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Luiz Viana Neto, TV Cabralia e um ´repirror´ em Ilhéus

dr luizDaniel Thame

dthameTV Cabrália, metade da década de 1990. Depois de implantar e consolidar a emissora como a imagem e a voz do Sul da Bahia, Nestor Amazonas partiu para encarar novos desafios. Ramiro Aquino ocupava a superintendência e eu comandava o departamento de Jornalismo.

 

A liberdade que o dono da emissora, o Dr. Luiz Viana Neto, que partiu para a Eternidade dias atrás, nos dava era tamanha que perdia-se o anunciante, tipo prefeitura ou supermercado, porque uma matéria-denuncia ia ao ar, para desespero do departamento comercial.

 

No espectro político, a TV era quase um apêndice do PT e dos sindicatos, numa época em que PT e sindicatos não eram propriamente bem digeridos.

 

Mas o Dr. Luiz sabia disso e nunca partiu dele um único ato de censura.

 

Até um belo dia (sempre chega o belo dia, quase sempre prenuncio de tempestade), o Dr. Luiz convida Ramiro e a  mim para um ´rapirror´ no Hotel Jardim Atlântico, então o mais luxuoso de Ilhéus.

 

Uisque vai, uísque vem (eu odeio uísque, adoro é uma cachacinha, mas não ia fazer desfeita ao chefão), desce um camarão aqui, um peixinho ali. “Como vai a família?”, “O cacau ainda tem futuro?”, “O Rio Cachoeira está muito poluído?” e outras amenidades.

 

E  eu discretamente olho pra Ramiro e digo:

 

-O Dr. Luiz não chamou a gente aqui pra comer e beber do bom e do melhor,  nem pra esse lenga lenga.

 

Não chamou  mesmo. Lá pelas tantas, as sutilezas foram jogadas ao mar.

 

Sem elevar o tom de voz, o Dr. Luiz se vira para mim e diz:

 

-Eu sei como você toca o jornalismo e  respeito suas posições políticas. Mas eu sou de direita e se você quiser continuar fazendo esse tipo de jornalismo compre uma televisão pra você.

 

Comprar uma televisão? Só se fosse um aparelho nas Casas Bahia (olha o jabazinho aí!) e ainda assim a perder de vista no  crediário.

 

 

 

Sejamos justos a esse extraordinário ser humano, que nem era tão de direita assim, mas um democrata conciliador que convivia bem com todas as tendências políticas.

 

O Dr. Luiz produziu uma frase de efeito, porque se dono ele era e as orientações eram claras, não foram poucas as vezes que essas ordens foram solenemente ignoradas e em vez de punição, recebi outra frase de efeito:

 

-Você tem um sério problema auditivo, só escuta o que é conveniente.

 

 

Em tempo: a TV Cabrália foi um divisor de águas na comunicação regional, mas a  morte do Dr. Luiz Viana Neto (que merecia um busto em praça pública) malmente foi citada na grande obra com  que ele brindou o Sul da Bahia.

 

 

Se eu tivesse comprado uma televisão…

Memórias de um Dinossauro

dt

 

‘ Diálogos’  com ACM

 

Porto Seguro, 22 de abril de 2000. 500 anos do Descobrimento do Brasil. Enquanto autoridades e convidados vips participam de uma celebração no Hotel Vela Branca, o povaréu é isolado por barreiras e um forte contingente policial nas ruas.

Festa correndo solta no hotel e ao mesmo tempo a polícia militar baixando o cacete em índios, sem-terras, negros e quem mais se atrevesse a protestar contra o que consideravam uma invasão/exploração e não um descobrimento.

Uma violência policial tão desmedida que no dia seguinte ganharia as manchetes da imprensa mundial.

Gravador em punho, aproximo-me de Antônio Carlos Magalhães, então o Rei da Bahia e fiador daquela festança toda e, per supuesto, também daquela pancadaria toda.

Certo de que vai receber uma pergunta elogiosa, ACM exibe o melhor dos sorrisos,  exala simpatia.

-Como o senhor avalia o fato de que enquanto as autoridades festejam aqui no hotel, pessoas simples estão sendo agredidas pela polícia e impedidas de protestar pacificamente?

 

O sorriso some, mas ACM permanece impassível, olha para o crachá para ver em qual veículo de comunicação eu trabalhava (na época, a TV Cabrália), uma atitude típica dele, e quando providencialmente começa a tocar o Hino Nacional, responde entre os dentes:

-Você não vê que estou ouvindo o Hino Nacional?

E completou baixinho, antes de me dar as costas com o desprezo de quem se achava acima do bem e do mal:

-Seu moleque, filho da puta…

A resposta que ACM não me deu, o povo baiano, força indomável da liberdade, lhe daria seis anos depois e continua dando até hoje…

Memórias de Um Dinossauro

dtRepórter-Torcedor

gol do são pauloO ano era 1985. O São Paulo, treinado por Clinho, decidia o Campeonato Paulista com a Portuguesa, no estádio do Morumbi. Sãopaulino até a medula, fazia reportagem de campo para a Radio Difusora Oeste, emissora modesta, mas briosa, de Osasco.

O São Paulo tinha um timaço, com Falcão, Silas, Muller, Careca, Sidney e Cia, mas a Lusa endurecia o jogo. E eu não sabia se reportava os lances ou se torcia. O São Paulo fez 1×0 no primeiro tempo com Careca e levava um sufoco até a metade do segundo tempo, quando Sidney fez 2×0.

A comemoração dos jogadores aconteceu ao lado do gramado, justamente onde eu estava. Foi quando minhas dúvidas acabaram. Larguei o microfone no chão e fui comemorar com os jogadores.

Quando o narrador Silva Neto, tão sãopaulino quanto eu,  pediu a descrição do lance, silêncio total.

De cara, lá do estúdio da rádio,  cortaram a minha linha de transmissão, um trambolho com um fio quilométrico acoplado a uma caixinha e ao microfone que a gente tinha que desenrolar e enrolar antes e depois de cada partida, e passei o resto do jogo apenas assistindo, até invadir o gramado para comemorar, desta vez o título, em meio a torcedores e jogadores.

Como eram tempos românticos, levei apenas uma suspensão de três dias.

E, pior dos castigos, não me escalaram mais para os jogos do São Paulo.

 

 

De Manoel a Marcel, um jornal que tem alma

Daniel Thame

 

AR 1Lá se vão 35 anos. Manoel Leal ainda está sentado naquela mesa da redação onde, como diria Nelson, o Gonçalves, está faltando ele. Memória, apenas memória. Manoel Leal, `el viejo Capo`, agora está num local chamado eternidade, como diria, Eduardo, o Anunciação. Citações, anunciações e memórias, passado e presente. História, num jornal feito de histórias.

O jornal  A Região pode ser definido mais ou menos assim:  Hélio Pólvora, escritor e jornalista de renome nacional,  era o arco. Manoel Leal era a flecha, tantas vezes letal, um homem que estava longe de ser santo, mas, isso tem que ser dito e repetido, tinha infinitamente mais virtudes do que defeitos. E que não fazia tipo, não posava de vestal, não bancava um personagem. Era ele mesmo e ponto final.

manoel 2Um ano depois da fundação do jornal, Hélio foi gastar seu monumental talento em outras paragens. E lá fui eu, paulista recém-chegado de São Paulo, mochileiro das estradas de nuestra America, sendo devidamente arraigado neste chão que fisga e fixa, fazer a dupla improvável com Leal, duas flechas disparando sem arco, em que muitas vezes me peguei pensando se aquilo tudo era coragem ou loucura mesmo. Opção B.

Denuncias de fraude no Vestibular da Uesc, tráfico de crianças para a Itália, falcatruas no recebimento de recursos para a lavoura cacaueira, máfia dos cartões de crédito, esquema de venda da Emasa, superfaturamento de obras públicas, tentativa de fraude nas eleições para deputado estadual e federal, vendas de sentenças judiciais, irregularidades na concessão de alvarás de taxis, etc.,  etc., etc. e coloca ainda uma infinidade de eteceteras, tantas foram as manchetes devidamente documentadas, produzidas ao longo dessas quase três décadas.

Digna de figurar em qualquer antologia da imprensa grapiúna no século XX, é a manchete “ACABOU!”, em letras garrafais e com direito a exclamação, determinando o que ninguém queria admitir, o cacau como riqueza inesgotável e imune a crises estava entrando para a categoria papai noel, cegonha, saci pererê e quetais.

Manoel Leal era implacável, mas não menos bem humorado. Os leitores mais antigos devem se lembrar do impagável colunista social Dick Emery, que despontou em meio aos consagrados e então semi-deuses Charles Henry, Diego Caldas, Joseph Marie, Serafim Reis, Dikas e Pedro Ivo Bacelar.

De Dick Emery, sucesso instantâneo no então resplandecente high society dos derradeiros tempos áureos do cacau, dizia-se que era por demais  tímido, visto que não aparecia nos regabofes. Tímido e virtual, mesmo em tempos pré-internet, já que o tal Dick era ninguém menos que o próprio Leal, num de seus típicos acessos de ironia. Dick sumiu tão misteriosamente como surgiu. O high society, como se denota, ainda finge-se de vivo, mortinho que esteja vitimado por uma bruxa vassourenta. Aparências nada mais, diria Marcio, o Greik.

Numa noite de janeiro de 1997, um divisor de águas num Mar Vermelho de sangue e vergonha. Manoel Leal era covardemente assassinado, crime de mando que até hoje surfa nas tranquilas ondas da impunidade.

marcelCalaram uma voz, mas ao contrário do que esperavam seus covardes algozes, não calaram o jornal. E Marcel Leal, filho de Manoel, teve que deixar a zona de conforto da Rádio Morena FM para assumir o jornal, num momento que era mais cômodo recuar do que seguir no combate.

Recuo não houve e, mesmo sem o espírito intrépido e indomável, no limite da irresponsabilidade, do pai, Marcel vem tocando o jornal com a mesma coragem de enfrentar  poderosos e denunciar maracutaias  em pequena e larga escala. O jornal não perdeu a sua essência. Denuncia sem medo, incomoda.

A Região, atualmente mais digital do que impresso e com uma assustador  guinada à direita (e bota direita nisso) o que democraticamente respeito embora discorde,   continua combativa e combatente, fugindo da mesmice e do oba-oba reinantes.

Resistir edição após edição, semana após semana, mês após mês, ano após ano. Esse é certamente o grande trunfo, a conquista a ser comemorada. Vitória de pirro, dirão os despeitados. Vitória de ´hombres`, direi eu paulista-baiano-cubano das terras do cacau por obra e graça de Manoel Leal.

Marcel Leal resiste. Desafia a lógica de parar com essa aventura insana e seguir sua vida. A Região caminha  para os 40 anos, rumo a um futuro que hoje é apenas a edição seguinte, de vez em quando impressa,   parida a ferro e fogo na entranha de dificuldades imensas.

capas-aregiaoDiscordo (se fosse apenas para ficar no confete essas bem ou mal traçadas linhas se tornariam ponto fora da curva num jornal contestador por excelência) de seu antipetismo visceral, como ele certamente discorda do meu petismo-lulismo visceral. Algumas de suas Cartas ao Leitor poderiam figurar com louvor nas abomináveis vejas, folhas e globos da vida. Mas respeito, porque ambos sabemos como dói perder alguém tão querido pelo simples fato de exercer a liberdade de expressão.

Assim como o glorioso Barcelona é ´más que un club`, porque representa a insubmissão catalã à Espanha, A Região é mais  que um jornal, embora seja uma exceção de inconformismo e coragem numa região que invariavelmente se dobra de joelhos ao mandatário de plantão.

Antonio Lopes, Rose Marie Galvão, Vilma Medina, Rosi Barreto, Domingos Matos, Davidson Samuel, Ailton Silva, Luiz Conceição, Walmir Rosário, Neandra Pina, Carlos Barbosa, Jorge Wilton, Vera Rabelo, Kleber Torres, Flávio Monteiro Lopes, Marcos Maurício, Mauricio Maron, Valério Magalhães. Balseros nessa travessia de muitas tormentas, mas inegavelmente gratificante, de fazer um jornal com alma.

E nem se diga que Manoel Leal é apenas um retrato amarelado na parede ou uma placa de metal na praça que leva seu nome. É ele essa tal alma que não deixa a chama se apagar.

Fogo aceso, segue o jogo, Marcel Leal…

Memórias de um 22 de abril…

 

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Profissão Repórter

Entre as várias reportagens que diz ao longo desses mais de  40 anos de estrada, 32 deles no Sul da Bahia, nenhuma foi mais estressante do que a cobertura dos 500 anos do Brasil em Porto Seguro. O que seria uma comemoração, organizada a caráter para incensar Fernando Henrique Cardoso e ACM, se transformou num festival de pancadaria, perpetrada pela polícia baiana contra índios, sem-terras e estudantes.
Na véspera do fatídico 22 de abril, tive que optar entre ficar em Porto Seguro, onde a festa estava preparada, ou seguir para Coroa Vermelha, onde o clima estava pesado porque os movimentos sociais não se contentavam em fazer figuração no teatrinho armado pelo governo.

 

Não tive dúvidas: fui a Coroa Vermelha e ao lado da equipe da TV Cabrália, testemunhei uma demonstração de truculência e insanidade que repercutiu em todo mundo. Não perdi nenhuma festa, até porque festa não houve, para desalento do então Rei da Bahia, que ali viu desmoronar o seu sonho de se tornar o Rei do Brasil.

A reportagem foi publicada no jornal A Região. A foto é de Lula Marques.
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Polícia barra povo e FHC
faz festa vip dos 500 anos

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Memórias de um Dinossauro

 

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Abril de 1977. Lá se vão 45 desde que o menino tímido e inseguro adentrou no jornal A Região, em Osasco, com um texto escrito a mão e foi recebido pelo dono do jornal, João Macedo de Oliveira. Não era o dono, acho que era um anjo, que me contratou na hora, talvez por bondade, talvez porque ali houvesse se dado a Epifania.

Naquela tarde chuvosa (como esquecer o tempo, tanto tempo depois?) me transformei no que já era desde os séculos e séculos amem. Jornalista. A Região, Diário de Osasco, O Batente (meu primeiro flerte com a imprensa de esquerda), Radio Iguatemi, Radio Difusora Oeste, Cidade Revista, esta ultima um projeto visionário com João Palma e Celso Villari, abatida por um plano. No caso o Plano Cruzado.

dt cubaEm 1987, Alah sabe bem os motivos, o Sul da Bahia. Parecia um salto no escuro. Era a Luz. Por 13 anos, a TV Cabrália, pela intuição de Nestor Amazonas, e A Região (o mesmo nome outro anjo, que fingia ser demônio, mas era anjo), Manuel Leal. Minhas razões de viver e no caso de A Região, quase de morrer. Coberturas internacionais em Cuba e na Itália, reportagens memoráveis nos 500 ano do Brasil, a descoberta da fraude no Vestibular da Uesc, tráfico de crianças, a inacreditável história de Ferreirinha e Yolanda, o tráfico de crianças, a máfia dos cartões de crédito, um inesquecível programa especial nos 80 anos de Jorge Amado, e uma locomotiva com centenas de vagões de outras histórias.

O diretor de jornalismo que se transformou em Faculdade de Jornalismo. F..-se a modéstia!

Cansado de guerra, mas não de luta, o mergulho na assessoria de imprensa. Primeiro, Prefeitura de Itabuna, depois os Governos de Wagner e Rui. Esquerda volver. O indescritível prazer de fazer o que gosta com algo que se identifica.

Impossível resumir 44 anos de jornalismo num texto tão curto.

Daria um livro, que a propósito escrevi cinco, mas isso é outra história.

Combati o bom combate, evitei os atalhos para seguir o caminho muitas vezes tortuoso, mas que eu acreditava (e acredito!) ser o mais correto.

O futuro?

Nesses sombrios tempos onde o futuro pode se encerrar nos próximos segundos, reitero o que já escrevi uma vez, parafraseando um certo Tiradentes:

-Se mil vidas eu tivesse, em mil vidas seria jornalista…

Memórias de um Dinossauro

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Manuel e Daniel

-Eu soube que o senhor vai lançar um jornal e está precisando de repórteres…

-Você é de onde?

-São Paulo, cheguei há um mês aqui…

-Então começa amanhã…

-Mas o senhor não vai nem me pedir pra fazer um texto pra avaliar?

-Não precisa. Se você é de São Paulo é bom, pode vir amanhã cedo e começar a trabalhar…

-0-0-0-

Contado assim, 35anos depois, parece até uma daquelas narrações inverossímeis, feitas para dourar a pílula e transformar um ato banal em algo digno de registro.

Mas foi exatamente assim que aconteceu naqueles meados de abril de 1987, num fim de tarde em que, levado por Vilma Medina (testemunha desse diálogo surreal), meu destino se cruzou com o de Manuel Leal e me fez mergulhar na aventura de uma vida que foi, durante os 13 anos em que lá passei como repórter e depois editor, trabalhar no jornal A Região, do qual ainda sou colaborador extemporâneo.

manuel leal13 anos, dez deles convivendo com Leal. O tempo permite o que em outras situações soaria como cabotinismo: o inigualável faro para a notícia e o destemor  de Leal, somados a um texto cortante como uma navalha afiada e uma compulsão por grandes reportagens deste que ora vos escreve (puta que pariu, `dourar a pílula` e ´deste que  ora vos escreve` são dignos de aposentadoria compulsória se Bolsonaror permitisse), foram a essência de um jornal que mais do que papel e tinta, era impresso com alma.

O arco se encontrou com a flecha.

Antes que a banda siga e o mundo gire, um adendo necessário: gente com muito mais talento para a escrita passou por A Região, mas não citarei nomes para não despertar egos adormecidos. Estou me referindo à simbiose de duas almas que o acaso (ou não) reuniu numa redação de jornal. Nisso, a rima de Manuel com Daniel produziu uma rima e uma solução.

Foram 10 anos de Malhas Finas e Malhas Grossas, de reportagens inesquecíveis, manchetes de antologia, histórias (ao menos as publicáveis)  que dariam um livro.

primeira capaQuem senão A Região teria coragem de dar a manchete de fraude no Vestibular da Uesc, apostando num suposto gabarito jogado por baixo da porta da sede do jornal? A edição rodando, Leal me liga de madrugada:

-E se aquilo for uma falsificação?

Respondi com a única frase possível:

-Nós dois estamos fodidos.

As denuncias  de fraude, com conhecimento prévio dos gabaritos por alguns privilegiados, principalmente nos cursos mais disputados, como Direito, eram recorrentes. Comprovada, mudou para sempre a história do vestibular.

Quem senão Leal para perceber que um romance entre um fazendeiro  de 70 anos e uma estudante de 13 era notícia nacional? Foi além: a história de Ferreirinha e Yolanda foi destaque até no Japão, com direito a uma impagável entrevista a Jô Soares em que Ferreirinha, orientado por Leal, repetia que sua propalada virilidade se devia ao suco de cacau. E eram tempos pré-viagra…

Aproveitando a deixa: eram também tempos duros, por conta das inúmeras denuncias feitas pelo jornal, que incomodava os poderosos de plantão, entre eles o mais poderosos de todos, Antonio Carlos Magalhães, que de tão poderoso virou sigla.

Pois ACM em pessoa, não a sigla, inventou a inauguração de um poste para vir a Itabuna e desancar o então ex-amigo Leal (a relação de ambos era de amor e ódio como o próprio jornal atesta em suas páginas), num comício na praça Adami. Tão ridículo que Leal riu. O tempo, entretanto, mostraria que nem todos os poderosos (ou que se acham poderosos) são de anedota.

A Região (e Manuel Leal porque o jornal essencialmente era ele) das denuncias de tráfico de crianças, de privilégios na liberação de recursos para combater a vassoura-de-bruxa, da primeira importação de cacau em décadas, que mereceu uma manchete em letras garrafais: ACABOU!, com direito a exclamação. Definitiva.

Manuel Leal, Manuel Leal, Manuel Leal. Manchetes e histórias. Do coração frágil sustentado por pontes de safena, mas  imenso e generoso.

-Leal, estou querendo fazer uma série de reportagens em Cuba (na verdade, conhecer Cuba era o sonho impossível dos meus tempos de rebeldia e dureza em Osasco).

Um jornal do interior da Bahia mandando um jornalista pra Cuba em 1995 tinha tanto sentido quanto mandar um repórter a Marte. Mas Leal bancou a viagem e me vi na obrigação de deixar a ideologia de lado e fazer aquelas que, modestamente, considero as melhores reportagens da minha vida. E olha que nesse negócio eu costumo colocar a modéstia no paredón.

A Cuba dos avanços na saúde, na educação, nos esportes foi mostrada ao lado da falta de liberdade, da prostituição, da fome extrema (eram tempos pós queda do Muro de Berlim), das levas de cubanos que se arriscavam em balsas improvisadas pare tentar chegar aos estados Unidos. Isso quando os tubarões não chegavam antes.

Dois anos depois, premiado com uma viagem a Itália, numa tentativa de amenizar as denuncias de tráfico de crianças, ele simplesmente disse:

-Vai você. Eu iria só passear e você vai trazer boas reportagens pro jornal.

A mais dolorida das capas

A mais dolorida das capas

E  da Itália, onde ainda deu tempo de cantar ´il sole mio` numa gondola em Veneza, vieram reportagens sobre adoções de crianças que não terminavam necessariamente em pizza. Veio também uma premonitória história sobre uma italiana, Cinzia, agraciada com o bem estar social europeu,  e um africano, Baussa, que vivia de esmolas na Verona de Romeu e Julieta. Qualquer semelhança com as levas de africanos e árabes hoje em dia  que morrem afogados no Mar Mediterrâneo antes de alcançar o suposto paraíso, não é mera coincidência.

Padre mio, esse era Leal, que num sentido espiritual, foi mesmo um pai. Deixemos o coração escrever: Leal foi, pra mim, um pai em todos os sentidos.

Dezembro de 1997. A manchete mais emblemática de todas. “Delegado que apura a fraude  do IPTU recebeu R$ 4.500,00 da Prefeitura de Itabuna”.  A única reportagem em que, como um leitor comum e atendendo um pedido meu por conta de sua  mania de anunciar as `bombas` antes que elas fossem detonadas, Leal só viu o jornal depois de impresso. A flecha disparada sem o arco…Deus, como isso é cruel e me atormenta até hoje.

Janeiro de 1998. Manuel Leal foi assassinado covardemente quando chegava a sua residência no Jardim Primavera, localizada entre a Delegacia Regional de Policia e a sede do Batalhãoi da Polícia Militar.

A percepção de seus algozes covardes era cirúrgica: morto Leal, morre também A Região.

Como se pode depreender, 35 anos se passaram desde abril e 1987 e 19 anos se passaram desde o trágico janeiro de 1998, e  A Região sobrevive, agora em versão digital.

Manuel Leal, de certa forma, também vive através do jornal que foi a sua razão de viver.

 

E eu, o mais grapiuna dos paulistas, amor de perdição por esse chão, espero o momento do reencontro, agora perguntando:

-Você é de onde Leal?

-Eu sou da eternidade…

-Então dá licença que eu cheguei pra ficar.

De Osasco para ninguém

 Daniel Thame

radioRádio Iguatemi, Osasco (SP), 1980. A emissora operava em Ondas Tropicais, podia ser ouvida na Amazônia, nos rincões da América do Sul, mas em Osasco mesmo só era captada em aparelhos de rádio especiais. Ou seja, era “falando para o mundo e cochichando para ninguém”.

Ainda assim, eu, Cláudio Cruz (um dos amigos que preservei por  quase 30 anos depois de ter trocado São Paulo pela Bahia e que faleceu prematuramente) e Chico Motta (que depois se elegeria vereador) fazíamos com galhardia um programa esportivo diário.

Acho que só o operador de áudio  da emissora  ou algum visitante eventual que estivesse no estúdio (ou então algum índio amazônico, um colalero boliviano, um peruano perdido lá pelos altos de Machu Pichu) ouvia aquele programa; mas era como se falássemos para Osasco inteira e para boa parte de Carapicuíba, Barueri, Jandira, Itapevi e outras cidades da Região Oeste da Grande São Paulo.

Para nós não bastava apresentar um programa esportivo na única emissora de rádio de Osasco. O pioneirismo nos convocava, atiçava.

Pois eu, Chico e Cláudio decidimos que seríamos os primeiros a transmitir ao vivo um jogo entre dois times de futebol profissional de Osasco.

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Baiana integra grupo de voluntários que levam mantimentos e medicamentos para a Ucrânia e transportam mulheres e crianças para a Itália

adalgisaDaniel Thame

A bordo de um pequena van da Associação de Voluntariado Chiara para as Crianças do Mundo, uma baiana, Adalgisa Silveira, e dois italianos, embarcaram em Roma para uma viagem até a fronteira da Polônia com a Ucrânia, invadida e bombardeada pela Rússia. Além de resgatar ucranianos e trazê-los para a Itália, a missão levou alimentos e medicamentos  aos que permaneceram no país.

 

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“Diz um dito popular da província romana  que ´há  mais para fazer do que para dizer´ e resolvemos entrar em ação”, declarou a baiana de Caetité, radicada na Itália e que sempre realiza ações humanitárias.

 

Numa  conversa com seu parceiro, Emílio Giovannone, de 65 anos ela questionou:  “porque não vamos levar ajuda humanitária diretamente ao povo ucraniano?” No dia seguinte já estavam preparando a van para uma viagem de cinco mil quilômetros de ida e volta.

 

A viagem foi divulgada nas redes sociais, permitindo a arrecadação de donativos  para as vítimas da guerra no leste europeu.

 

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“Em poucas horas ficamos impressionados com tudo o que havia sido arrecadado, incluindo medicamentos básicos, que as farmácias doaram com suas indicações, muitos alimentos longa vida de todo tipo, especialmente para crianças, e muitas coisas para higiene pessoal”, diz Adalgisa.
Um dia após o anúncio da missão, depois de ter selecionado, encaixotado, etiquetado e carregado,  o amigo italiano, Roberto Bianchi, de 70 anos, ligou o motor da van em direção à Ucrânia.

Mesmo sem indicações precisas do roteiro, o caminho certo foi encontrado durante a viagem, em meio  neve que  acompanhou o grupo por um longo caminho, carregado de um  frio intenso, que nem mesmo o pouco aquecimento do micro-ônibus conseguiu aliviar.
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A SOLIDARIEDADE VENCE O MEDO
“Não podemos negar a preocupação, sabíamos que no lugar de ajuda humanitária, poderia ser o mesmo  que alimentava a guerra com armamentos e aí tínhamos medo de represálias da Rússia, em função do grande número de soldados na região” ressaltou Adalgisa.
O grupo atravessou  a Áustria e a Checoslováquia, percorrendo toda a Polônia, em direção ao ponto de chegada estabelecido, na  cidade de Medyka, o mais próximo da fronteira entre a Polônia e a Ucrânia, onde foi organizado um ponto de recepção para aqueles que fogem da guerra, e esperam ser transferidos para lugares mais seguros e acolhedores.

Após uma longa fila, já anoitecendo, juntamente com voluntários locais, foram descarregadas todas as caixas de donativos com a ajuda de um polonês que já havia trabalhado em Roma e também atuou com uma espécie de guia e segurança.

 

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A noite, para descansar da longa viagem, o grupo pernoitou, mesmo com riscos, numa pousada em território ucraniano, a 68 quilômetros da fronteira com a Polônia.

 

No dia seguinte o segundo objetivo,  trazer pessoas em fuga da guerra, que neste ponto só poderiam ser mulheres, velhos e crianças, pois na Ucrânia, foi estabelecida a Lei Marcial, para que nenhum homem possa cruzar a fronteira, pois devem permanecer para combater.

 

AS MÃES E A ESPERANÇA

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O grupo foi direcionado a um  local onde havia pessoas que tinham interesses de ir para Itália, por terem parentes, já terem trabalhado, conhecer alguém e /ou falarem a língua. A escolha não foi fácil, diante da multidão que queria fugir dos horrores da guerra.

Adalgisa e seus amigos continuam sua história: “foram várias centenas de pessoas que pediram a carona da esperança, foi dada prioridade às mulheres com filhos e sobretudo às que tinham referências na Itália.

 

“Escolhemos e  nos foram dadas  em confiança três jovens mulheres, uma Médica acompanhando duas outras pessoas, uma  delas grávida de  meses,  outra mãe com um recém-nascido, e mais duas crianças”, relata a baiana.

 

 

ACOLHIMENTO NA ITÁLIA

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Partimos, lotados de carga de humanidade e esperança, em direção a Itália, com várias paradas, pois não podíamos esquecer que a bordo tínhamos uma grávida, fizemos última parada em Modena, já na Itália, onde os  ucranianos puderam abraçar uma senhora, mãe da jovem médica, que já os esperavam”, conta . Dali os ucranianos foram bem recebidos e abrigados pela Itália, essa pátria acolhedora por tradição.

“Eram olhos e olhares cheios de gratidão, lágrimas e sorrisos misturados com tristeza e alegria e nunca deixaram de nos agradecer”, diz . A esperança de uma nova vida estava estampada nos olhos deles. Foi uma missão arriscada, mas da qual nunca esqueceremos, uma experiência inesquecível  e a alegria de salvar vidas”, finaliza Adalgisa Silveira que pretende voltar à Bahia brevemente para visitar parentes e amigos.

 

A NARRATIVA DA VIAGEM DA SOLIDARIEDADE

 

 

NASCE UM UCRANIANO-ITALIANO

Memórias de um Dinossauro

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 Carnaval Antecipado de Itabuna em 2002- Na última noite da folia, aproveitava para dar uma relaxada e saia num bloco de reggae, o Planeta Reggae, comandado por Paulo Fumaça,  a gente mantinha só por gostar desse tipo de música e criar uma alternativa para a mesmice do axé. Saimos com Edson Gomes, que apesar de misturar reggae com uma chatíssima pregação evangélica ainda atraia uma multidão.

 

Como sempre fazia, naquele estresse que é coordenar a área de comunicação do carnaval, subi no trio e acendi meu charuto, um Cohiba honestíssimo.

 

 

Um rapaz que acompanhava o trio não parava de me fazer sinais pedindo para que eu jogasse o charuto pra ele, certamente confundindo meu puro com outra coisa.

 

Eu fazia sinais mostrando que se tratava de um charuto, mas ainda assim ele insistia.

Quando o charuto estava no final, joguei a ponta pro rapaz, que ficou numa alegria danada.

Pois bem, demos a volta na avenida, num percurso de três quilômetros, e quando a gente estava encerrando a apresentação o sujeito, sabe-se lá Deus como, conseguiu escalar o trio e começou a beijar a minha mão, dizendo ´você é moral, você é moral´.

 

A situação já era inusitada, mas não havia acabado. O rapaz, sem soltar da minha mão, disse:

-Ô moral, eu saí da cadeia só pra ver o Edson Gomes, eu amo reggae…

E, para mostrar que não estava mentindo, levantou a camisa, exibindo inúmeras marcas de bala de revólver nas costas e as indefectíveis tatuagens de quem passa pela cadeia.

Surpreso, eu apenas respondi:

-Ô moral, porque não me disse isso antes? Eu teria jogado era uma caixa de charutos inteira…

Memórias de um Dinossauro

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Bar das Putas

Ano de 1981. O Diário de Osasco finalmente trocava as velhas impressoras e linotipos e passava a ser impresso em off-set. Era como pular da Idade da Pedra para o futuro, sem escalas.

O Diário também  deixava de ser temporariamente diário para se tornar semanal, embora continuasse ostentando o título Diário.

Para o Vrejhi Sanazar, dono do jornal, era um salto de qualidade e a oportunidade de atrair anunciantes. Fazer dinheiro, enfim.

Para mim e para o Giovanni Palma, que tocávamos a redação, era o passaporte para a modernidade, poder ousar nos textos, nas fotos, no formato da primeira página.

bar putasMais do que isso: como o jornal seria diagramado e impresso no prédio do Estadão (O Estado de São Paulo) na marginal Pinheiros, era a chance de viver o clima de grande imprensa, cruzar com o pessoal que fazia aquele que na época era o mais influente jornal brasileiro, até ser ultrapassado pela Folha de São Paulo.

Era também uma oportunidade para manter contato com grandes jornalistas, não apenas do Estadão, mas também de outros veículos, já que após o fechamento das edições (naquele tempo os jornais fechavam de madrugada e não eram essa coisa pasteurizada e insossa de hoje, decadentes e superados pela agilidades da internet), o pessoal se dirigia a um ´pé sujo´ na avenida da Consolação, centro velho da capital paulista, onde um churrasquinho ou uma batata frita honestos eram oferecidos a preço justo. Obviamente acompanhados de uma cervejinha, uma batidinha, uma cachacinha.

Ou tudo junto!

O local era chamado de Bar das Putas, porque além dos companheiros jornalistas, as companheiras operárias do amor também batiam ponto lá, fechando a noite de trabalho duro (ops!). Uma convivência harmoniosa, num local que marcou época numa São Paulo ainda sem crack e sem tanta violência.

Foi no Bar das Putas, enquanto entornava uma dose tamanho família de batida de limão e comemorava com o Palma mais uma bela edição do nosso “Diário semanal”, que ouvi a seguinte frase de uma das distintas freqüentadoras:

-O cara quando quer uma puta só pra ele, tem que pagar bem. Se não pagar, vai ter que dividir com os outros e se contentar com as sobras.

Num país onde, diz a lenda, cafetão se apaixona, puta goza, traficante cheira e político honesto é mais raro do que trevo de cinco folhas, a moçoila perpetrou um comentário de antologia.

“Marco ponta, seu puliça…”

dt

 

Início da década de 80, do século passado. Aos vinte e poucos anos, integrava a briosa equipe de esportes da Rádio Difusora, em Osasco (SP), como repórter de campo.

 

Rebelde sem causa, comecei a inventar de ir além das minhas funções, imiscuindo no trabalho do narrador, do comentarista e da produção.

Em bom português: enchendo o saco e criando caso com a equipe toda.

 

Até que o dono da rádio me chama e conta a seguinte historinha:

 

“Um dia a polícia resolveu dar uma batida na zona (puteiro em paulistês, brega em baianês) de uma cidadezinha local.

 

Mulheres de um lado, homens de outro.

 

A profissão delas, desnecessário perguntar. Então as nobres otoridades legitimamente constituídas passaram a perguntar a profissão dos homens.

 

-Engenheiro, disse um

-Contador, disse outro

-Professor, disse mais outro

-Bancário, disse um outro

-Agricultor,  disse outro

E fiquemos por aqui, antes que isso  vire um Guia de Profissões.

Ah, faltou mais um:

-Marco ponta esquerda, disse o baixinho atarracado

-Que c…. (c…  é o equivalente a porra em baianês) é isso de marco ponta esquerda?, Perguntou o policial, antes de dar um corretivo no sujeito (naquele tempo polícia perguntava antes de meter porrada, porque corretivo é só eufemismo).

Ao que o baixinho respondeu, todo cioso de suas funções:

-Eu sou lateral direito do time da cidade, portanto seu puliça, eu marco ponta esquerda.

 

Rebelde com causa aos 63 anos, às vezes é preciso aprender com lições jamais aprendidas.

Marcar ponta e ponto final!

Daniel Thame
Daniel Thame, jornalista no Sul da Bahia, com experiência em radio, tevê, jornal, assessoria de imprensa e marketing político danielthame@gmail.com

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