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A incrível historia de Che Guevara em Ilhéus

Gerson Marques

 gerson marquesO navio da Costeira havia chegado na madrugada, jogou âncora nas proximidades da entrada da barra, esperou o dia amanhecer, soltou cinco apitos longos e graves entrou na baía do Pontal  com a elegância de um cisne negro, ancorou pouco tempo depois no cais da companhia, o movimento frenético do desembarque começou imediatamente, uma multidão logo se formou na balbúrdia do cais, estivadores, marinheiros, passageiros, pessoas que esperavam parentes, vendedores de pastel, picolé e jornal, carregadores de bagagens oferecendo seus serviços em carrinhos de mãos, e toda fauna humana que habita beiras de cais em qualquer lugar do mundo, pescadores, marujos, prostitutas, meliantes amadores e profissionais. O ar estava tomado por um cheiro nauseante de maresia, misturado a peixes, perfumes caros e baratos, suor e charutos, inebriava os mais sensíveis e gerava reclamações dos mal humorados em geral, isso tudo debaixo de uma chuva fina e um calor abafado.

Passou sem ser notado, carregando uma pequena maleta de couro  marrom, vestido em um surrado terno de linho branco, apesar de alto e jovem, caminhou a passos lentos em direção ao Hotel Coelho, duas quadras de distância do porto, lá escreveu na ficha de hospedagem o nome de Ernesto G. de La Serna, natural da Argentina, 30 anos, médico de profissão.

Do mesmo navio, desembarcou com idêntica  discrição, o cidadão americano Porter J. Goss, nome que colocou na ficha de hospedagem do mesmo hotel, preenchida dezessete minutos após o argentino Ernesto.

A Ilhéus de 1956, era uma pequena mas cosmopolitana cidade, com grande presença de estrangeiros, tanto em sua população fixa como de visitantes, muitos deles atraídos pelos milhões gerados no próspero negócio do cacau.

Os hóspedes estrangeiros do Hotel Coelho, juntaram-se a outros tantos que iam e vinham nas ruas próximas ao cais, a cidade fervilhava logo cedo, o movimento dos poucos automóveis disputava o espaços das ruas com as tropas de mulas e burros carregando cacau para o cais, a estudantada passava fazendo algazarras, e as lojas começavam a abrir suas portas, já era quente e abafado o dia, com sol matinal e chuvas eventuais de verão, nesta época os libaneses e sírios dominavam o comércio, algumas firmas exportadoras de cacau eram de suíços e outras pertenciam a grandes empresários de Salvador, os ingleses eram os homens da ferrovia, e os sergipanos vindo de todo nordeste inclusive do sertão baiano, tocavam as bodegas, mercearias, vendas e o negocio de quinquilharias em geral, aos negros cabia o trabalho pesado da estiva e os serviços gerais das roças de cacau nas matas húmidas da região, tudo girava em torno do fruto dourado e do movimento de navios no cais do porto.

DOSSIER MATHIL COMMANDANTE CHE GUEVARA RAOUL CORRALESO argentino Ernesto, sempre muito discreto era por vezes visto em conversas sisudas com alguns conhecidos da cidade, diziam que eles conversavam sobre política e sindicatos, também se falava que o doutor argentino,  eventualmente fazia exames e aviava receitas de remédios manipulados na botica do sergipano Aldaségio. Já o americano Porter ou Mister Porter, como exigia ser chamado era sempre visto em mesas de bares, solitário e beberrão, mas tinha um olhar astuto, sabia observar a paisagem humana e tirar conclusões sociológica do universo em seu arredor, particularmente parecia ter interesse por tudo que o médico argentino fazia, apesar de sua descrição quase invisível.

Certa noite Dr. Ernesto o argentino, estava em uma mesa de carteado no Cabaré  Bataclan, quando entrou Mister Poter, sentando em mesa próxima, a fumaça dos muitos charutos, cigarros e cigarrilhas impregnava o ambiente, em outra mesa um grupo de jovens cacauicultores ufanavam das riquezas de suas famílias em vozes altas e muitas gargalhadas, acompanhados por belas putas e bons uísques, o garçom Osmundinho se virava para atender a todos correndo do balcão para as mesas e vice versa, algumas mesas más discretas na penumbra do fundo do salão eram exclusivas de alguns coronéis e suas putas de preferência, sempre muito perfumadas e maquiadas.

Entediado das cartas, Dr. Ernesto inicia uma conversa com uma polaca gaúcha de nome Creusa, havia dois anos tinha chegado para o Bataclan, pouco tempo depois sobem discretamente um longo vão de escadas que ligava o salão a um corredor de quartos no andar de cima, Creusa tinha as chaves do terceiro quarto a esquerda do corredor, abriu e entraram já em abraços e beijos. Em movimento rápido o americano Poter também avança escada acima com a jovem Nubia, uma morena assanhada e desejada que fazia sucesso com os clientes, segundo as más línguas era a preferida de um certo coronel de quem ela arrancava muitos e caros presentes, ocuparam um quarto contíguo ao já ocupado pelo doutor e a polaca.

Os acontecimentos seguintes foram narrados pelo garçom Osmundinho, que ainda os repetiu por muitos anos as gerações seguintes de clientes do Bataclan.  Segundo ele, doutor Ernesto estava em vigorosas e barulhentas preliminares com a gaúcha polaca Creusa, enquanto no quarto ao lado o americano mantinha silêncio total, teria depois dito a ele, a morena assanhada Nubia, que o gringo não queria saber de chamego nem aconchego, se interessará mesmo pelos ruidosos acontecimentos no quarto de Creusa, em certa hora teria ouvido a gaúcha polaca gritar com voz de exclamação, entre surpresa e admirada, após tirar as calças do doutor argentino a seguinte frase; “bha tchê, que vara!” isso foi o suficiente para enlouquecer o americano que de súbito apanhou uma arma que levava na cintura, correndo em direção ao quarto vizinho, arrombou a porta e gritou em inglês; “Communist son of a bitch! Go to hell!” (comunista filho da puta, va para o inferno), o doutor argentino  que estava nu, porém armado, ainda que não com arma de fogo… (Sempre que contava essa parte da história o garçom Osmundinho fazia menção de desmaiar, usando adjetivos e gestos exagerados para descrever o tamanho da estrovenga do argentino…) após proferir sua sentença em inglês o americano Poter, atirou em direção do argentino que foi  salvo pela providencial e mortífera atitude de Creusa ao atravessar na frente da bala, a fatalidade criou a oportunidade para o argentino pular da janela do quarto ao telhado da casa vizinha, em seguida em outro telhado, ganhado um corredor ao lado de baixo da casa de onde pode alcançar a rua, em disparada carreira teria fugido nu em direção ao cais, na escuridão da noite, se  escondeu no porão de um cargueiro de bandeira panamenha, que logo ao amanhecer zarpou com grande carregamento de cacau.
A notícia dos acontecimentos da noite repercutiram fortemente na cidade ao amanhecer, ganhando a manchete principal do jornal vespertino Diário da Tarde, “ Americano atira em argentino armado e acerta em quenga polaca”. Más, quem realmente narrava a história em detalhes para grande audiência por vários dias foi o garçom Osmundinho, sempre com desmaios, suspiros, gestos e adjetivos exagerados.

Passado alguns anos, os ilheense foram surpreendidos com um desdobramento inusitado da noite agitada do Bataclan, nas manchetes dos jornais que chegavam nos navios vindos do Rio de Janeiro, a notícia da revolução cubana trazia a foto de um revolucionário de nome Che Guevara, que era ninguém menos que o Dr. Hernesto, aquele desmarcado argentino que fugirá correndo nu pela cidade… Osmundinho o garçom do Bataclan logo mandou pintar um quadro com a foto do revolucionário e colocou na parede de sua casa, sem nunca ter sido um comunista foi o primeiro a ter um pôster de Che, coisa que seria moda anos mais tarde.

Essa história me foi contada nos anos oitenta, por Napoleão Marques, dentista e velho comunista ilheense, que tomou muita cerveja com Dr. Ernesto, tendo inclusive emprestado seu consultório para o argentino atender pessoas carentes, sempre fiquei intrigado em saber quem era o americano Porter J. Goss, até descobrir com auxílio do Google, que se tratava de um agente da CIA que teve a missão de matar Che Guevara, tendo quase conseguindo cumpri-la no nosso Bataclan.

 

Gerson Marques  é Diretor Presidente da Chocosul – Associação dos Produtores de Chocolates do Sul da Bahia.

 

O Outeiro de São Sebastião: uma história de Ilhéus

Gerson Marques

 

gerson marquesO mar calmo do dia 20 de janeiro de 1536, permitiu a fácil navegação até o interior da baía, uma ancoragem tranquila marcou o fim de uma longa viagem que havia começado quatro meses antes em Portugal, era verão nos Ilhéus, já batizado de São Jorge, que recebia a primeira embarcação com colonos enviada pelo donatário da Capitania, Jorge Figueiredo Correia.

A exuberante colina tomada por uma densa floresta que dominava a entrada da baía, foi logo apontada como o ponto ideal para a construção das primeiras moradias e fortificações, a data deu o nome a colina, Outeiro de São Sebastião.

Nascido na cidade do Porto,  experiente em navegações pelos Açores e África, o marujo Manoel Antônio Gonzaga, foi encarregado de derrubar as primeiras árvores, abrir clareira e construir moradias, no dia seguinte acompanhado por mais três marujos subiu o Outeiro com grande dificuldade, trabalho duro, aberto a primeira clareira puderam se deslumbrar com a beleza da paisagem descortinada para o Atlântico, quando se preparavam para descer foram tomados de surpresa ao descobrirem uma família de macacos no alto de uma árvore, Manoel o único que possuía uma arma, não teve dúvidas,  apontou a velha besta carregada de pólvora e chumbo na direção dos bichos, notou que tratava-se de uma fêmea com filhote no colo e um macho forte pouco acima, com a mira feita em distância curta preparou para o disparo quando ouviu a macaca dizer em alto e bom som, “ou Inácio segura aqui Ignacio, vou ver se esse português é macho” descendo em balada carreira na direção ao português Manoel, assustado, tanto pela reação e mais ainda por ver bicho falar, fugiu em disparada desengonçado que escorregou na borda de um precipício e caiu de grande altura, falecendo imediatamente.

outeiro iosEm 1567, a Vila de São Jorge dos Ilhéus já se espalhava do Outeiro ao baixio plano e brejado que circundava o sopé do morro,  da beira mar até a enseada de dentro, onde o cais improvisado aportavam raras caravelas que bordeavam a costa, ligando os pequenos povoados a Salvador e Lisboa.

Por essa época, travava-se no Rio de Janeiro, ainda um povoamento, uma ranzinza batalha entre os franceses liderados por Nicolau Durand de Villegagnon, contra os portugueses, por sua vez liderados por Estácio de Sá. Com dificuldades para vencer a batalha e expulsar os franceses da Guanabara,          o governador Geral do Brasil,  Mem de Sá, resolve formar uma tropa, e ajudar seu sobrinho, recrutou em Ilhéus um exército mambembe formado por índios, caboclos e uns poucos portugueses, partiram por terra para o Rio de Janeiro em outubro de 1567, entre os Ilheenses logo se destacou Felisberto Duvivier, filho de um francês deportado, com uma Índia nativa de Olivença,  catequisada pelos Jesuítas, aceitou casar com o francês, tiveram vários filhos, o mais velho, Duvivier, nasceu no Outeiro de São Sebastião em maio de 1545, recebendo a reencarnação do espírito do finado Manuel, aquele dos macacos.

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Variações sobre o mesmo tema

 Gerson Marques

gerson marquesExiste um povo privilegiado, que vive ali, mas existe outro ainda mais privilegiado que vive aqui.

Os donatários de uma terra matizada em verdes e azuis,  mil tons e semitons, de florestas encantadas, rasgada por vales e  rios, habitada por fauna e flora onde a exuberância tem seu labor, e a chuva brinca de esculpir vales entre colinas verdejosas, não conhece extremos, tudo é ameno e sereno, o mar lambe praias infinitas, em sua  generosidade de azul celestial nos oferece frutos vivos, torrentes de nutrientes  sabores de mesas ricas.

Outros frutos também vicejam, em dezenas de variedades, entre eles um pingo de ouro, onde Theus fez Broma, a beber em rituais sagrados de ascendência Maia, que aqui virou riqueza de por comida na mesa, multiplicou-se em fartura e beleza.

A terra prometida dos pindorameiros ou seria pindomorenses, sei lá, qual o nome dessa gente nascidos aqui em Pindorama? Seriam  Grapiunas? ou nada disso, somente Pataxos, Tupinabás, Camacans e Mongoiós.

Uma ilha, outra ilha, um Ilhéus, e muitos itas, herdado da língua gostosa dos Tupis e tapuias, e suas pedras brancas, pretas, azuis, a pedra torta a pedra que ruge a pedra furada.

Terra das águas, de Iasã, dos muitos rios, riachos, boqueirões, corgo, nascentes, caudais e riachões, fluidos de vida, torrentes de nutrientes em forma de víveres aquáticos, onde a colheita se faz na ponta do anzol, no malho das redes, no jiqui e no jererê.

ilheusOré noun desta terra, comedores de raízes, mandioca, aipim, macaxeira, inhame e cará, gente acolhedora, e também  colhedora, extrativistas dos frutos arbóreos, onde no erguer da mão se encontra o cajá, as pitangas, jambos, jabuticabas, araçás, jenipapos e carambolas e tudo que de mais há.

Na criação de mundo, o que poucos sabem, segredo de sete chaves é que nesta terra de Pindorama, quis Deus, que aqui se fizesse uma espécie de almoxarifado de suas matérias essenciais, deposito da criação, estocava aqui o que usaria em sua sanha criativa por todo lugar.

Do madeira-me, plantou os jacarandás,  jequitibás, Ipés, pau  ferro, jatobá, angelins e mil outras espécies, em tamanha profusão que a tudo florestou.

Nada pode ser muito bem explicado, essa magia da essência, esse clima hidrófilo, essa profusão de cores, essa gente plurirracial, os descaminhos, as delongas os amores irascíveis e as glórias nunca vindas, mas vividas.

Ora, ora sei lá como, sobe o menino na Serra do Jequitibá, faz de lá uma canção, um canto de louvor, um hino a tamanha beleza, a esse estupor de infinita grandeza, e de lá um tambor ecoa na mata, e a magia tá explicada, tentada, cantada.

Queiram os Deuses de todos nós, mortais de terras imortais, habitantes passageiros desse paraíso, que sejamos dignos dessa eco, nossa Gaia essencial, e que de nossos ventres floresçam quem de fato as mereçam, tamanha glória existencial.

 

Gerson Marques  é Diretor Presidente da Chocosul – Associação dos Produtores de Chocolates do Sul da Bahia

O complexo de Gabriela

Gerson Marques

 gerson marquesNa bela música de Dorival Caymmi, feita para trilha sonora da novela Gabriela, de Jorge Amado, chamada Modinha para Gabriela, tem um trecho que diz assim “Eu nasci assim, eu cresci assim, Eu sou mesmo assim, Vou ser sempre assim Gabriela, sempre Gabriela…”

O Sul da Bahia talvez seja uma das regiões do Brasil, em que mais podemos sentir claramente viva uma identidade cultural própria e um certo sentimento de unidade social distinto, manifestado a partir de uma noção de pertencimento histórico a um local que detém uma dinâmica geográfica muito bem delineada.

O elemento social humano, morador e ator do Sul da Bahia, muitas vezes identificados como Grapiúna, assume, por assim dizer, uma identidade unitária diferenciada dos demais baianos, formando uma unidade geográfica e sociocultural reconhecida como Região Cacaueira, detentora de valores culturais, de história secular, de infraestrutura física e significativa oferta de serviços e equipamentos públicos.

Apesar deste sentimento de pertencimento regional e a clara noção de identificação cultural, temos ainda de forma latente a ausência explícita de um projeto de desenvolvimento regional que reflita e se sustente nas muitas variáveis econômicas e sociais que temos, sejam as naturais, sejam as criadas pelo homem.

gabriela cravoEm um simples exercício de reflexão, sobre esta realidade, podemos observar a existência de uma significativa oferta de equipamentos e infraestrutura, contrapondo-se a ausência quase completa de articulações produtivas entre os muitos atores institucionais existente, sejam estatais ou privados.

Sobressai portanto, uma realidade formada por ilhas, individualismo e desarticulações, incapaz de romper com o estigma de uma cultura refratária a construção associativista, e capaz de delinear um projeto comum, indutor de mudanças regionais e promotor de um desenvolvimento social e econômico sustentável.

O custo disso é a persistência da pobreza, do desperdício dos poucos recursos existente e da consolidação de um sentimento de impotência e descrédito, por parte da população, refletindo em uma baixa estima e desabonadores dados sociais.

Seria a ausência de um modelo de desenvolvimento regional uma ação política deliberada, por parte da elite política baiana com seu olhar fixo no umbigo soteropolitano?

Como entender o tanto e o tão pouco ao mesmo tempo?

Ou ao contrário, a inércia explícita dos atores regionais,  seria vistas a partir do olhar governamental e político, como uma incapacidade de articulação inerente aos sul baianos, apesar da riqueza de opções?

O Sul da Bahia, como ademais todo Nordeste, experimentou na última década mudanças significativas nos índices relativos às condições sociais dos seus habitantes, melhorou a renda média, o acesso a escola, reduziu a mortandade infantil e ampliou-se a expectativa de vida, entre outros.

Isso porém não é fruto de ações locais, reflete tão e somente as macro políticas do governo central, possivelmente até, não seria surpresa, que se, observadas com lupa, encontraremos uma baixa eficiência destas ações, uma vez colocadas em contraposição com outros territórios do Nordeste.

Como romper a inercia e construir um consenso?

Desculpem o excesso de dúvidas, melhor dizendo, o excesso de questionamentos, mas o fato é, apesar da evidente riqueza de ofertas, não conseguimos por exemplo responder adequadamente os desafios apresentados pela crise da cacauicultura, já são vinte e sete anos de decadência, ineficiência e ausência de um olhar estratégico, pior, sem mesmo se quer conseguir pautar um debate construtivo e inovador sobre a crise.

Tento aqui, chamar atenção para este tema, sem ainda considerar meus próprios pontos de vista, ainda que os tenha, confesso que não os tenho de forma conclusiva, se colocando mais no campo das dúvidas e questionamentos do que dos diagnósticos.

Vejo porém a necessidade urgente deste debate, até porque ele está aí nos desafiando e nos pedindo respostas, cabe aos que se propõem a coragem de enfrenta-lo, e reunir as condições para construção urgente de uma articulação e implantação de um plano de desenvolvimento regional pautado na inovação e na criatividade, capaz de fato de responder as necessidades da população e transformar essa realidade, sem abrir mão do que temos já conquistado.

A síndrome de Gabriela é fato, sem desmerecer Caymmi, não podemos portanto aceitar o fatalismo proposto em sua bela canção.

 

Gerson Marques  é Diretor Presidente da Chocosul – Associação dos Produtores de Chocolates do Sul da Bahia.

 

 

 

A invenção do Chocolate da Mata Atlântica

Gerson Marques

 

gerson marquesFazer chocolates é uma atividade muito nova para nos do Sul da Bahia, o antigo modelo exportador de matéria prima, com base monocultural, ficou congelado por mais de um século, travando alternativas e oferecendo um certo conforto, que mais tarde se mostraria insustentável.

Neste sentido, existe um fator positivo com a crise da vassoura, como ensina os orientais, as crises são o fim e início ao mesmo tempo, depende de seu ponto de vista, ou como se comporta perante a adversidade.

A busca por alternativas que viabilizasse saídas para um quadro de insustentabilidade econômica da atividade agrícola do cacau, foi sem dúvidas o fator motivador e indutor para o surgimento da chocolataria no Sul da Bahia.

Mas, como se faz chocolates? Está era a pergunta a ser respondida anos noventa, no mundo até então, prevalecia a escola Suíça, com forte tradição no chocolate ao leite, traduzido para o Brasil, em chocolates com baixo teor de cacau, baixa qualidade e muitos aditivos suspeitos, fidelizando consumidores de doces, com o nome chocolate entrando como fantasia.

A falta de tradição e conhecimento sobre a produção de chocolates, era uma dificuldade que parecia intransponível apontando para um mar de desafios pela frente.

chocolateTambém nos anos noventa, surge na Califórnia-EUA, um movimento de inovação do chocolate, comandado por chefs de culinária que resolveram reinventar o chocolate com base na seleção de amêndoas de alta qualidade e diminuição ou eliminação do leite na fórmula de seus inventos, este movimento ficou logo conhecido como “been tô bar”, foram fundamentais no desenvolvimento de uma linha de máquinas e equipamentos, de pequeno porte que viabilizaria o surgimento da micro e pequena fábrica de chocolate, coisa impensável pouco tempo antes.

Foi bebendo nessa fonte, e buscando ao mesmo tempo uma identidade própria, que no final daquela década o tema chocolate começou a fazer parte das rodas de conversas de alguns produtores que souberam interpretar a crise como oportunidade, em 1898 a Ceplac, sob inspiração de Raimundo Moro, faz a primeira planta industrial de fabricação de chocolates da região, dando início a uma série de pesquisas que resultaria na base de nossa atual chocolataria.

Vencido a inércia, os passos seguintes foram apressados, em pouco tempo começaram a surgir as primeiras empresas, cursos, palestras, seminários e todo um movimento de articulação institucional, que vem formando a base de nossa cultura chocolateira, gerando e disseminado conhecimento, hoje já existem mais de quarenta marcas de chocolate, vinte destas com qualidade e presença em prateleiras.

Já estamos na fase dos novos desafios, por um lado é urgente viabilizar economicamente as empresas, ganhar escalas e estabelecer a logística de distribuição, por outro a busca é pela qualidade e reconhecimento junto aos mercados e formadores de opinião, existe boas ações sendo implementadas nas duas frentes, a presença em feiras nacionais é internacionais, e a contratação de especialistas em acesso a mercado feito pelo Sebrae em parceria com os chocolateiros, já são iniciativas focadas em soluções de mercado, a criação de uma marca coletiva de identidade, vinculando nossos chocolates ao cacau produzido em consórcio com a Mata Atlântica, dentro da Cabruca e respeito ao meio ambiente, serão sem dúvidas elementos valorizados pelo consumidor a ser cativado.

Na busca pela qualidade, a iniciativa da Associação dos Produtores de Chocolates de Origem do Sul da Bahia em criar seu selo de qualidade de mostrar um amadurecimento dos produtores, esta evidente que a diferenciação pela qualidade é o único caminho para sobreviver neste mercado extremamente competitivo.

Uma pedra porém se põe no meio do caminho, a retomada da produção de cacau, principalmente com qualidade e técnicas modernas de produção, a busca pelo cacau fino de alta qualidade e excelente torrior, será o grande desafio dos chocolateiros nos próximos anos.

 

Gerson Marques, produtor de cacau e chocolate na Fazenda Yrerê e Diretor Presidente da Associação dos Chocolateiros  do  Sul da Bahia

 

 

 

Assim Caminha a Cacauicultura (parte 2)

Gerson Marques

gerson marquesPosta então a nova realidade e constatado o cenário de inovações que a introdução da chocolataria vem trazer, nos cabe agora a construção  das estratégias de desenvolvimento e consolidação do novo modelo de negócio do velho e bom cacau.

A principal característica deste novo momento será a diversidade de oportunidades de negócios, existem agora inúmeras formas de agregar valor ao cacau, sempre é bom lembrar que o mercado tradicional de comódite ainda será a principal parte do negocio por um bom tempo, a transição para o novo não significa o abandono do velho, mesmo neste segmento, no entanto, a inovação já se impõe, a grande indústria de moagem acusada de práticas sociais injustas em suas atividades na África,  começa a ver no Brasil o futuro de seus negócios, a introdução de mecanismos de certificação de qualidade e novas tecnologias de produção já são testadas em várias fazendas da região.

É neste cenário que está surgindo a adoção da indicação geográfica “IG Cacau Sul Bahia” a partir de uma articulação iniciada há seis anos envolvendo uma dúzia de entidades de produtores de cacau, muitas delas da agricultura familiar, agregadas na Associação Cacau Sul Bahia, que agora chegou a reta final no INPI – Instituto Nacional de  Propriedade Industrial, se confirmada as expectativas, até o fim deste ano o cacau do Sul da Bahia será o segundo produto do estado a ter este selo, depois da Cachaça de Abaíra.

cacau frutoEm outra frente assistimos um incipiente mercado de cacau “of road” não comódite, que vem crescendo de forma significativa, o chamado Mercado de Cacau Fino, em que o produtor consegue bonificações de até trezentos por cento sobre o preço de seus produtos, neste mercado os concursos da Icco, Prêmio Internacional de Cacau (ICA) e Prêmio Cacau de Excelência (CoE), são uma excelente referência, produtores premiados como João Tavares, Pedro Magalhães, M Líbano e Vale da Juliana já estão bem posicionados neste mercado, que no entanto, é dominado por países de pequenas más tradicionais produções, como Equador, Colômbia, Guatemala e outros  inclusive da Ásia,

A desorganização institucional do setor cacaueiro n Brasil, no entanto, não permite uma dimensão real do tamanho deste seguimento, ainda não é passível seu real tamanho em relação ao total da cadeia, apesar de sua importância e crescimento evidentes nos últimos anos.

Ainda antes de chegar no chocolate, outra inovação observada está no negócio do nibs de cacau, que simplesmente não existia há alguns anos e que hoje já se impõe como um produto de prestígio e valor, consumido por um público havido por saúde e alimentos funcionais, tenho acompanhado diversos negócios de nibs, alguns já na casa da centenas de quilos por valores bastante significativos.

Ainda dentro da cadeia, outro seguimento que começa a esquentar são os de derivados de cacau, que não chocolates, pessoas inovadoras e muito criativas tem feitos produtos de excelente qualidade e bela apresentação, amêndoas caramelizadas, rapadura de cacau, geleias e nibs com açúcar, sal e ervas finas, já são produtos consolidados em embalagens elaboradas com boa recepção no mercado.

Por fim temos o chocolate, este produto universal, amado e desejado em todo planeta, conhecido como alimento dos deuses e reconhecidamente saudável, historicamente  importante para a humanidade.

(na terceira parte deste artigo, avançaremos sobre os chocolates…)

Gerson Marques é produtor de Cacau e Chocolate, proprietário da Fazenda Yrerê, onde trabalha com turismo rural, e atual presidente da Associação dos Produtores de Chocolate do Sul da Bahia. 

Assim caminha a cacauicultura (parte 1)

Gerson Marques

gerson marquesPerde tempo quem busca uma saída para a cacauicultura olhando para trás, jamais retornaremos ao que já fomos um dia, não só porque o tempo não volta, mas principalmente porque a realidade é uma força  imperativa.

Deixo o debate sobre causas para os que querem olhar pra trás, faço coro com os que trabalham sobre os efeitos e encontram  nestes as oportunidades de futuro.

Passado o passado,  nos deparamos com um cenário, até então pouco conhecido por nós, e ainda incipiente no mundo, neste cenário o cacau é mais que comódite, é a engrenagem de uma máquina poderosa geradora de negócios na indústria de alimentos especializados de alto valor agregado como os chocolates intensos, de origem e nibs de cacau por exemplo, estrelas de destaque, apontando para um perfil inovador desta indústria.

Estas inovações refletem mudanças de comportamento e hábitos que estão acontecendo há algum tempo na sociedade, e vem acentuando ultimamente, apontam na consolidação de uma poderosa nova classe de consumo, formada por pessoas que valorizam a qualidade orgânica e a funcionalidade física dos alimentos, a segmentação entre categorías como orgânicos, fitness, veganos, slow food, oferecem oportunidades para o cacau que jamais imaginamos.

cacau (6)Nossa tradição de vendedores de mercadoria primária em forma de amêndoas, nos distanciou da compreensão de que o cacau, se situa entre os três mais importantes alimentos da humanidade, que sua composição organoléptica e suas qualidades nutricional, fazem dele uma estrela em ascensão neste novo mundo de consumo consciente.

Exatamente aí, que se situa as novas fronteiras para a nossa cacauicultura,  são nestas fronteiras que se coloca nossos novos desafios e nestes, estão o desafios de fazermos os melhores chocolates do mundo,  ainda mais que isso, de vendermos cacau e nibs de alta qualidade e funcionalidade para indústrias de transformação ou mesmo para o consumidor final.

chocolateExiste uma cena regional formada por uma centena ou mais de produtores que já buscam se posicionar nesta perspectiva, são a vanguarda desta nova era, nos últimos anos temos acumulado uma significativa experiência neste tema, a consolidação da cena chocolateira, por exemplo, é uma prova de nossa competência, hoje temos cadastrado mais de quarenta marcas de chocolates de origem regional, alguns já alcançando qualidades excepcionais e reconhecimento do consumidor, assistimos a institucionalização deste seguimento, via a criação da Associação dos Produtores de Chocolates de Origem, em paralelo o forte e organizado movimento da Associação Cacau Sul Bahia que avança para consolidar o selo de denominação de origem – IG Cacau Sul Bahia, existem também ações vitoriosas como as Cooperativas  Cabruca em Ilhéus e Coopag em Gandu, que vendem cacau de valor agregado fora do mercado de comódite.

Estamos no início deste processo, e o tema exige um aprofundamento deste olhar que continuarei fazendo nos próximos artigos.

Gerson Marques é produtor de Cacau e Chocolate, proprietário da Fazenda Yrerê, onde trabalha com turismo rural, e atual presidente da Associação dos Produtores de Chocolate do Sul da Bahia. 

 

 

Cacau, chocolate, turismo e negócios. Gerson Marques estréia no Blog do Thame

gerson marquesNeste final de semana  tem estréia no Blog do Thame. O  presidente da  Associação dos Produtores de Chocolates do Sul da Bahia, produtor rural e empresário   Gerson Marques passa a assinar uma coluna sobre cacau, chocolate, turismo e negócios.

Em sua primeira coluna, que será publicada no sábado, ele aborda os novos rumos da região cacaueira, com a produção de chocolates finos, criando  oportunidades para quem trabalha com os olhos voltados para o futuro.

Gerson soma-se ao quadro de colunistas do Blog, que já conta com com colunas sobre Direito, com Débora Spagnol, Nutrição, com Andrea Spier, e Medicina Veterinária, com Hannah Thame e Esportes, com Daniel Thame.

Fazenda de turismo rural em Ilhéus cria marca de chocolate

yrere 2O casal Gerson Marques e Dadá Galdino é proprietário da Fazenda Yererê, na zona rural de Ilhéus, no Sul da Bahia. Integrada ao projeto do Sebrae Indústria Setorial Ilhéus – Derivados de Cacau, a propriedade é um case de sucesso no segmento do Turismo Rural. Na sede, os visitantes, a maioria de estrangeiros, são recepcionados pelos donos e por trabalhadores rurais. Em três horas, conhecem a história e o funcionamento da fazenda, degustam pratos típicos, ouvem ‘causos’ locais dos antigos coronéis de cacau e ainda visitam o maior orquidário da região.

yrere 1Neste mês, os empresários lançam um novo produto para agregar valor a sua produção de cacau e oferecer mais um atrativo aos turistas: uma marca própria de chocolates finos feitos com amêndoas selecionadas e teor de 54% e 70% de cacau puro. O chocolate será produzido em parceria com o Instituto Cabruca e as primeiras unidades serão em barras de 80g e bombons de 12g.

Gerson Marques destaca que os chocolates de origem do Sul da Bahia estão ganhando reconhecimento mundial e se tornando um bom e lucrativo negócio. “Os turistas antes chegavam perguntado por novelas. Hoje, a procura é por chocolates e vamos tê-los em nossa linha de produtos”, afirma.

A nova fase dos negócios também conta com o apoio do Sebrae, segundo o empresário. “Teremos uma consultoria para desenvolvimento do produto, envolvendo aspectos administrativos, financeiros e de marketing para a evolução da marca”.

Daniel Thame
Daniel Thame, jornalista no Sul da Bahia, com experiência em radio, tevê, jornal, assessoria de imprensa e marketing político danielthame@gmail.com

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