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Memórias de um Dinossauro

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O ano era 1985. O São Paulo, treinado por Clinho, decidia o Campeonato Paulista com a Portuguesa, no estádio do Morumbi.
Sãopaulino até a medula, fazia reportagem de campo para a Radio Difusora Oeste, emissora modesta, mas briosa, de Osasco.

O São Paulo tinha um timaço, com Falcão, Silas, Muller, Careca, Sidney e Cia, mas a Lusa endurecia o jogo. E eu não sabia se reportava os lances ou se torcia. O São Paulo fez 1×0 no primeiro tempo com Careca e levava um sufoco até a metade do segundo tempo, quando Sidney fez 2×0.

A comemoração dos jogadores aconteceu ao lado do gramado, justamente onde eu estava. Foi quando minhas dúvidas acabaram.
Larguei o microfone no chão e fui comemorar com os jogadores. Quando o narrador pediu a descrição do lance, silêncio total.

De cara, cortaram a linha e passei o resto do jogo apenas assistindo, até invadir o gramado para comemorar, desta vez o título.
Como eram tempos românticos, levei apenas uma suspensão de três dias.

E, pior dos castigos, não me escalaram mais para os jogos do São Paulo.

Memórias de um Dinossauro

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Itabuna, vésperas das eleições de 1996 em Itabuna. A Justiça  manda apreender a edição do jornal A Região, numa censura previa típica dos anos de chumbo da ditadura militar. Um caminhão da Polícia Militar, com policiais fortemente armados, para na entrada da gráfica numa atitude ameaçadora. Manuel Leal, calmamente, entrega alguns pacotes com jornais. Bons de truculência e ruins de conta, os  policiais não percebem que a quantidade de jornais entregue era mínima.

Durante a madrugada, milhares de exemplares da edição que deveria estar apreendida são distribuídos nos bairros e no centro de Itabuna.

Nas eleições de 2000, a ameaça de apreensão se repetiu, já que quase sempre há um magistrado zeloso à disposição dos poderosos de plantão. Como macaco velho olha o galho antes de se agarrar, na penúltima edição antes do pleito, foi publicada uma nota no alto da página, informando aos leitores que o jornal só voltaria a circular com o resultado do pleito, na segunda-feira.

A Justiça baixou a guarda e o jornal circulou normalmente, no sábado. Panfletário como sempre, antes de se ´endireitar` de vez uma década depois.

 

Memórias de um Dinossauro

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Vitória da Conquista, final dos anos 80. A sucursal da TV Cabrália no Sudoeste Baiano dando os primeiros passos e lá estava eu, na fase de ajustes da equipe local de jornalismo.

Tempos tão ´dinossauricos´ quer as matérias eram enviadas de ônibus para Itabuna em fitas U Matic e editadas para entrarem nos telejornais.

Eis que o repórter Junior Patente chega da rua com a reportagem da prisão de quatro jovens, com uma senhora quantidade de maconha.

Fita pronta pra ser enviada, o então editor de jornalismo, cujo nome não vem ao caso (gracias Moro!), me diz:

-Essa matéria não pode sair, porque é tudo filho de gente conhecida.

Por “conhecida”, entenda-se, gente com grana ou com poder político.

Fui na jugular:

-E se fosse gente pobre, poderia sair?

O silêncio ensurdecedor do editor foi a resposta que eu esperava.

A matéria saiu e o editor demitiu-se logo depois, embora os jovens nem chegaram a sentir o gostinho da cadeia.

Afinal, em qualquer tempo, certas coisas definitivamente ´não vem ao caso`…

Aviso à minha meia dúzia de quatro ou cinco leitores: uma crise de asma, fruto desses longos meses de trincheira, impede que o blogueiro atualize o blog.

Voltaremos quando o ar voltar.

Memórias de um Dinossauro

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 A Mulher Caridosa

Os dois amigos chegaram à pensão modesta na cidade do interior paulista no domingo à noite.

Radialistas em início de carreira e, portanto,  escalados para as piores coberturas, iriam fazer reportagens sobre um encontro de prefeitos e vereadores.

Tanta atenção para uma baboseira daquelas, que desde todo o sempre serviu de fachada para que os políticos tivessem diversão garantida bancada pelos cofres públicos, só se justificava porque o prefeito era também o dono da rádio onde eles trabalhavam.

O dinheiro contado mal dava para as despesas. “Luxos”, só mesmo algumas doses de “fogo paulista”, uma mistura horrenda de pinga vagabunda com groselha, e uma visitinha ao puteiro local, ainda assim  contando com a generosidade de uma moçoila mais em conta, mais rodada e em, digamos, fim de carreira.

Porque as putas que valiam a pena, preferiam prefeitos, vereadores, assessores mais graduados e mesmo os caipiras com aqueles “errrrrrrrrrrrrrrrrrres” intermináveis, mas com dinheiro  no bolso.

Daí que, a dona de pensão, uma velhota lá pelos seus 65 anos, viúva contrita, que era um trombolho repugnante na noite de domingo, passou a ser uma pessoa legal na segunda-feira, simpática na terça-feira, agradável na quarta-feira e atraente na quinta-feira.

Na sexta-feira os dois, que eram amigos de dividir um prato de comida, quase estavam saindo no tapa para ver quem iria dormir com a dona da pensão, aquela delícia de mulher.

Ali era uma pensão familiar e não haveria espaço para briga, ainda mais uma briga entre amigos. Ela deu para os dois.

Um de cada vez, é bom que se registre, porque era uma senhora de respeito, com um enorme crucifixo sobre a cama e o retrato do saudoso falecido na penteadeira.

E ainda exigiu que fosse com a luz apagada, no que os dois amigos, donos de uma imaginação fértil, não reclamaram.

No dia seguinte, eles foram embora e ela foi à missa.

Comungou sem se confessar.

Entendeu aquilo não como um pecado, mas como um ato de caridade cristã a dois necessitados.

 

Memórias de um Dinossauro

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Helenilson Chaves, um Grapiúna

 

Itabuna, 1987. Recém-chegado de Osasco para Itabuna, dando os primeiros passos nessa aventura de amor e (quase)  perdição que foi o jornal A Região. Manuel Leal, o Capo, me pede para fazer uma matéria com Helenilson Chaves, já pavimentando o caminho para substituir seu pai, Manoel Chaves, no comando do então maior conglomerado econômico do sul da Bahia.

Típica matéria água com açúcar, que escrevi com dignidade, mas plenamente esquecível com o passar do tempo.

daniel e helenilson chaves 2Jornal nas bancas, Helenilson me liga pra agradecer. Afirma que o texto seguiu fielmente o que ele havia dito e não tinha os adjetivos bajulatórios que me disse desprezar. E encerrou a conversa com um vago “passe aqui no Grupo Chaves depois”.

Vago, pero no mucho. Não passei.

Um mês depois, lá estou eu com Helenilson Chaves, agora a pedido dele a Leal,  para fazer uma matéria sobre cacau, que era sua paixão por dever de ofício (o Grupo Chaves possuía inúmeras fazendas e era um dos grandes compradores de amêndoas na Bahia) e pelo prazer de ver o pai iniciar um império a partir de um modesto armazém de compra do produto, com muita propriedade chamado de fruto de ouro.

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Memórias de um Dinossauro

 

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Rádio Iguatemi, Osasco (SP), 1980. A emissora operava em Ondas Tropicais, podia ser ouvida na Amazônia, nos rincões da América do Sul, mas em Osasco mesmo era captada em aparelhos de rádio especiais. Ou seja, era “falando para o mundo e cochichando para ninguém”.

Ainda assim, eu, Cláudio Cruz (um dos amigos que preservo até hoje, quase 30 anos depois de ter trocado São Paulo pela Bahia) e Chico Motta (que depois se elegeria vereador) fazíamos com galhardia um programa esportivo diário.

gravador antigoAcho que só o operador de áudio ou algum visitante eventual que estivesse no estúdio (ou então algum índio amazônico, um cocalero boliviano, um peruano perdido lá pelos altos de Machu Pichu) ouvia aquele programa; mas era como se falássemos para Osasco inteira e para boa parte de Carapicuíba, Barueri, Jandira, Itapevi e outras cidades da Região Oeste da Grande São Paulo.

Para nós não bastava apresentar um programa esportivo na única emissora de rádio de Osasco. O pioneirismo nos convocava, atiçava.

Pois eu, Chico e Cláudio decidimos que seríamos os primeiros a transmitir ao vivo um jogo entre dois times de futebol profissional de Osasco,
“Profissional” é um pouco de exagero. Rochdale e Montenegro disputavam o equivalente à 5ª. Divisão do futebol de São Paulo e teriam certa dificuldade em vencer o Itabuna e o Colo Colo, times do Sul da Bahia cujos jogadores tem sérias dificuldades de relacionamento com uma dama chamada bola de futebol.

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Memórias de um Dinossauro

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 Carnaval Antecipado de Itabuna em 2002- Na última noite da folia, aproveitava para dar uma relaxada e saia num bloco de reggae, o Planeta Reggae, comandado por Paulo Fumaça,  a gente mantinha só por gostar desse tipo de música e criar uma alternativa para a mesmice do axé. Saimos com Edson Gomes, que apesar de misturar reggae com uma chatíssima pregação evangélica ainda atraia uma multidão.

 

Como sempre fazia, naquele estresse que é coordenar a área de comunicação do carnaval, subi no trio e acendi meu charuto, um Cohiba honestíssimo.

 

 

Um rapaz que acompanhava o trio não parava de me fazer sinais pedindo para que eu jogasse o charuto pra ele, certamente confundindo meu puro com outra coisa.

 

Eu fazia sinais mostrando que se tratava de um charuto, mas ainda assim ele insistia.

Quando o charuto estava no final, joguei a ponta pro rapaz, que ficou numa alegria danada.

Pois bem, demos a volta na avenida, num percurso de três quilômetros, e quando a gente estava encerrando a apresentação o sujeito, sabe-se lá Deus como, conseguiu escalar o trio e começou a beijar a minha mão, dizendo ´você é moral, você é moral´.

 

A situação já era inusitada, mas não havia acabado. O rapaz, sem soltar da minha mão, disse:

-Ô moral, eu saí da cadeia só pra ver o Edson Gomes, eu amo reggae…

E, para mostrar que não estava mentindo, levantou a camisa, exibindo inúmeras marcas de bala de revólver nas costas e as indefectíveis tatuagens de quem passa pela cadeia.

Surpreso, eu apenas respondi:

-Ô moral, porque não me disse isso antes? Eu teria jogado era uma caixa de charutos inteira…

Memórias de um Dinossauro

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Porto Seguro, 22 de abril de 2000. 500 anos do Descobrimento do Brasil. Enquanto autoridades e convidados vips participam de uma celebração no Hotel Vela Branca, o povaréu é isolado por barreiras e um forte contingente policial nas ruas.

Festa correndo solta no hotel e ao mesmo tempo a polícia militar baixando o cacete em índios, sem-terras, negros e quem mais se atrevesse a protestar contra o que consideravam uma invasão/exploração e não um descobrimento.

Uma violência policial tão desmedida que no dia seguinte ganharia as manchetes da imprensa mundial.

Gravador em punho, aproximo-me de Antônio Carlos Magalhães, então o Rei da Bahia e fiador daquela festança toda e, per supuesto, também daquela pancadaria toda.

Certo de que vai receber uma pergunta elogiosa, ACM exibe o melhor dos sorrisos,  exala simpatia.

-Como o senhor avalia o fato de que enquanto as autoridades festejam aqui no hotel, pessoas simples estão sendo agredidas pela polícia e impedidas de protestar pacificamente?

 

O sorriso some, mas ACM permanece impassível, olha para o crachá para ver em qual veículo de comunicação eu trabalhava (na época, a TV Cabrália), uma atitude típica dele, e quando providencialmente começa a tocar o Hino Nacional, responde entre os dentes:

-Você não vê que estou ouvindo o Hino Nacional?

E completou baixinho, antes de me dar as costas com o desprezo de quem se achava acima do bem e do mal:

-Seu moleque, filho da puta…

A resposta que ACM não me deu, o povo baiano, força indomável da liberdade, lhe daria seis anos depois e continua dando até hoje…

Memórias de um Dinossauro

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ACM, Leal e o cheque pré-datado

 

Inicio da década de 90. A pretexto de inaugurar novas salas de aula numa escola da rede estadual, Antonio Carlos Magalhães, o todo poderoso governador da Bahia, fez um ato público na praça Adami, centro de Itabuna.

Era só pretexto mesmo. O que ACM fez foi desancar, com a verborragia habitual, seu ex-aliado Manuel Leal, dono do jornal A Região, que lhe fazia ferrenha oposição.

chequeEmbora fosse à época o jornal de maior circulação no Sul da Bahia, A Região era tratada, bem ao estilo ACM, sem pão nem água pelo Governo do Estado. Publicidade zero.

Mas o caudilho queria mais. Depois de atacar Leal, que assistia tudo da sede do jornal, bem ao lado da praça, ACM falou sem rodeios:

-Quem for meu aliado, meu amigo, não anuncia nesse jornal de merda…

Dias depois, apareceu na sede do jornal um empresário com veleidades de entrar na política, para pagar um anuncio de sua loja.

E, para não deixar dúvidas, preencheu o cheque com data anterior ao discurso-ordem de ACM.

Manuel Leal, que não era Manuel Leal por acaso, não descontou o cheque. Durante muito tempo exibiu-o, aos risos, aos amigos, como exemplo da “coragem” de alguns de nossos concidadãos.

O jornal, apesar das bravatas de ACM, sobreviveu. O velho capo não teve a mesma sorte.

 

 

Memórias de um Dinossauro

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Bar das Putas

Ano de 1981. O Diário de Osasco finalmente trocava as velhas impressoras e linotipos e passava a ser impresso em off-set. Era como pular da Idade da Pedra para o futuro, sem escalas.

O Diário também  deixava de ser temporariamente diário para se tornar semanal, embora continuasse ostentando o título Diário.

Para o Vrejhi Sanazar, dono do jornal, era um salto de qualidade e a oportunidade de atrair anunciantes. Fazer dinheiro, enfim.

Para mim e para o Giovanni Palma, que tocávamos a redação, era o passaporte para a modernidade, poder ousar nos textos, nas fotos, no formato da primeira página.

bar putasMais do que isso: como o jornal seria diagramado e impresso no prédio do Estadão (O Estado de São Paulo) na marginal Pinheiros, era a chance de viver o clima de grande imprensa, cruzar com o pessoal que fazia aquele que na época era o mais influente jornal brasileiro, até ser ultrapassado pela Folha de São Paulo.

Era também uma oportunidade para manter contato com grandes jornalistas, não apenas do Estadão, mas também de outros veículos, já que após o fechamento das edições (naquele tempo os jornais fechavam de madrugada e não eram essa coisa pasteurizada e insossa de hoje, decadentes superados pela agilidades da internet), o pessoal se dirigia a um ´pé sujo´ na avenida da Consolação, centro velho da capital paulista, onde um churrasquinho ou uma batata frita honestos eram oferecidos a preço justo. Obviamente acompanhados de uma cervejinha, uma batidinha, uma cachacinha.

Ou tudo junto!

O local era chamado de Bar das Putas, porque além dos companheiros jornalistas, as companheiras operárias do amor também batiam ponto lá, fechando a noite de trabalho duro (ops!). Uma convivência harmoniosa, num local que marcou época numa São Paulo ainda sem crack e sem tanta violência.

Foi no Bar das Putas, enquanto entornava uma dose tamanho família de batida de limão e comemorava com o Palma mais uma bela edição do nosso “Diário semanal”, que ouvi a seguinte frase de uma das distintas freqüentadoras:

-O cara quando quer uma puta só pra ele, tem que pagar bem. Se não pagar, vai ter que dividir com os outros e se contentar com as sobras.

Num país onde, diz a lenda, cafetão se apaixona, puta goza, traficante cheira e político honesto é mais raro do que trevo de cinco folhas, a moçoila perpetrou um comentário de antologia.

Memórias de um Dinossauro

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Homem Bomba

Diário de Osasco, final da década de 70. Eu e Cláudio Cruz, amigo-irmão que Deus levou prematuramente em 2017,  trabalhávamos como repórteres, recém iniciados no jornalismo e escalados para funções que os veteranos sempre consideravam coisa menor: a cobertura nos bairros e as sessões de esportes e de polícia. Na verdade, eram as grandes escolas para quem estava começando e onde a gente fazia de um limão, uma limonada.

Ou de um cachorro quente um banquete, naqueles tempos difíceis, mas, hoje reconheço, felizes.

dt e ccA nossa produção jornalística não deveria andar lá essas coisas (não que faltasse assunto: Osasco tinha problemas típicos de uma cidade industrial encravada na Grande São Paulo com bairros sem infraestrutura e a violência era assustadora), porque resolvemos diversificar as atividades e nos embrenhar por outras áreas.

Com a luta armada brasileira nos estertores e a Revolução Cubana distante demais, decidimos explodir latas de lixo do bairro Presidente Altino, onde ficava a sede do jornal, com aquelas bombas típicas de São João, ´tamanho GG´.

Não me perguntem o que uma coisa tem a ver com a outra, porque não tem nenhuma mesmo. É apenas pra dar um certo charme ao texto.

O plano (!) era esperar o fechamento do jornal, lá pelas onze da noite, e sair detonando as latas de lixo que encontrássemos pela frente.Como havia bombas suficientes para explodir Presidente Altino e adjacências, achei que uma bomba a mais, uma bomba a menos não faria diferença.

E então, sorrateiramente, enquanto Cláudio revisava compenetrado uma de suas matérias, coloquei uma das bombas embaixo da sua cadeira e… BUM!
Bota “BUM!” nisso. A desgraçada era muito mais potente do que a gente imaginava e ao barulho ensurdecedor seguiu-se uma fumaceira que tomou toda a redação.

Deu-se o pandemônio. O pessoal da oficina achou que a caldeira da linotipo (onde o chumbo derretido a uma temperatura mercurial servia para compor as páginas do jornal) havia explodido e saiu correndo pra rua. Vrejhi Sanazar, o dono do jornal, achou que seu patrimônio tão duramente conquistado tinha ido pelos ares e entrou feito um doido na redação.

E o advogado Achoute Sanazar, irmão do Vrejhi, que morava ao lado, quase teve um enfarto, imaginando que após invadir, destruir e ocupar a Armênia de seus ancestrais, os turcos tinham decidido eliminar também os descendentes espalhados pelo mundo.

Serenados os ânimos e esclarecidos os fatos, Vrejhi me xingou de filho da puta em português, armênio e em todos os  idiomas que um dia poderia aprender, Cláudio ficou quatro dias praticamente surdo e as latas de lixo e os moradores de Presidente Altino foram poupados da nossa sanha revolucionária.

Minha carreira de Homem Bomba acabou ali.

O Estado Islâmico já sabe o que não perdeu.

 

Daniel Thame
Daniel Thame, jornalista no Sul da Bahia, com experiência em radio, tevê, jornal, assessoria de imprensa e marketing político danielthame@gmail.com

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