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As presidências da Academia de Letras de Ilhéus

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Efson Lima

 efson limaA Academia de Letras de Ilhéus nos seus quase sessenta e um anos de história teve treze presidentes, alguns ocupando mais de um exercício presidencial. Ao longo do ano de 2019 fomos trazendo fatos e personagens que compuseram a trajetória da ALI: narramos sobre os principais membros; sinalizamos sobre a literatura grapiúna; descrevemos alguns jovens que estão presentes na Academia; as mulheres; a presença dos juristas, que por sinal, merece outro texto. São muitos. Um só não deu a dimensão exata.

No futuro, precisamos abordar sobre os profissionais da saúde e do cuidado, assim como dos secretários-gerais que nos sodalícios das letras ocupam uma função destacada, assim como nos partidos comunistas.

Hoje, a nossa conversa é sobre alguns presidentes que lideraram a Academia de Letras de Ilhéus desde a sua fundação em março de 1959.  Maria Schaun, que compõe o quadro da Academia, registrou os seguintes presidentes, com base nas atas registradas e em suas anotações: Abel Pereira – 1959/1961/1963; Plínio de Almeida – 1963/1965/1967; Amilton Ignácio de Castro – 1975/1977/1979/1981/1983; Dorival de Freitas – 1993/1995; Ariston Cardoso – 1997/1999/2001/2003/2005; Francolino Neto – 2001/2003; João Hygino Filho – 2005/2007; Maria Luiza Heine – 2008/2009; Arléo Barbosa – 2009/2011/2013; Josevandro Nascimento – 2013/2015/2017; e André Rosa – que está ocupando o segundo mandato, iniciado em 2019.

O primeiro e um dos fundadores da ALI foi Abel Pereira, que comandou nos períodos de 1959/1961/1963. Foi também um dos percussores do haicai no Brasil. Nasceu em Ilhéus, precisamente, no ano de 1908 e faleceu em maio de 2006, com quase 100 anos de idade.  Esteve associado a tantos outros organismos literários.

Em seguida foi eleito presidente da ALI, Plínio de Almeida, que teve uma forte atuação política em Itabuna, contribuindo para o município ser considerada uma cidade integralista destacada no Brasil. Em seguida, tivemos uma série de presidentes: Amilton Ignácio de Castro – 1975/1977/1979/1981/1983; Dorival de Freitas – 1993/1995; Ariston Cardoso – 1997/1999/2001/2003/2005; Francolino Neto – 2001/2003, que será descrita em outra oportunidade.

Outro presidente da ALI foi João Hygino persistente acadêmico do sodalício, pertenceu à cadeira n.01.  O acadêmico foi autor de “Deus e os Deuses” (2008) e exaltou Porto Seguro, sua cidade natal.  Faleceu no ano passado, em 06 de março. Exerceu a presidência entre 2005/2007, quando adoeceu e foi sucedido pela professora Maria Luiza Heine na presidência.

A professora Maria Luiza Heine pertence ao quadro da Academia de Letras de Ilhéus e ocupa a cadeira n.º 20. Ela foi morar em Ilhéus nos anos 70. É doutora em Educação pela UNEB. Tem uma vasta obra de pesquisa sobre a história regional e tem atuado fortemente com pesquisa e extensão universitária. Atualmente atua em Aracajú. Exerceu a presidência da Academia entre 2008 e 2009.

 

Efson Lima  é Doutor em Direito/UFBA. Coordenador – geral da Pós-graduação, Pesquisa e Extensão da Faculdade 2 de Julho. Das terras grapiúnas de Itapé/Ilhéus.

Os “consulados estrangeiros” em Salvador

Efson Lima

 

efson limaDiante do conflito que tem se acirrado entre EUA e o Irã nos últimos dias sempre vem uma pergunta clássica: como os cidadãos destes países e de outros Estados são socorridos estando no palco do conflito? Uma das iniciativas são as orquestrações e orientações expedidas pelas embaixadas, bem como pelas repartições consulares aos seus respectivos nacionais. E em Salvador será que temos alguma repartição consular?

Uma curiosidade envolvendo as repartições consulares na Bahia é que, em 2019, ao ser ministrada a disciplina de Direito Internacional na Faculdade 2 de Julho, buscamos aproximar o conteúdo da realidade dos estudantes.  Para tanto uma das primeiras inquietações foi supor que Salvador tinha um número razoável de representações consulares.  Sendo assim, para deixar os graduandos mais motivados foi realizada uma visita ao Consulado de Cuba, na Barra.

Após, a visitação, desafiamo-nos a mapear e a ir a outros consulados existentes em Salvador. Então, testou-nos consultar a relação de órgãos estrangeiros no Brasil fornecido pelo Itamaraty, fazer consultas nos sites de buscas e outros meios. A breve pesquisa constatou que Salvador possui um impressionante número de 29 repartições consulares. Algumas óbvias, como o Consulado da Espanha, visto o contingente de espanhóis na Bahia, assim como de alguns países africanos pelas relações socioculturais com a Bahia. Outros consulados nem tanto parecia perceptível, como os da Turquia, Japão e Hungria.

efson    Tais informações podem passar despercebidas no dia a dia. Entretanto, não deveria ser assim. Salvador é uma cidade turística.  Ela recebe milhares de turistas e vários são os episódios envolvendo os cidadãos estrangeiros neste período do ano. Por outro lado, são espaços de fomento a cultura das nacionalidades; promovem diversas atividades e ações de integração com os seus nacionais e soteropolitanos.

A Convenção de Viena de 1967, que regula as relações consulares, estabelece diversas funções, entre elas: a proteção, no Estado receptor, os interesses do Estado que envia e dos nacionais dentro dos limites permitidos pelo direito internacional; fomentar o desenvolvimento das relações comerciais, econômicas, culturais e científicas; e promover ainda relações amistosas entre os Estados e prestar ajuda e assistência aos nacionais, inclusive, pessoas jurídicas.

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O imortal Edvaldo Brito – O encontro da Academia de Letras de Ilhéus com a Academia de Letras da Bahia

Efson Lima

efson limaAs estórias começam assim: era uma vez, no interior da Bahia nasceu um menino, precisamente, no Recôncavo. De família humilde, cuja mãe tinha como “profissão lavadeira de ganho”,” Edvardo” tinha tudo para ser domado pelas regras do determinismo. Sendo negro, parecia já ter nascido com o sonho proibido e o destino traçado. Mas como dito “era uma vez” e em algum instante a história pode não se repetir, possibilitando assim o sujeito fugir das amarras e o círculo vicioso imposto a milhares de crianças brasileiras.

Fé, superação, apoio coletivo, esforço pessoal… uma palavra só explica? Um só fato evidencia? Talvez não. Só Sabemos que, no dia 29 de novembro de 2019, a Bahia ganhou seu mais novo imortal.  Edvaldo Brito passou a fazer parte do seleto clube do Estado da Bahia.  Foi pertencer à Academia de Letras da Bahia, fazendo parte da centenária Casa de Arlindo Fragoso. Somou-se a homens e mulheres que nos apresentam caminhos, contam-nos fantasias e nos impõem o   à realidade combalida. A cadeira n.°3 ocupada por Guilherme Radel será reverenciada pelo jurista.

edvaldo britoSalvo melhor juízo não é a cadeira que torna uma pessoa imortal, mas a obra, a caminhada… e o advogado, professor, escritor e intelectual Edvaldo Brito  possui uma carreira formidável. Ele integra o conjunto de grande juristas do  Brasil. Seguiu a tradição baiana de  excelentes juristas: Rui Barbosa,  Teixeira de Freitas, Orlando Gomes, Aliomar Baleeiro… Oh, céus! Para nossa honra e glória.

Com a vênia, chamá-lo-ei de professor, tive a honra de ter sido seu aluno no mestrado da Faculdade de Direito da UFBA  em 2013, cuja disciplina Jurisdição Constitucional tinha sido feita para acompanhar as mobilizações de ruas, os embates sobre o controle das decisões do STF em face das ações constitucionais concentradas, o  (não) monopólio das investigações pela polícia. Foi oportuno aprender com o mestre o quanto é imperioso o cumprimento do programado academicamente, o compromisso com a docência e o sacerdócio diário da retidão, a pontualidade e a persistência com o compromisso intelectual.  Verdade seja dita: sofri,  confesso, mas a admiração permanece.

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Os juristas na Academia de Letras de Ilhéus – o ministro José Cândido Carvalho

Efson Lima

 

efson limaAs letras parecem estar para o mundo jurídico, assim como os enredos jurídicos estão para as letras, entretanto, não vaticinarei, pois, o determinismo não faz bem ao progresso das ideias. Talvez, se fôssemos aprofundar os estudos, veríamos que juristas, médicos, diplomatas e outras categorias profissionais vivenciam o mundo das letras como vivenciam suas profissões. Certamente, poderíamos encontrar as causas a partir da estruturação da sociedade brasileira.  Não obstante, as primeiras instituições universitárias no Brasil estiveram atreladas às formações médica e jurídica.

 

Ao se observar o quadro de fundadores da Academia de Letras de Ilhéus, assim como os sucessores e os membros atuais tem-se um a presença maciça desse grupo, podemos registrar entre os falecidos: Francolino Neto, João Hygino, Orlando Gomes e João Mangabeira. Vivos têm uma plêiade poderosa: Soane Nazaré, Jane Hilda Badaró, Edvaldo Brito, Mário Albiani, Neusa Nascimento, Cyro de Mattos entre tantos outros, cuja lista poderia ser tranquilamente acrescida.  Não obstante, a ALI tem como patrono Rui Barbosa, que foi um jurista. Entre os juristas, podemos evidenciar a  figura do ministro José Cândido.

 

José Cândido Carvalho

José Cândido Carvalho

O ministro José Cândido integrou o grupo de fundadores da Academia de Letras de Ilhéus em 1959, ocupando a cadeira de n.°39, cujo patrono escolhido foi Visconde de Cairu.  Não obstante, José Cândido esteve entre os convidados na casa de Abel para fundar a academia “Aos quatorze dias do mês de março de mil novecentos e cinquenta e nove (1959), nesta cidade de Ilhéus, do Estado Federado da Bahia, precisamente as 17 horas, na residência do intelectual Abel Pereira, Edifício Magalhães, 2o. andar, apartamento 2, à Praça Visconde de Mauá, reuniram-se os srs. Abel Pereira, Nelson Schaun, Wilde Oliveira Lima e Plínio de Almeida, membros da comissão de iniciativa, e mais os convidados Dom Caetano Antonio Lima dos Santos, Osvaldo Ramos, José Cândido de Carvalho Filho, Halil Medauar, Jorge Fialho e Otávio Moura- para o caso especial de se estudar o plano e consequente fundação da Academia de Letras de Ilhéus.  Nessa reunião, fizeram-se representar pelo Sr. Abel Pereira, por meio de cartas de autorização, os srs. Fernando Diniz Gonçalves, Sosígenes Costa, Camilo de Jesus Lima, Raimundo Brito, Eusígnio Lavigne, Ramiro Berbert de Castro, Flávio Jarbas, Heitor Dias, Flávio de Paula e Milton Santos”, conforme trecho de Ata reproduzido por Jane Hilda Badaró no artigo “A Academia de Letras de Ilhéus Comemora 60 Anos de História! “
O Ministro José Cândido era o único fundador vivo, entretanto, estabeleceu o destino que partisse para outro plano, justamente, no ano em que a Academia de Letras de Ilhéus completara 60 anos – a idade do diamante. Certa vez, lia no Diário de Ilhéus, que a rua onde está instalada a subseção da Justiça Federal tinha tido o nome alterado para “Rua Ministro João Cândido de Carvalho”, confesso que estranhei. Eu não compreendia o motivo da alteração, certamente, faltava-me naquele momento informação suficiente para compreender a dimensão do Ministro e a relação dele com a cidade de Ilhéus. O tempo passa e se confirma como o senhor das razões. Então, fazendo minhas leituras, fui compreendendo o quanto o Ministro João Cândido tinha sido importante para Ilhéus e para a Bahia. Assim como, a sua atuação profissional tinha nos elevado no País.

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João Mangabeira: um imortal dos quadros da Academia de Letras de Ilhéus

Efson Lima

efson lima Sempre que tenho algum tempo busco ler fatos associados a João Mangabeira. Por vezes, os feitos, os acontecimentos e as pessoas passam despercebidas por nossos olhos apressados ou cometemos a injustiça de não lembrar, afinal, são muitas as informações no nosso dia a dia. Já não processamos tudo. Entretanto, João Mangabeira se notabilizou como um grande jurista no País, integrando o conjunto de notáveis juristas baianos do século XX, como Rui Barbosa, Orlando Gomes, Aliomar Baleeiro e Josaphat Marinho.

Os mais moços, certamente, podem passar apressados pelas ruas da cidade de Ilhéus – estou a relembrar a música “Gentileza” de Marisa Monte -, verem algumas homenagens prestadas a João Mangabeira e nem se darem conta de que esse jurista iniciou sua carreira na zona do cacau, precisamente, na Princesa do Sul. E com uma característica marcante de sua atuação profissional, João Mangabeira esteve muito próximo dos trabalhadores rurais, buscou estar ao lado dos empregados e colaborando com a estruturação do direito do trabalho no Brasil.

João Mangabeira, aos 17 anos um adolescente advogado.

João Mangabeira, aos 17 anos um adolescente advogado.

Não sem razão, João Mangabeira tem seu nome sinalizado nas terras do cacau. Certa vez, eu passando no CEDOC/UESC, perguntei se havia algum arquivo sobre João Mangabeira. Tinham diversos processos, tinha uma cópia de tese escrita no Canadá. Não obstante, o Centro Acadêmico de Direito da UESC recebe o nome de João Mangabeira, o CAJAM, o Fórum do Trabalho em Ilhéus.

João Mangabeira não fez sua formação jurídica em terras baianas, mas a sua atuação profissional transcorreu de forma  significativa no coração da Bahia. O arquivo pessoal está guardado no Rio de Janeiro sob os cuidados da Fundação Getúlio Vargas. Por outro lado, restos mortais estão na Faculdade de Direito da UFBA, no bairro da Graça. Impossível chegar à Faculdade de Direito e não se deparar com um “sarcófago” de pedra com uma bola azul na parte superior em homenagem a João Mangabeira. Fez parte de meu dia a dia durante dez anos, da graduação ao doutorado.

João Mangabeira se forma em direito em 1897 e aos 17 anos foi morar em Ilhéus, onde iniciou a sua vida de advogado. Um jovem! Destacou-se na cidade, possibilitando sua chegada a condição de prefeito, assim como de deputado estadual.  Tornou-se também deputado federal pela Bahia entre 1909 e 1911 e entre 1914 e 1929 e senador em 1930, entretanto, acabou tendo seu mandato cassado com a Revolução de 1930 orquestrada por Getúlio Vargas.  Foi uma derrota, especialmente, os sulbaianos. Posteriormente, foi nomeado Ministro de Minas e Energia e ocupou também a função de Ministro da Justiça.  Foi também um dos fundadores do Partido Socialista Brasileiro (PSB).

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Milton Santos: um intelectual com passagem no Sul da Bahia

Efson Lima

 

efson limaMilton Santos não é ilheense de nascimento. Nem precisaria ser, pois, Ilhéus sendo uma cidade mãe acolhe com carinho. O geógrafo é de Brotas de Macaúbas, interior da Bahia. Milton Santos morou na Princesinha do Sul e alcançou o mundo seja fisicamente seja intelectualmente. Ele possui um vasto currículo, inúmeros livros publicados, entre eles: “Por uma outra Globalização” e recebeu diversas distinções de doctor honoris causa. Gigante para a Geografia e para o mundo das letras. Foi um pesquisador viajante, engajado e comprometido com um mundo melhor, promoveu teoria e vivenciou a prática.

 

O intelectual Milton Santos se tornou bacharel em Direito pela Universidade Federal da Bahia em 1948 e se doutorou em Geografia pela Université de Strasbourg na França em 1958. Fez prova viva da interdisciplinaridade, quando essa corrente era pouco conhecida. Milton Santos já doutor se colocava à disposição para fundar a Academia de Letras de Ilhéus, carinhosamente chamada de ALI.  Na Academia de Letras de Ilhéus, Milton Santos ocupou a cadeira n.° 35, cujo patrono é Simões Filho. Atualmente, a cadeira é ocupada pela Senhora Maria Schaun, uma das mentes brilhantes do sul da Bahia. Ela foi responsável por acompanhar diversas produções de livros da nossa gente grapiúna através da Editus e, atualmente, secretaria a formação de diversos jovens via o Prodema/UESC.

 

milton santosAinda em Ilhéus, Milton Santos lecionou no Instituto Municipal de Ensino Eusínio Lavigne, famoso IME, lugar responsável por instrumentalizar a formação de centenas de pessoas da região. Um patrimônio da educação no Estado da Bahia. Milton Santos aproveitou sua incursão na região para vivenciar uma realidade territorial urbana e rural, certamente, pode constatar o cacau como a principal fonte de renda do período na região. E mais que isto, como todo intelectual costuma fazer, foi registrando as vivências e aprendizagens, sintetizando e oportunizando novas reflexões. Não sem razão o primeiro livro de Milton Santos teve por objeto a Bahia, cujo título é “O povoamento da Bahia: suas causas econômicas.” Milton Santos foi correspondente do jornal “A Tarde” na zona cacaueira do Estado da Bahia entre 1949- 1953.

 

Registra-se que Milton Santos chegou a Ilhéus nos fins dos anos quarenta, certamente, após sua formação universitária.  A vocação de Milton Santos estava na área do ensino e após retornar para Salvador, ele foi lecionar na Universidade Católica de Salvador no período de 1956-1960, posteriormente, em 1961 ingressou na Universidade Federal da Bahia.

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Euclides Neto: um exercício profissional a serviço do direito agrário e da literatura

Efson Lima

 

efson lima   A Bahia é o estado mais agrário do país. Possui o maior número de áreas agropecuárias, tendo os estabelecimentos agropecuários ocupando 49,18% da área total do estado. Mas nem sempre o direito agrário teve o seu devido tratamento em terras baianas. Na Faculdade de Direito da UFBA, por exemplo, entre os anos 2007 e 2012, período em que estudei, a disciplina era optativa e não foi disponibilizada para os estudantes da graduação. Com a criação do curso noturno, boas ventanias sopraram e o projeto pedagógico contemplou obrigatoriamente a disciplina.

Um dos ilustres estudantes da centenária Faculdade de Direito/UFBA, Euclides Neto, enveredou-se pela seara do direito agrário, tornando-se um farol não só para a advocacia, mas também como gestor e literato ao estabelecer uma simbiose para o mister profissional.  O exercício da advocacia para Euclides Neto foi instrumento de combate às desigualdades e preocupação constante com o homem do campo.

euclides 2O pensamento de homem público levou Euclides Neto a alcançar a gestão pública. Tornou-se prefeito da cidade de Ipiaú em 1961 e uma de suas ações foi promover reforma agrária ao implantar a “Fazenda do Povo”.  Talvez, ele tenha sido o primeiro gestor público a fazer no modelo proposto.  Ele também se tornou secretário do governo do Estado da Bahia na gestão de Waldir Pires ao ocupar a pasta da Secretaria de Agricultura, Reforma Agrária e Cooperativismo.

A escrita de Euclides Neto reúne treze obras, entre elas, Porque o homem não veio do macaco, 1942; Vida Morta, 1947; O Patrão, 1978; 64: um prefeito, a revolução e os jumentos, 1983; A enxada e a mulher que venceu o próprio destino, 1986; Dicionareco das roças de cacau e arredores, 1997; Trilhas da Reforma Agrária, 1999; e O tempo é chegado – publicação póstuma, 2002.  Manter vivo o pensamento literário de Euclides Neto é promover reflexões, especialmente, sob o homem do campo, a reforma agrária e o real sentido do direito agrário.

euclides 1A vasta produção literária de Euclides Neto o credenciou para fazer parte do quadro de membros da Academia de Letras de Ilhéus, tendo posse em 18 de maio de 1990  e permaneceu até 05 de abril de 2000, quando faleceu em Salvador. Como sabido, a Academia de Letras foi fundada em 1959, talvez, tenha sido primeiro embrião intelectual surgido no século XX em Ilhéus, chegou tardiamente. A região já ostentava riqueza e correspondia sobremaneira pelas finanças do Estado da Bahia.  É interessante registrar que alguns membros  que participaram da  formulação da ALI serão também os formuladores da Faculdade de Direito de Ilhéus, entre eles, Francolino Neto.            Geraldo Lavigne, escritor sulbaiano, em seu discurso de posse na Academia de Letras de Ilhéus, cuja cadeira n.º 23 já havia sido ocupada por Euclides Neto, sintetizou que “A obra de Euclides Neto é essencialmente debruçada sobre o homem. Por meio da literatura, fez contundentes denúncias sociais, expôs a luta de classes, e manteve-se firme na ideologia socialista. O campo e, inevitavelmente, o cacau foram cenários importantes da obra que revelou a identidade regional pelo viés do realismo. Os enredos transitaram entre a violência, os latifúndios e as diferenças socioeconômicas.”

 

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A literatura de cordel – o reino da cultura popular. Uma prática pedagógica

Efson Lima

 efson lima                A literatura de cordel pode ser meio para a síntese da oralidade, da escrita e da xilogravura. A rima é consequência da realidade. É prova viva do encontro entre o real e o imaginário, do presente com o futuro; do ontem com a esperança. Fatos que, a depender da ótica, são registrados como histórias, estórias, causos, orientações, mitos, adivinhações… Sejam desígnios da natureza, do sobrenatural, dos fatos sociais todos vão ou foram sendo narrados. É assim que as nossas cabeças são povoadas, fertilizadas e aradas para a plantação da cultura.

Recorro a minha pobre memória de menino, que, quando criança, caminhava do povoado de Entroncamento, às margens da BR 4015, ao local da feira na cidade de Itapé, quatro quilômetros de distância. Todos os sábados eram motivo de festa – parte de meu lazer. Tão logo alcançasse às 5 horas da matina, eu levado por minha mãe com outras mulheres partíamos em direção ao centro da cidade.

 

Janete Lainha

Janete Lainha

Podemos dizer que a feira é um não-lugar. As pessoas chegam, colocam o que pretendem vender e dão o expediente de acordo com a tradição local. São diversos produtos comercializados: carnes, frutas, roupas, utensílios, mingaus… É uma diversidade enorme. Cabem também as diversas expressões humanas: a dança, a capoeira, os jogos, a cachaça, o lazer e, claro, a literatura de cordel.

Foi nesse ambiente que conheci a literatura de cordel.  Não fui tocado primeiro pela literatura escrita, mas pela literatura cordelista, que mediou meu interesse pela leitura, pois, a escrita esbarrava na minha alfabetização tardia. Podemos extrair que em um país agrário e com uma alta densidade de analfabetos, certa medida, a literatura cordelista foi cumprindo com seu papel.

 

Joselito Martins

Joselito Martins

Assim sendo, a literatura de cordel encontrou nas feiras um espaço privilegiado para se popularizar no nordeste. Entretanto, costumes e hábitos são reinventados, logo, as feiras sofreriam com a concorrência de hipermercados, supermercados, mercados… Mas a capacidade humana é virtuosa ao possibilitar mudanças e cuidar das readaptações.  Nesse processo, certa vez, pelas praias de Ilhéus encontrei a mestra Janete Lainha.  Ela já havia me encantado ainda quando eu morava em Ilhéus com a representação da personagem Gabriela. Mas, a curiosidade estava na capacidade dela apresentar um novo processo de comercialização do cordel, assim como as feiras, certamente, não faltam praias exuberantes e povoadas de pessoas no nordeste brasileiro.  É também um não-lugar. Lá estava essa mulher apresentando um design thinking.

A mestra Janete Lainha possui mais de 800 cordéis. Isto mesmo!  São textos que versam sobre diferentes temas, abordam o meio ambiente, registram fatos históricos, embates e debates sociais, personagens, situam os nossos sítios históricos cumprem com a função social.  A mestra Janete Lainha está em diversos lugares. É uma ativista cultural. Ela está na defesa da cultura e das nossas tradições. É compromissada com o presente sem deixar de recorrer às tradições para sonhar com um futuro promissor.  Ela dispensa adjetivos, substantivos e apresentações, mas não podemos deixar de considerar que estamos a dialogar sobre uma cordelista, xilogravurista, atriz, poetisa, artista plástica, produtora cultural e uma exímia militante social. Por qual razão não dizer que é nossa embaixadora ilheense? Encontro-a nas feiras literárias da Bahia.

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Jorge Amado: um eterno imortal para além de sulbaiano

Efson Lima

 

efson lima   O nosso autor sulbaiano mais destacado da literatura nacional completou 107 anos em 10 de agosto de 2019. Imortalizado na Academia de Letras de Ilhéus, Academia de Letras da Bahia e Academia Brasileira de Letras permanece vivo. Certamente continuará povoando nossas cabeças, nossos imaginários e seduzindo milhares de pessoas para a literatura, assim como eu fui atraído pela obra Capitães de Areia, Gabriela, Cravo e Canela entre outros clássicos. Em Ilhéus se somou a Abel Pereira e a Nelson Schaun, Wilde Oliveira Li8ma e Plínio de Almeida, os quatro últimos membros da Comissão de Iniciativa para fundarem a Academia de Letras de Ilhéus em 1959, que vivencia o ano diamante.

Na Academia de Letras de Ilhéus pertenceu a cadeira de n.°13, cujo patrono Castro Alves o influenciou na produção de suas obras. Por sinal, neste ano, a Literária Internacional do Pelourinho homenageou o poeta abolicionista, cuja FLIPELÔ organizada pela Fundação Jorge Amado presta homenagem ao escritor das terras do cacau, terras essas que conferem identidade a nação grapiúna e ao seu povo. A cadeira de n.°13 o acolheu sua esposa, Zélia Gattai e, agora, acolhe nosso escritor Pawlo Cidade que tem prestado significativos serviços ao campo da gestão cultural no Estado da Bahia, assim como tem construído significativamente uma vasta obra literária, cuja preocupação ambiental aparece em seus livros. Tema que se tornou hodiernamente tão emblemático, especialmente, com a atual gestão federal no país, que parece não ter preocupação com as gerações do presente e muito menos com as futuras.

jorge amado     Na Academia Brasileira de Letras foi eleito, em 6 de abril de 1961, para a cadeira n.° 23, que tem por patrono José de Alencar e por primeiro ocupante Machado de Assis. Jorge Amado, um crítico das academias, na fase adulta, reverá seus posicionamentos, como assinalou em seu discurso de posse na ABL: “Chego à vossa ilustre companhia com a tranqüila satisfação de ter sido intransigente adversário dessa instituição, naquela fase da vida, um que devemos ser, necessária e obrigatoriamente, contra o assentado e o definitivo, quando a nossa ânsia de construir encontra sua melhor aplicação na tentativa de liquidar, sem dó nem piedade, o que as gerações anteriores conceberam e construíram.” O tempo é senhor de nossas razões. E como é!

No início deste texto, disse “nosso autor”, só mesmo para ressaltar mesmo a origem. O escritor pertence ao mundo. É símbolo de nossa terra, nascido em Ferradas, em Itabuna, não só se imortalizou, mas imortalizou-nos na literatura universal. As suas obras de cunho regionalistas conseguiram ter sentido no Chile, na França, em Portugal, na Itália, na antiga URSS. Conseguiu-nos orgulhar. Jorge Amado que recebeu diversas críticas, marginalizado pela crítica do sul, continua vivo em nossas memórias e provocando críticas de diversos movimentos. Sempre que posso pergunto-me, será que o escritor deve agradar ao seu leitor? Eu como sou aprendiz ainda não consigo ter clareza, mas o tempo será senhor das futuras razões.

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Efson Lima é Doutor em Direito/UFBA. Coordenador – geral da Pós-graduação, Pesquisa e Extensão da Faculdade 2 de Julho. Das terras de Itapé/BA e eterno ilheense adotivo. Contato: efsonlima@gmail.com

Diário de Ilhéus: 20 anos de efetiva comunicação

diario ilheus

Efson Lima

efsonO Diário de Ilhéus alcança 20 anos de publicação constante, precisamente, neste 24 de julho de 2019, com 3.357 edições.  A fundação ocorreu em 1999 e surge após a extinção do Diário da Tarde, que funcionava desde 1928 na Princesa do Sul.   O professor Arléo Barbosa considera o “DIÁRIO DE ILHÉUS – Um símbolo da resistência da imprensa escrita da nossa cidade.”

Nesse período as mudanças foram enormes. Tornamo-nos uma sociedade mais conectada, os computadores chegaram as nossas casas, a internet alcançou um maior número de residências e estabelecimentos. Os celulares se tornaram instrumento de trabalho e comunicacional. Certamente, o Diário de Ilhéus sofreria esses impactos.

O Diário de Ilhéus foi das páginas pretas e brancas às coloridas. Diversas foram às alterações no número de páginas: quatro, oito, doze… Teve período que só havia um caderno, após, alcançou dois cadernos aos sábados, com um deles assumindo a feição  da área cultural. O Diário de Ilhéus foi da era tipográfica, confeccionado quase que artesanalmente. Da confecção artesanal passou para offset, alterando o aspecto completamente e avançou com a aquisição maquinário moderno, que possibilitou maior dinamismo. Os desafios são enormes manter uma redação e a circulação. Infelizmente voltou a ter um caderno. Bom mesmo foi acompanhar o auge do jornal e ser um leitor permanente.

Tive o prazer de fazer a leitura das colunas da professora Maria Luisa Heine, do professor Josevandro Nascimento, assim como os artigos publicados na página dois do DI, como carinhosamente é chamado e tantos outros textos de colaboradores diversos. Como gosto de apreciá-los. A escrita oferece sentido. A interpretação outra possibilidade.

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O nordeste, cabra da peste

Efson Lima

 

efsonO mês de junho de 2019 chegou ao fim. Para nós baianos e nordestinos é um dos meses – para não ser taxativo – que as tradições ganham fôlego e mostram o quanto temos de identidade. Ontem, quinta-feira, no almoço com colegas de trabalho e à noite, após encontro de grupos de pesquisa sobre direito e literatura, o tema nordeste voltou à mesa.  E tinha que voltar, afinal, o povo do sertão com o povo da capital juntos reascendem a fogueira. Na mesa havia um gaúcho, assim, melhor ficou evidenciado o ser nordeste para os baianos. Não é o debate do pior e/ou melhor, apenas, discorrendo sobre o sujeito cultural.

De início, a expressão “cabra da peste” marcante e ligada a nossa gente possui mais de uma versão. Há quem considera que é a expressão é usada referendar o sujeito destemido, mas também pode ser dita em situação de ofensa. Será que no primeiro caso seria a confirmação do registro de Euclides da Cunha em “Os Sertões” onde “o sertanejo antes de tudo é um forte”? No Dicionário do Folclore Brasileiro, Luiz da Câmara Cascudo afirma que “cabra” era como os navegadores portugueses referendavam os índios que “ruminavam o bétel” planta com folhas de mascar. Ao longo do tempo, o animal pode ter sido visto como sinônimo de homem forte em decorrência do leite – percebido mais denso e nutritivo que o da vaca.  Há indicativo que a conotação com “peste” surgiu em virtude da má fama da cabra, identificada como sendo simpática ao diabo na tradição nordestina. Lembro que quando criança, falar o termo “peste” merecia uma tapa da minha mãe, pai, tio, irmãos…

Na Bahia, quem ainda não ouviu “Raiz de Todo Bem”, do compositor Saulo Fernandes, cantada na voz do mesmo, que parece um hino para Salvador, identifica a expressão facilmente: “Oxente, ‘cê num ‘tá vendo que a gente é nordeste?/Cabra da peste Sai daí batucador”, mais que um conjunto de palavras é a representação da nossa identidade, dos nossos sentidos e signos. Sou eu e você! Somos nós!

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Crônicas educacionais: por uma teoria-prática permanente

Efson Lima

 

efson Um dos maiores desafios da docência é tornar o abstrato próximo do estudante. É mediar o conhecimento para que o conteúdo dialogado na sala de aula não seja distante da realidade, mas necessário à compreensão e a tomada de decisões. Como fazer isto no âmbito do direito internacional, em um estado da federação onde suas divisas são com outros estados e na costa leste a imensidão do oceano Atlântico? Parece um terreno pouco fértil.  Eis que nada melhor que inovar, adotar as metodologias ativas, sair da sala de aula, recorrer aos memes, usar a literatura, o filme… É importante advertir, com a vênia: os recursos não podem ser adotados para suprimir o papel do profissional que não preparou a aula, mas auxiliá-lo na exploração do conteúdo.

O professor é um cientista diário. É um explorador de realidades. É um vendedor de sonhos. Nada é mais fracassado que um profissional da educação adentrar em sala de aula derrotado pelas incertezas e não prospectar futuros, mesmo que o presente esteja árido e o porvir tenebroso. O professor é um sonhador com pés no chão.

efson lima

Neste semestre, tive algumas ações sugestivas de prática na Faculdade 2 de Julho. Vamos abordar duas situações: o “LabLíder” e “Viajando pelo mundo em Salvador”.    De forma coletiva, especialmente, pelo Núcleo da Pós e Direção Acadêmica, constituímos um Laboratório em Liderança, o LabLíder, neste, o último dia de atividade foi marcado pela presença do Café Ravel, a convite do professor Daniel Medeiros, que abordou liderança e delegação. O cheiro de café tomava a sala, a senhora Selma contava suas histórias de empresária familiar a empresária solo, com seu empreendimento inovador. Liderar é empreender. É colocar o nariz onde poucos colocam. É sair do lugar comum. As incertezas só existem quando não nos lançamos. Lançados, tornamos as incertezas em desafios. Não há sucesso sem desafio.  Toda a discussão do momento foi acompanhada pela a arte de Lara Azeredo, que fez um painel maravilhoso. Então, tivemos café, arte e ensino – um triângulo oportuno.

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Daniel Thame
Daniel Thame, jornalista no Sul da Bahia, com experiência em radio, tevê, jornal, assessoria de imprensa e marketing político danielthame@gmail.com

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