa, interpretação de textos históricos, exposição de fotos de época e de artigos jornalísticos.

 

Tá demitido!

Daniel Thame

Essa quem me contou foi o insuspeito Nestor Amazonas, “pai” da TV Cabrália, que completa 30 anos (a TV não o Nestor!) neste 2017, e  que freqüentava muito a Rede Manchete, nos tempos em que a Cabrália era afiliada à emissora carioca.

Adolfo Bloch, já em fase outonal e vendo a televisão sugar todos os recursos do Grupo Manchete (que incluía gráfica, emissoras de rádio e uma revista de variedades/reportagens), andava pelos corredores do suntuoso prédio da tevê, implicando com Deus e o mundo.

Certo dia, ao deparar-se com o limpador de vidros com as roupas desalinhadas, não cortou conversa:

-Você está demitido, pode passar no departamento pessoal.

O rapaz foi se lamentar com seu chefe imediato, que foi logo dando um jeitinho:

-Seu Bloch anda meio estressado. Vá para outro andar e continue trabalhando…

Minutos depois, eis que seu Bloch aparece no tal “outro andar” e se depara com o mesmo rapaz limpando os vidros.

A cena que se seguiu é de puro nonsense:

-Ô meu rapaz, veja se arruma melhor suas roupas. Eu acabei de demitir um rapaz no andar de cima justamente porque ele estava mal vestido…

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Nestor Amazonas e os pioneiros da TV Cabrália fazem parte de uma história ainda a ser devidamente contada e reconhecida. O palpite de quem começou essa história é de que não, dado o imobilismo dos nossos cursos de comunicação social e sua propensão em fabricar heróis artificiais. As vezes nem isso… 

Profissão Repórter

Entre as várias reportagens que diz ao longo desses quase 30 anos de estrada, 30 deles no Sul da Bahia, nenhuma foi mais estressante do que a cobertura dos 500 anos do Brasil em Porto Seguro. O que seria uma comemoração, organizada a caráter para incensar Fernando Henrique Cardoso e ACM, se transformou num festival de pancadaria, perpetrada pela polícia baiana contra índios, sem-terras e estudantes.

 
Na véspera do fatídico 22 de abril, tive que optar entre ficar em Porto Seguro, onde a festa estava preparada, ou seguir para Coroa Vermelha, onde o clima estava pesado porque os movimentos sociais não se contentavam em fazer figuração no teatrinho armado pelo governo.

 
Não tive dúvidas: fui a Coroa Vermelha e ao lado da equipe da TV Cabrália, testemunhei uma demonstração de truculência e insanidade que repercutiu em todo mundo. Não perdi nenhuma festa, até porque festa não houve, para desalento do então Rei da Bahia, que ali viu desmoronar o seu sonho de se tornar o Rei do Brasil.

 
A reportagem foi publicada no jornal A Região. A foto é de Lula Marques.
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Polícia barra povo e FHC
faz festa vip dos 500 anos

Dois episódios ocorridos na tarde-noite de sexta-feira, dia 21, ajudam a entender o festival de selvageria em que se transformou a festa dos 500 anos do Brasil, exaustivamente preparada para coroar o Governo da Bahia e, principalmente, catapultar o senador Antonio Carlos Magalhães para a sucessão de Fernando Henrique Cardoso.
Por volta das 16 horas, policiais militares fortemente armados bloquearam a rodovia que liga Eunápolis a Porto Seguro. Eles alegavam cumprir ordens da Defesa Civil, já que a cidade não comportava mais ninguém. Tudo perfeito, à exceção de um mero detalhe: Porto Seguro não possui Defesa Civil. O objetivo era evitar que os sem-terra, acampados em Eunápolis, entrassem em Porto. O bloqueio foi estendido a turistas e até aos moradores das duas cidades. Um turista que veio de João Pessoa, na Paraíba, exibiu as reservas de hotel e afirmou que seu direito de ir e vir, garantido pela Constituição, estava sendo desrespeitado.

A resposta do policial merece entrar para os anais da história do Brasil:

-Aqui na Bahia quem manda é o Antonio Carlos Magalhães.

Ou seja, pega a Constituição e…

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A TV Cabrália e a ´fumaça preta´

Daniel Thame

Essa história de fumaça preta e fumaça branca para a escolha do novo Papa me fez lembrar de uma história nos primórdios da TV Cabralia, comandada por Nestor Amazonas, lá pelo final dos anos 80.

Um cinegrafista e seu auxiliar, cujos nomes não vêm ao caso, foram vistos à noite na torre da emissora, em Itabuna, expelindo uma inconfundível fumacinha de aroma igualmente inconfundível.

Nestor não era fiscal do Ibama, mas ao saber que estavam ´queimando mato` no horário de trabalho, chamou os dois à sua sala. Bastava confirmar e o máximo que receberiam era uma bronca.

Mas ambos negaram e ainda se disseram indignados com aquela acusação injusta.

Nestor Amazonas, a quem a comunicação sulbaiana ainda  deve o merecido reconhecimento, não era dado a lero lero. Foi direto ao ponto:

-Se vocês não estavam fumando maconha tarde da noite na torre da tevê, então estavam trocando c…

E perguntou, didaticamente:

-Vocês preferem sair dessa sala como viados ou como maconheiros?

Ambos optaram pela fumaça preta.

O homem samambaia (rico come cada coisa)

Daniel Thame

 

daniel charge cuba zapTV Cabrália, início da década de 90. O recém inaugurado Hotel Transamérica, na paradisíaca (que certa feita um repórter da emissora confundiu com afrodisíaca, sabe-se lá porque) Ilha de Comandatuba, recebia famosos e endinheirados de São Paulo, Rio e Brasília.,

A gente tinha um esquema lá, que sempre que chegava alguém famoso era avisado. Para uma tevê regional, era uma festa entrevistar personalidades que só apareciam na então monopolista Rede Globo.

Os vips sentiam a nossa empolgação e quase sempre colaboravam, dando entrevistas para a Cabrália como se estivessem falando para o mundo. A gente fazia a gravação e ia almoçar no continente, porque a grana da diária não dava pra encarar um copo de água mineral no hotel, quanto mais um almoço.

Até que certa feita, fomos entrevistar o então governador de São Paulo, Orestes Quércia, que descansava no hotel com a família.

Político não pode ver um microfone, seja ele a BBC, seja ele do serviço de alto falante de Potiraguá.

E deu uma longa entrevista, que a gente poderia usar durante uma semana nos telejornais. Encerrada a gravação, Quércia convidou a equipe para almoçar.

Para quem iria pegar um rango mulambento, aquilo era o que se pode chamar de convite irrecusável.

Não recusamos. O almoço, como se previa, era um banquete. Todo tipo de saladas, pratos frios, pratos quentes, sobremesas. De se lamber os beiços.

Na equipe, havia um auxiliar de cinegrafista (função que hoje nem existe mais), sujeito simples, gente boa, que ficou observando como as pessoas se serviam, pra não passar vergonha.

O excesso de cuidados não evitou que ele, na hora de colocar a salada no prato, pegasse um vistoso pedaço de samambaia, que obviamente foi colocada na mesa como decoração. A gente percebeu, mas ninguém teve coragem de falar nada. Foi um milagre conter o riso.

O almoço estava uma delícia e todo mundo se fartou. Quércia foi muito simpático e fez questão de convidar a gente pra voltar outro dia, o que era apenas gentileza, não era pra valer.

Quando a equipe entrou na balsa pra pegar o carro e voltar pra Itabuna, o auxiliar de cinegrafista, exibindo o ar de felicidade de quem acabara de ser apresentado ao paraíso, saiu-se com essa:

-Almoço bom da porra! Só não gostei daquela salada. Rico tem cada gosto estranho.

Quase trinta trinta anos depois, tem gente que dá um braço para comer uma tal de Mulher Samambaia.

O cinegrafista e o pitú

 

Daniel Thame

daniel thame FlicaComeço da TV Cabrália. 1988. Tempo em que as equipes de reportagem corriam atrás da notícia sem preocupação em economizar na gasolina ou na diária do repórter, do cinegrafista, do auxiliar e do motorista.

Hoje, a equipe se limita ao repórter e ao cara que acumula as funções de motorista/cinegrafista/auxiliar. Não demora muito para se criar a “equipe de um só”.

Voltando à Cabrália. A equipe saiu para fazer uma matéria em Ubaitaba e aproveitou para fazer outra reportagem sobre a situação precária da rodovia Ubatã-Ipiaú. Duas boas reportagens, veiculadas nos telejornais da emissora.

Até aí, nada demais. Boas reportagens eram marca da Cabrália, uma espécie de pré-faculdade de comunicação no Sul da Bahia, tamanho o número de profissionais que formou. O problema foi a conta do almoço, que incluiu até pitú.

Nestor Amazonas, o mentor da TV Cabrália, hoje um dos mais completos profissionais de tevê do país, era um cara legal, mas não era dado a exageros, porque a emissora tinha dono e dono não costuma rasgar dinheiro.

Quando foi questionar a despesa, o cinegrafista esperneou:

-Ô Nestor, qualé? Eu to acostumado a comer bem na minha casa!

Nestor encerrou o assunto:

-Vou almoçar hoje na sua casa. Se tiver pitú, a tevê paga essa conta. Se não tiver, você paga.

Desnecessário dizer quem teve o salário desfalcado no final do mês.

TV Cabrália 30 anos: o rapaz de Ilhéus e a moça do posto de gasolina

Daniel Thame

 

Primórdios da TV Cabrália, final da década de 80, início da década de 90.

Cena 1
Nestor Amazonas, mentor e então superintendente daquela aventura que era implantar no Sul da Bahia a primeira emissora de televisão do Norte/Nordeste do Brasil, me chama na sala dele e diz:

-Tá vindo aí um rapaz de Ilhéus, muito bem recomendado. Você coloca ele como editor do Jornal do Meio Dia ou do Repórter Regional.

O JMD e o RR eram, então, os principais telejornais da emissora. Mas com Nestor era assim que as coisas funcionavam. “Coloca ele como editor” e não se fala mais nisso.

Ou, se fala. Quando o “rapaz de Ilhéus” entra no departamento de jornalismo, eu vejo que se tratava de um quase menino. Indicado pelo Nestor, mas ainda assim bastante novo para aquilo que eu imaginava para a função de editor. Feitas as apresentações de praxe, resolvi o problema:

-Você não tem cara de editor, você tem cara de repórter. A partir de amanhã, começa a trabalhar com a equipe de externa, fazendo reportagens.

No dia seguinte, com uma reportagem sobre a precariedade da Guarnição do Corpo de Bombeiros em Itabuna, aquele rapazinho que pela minha intuição não servia para editor iniciava uma das mais brilhantes carreiras de um repórter na Bahia, com passagens pela TV Cabrália e TV Santa Cruz, e rompendo as fronteiras regionais até chegar a Angola, na África, onde trabalhou em duas oportunidades. Aventurou-se pelo marketing político e, além de Itabuna, atuou em Salvador, Aracaju, Recife, Curitiba, Macapá e outras praças.

O nome desse rapaz é Maurício Maron, que dispensa apresentações.

Cena 2
Entro no estúdio da TV Cabrália, levando o roteiro do Jornal do Meio Dia. Naquele tempo não havia computador e as falas dos apresentadores eram escritas numa máquina de datilografia especial, com letras grandes, que ficavam ainda maiores quando colocadas num teleprompter, equipamento que permite passar ao telespectador a impressão (falsa) de que o apresentador ou a apresentadora “decoraram” todas aquelas notícias.

Com o papelório nas mãos, tenho a atenção desviada pra uma moça loira, bonita, vestida com um macacão de posto de gasolina, pronta para gravar o sorteio de alguns vales-combustível, uma promoção da TV Cabrália com o Posto Universal.

De novo movido pela intuição, peço para acenderem as luzes do estúdio, ligar o teleprompter, pego aleatoriamente uma das folhas do Jornal do Meio Dia, entrego para a moça e decreto:

-Senta aí na banqueta de apresentadora e leia isso pra mim.

Ninguém entendeu nada, a moça menos ainda. Mas, foi lá e leu, meio sem graça, mas com firmeza.

Nem esperei ela se levantar da banqueta. Sai do estúdio e fui direto para a sala de Ramiro Aquino, já ocupando a superintendência da emissora. Direto e objetivo:

-Ramiro, descobri uma apresentadora da porra!!!

Ramiro não perguntou nem como nem quem era a moça. Apenas autorizou contratar, sem maiores delongas.

O Posto Universal perdeu uma garota propaganda e a televisão ganhou uma apresentadora de primeira linha, que fez história na Cabrália apresentando o Jornal do Meio Dia e programas especiais (um deles de antologia, o dos 80 anos de Jorge Amado), passou pela TV Santa Cruz, trabalhou na TV Globo do Rio e de São Paulo e depois foi para a Rede Manchete/Rede TV, onde está até hoje, esbanjando talento e simpatia.

A moça do posto de gasolina atende pelo nome de Claudia Barthel, que como o ´velho´ e bom Maron, também dispensa apresentações.

____________________

Nos tempos de hoje, em que a Uesc, FTC e Unime despejam jornalistas aos borbotões todos os anos (alguns deles já se achando um Willian Bonner, um Clóvis Rossi, ou  uma Fátima Bernardes)  histórias como essas parecem lenda, delírios de um quase ex-jornalista.

Mas, como outras que contarei “adelante”, foram reais, numa época em que havia menos formalismo e mais romantismo na profissão.

Se era melhor ou pior, quem sou eu pra dizer?

A TV Cabralia e o ´banho de Coca Cola`

e olha que o BBB nem tinha surgido ainda

Daniel Thame

A inauguração da TV Cabrália, em dezembro de 1987, não apenas levantou a auto-estima de Itabuna (afinal, tratava-se da primeira emissora de televisão numa cidade do interior do Norte/Nordeste, o que não era nem é pouca coisa), como produziu situações que hoje parecem lenda, mas que à época eram rotineiras.

Ainda não havia a global TV Santa Cruz, que só seria inaugurada um ano depois, e a Cabrália reinava soberana. E eu, que nem sabia como funcionava uma emissora de televisão, fui guindado à condição de gerente de jornalismo, pela extrema generosidade de Nestor Amazonas. Não sei quem foi mais maluco: ele, por me nomear, ou eu, por aceitar o cargo.

Segue o bonde…

Para se ter uma idéia do que a televisão representava, até eventos importantes eram marcados de acordo com a disponibilidade da equipe de jornalismo fazer a cobertura, para a devida veiculação nos telejornais.

É claro que não faltavam pedidos inusitados, que a gente não sabia se achava graça ou se mandava o sujeito pra puta que pariu.

E não é que um pai cismou que a equipe da Cabrália teria que cobrir a festa de aniversário da filha? Era o presente que ele havia prometido à pimpolha e ligava todo dia pra perguntar se a gente iria mesmo.

Não adiantava explicar que aquilo era impossível, alegar que se cobríssemos a festa da filha dele teríamos que cobrir outros tantos aniversários e por extensão, batizados, primeira comunhão, casamentos, velórios e quetais.

Resolvi apelar e pra me livrar do sujeito disse que se ele enchesse uma banheira com Coca Cola e colocasse a filha dentro, a gente iria fazer a cobertura do aniversário.

Pronto, dessa mala estamos livres.

Livres?

No dia seguinte, véspera do tal aniversário, o cara me liga e diz que havia comprado Coca Cola suficiente para encher uma banheira e dar um banho de refrigerante na filhota.

Não sei se além de chato, o cara era um gozador e resolveu sacanear comigo. Ou se era só chato mesmo e realmente ia dar um banho de Coca Cola na filha, só pelo prazer de vê-la na telinha da Cabrália.

Na dúvida, preferi ficar na dúvida mesmo.

O aniversário, com ou sem banho de Coca Cola, permaneceu para sempre no anonimato.

Daniel Thame
Daniel Thame, jornalista no Sul da Bahia, com experiência em radio, tevê, jornal, assessoria de imprensa e marketing político danielthame@gmail.com

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