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Memórias de um Dinossauro

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 O rapaz de Ilhéus e a moça do posto de gasolina

Primórdios da TV Cabrália, final da década de 80, início da década de 90.

Cena 1
Nestor Amazonas, mentor e então superintendente daquela aventura que era implantar no Sul da Bahia a primeira emissora de televisão do Norte/Nordeste do Brasil, me chama na sala dele e diz:

-Tá vindo aí um rapaz de Ilhéus, muito bem recomendado. Você coloca ele como editor do Jornal do Meio Dia ou do Repórter Regional.

O JMD e o RR eram, então, os principais telejornais da emissora. Mas com Nestor era assim que as coisas funcionavam. “Coloca ele como editor” e não se fala mais nisso.

Ou, se fala. Quando o “rapaz de Ilhéus” entra no departamento de jornalismo, eu vejo que se tratava de um quase menino. Indicado pelo Nestor, mas ainda assim bastante novo para aquilo que eu imaginava para a função de editor. Feitas as apresentações de praxe, resolvi o problema:

-Você não tem cara de editor, você tem cara de repórter. A partir de amanhã, começa a trabalhar com a equipe de externa, fazendo reportagens.

No dia seguinte, com uma reportagem sobre a precariedade da Guarnição do Corpo de Bombeiros em Itabuna, aquele rapazinho que pela minha intuição não servia para editor iniciava uma das mais brilhantes carreiras de um repórter na Bahia, com passagens pela TV Cabrália e TV Santa Cruz, e rompendo as fronteiras regionais até chegar a Angola, na África, onde trabalhou em duas oportunidades. Aventurou-se pelo marketing político e, além de Itabuna, atuou em Salvador, Aracaju, Recife, Curitiba, Macapá e outras praças.

O nome desse rapaz é Maurício Maron, que dispensa apresentações.

Cena 2
Entro no estúdio da TV Cabrália, levando o roteiro do Jornal do Meio Dia. Naquele tempo não havia computador e as falas dos apresentadores eram escritas numa máquina de datilografia especial, com letras grandes, que ficavam ainda maiores quando colocadas num teleprompter, equipamento que permite passar ao telespectador a impressão (falsa) de que o apresentador ou a apresentadora “decoraram” todas aquelas notícias.

Com o papelório nas mãos, tenho a atenção desviada pra uma moça loira, bonita, vestida com um macacão de posto de gasolina, pronta para gravar o sorteio de alguns vales-combustível, uma promoção da TV Cabrália com o Posto Universal.

De novo movido pela intuição, peço para acenderem as luzes do estúdio, ligar o teleprompter, pego aleatoriamente uma das folhas do Jornal do Meio Dia, entrego para a moça e decreto:

-Senta aí na banqueta de apresentadora e leia isso pra mim.

Ninguém entendeu nada, a moça menos ainda. Mas, foi lá e leu, meio sem graça, mas com firmeza.

Nem esperei ela se levantar da banqueta. Sai do estúdio e fui direto para a sala da superintendência.

-Ramiro, descobri uma apresentadora da porra!!!

Autorização dada de imediato. Eram tempos em que meu cheque especial na Cabrália tinha crédito farto.

O Posto Universal perdeu uma garota propaganda e a televisão ganhou uma apresentadora de primeira linha, que fez história na Cabrália apresentando o Jornal do Meio Dia e programas especiais (um deles de antologia, o dos 80 anos de Jorge Amado), passou pela TV Santa Cruz, trabalhou na TV Globo do Rio e de São Paulo e depois foi para a Rede Manchete/Rede TV, onde está até hoje, esbanjando talento e simpatia.

A moça do posto de gasolina atende pelo nome de Claudia Barthel, que como o ´velho´ e bom Maron, também dispensa apresentações.

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Nos tempos de hoje, em que a Uesc  e Unime despejam jornalistas aos borbotões todos os anos (alguns deles já se achando um Willian Bonner, um Clóvis Rossi, ou  uma Fátima Bernardes)  histórias como essas parecem lenda, delírios de um quase ex-jornalista.

Mas  foram reais, numa época em que havia menos formalismo e mais romantismo na profissão.

Se era melhor ou pior, quem sou eu pra dizer?

Rui Costa no Balanço Geral

Tom Ribeiro entrevista o governador Rui Costa. Balanço Geral, TV Cabralia/Record

Memórias de um Dinossauro

 

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Profissão Repórter

Entre as várias reportagens que diz ao longo desses mais de  40 anos de estrada, 32 deles no Sul da Bahia, nenhuma foi mais estressante do que a cobertura dos 500 anos do Brasil em Porto Seguro. O que seria uma comemoração, organizada a caráter para incensar Fernando Henrique Cardoso e ACM, se transformou num festival de pancadaria, perpetrada pela polícia baiana contra índios, sem-terras e estudantes.

 
Na véspera do fatídico 22 de abril, tive que optar entre ficar em Porto Seguro, onde a festa estava preparada, ou seguir para Coroa Vermelha, onde o clima estava pesado porque os movimentos sociais não se contentavam em fazer figuração no teatrinho armado pelo governo.

 

Não tive dúvidas: fui a Coroa Vermelha e ao lado da equipe da TV Cabrália, testemunhei uma demonstração de truculência e insanidade que repercutiu em todo mundo. Não perdi nenhuma festa, até porque festa não houve, para desalento do então Rei da Bahia, que ali viu desmoronar o seu sonho de se tornar o Rei do Brasil.

A reportagem foi publicada no jornal A Região. A foto é de Lula Marques.
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Polícia barra povo e FHC
faz festa vip dos 500 anos

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Memórias de um Dinossauro

dtTV Cabrália, inicio dos anos 90.  Santa Catarina enfrentava uma enchente apocalíptica e o Vale do Itajaí foi arrasado pela fúria das águas. A Rede Manchete, da qual a Cabrália era afiliada, fez uma campanha para arrecadar alimentos, remédios, roupas e cobertores para os flagelados.

A Cabrália entrou na campanha e em poucos dias arrecadou toneladas de donativos, que seriam enviados a Santa Catarina.

Uma noite, por volta das 20 horas, entro no estúdio abarrotado de solidariedade, onde mal havia espaço para as câmeras e a mesa do apresentador. De repente, me deu o estalo.

Naquele mesmo período, moradores da Bananeira e do Gogó da Ema, bairros carentes de Itabuna,  estavam sofrendo com as cheias do Rio Cachoeira. Nada que se comparasse à tragédia de Santa Catarina, mas centenas de famílias perderam seus parcos pertences e muitas estavam desabrigadas.

O raciocínio foi óbvio. Se a gente pedisse donativo pras vítimas das enchentes em Itabuna, é provável que o retorno seria quase nenhum. Já para os catarinenses, em função da comoção nacional que se criou, mal havia espaço para estocar tantas doações.

Não tive dúvidas. Com a cumplicidade do então bispo diocesano Dom Paulo Lopés de Faria, hoje habitando merecidamente o reino dos céus, uma parte dos donativos foi entregue para uma igreja e dali seguiu para as famílias da Bananeira e do Gogó da Ema.

A outra parte, é bom que se diga, foi entregue aos catarinenses, que sem saber e por linhas tortas, haviam proporcionado um gesto de solidariedade aos itabunenses, irmãos de pátria e de infortúnio.

 

Memórias de um Dinossauro

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Vitória da Conquista, final dos anos 80. A sucursal da TV Cabrália no Sudoeste Baiano dando os primeiros passos e lá estava eu, na fase de ajustes da equipe local de jornalismo.

Tempos tão ´dinossauricos´ quer as matérias eram enviadas de ônibus para Itabuna em fitas U Matic e editadas para entrarem nos telejornais.

Eis que o repórter Junior Patente chega da rua com a reportagem da prisão de quatro jovens, com uma senhora quantidade de maconha.

Fita pronta pra ser enviada, o então editor de jornalismo, cujo nome não vem ao caso (gracias Moro!), me diz:

-Essa matéria não pode sair, porque é tudo filho de gente conhecida.

Por “conhecida”, entenda-se, gente com grana ou com poder político.

Fui na jugular:

-E se fosse gente pobre, poderia sair?

O silêncio ensurdecedor do editor foi a resposta que eu esperava.

A matéria saiu e o editor demitiu-se logo depois, embora os jovens nem chegaram a sentir o gostinho da cadeia.

Afinal, em qualquer tempo, certas coisas definitivamente ´não vem ao caso`…

Memórias de um Dinossauro

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TV Cabrália, meados da década de 90 do século passado. Programa Cabrália Esportiva, Barbosa Filho na apresentação e eu atacando de comentarista.

Naquele quarta-feira à noite, o Itabuna jogaria contra a Jacuipense pelo Campeonato Baiano. O Itabuna dependendo de uma vitória para se classificar, a Jacuipense caindo pelas tabelas.

Em vez de apenas comentar, cai na besteira de fazer graça:

-O Itabuna ganha fácil. Pega uma galinha morta…

O que eu não sabia, e nem tinha como saber, era que a delegação da Jacuipense estava concentrada no Itabuna Palace Hotel. E ainda por cima assistindo ao programa.

Antes da bola rolar, entrevistado pela Rádio Difusora, um dos jogadores da Jacuipense  avisa:

-Vamos mostrar pra esse comentarista da televisão quem é galinha morta.

Final de jogo, Jacuipense 3×1 Itabuna.

A galinha estava viva. E eu, feito peixe (ou pato?) morri pela boca.

 

Morro dos Canecos, Itabuna,  com as sedes da TV Santa Cruz e TV Cabrália. O Sul da Bahia na tela.  (foto José Nazal)

Morro dos Canecos, Itabuna, com as sedes da TV Santa Cruz e TV Cabrália. O Sul da Bahia na tela. (foto José Nazal)

TV Cabrália, 30 anos, porra!

Todas as cores no ar

Daniel Thame

 “Todas as cores no ar

Para anunciar uma nova estação…

Na vibração da Manchete o espaço

é da gente, uma nova emoção.

Sinta a cor da energia,

que se irradia na nova estação…

Chegou, chegou, chegou… a TV que você queria…

TV Cabrália – a imagem do Sul da Bahia.”

 

daniel thame FlicaTodas as cores estavam mesmo no ar, anunciando uma nova estação. O Sul da Bahia ainda vivia os tempos em que nas duas pontes do arco-íris havia um pote de ouro, em forma de um fruto dourado, capaz de produzir riquezas inimagináveis e até desafiar a geografia, fazendo com que o Sul da Bahia fosse, na prática, uma espécie de enclave Rio/São Paulo, um oásis em meio ao Nordeste empobrecido e atrasado.

Era a Civilização Cacaueira, abençoada por um deus dourado chamado Cacau.

Estávamos no final dos anos 80, 1987 para ser mais preciso, e já havia uma bruxa à espreita e poucos se deram conta disso. E ela viria tão forte e tão intensa que em meros cinco anos o Sul da Bahia se renderia a Geografia e seria recolocado, a  fórceps, no Mapa do Nordeste.

O deus não era tão divino assim, posto que sucumbiu a uma bruxaria que dizimou frutos, fortunas, vidas, empregos. Mas, isso é outro história, embora num certo momento vá se fundir e delinear uma história que começa com um sonoro:

“Porra!!!!!!!!”.

A TV Cabrália, a imagem do Sul da Bahia, estava no ar.

30 anos depois, o grito de Nestor Amazonas, naquele distante e inesquecível 12 de dezembro de 1987, ainda deve ecoar pelos corredores da TV Cabrália.

Certo, nossa história começa antes desse grito, mas ele significa o alivio de enfim, poder dizer que todas as cores estavam no ar.

—-

(trecho de abertura do livro sobre os 30 anos da TV Cabrália,  que comecei a escrever e que só esse trapaceiro chamado de destino, que me deu a chance de ser protagonista nesse história, se se vai ser concluído. Mas, escrito ou não, esse é uma história que ninguém apaga)

Encontros, desencontros. Reencontro.

Pioneiros celebram os 30 anos da TV Cabrália

Pioneiros celebram 30 anos da TV Cabrália

RELEASE-Pioneiros comemoraram 30 anos da Cabralia

Foi uma festa marcada pela emoção,  a confraternização  realizada por funcionários pioneiros da TV Cabrália no último dia 18, na sede da Associação dos Funcionários da Ceplac-AFC, para marcar os 30 anos de implantação da primeira emissora de televisão do interior do Norte/Nordeste.

los 3Mais de cem pessoas vieram de Salvador, Conquista, Itabuna, Ilhéus, Itacimirim, Arraiá d´Ajuda, Feira, Jequié, Eunápolis e as mais distantes de São Paulo e Brasília, para um reencontro histórico, para a maioria de pessoas que não se viam há quase 30 anos atrás.

O evento começou  com uma mensagem do fundador Enrique Marques, homenagem ao primeiro Superintendente Nestor Amazonas e continuou com mensagens em texto e vídeo de várias personalidades que já passaram pela Cabrália como Madalena Braga, diretamente de Feira, de Vilma Medina e Napo Fernandez, de Miami e Sonia Neres, de Roma. A cantora Selma Aguiar, ex-repórter da emissora, deu um show na apresentação musical.

Após o reencontro, parte do grupo assumiu o compromisso de um novo encontro na segunda quinzena de novembro de 2018.

 

selma

 

No ar, a TV Cabrália

Daniel Thame

 

Dt w6newsO mês era dezembro e o ano era 1987.

Em Itabuna, todas as cores no ar anunciavam a chegada de uma nova estação. Não era o verão.

Quem chegava -e lá se vão 30 anos- era a TV Cabrália, primeira emissora de televisão do interior do Norte/Nordeste, não apenas uma repetidora da programação da Rede Manchete, a quem era afiliada.

Mas uma emissora com programação própria, vida própria e, principalmente, com a alma do Sul da Bahia.

A chegada de TV Cabrália, como era de se esperar, gerou expectativa e euforia, numa civilização orgulhosa de seu fruto de ouro e de ter forjado o próprio desenvolvimento.

O fruto de ouro, dois anos depois, perderia seu brilho, esplendor e pujança por conta de uma doença com poderes de bruxa malvada.

A TV Cabrália, símbolo daquele tempo, atravessou sobressaltos, mas resistiu ao apocalipse econômico e social  que as bruxarias provocaram, fez história. E que história.

Começou como afiliada da Rede Manchete, depois SBT e, adquirida pela Igreja Universal do Reino de Deus, passou pela Rede Record, teve uma incipiente fase na Rede Mulher e hoje integra a Rede Record.

É possível dizer que mudou sem mudar, porque ao longo destas três décadas, continua sendo o que sempre se propôs a ser: uma televisão com a cara e as cores do Sul da Bahia, com uma profunda identidade regional.

Gestada pelo espírito empreendedor do Dr. Luiz Viana Neto e que ganhou forma nas mãos do visionário Nestor Amazonas, a TV Cabrália, além de acompanhar os principais acontecimentos e se envolver nas grandes causas sulbaianas nestes 30 anos, foi uma espécie de escola de profissionais de televisão, profissão até então inexistente por essas plagas amadianas e/ou pragas vassorianas, com o perdão do trocadilho irresistível.

Vilma Medina, Mauricio Maron, Claudia Barthel,  Paula Maciel, Eduardo Lins, Roger Sarmento, Napoleão Fernandez, Madalena Braga, Andrea Silva, Adriana Quadros, Valdenor Ferreira, Renata Smith, Antonio Junior, Iruman Contreiras, Junior Patente, Ramiro Aquino, Paulo Lavinsky, Cícero Dantas, Jota Borges, Barbosa Filho,  Adriana Dantas, Tom Ribeiro, Carlos Barbosa,  Auriana Bacelar. Uma seleção do melhor jornalismo, em qualidade e comprometimento com a profissão.

No comercial, Rui Carvalho , os saudosos  Rogélio Duran e Carlos Hellstrom;  Cristine Ribeiro. Gente que fez história neste que é um momento histórico para as telecomunicações baianas.

30 anos batendo à porta! E que venham os 50, os 75, os 100 anos dessa TV Cabrália que é e sempre será o nosso primeiro amor.

 

(*) Daniel Thame, paulista de Osasco, radicado há 30 anos em Itabuna, foi gerente de jornalismo da TV Cabrália  desde a sua fundação em 1987 até o ano 2000. É também o primeiro funcionário registrado da emissora, o que não é muita coisa, mas também é muita coisa.

 

Daniel Thame
Daniel Thame, jornalista no Sul da Bahia, com experiência em radio, tevê, jornal, assessoria de imprensa e marketing político danielthame@gmail.com

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