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Memórias de um Dinossauro

 

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Profissão Repórter

Entre as várias reportagens que diz ao longo desses mais de  40 anos de estrada, 32 deles no Sul da Bahia, nenhuma foi mais estressante do que a cobertura dos 500 anos do Brasil em Porto Seguro. O que seria uma comemoração, organizada a caráter para incensar Fernando Henrique Cardoso e ACM, se transformou num festival de pancadaria, perpetrada pela polícia baiana contra índios, sem-terras e estudantes.

 
Na véspera do fatídico 22 de abril, tive que optar entre ficar em Porto Seguro, onde a festa estava preparada, ou seguir para Coroa Vermelha, onde o clima estava pesado porque os movimentos sociais não se contentavam em fazer figuração no teatrinho armado pelo governo.

 

Não tive dúvidas: fui a Coroa Vermelha e ao lado da equipe da TV Cabrália, testemunhei uma demonstração de truculência e insanidade que repercutiu em todo mundo. Não perdi nenhuma festa, até porque festa não houve, para desalento do então Rei da Bahia, que ali viu desmoronar o seu sonho de se tornar o Rei do Brasil.

A reportagem foi publicada no jornal A Região. A foto é de Lula Marques.
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Polícia barra povo e FHC
faz festa vip dos 500 anos

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21 anos de impunidade

14 de janeiro de 1998.Assassinato de Manuel Leal. 14 de janeiro de 2019 Um crime sem castigo.

14 de janeiro de 1998. Assassinato de Manuel Leal.
14 de janeiro de 2019. Um crime sem castigo.

 

Memórias de um Dinossauro

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Itabuna, vésperas das eleições de 1996 em Itabuna. A Justiça  manda apreender a edição do jornal A Região, numa censura previa típica dos anos de chumbo da ditadura militar. Um caminhão da Polícia Militar, com policiais fortemente armados, para na entrada da gráfica numa atitude ameaçadora. Manuel Leal, calmamente, entrega alguns pacotes com jornais. Bons de truculência e ruins de conta, os  policiais não percebem que a quantidade de jornais entregue era mínima.

Durante a madrugada, milhares de exemplares da edição que deveria estar apreendida são distribuídos nos bairros e no centro de Itabuna.

Nas eleições de 2000, a ameaça de apreensão se repetiu, já que quase sempre há um magistrado zeloso à disposição dos poderosos de plantão. Como macaco velho olha o galho antes de se agarrar, na penúltima edição antes do pleito, foi publicada uma nota no alto da página, informando aos leitores que o jornal só voltaria a circular com o resultado do pleito, na segunda-feira.

A Justiça baixou a guarda e o jornal circulou normalmente, no sábado. Panfletário como sempre, antes de se ´endireitar` de vez uma década depois.

 

20 anos sem Manoel Leal

a falta que o velho capo faz

Neste 14 de janeiro de 2018, completam-se 20 anos da morte do jornalista e diretor do jornal A Região, Manoel Leal, brutalmente assassinado num típico crime de mando.

A exceção da condenação do ex-policial Mozart  Brasil, até hoje impera a impunidade, já que as investigações, propositalmente capengas, nunca chegaram nem perto dos mandantes.

A data passa quase despercebida, mas não deveria.

Verdade que a Bahia daqueles tempos trágicos em que a imprensa era silenciada a tiros não existe mais.

Não é menos verdade, entretanto, que enquanto a impunidade permanecer e não houver justiça, Manoel Leal será uma amarga lembrança para os que, como este blogueiro, tiveram a oportunidade de conviver com alguém demasiadamente humano, nas virtudes e nos defeitos.

Leal, o maior jornalista, no sentido literal na palavra, que essa terra (adubada com sangue, by Jorge Amado), já produziu.

Saudades do meu velho capo, com quem compartilhei alguns de meus melhores anos nessa trajetória sul-baiana que chega aos 30 anos de caminhada.

Manoel Leal, Eterno!

Manuel e Daniel

Daniel Thame

 

dt panamá-Eu soube que o senhor vai lançar um jornal e está precisando de repórteres…

-Você é de onde?

-São Paulo, cheguei há um mês aqui…

-Então começa amanhã…

-Mas o senhor não vai nem me pedir pra fazer um texto pra avaliar?

-Não precisa. Se você é de São Paulo é bom, pode vir amanhã cedo e começar a trabalhar…

-0-0-0-

Contado assim, 30 anos depois, parece até uma daquelas narrações inverossímeis, feitas para dourar a pílula e transformar um ato banal em algo digno de registro.

Mas foi exatamente assim que aconteceu naqueles meados de abril de 1987, num fim de tarde em que, levado por Vilma Medina (testemunha desse diálogo surreal), meu destino se cruzou com o de Manuel Leal e me fez mergulhar na aventura de uma vida que foi, durante os 13 anos em que lá passei como repórter e depois editor, trabalhar no jornal A Região, do qual ainda sou colaborador extemporâneo.

manuel leal13 anos, dez deles convivendo com Leal. O tempo permite o que em outras situações soaria como cabotinismo: o inigualável faro para a notícia e o destemor  de Leal, somados a um texto cortante como uma navalha afiada e uma compulsão por grandes reportagens deste que ora vos escreve (puta que pariu, `dourar a pílula` e ´deste que  ora vos escreve` são dignos de aposentadoria compulsória se Michel Temer permitisse), foram a essência de um jornal que mais do que papel e tinta, era impresso com alma.

O arco se encontrou com a flecha.

Antes que a banda siga e o mundo gire, um adendo necessário: gente com muito mais talento para a escrita passou por A Região, mas não citarei nomes para não despertar egos adormecidos. Estou me referindo à simbiose de duas almas que o acaso (ou não) reuniu numa redação de jornal. Nisso, a rima de Manuel com Daniel produziu uma rima e uma solução.

Foram 10 anos de Malhas Finas e Malhas Grossas, de reportagens inesquecíveis, manchetes de antologia, histórias (ao menos as publicáveis)  que dariam um livro.

primeira capaQuem senão A Região teria coragem de dar a manchete de fraude no Vestibular da Uesc, apostando num suposto gabarito jogado por baixo da porta da sede do jornal? A edição rodando, Leal me liga de madrugada:

-E se aquilo for uma falsificação?

Respondi com a única frase possível:

-Nós dois estamos fodidos.

As denuncias  de fraude, com conhecimento prévio dos gabaritos por alguns privilegiados, principalmente nos cursos mais disputados, como Direito, eram recorrentes. Comprovada, mudou para sempre a história do vestibular.

Quem senão Leal para perceber que um romance entre um fazendeiro  de 70 anos e uma estudante de 13 era notícia nacional? Foi além: a história de Ferreirinha e Yolanda foi destaque até no Japão, com direito a uma impagável entrevista a Jô Soares em que Ferreirinha, orientado por Leal, repetia que sua propalada virilidade se devia ao suco de cacau. E eram tempos pré-viagra…

Aproveitando a deixa: eram também tempos duros, por conta das inúmeras denuncias feitas pelo jornal, que incomodava os poderosos de plantão, entre eles o mais poderosos de todos, Antonio Carlos Magalhães, que de tão poderoso virou sigla.

Pois ACM em pessoa, não a sigla, inventou a inauguração de um poste para vir a Itabuna e desancar o então ex-amigo Leal (a relação de ambos era de amor e ódio como o próprio jornal atesta em suas páginas), num comício na praça Adami. Tão ridículo que Leal riu. O tempo, entretanto, mostraria que nem todos os poderosos (ou que se acham poderosos) são de anedota.

A Região (e Manuel Leal porque o jornal essencialmente era ele) das denuncias de tráfico de crianças, de privilégios na liberação de recursos para combater a vassoura-de-bruxa, da primeira importação de cacau em décadas, que mereceu uma manchete em letras garrafais: ACABOU!, com direito a exclamação. Definitiva.

Manuel Leal, Manuel Leal, Manuel Leal. Manchetes e histórias. Do coração frágil sustentado por pontes de safena, mas  imenso e generoso.

-Leal, estou querendo fazer uma série de reportagens em Cuba (na verdade, conhecer Cuba era o sonho impossível dos meus tempos de rebeldia e dureza em Osasco).

Um jornal do interior da Bahia mandando um jornalista pra Cuba em 1995 tinha tanto sentido quanto mandar um repórter a Marte. Mas Leal bancou a viagem e me vi na obrigação de deixar a ideologia de lado e fazer aquelas que, modestamente, considero as melhores reportagens da minha vida. E olha que nesse negócio eu costumo colocar a modéstia no paredón.

A Cuba dos avanços na saúde, na educação, nos esportes foi mostrada ao lado da falta de liberdade, da prostituição, da fome extrema (eram tempos pós queda do Muro de Berlim), das levas de cubanos que se arriscavam em balsas improvisadas pare tentar chegar aos estados Unidos. Isso quando os tubarões não chegavam antes.

Dois anos depois, premiado com uma viagem a Itália, numa tentativa de amenizar as denuncias de tráfico de crianças, ele simplesmente disse:

-Vai você. Eu iria só passear e você vai trazer boas reportagens pro jornal.

A mais dolorida das capas

A mais dolorida das capas

E  da Itália, onde ainda deu tempo de cantar ´il sole mio` numa gondola em Veneza, vieram reportagens sobre adoções de crianças que não terminavam necessariamente em pizza. Veio também uma premonitória história sobre uma italiana, Cinzia, agraciada com o bem estar social europeu,  e um africano, Baussa, que vivia de esmolas na Verona de Romeu e Julieta. Qualquer semelhança com as levas de africanos e árabes hoje em dia  que morrem afogados no Mar Mediterrâneo antes de alcançar o suposto paraíso, não é mera coincidência.

Padre mio, esse era Leal, que num sentido espiritual, foi mesmo um pai. Deixemos o coração escrever: Leal foi, pra mim, um pai em todos os sentidos.

Dezembro de 1997. A manchete mais emblemática de todas. “Delegado que apura a fraude  do IPTU recebeu R$ 4.500,00 da Prefeitura de Itabuna”.  A única reportagem em que, como um leitor comum e atendendo um pedido meu por conta de sua  mania de anunciar as `bombas` antes que elas fossem detonadas, Leal só viu o jornal depois de impresso. A flecha disparada sem o arco…Deus, como isso é cruel e me atormenta até hoje.

Janeiro de 1998. Manuel Leal foi assassinado covardemente quando chegava a sua residência no Jardim Primavera, localizada entre a Delegacia Regional de Policia e a sede do Batalhãoi da Polícia Militar.

A percepção de seus algozes covardes era cirúrgica: morto Leal, morre também A Região.

Como se pode depreender, 30 anos se passaram desde abril e 1987 e 19 anos se passaram desde o trágico janeiro de 1998, e  A Região está viva, a cada edição tirada a fórceps e custa de uma abnegação que é quase um sentido de missão.

E Manuel Leal, de certa forma, também vive através do jornal que foi a sua razão de viver.

A Região, 30 anos. Manuel Leal vive!

manuel leal

Há exatos 30 anos, 27 de abril de 1987, circulava a primeira edição de A Região.

Nascia, pelas mãos de Manuel Leal, um jornal que marcaria época e se transformaria num dos principais veículos de mídia impressa no Sul da Bahia, com sua coragem de enfrentar os poderosos de plantão e produzir manchetes de antologia.

A primeira capa de A Região

A primeira capa de A Região

Uma história que não se encerrou nem com a morte brutal de Manuel Leal, covardemente assassinado há 19 anos. Leal foi a chama que, a despeito de todas as dificuldades, mantem o jornal vivo até hoje.

A mais dolorida das capas

A mais dolorida das capas

Neste final de semana, A Região traz uma retrospectiva das principais manchetes, como o escândalo da Sérvia, a fraude no vestibular da Uesc e o tráfico de crianças para a Itália, e  depoimentos de quem atuou no jornal.documento para a história, embora A Região ainda tenha muita história pra contar.

Meu eterno Capo

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Hoje se se completam 19 anos do assassinato de Manoel Leal. Para homenagear o velho Capo encontrei nos meus alfarrábios esse texto escrito em 2003.

Incrível como parece atual. Leal é dessas pessoas que morrem mais parecem vivas.

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Manoel Leal, notícias de
jornal e outras histórias

Há exatos  cinco anos, no início da noite de 14 de janeiro de 1998, seis tiros calaram Manoel Leal.
Ainda que assassinos e mandantes continuem protegidos pela impunidade, não se vai aqui repetir o que se escreveu ao longo dos anos, até por ser desnecessário, tanto o que já se falou sobre o crime.
O que vai se fazer aqui é uma homenagem.
Manoel Leal de Oliveira. O maior jornalista que já surgiu nesse chão grapiuna.
Manoel Leal de Oliveira, o cordeiro que às vezes brincava de ser lobo.
Manoel Leal, o que assumia os defeitos e não espalhava as virtudes que tinha.
Manoel Leal.
Nunca, em tempo algum, uma ausência se fez tão presente.
Desconheço, ao longo dos anos, uma conversa de bar que não tivesse convergido para seu nome. Que não remetesse a alguma história protagonizada ou inventada por ele.
Manoel Leal das malhas impagáveis, como a do soco que Carlito do Sarinha deu em Hamilton Gomes, quando na verdade Hamilton foi quem bateu em Carlito. “No meu jornal, amigo meu não apanha, só bate”.
Dos trocadilhos impagáveis com o amigo Hermenegildo, a quem dizia ser muito ágil, numa referência nada sutil à palavra ágio. Amigos, tanto que nas horas de aperto, lá estava Leal batendo às portas do ágil Hermenegildo. E sem pagar ágio.
Da piada infame que contava centenas de vezes, e só ele achando graça, na presença de Roberto Abijaude:
-Vocês árabes são muito unidos…
E completava:
-Também, vieram para o Brasil amarrados no porão do navio.
Da maldade com uma amiga paulista que fez comer o bago de jaca, até então uma fruta desconhecida para a mulher.
Do fogão novo enviado “por engano” para a casa do amigo Flávio Monteiro Lopes, apenas para que a esposa pensasse que ele tinha outra.
Das flores enviadas semanalmente para Nilson Franco, em nome de uma mulher misteriosa.

O Manoel Leal que pegava a máquina fotográfica e ficava na porta da Cesta do Povo fotografando as dondocas que escondiam o rosto com suas bolsas de grife. Isso num tempo (e bota tempo nisso!) em que Cesta do Povo era coisa de pobre.
De uma generosidade que não cabia no coração cambaleante.
E. vamos ao que interessa, de um talento para fazer jornal, do qual não apenas fui infinitas vezes testemunha como também co-autor, que é possível dizer sem correr o risco de cair no ridículo que nunca haverá alguém como Manuel Leal.
Esse faro para a notícia aliado a um destemor apavorante fez de A Região um jornal que não era apenas um veículo de comunicação.
A Região era aguardado nas bancas. Algumas de suas edições se esgotavam logo no domingo, menos de 24 horas após o jornal começar a circular.
E não eram apenas as Malhas Finas e Malhas Grossas, capazes de arrasar reputações ou garantir gozações ao longo de uma semana.
A notícia, muitas vezes exclusiva, muitas e muitas vezes corajosa, algumas vezes beirando a irresponsabilidade, era o combustível que alimentava o jornalista Manuel Leal.
Tráfico de Crianças, Importação de Cacau, Esquema dos “Cabritos” envolvendo autoridades, Fraude no Vestibular da Uesc, Liberação dos recursos do cacau pelo então governador Paulo Souto sem as garantias necessárias. E mais uma infinidade de notícias que A Região deu porque só Leal sabia ou porque só Leal tinha coragem de publicar.
Manoel Leal era um garimpeiro de notícias. Isso é raro.
Numa noite de 1995, véspera da eleição municipal. A Justiça determina a apreensão da edição do jornal.
Ordem cumprida com um batalhão de PMs armados até os dentes na porta da gráfica. Leal calmo.
Quando a polícia sai, pergunto:
-Você entregou o jornal assim, sem mais nem menos?
A resposta, seca, irônica.
-Menino, você não notou nada? Eles levaram mil jornais. O resto está aí no fundo.
Na madrugada, milhares de exemplares da edição apreendida eram espalhados pela cidade.
No episódio da denuncia de fraude no Vestibular da Uesc, talvez o maior furo da história do jornal e de toda a imprensa itabunense, a edição sendo impressa na gráfica, Manoel Leal liga aflito para minha casa:
-E se esse negócio não for verdade?
Duas horas da madrugada, morto de sono, igualmente aflito com a possibilidade de uma barrigada monumental, só consigo responder:
-Nós dois estamos fodidos.
No dia em que um navio trazendo cacau atracou no porto de Ilhéus,
Leal esqueceu-se que era jornalista (porque também era produtor) e postou-se feito um Dom Quixote diante da embarcação, tentando impedir o desembarque.
Simbólico, embora hoje soe apenas engraçado.
O tempo tem dessas coisas.
Há que se cobrar, até a punição dos responsáveis, que o assassinato de Manoel Leal seja esclarecido. Porque esse é um crime que, decorridos cinco, dez, cinquenta, cem ou quinhentos anos, vai permanecer como uma mancha na história da cidade
Há também que se resgatar histórias de alguém que, parafraseando Nietszche, era “humano demasiadamente humano”.
Nas virtudes, nos defeitos. Na vida e na morte.
Mesmo para quem, entendam como quiserem, não morreu.

A Região manterá edição impressa

a-regiaoO jornal A Região vai manter sua edição impressa por mais tempo, fazendo alguns ajustes necessários para viabilizar a continuação do jornal nas bancas.

“Desde que foi anunciado o fim do jornal impresso, a quantidade de pedidos para que seja mantida a edição das bancas foi muito grande. Por isso, nossa equipe estudou uma saída.

O foco continuará na edição online, lida por pessoas de todos os estados e dezenas de países. Porém, encontramos uma maneira de atender aos leitores que preferem ler o impresso, mesmo que com algumas mudanças’, afirma o diretor do jornal, Marcel Leal.

A primeira é que o jornal passa a ter 16 páginas, uma redução necessária para manter o custo no orçamento. A outra é que os Classificados Balaio não serão mais gratuitos. Cada anúncio padrão terá custo simbólico de R$ 2.

Além disso, a entrega nas bancas foi otimizada para reduzir os custos, entre outras providências. “Depois de quase 30 anos escrevendo a história do sul da Bahia, a gente sentiu a obrigação de resistir por mais tempo,” afirma  Marcel. Neste sábado, dia 24, a  edição impressa nas bancas.

Depois haverá o recesso anual de uma semana, voltando ás edições semanais no dia 7 de janeiro.

 

OS REVOLUCIONÁRIOS DO PRAZER

Antes de Revolução liderada por Fidel Castro, Cuba era o bordel dos Estados Unidos. A afirmação não contém qualquer exagero e é confirmada pelos próprios cubanos. A jogatina e a prostituição faziam as delícias dos norte-americanos, numa ilha perto da casa deles. Cassinos e prostíbulos eram controlados pela máfia, numa espécie de território livre.

Tempos depôs, Fidel se orgulharia de ter acabado com a prostituição no país, alardeando o fato como uma das conquistas da revolução socialista. Com a abertura para o turismo, Fidel só não vê o ressurgimento da prostituição de larga escala em Cuba se ficar trancafiado em alguém bunker. E ainda assim com os olhos vendados.

Tem-se a impressão de que a prostituição não é apenas tolerada, mas incentivada. Afinal, os dólares gerados pelo mercado do sexo permanecem no país. A atividade é acintosa. A nossa permanência em Cuba coincidiu com a realização do Congresso Mundial de Pedagogia, que reuniu cerca de 5 mil educadores de 40 países.

Houve um determinado momento em que, num dos mais luxuosos hotéis de Havana, só era possível distinguir hóspedes de prostitutas e prostitutos pelas roupas e pelos modos (os cubanos usam roupas modestas e não conseguem esconder o constrangimento ao serem usados como objeto).

O tal congresso deve ter afetado os preços. Uma jinetera, como elas chamam as prostitutas, cobrava entre 30 e 50 dólares por uma noite de sexo. Em condições normais, o preço não ultrapassa 20 dólares, com direito à negociação. As histórias são sempre as mesmas: “a situação está difícil”, “preciso de dinheiro pra sustentar a família”, “não tenho outra opção” e outras frases feitas do gênero. A garota M., uma loirinha de 22 anos, divorciada, mãe de um menino, começou a noite cobrando 50 dólares. Lá pelas três da madrugada, recusada por um brasileiro e por um venezuelano, o preço já estava em 20 dólares.

S. de 21 anos, e R. de 20, ambas enfermeiras, faziam ponto num hotel afastado de Havana, que serviu de hospedagem aos atletas que disputaram os Jogos Panamericanos em 1991. O preço da noite: 30 dólares, fora as bebidas. Acrescente-se ao programa pelo menos 10 dólares, que é a propina cobrada pelos porteiros dos hotéis, chamados de custódios, zelosos amigos que se incumbem de ir buscar a jinetera no quarto, antes que o dia amanheça. Aliás, os porteiros e recepcionistas dos hotéis ficam cegos, surdos e mudos diante de uma notinha de 10 dólares (notinha para nosotros, obviamente).

Jineteras e jineteros não são propriamente profissionais do sexo. Se envolvem a ponto de levarem o parceiro ou a parceira para conhecer a família e, não raro, deixam de cobrar a partir do segundo encontro, contentando-se com perfumes, batons, cigarros ou roupas. A professora K, de 23 anos e aparência de 30, se contentava com uma camisa ou, quem sabe, 5 dólares para comprar alimentos para os dois filhos pequenos.

Sintoma da escassez de comida, a primeira coisa que as jineteras costumam pedir é um lanche, que devoram com felicidade de quem come um prato de caviar. Transar depois de uma cena dessas é para quem tem a sensibilidade de uma pedra.

Ao contrário do Brasil, a prostituição masculina é às claras. Eles fazem a abordagem e se a mulher entra na conversa, está fisgada. Respeitáveis senhoras de meia idade fazem a festa. Uma professora colombiana, simpática nos seus presumíveis 60 anos e dona de respeitável situação financeira, pelas jóias que ostentava, era vista durante o café da manhã do restaurante de um hotel, cada dia com um jinetero diferente. Tinha o semblante feliz de quem passara uma noite esplendorosa.

Congresso de Pedagogia? Só se for de Sexologia. O comentário, evidentemente, partiu de um brasileiro. Puro despeito.

Os jineteros se definem como guias turísticos. Eufemismo desnecessário. L., de 29 anos, prefere contar vantagem: “tem uma italiana, rica, casada, que vêm aqui uma vez por ano, só pra transar comigo. Me dá mil dólares. Também tenho uma amiga espanhola e outra alemã. Vivo disso e acho normal”. Mil dólares pode ser um exagero, mas as “amigas” não, a julgar pela quantidade de “guias turísticos” que se colocam à disposição das estrangeiras. “Eles são tão doces, carinhosos”, confidenciou uma professora brasileira, que revezou suas atenções com dois cubanos, um loiro, outro mulato. O loirinho, mais sortudo, teve direito a festa de despedida.

Nos dois últimos dias do Congresso de Pedagogia, a coisa ficou mais discreta, embora o vai-e-vem (nos dois sentidos) nos hotéis continuasse intenso. Transformar-se num paraíso de turismo sexual é tudo o que Cuba não quer, porque isso afasta os turistas mais endinheirados e atrai apenas os operários de países onde o padrão de vida é mais elevado, fenômeno que ocorre em algumas capitais nordestinas no Brasil como Recife e Fortaleza.

“A prostituição é o preço mais desgraçado que se paga por abrir Cuba aos turistas e conseguir dólares tão necessários para manter a Revolução”. A frase é do médico Zenóbio Gonzáles, diretor do Hospital Hermanos Ameijeiras, o principal de Cuba.

Suprema ironia: jineteras e jineteros, com suas armas pouco convencionais, ajudam a salvar o socialismo.

Revolucionários, porque não?

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PS- À frase do dr. Zenóbio, seguiu-se um choro mal disfarçado. É fácil mostrar o esfacelamento de um país. Difícil é compreender a alma de um povo que luta não apenas pela sobrevivência, mas para manter a cabeça erguida. Por respeito a essa alma indevassável, omitimos os nomes dos jineteros e jineteras aqui citados, embora as pessoas e situações sejam reais.

TUDO PELO SOCIAL

É impossível conter a primeira lágrima quando uma doente mental, corpo franzino, 56 anos, toca no piano os primeiros acordes de Chopin, no auditório do Hospital Psiquiátrico de Havana. Pra que segurar o choro quando a emoção transborda no momento em que uma outra doente mental canta Allegro? O hospital, localizado numa área de 40 hectares na periferia da capital cubana pode ser apontado pelos opositores do socialismo como marketing puro.

Marketing ou não, o que se vê é um trabalho excepcional no tratamento de doentes mentais. São cerca de 3.700 internos, num ambiente que em nada lembra os manicômios tradicionais. No hospital, eles têm todo o tipo de terapia ocupacional (corte e costura, artesanato, pintura, confecção de utensílios domésticos, horta, etc.), além de aulas de balé e dança, música e atividades esportivas. O hospital possui pista de atletismo e até um estádio de beisebol. Mente sã, corpo são. O criatório de frango com maior índice de produtividade de Cuba está localizado na área do hospital psiquiátrico e é operado pelos internos. “Ô loco!”, diria um rechonchudo apresentador da tevê brasileira.

O setor de saúde é uma das pilastras, talvez a principal, do regime cubano e o hospital psiquiátrico serve para ilustrar isso. Num país cuja medicina é socializada, o forte é o trabalho de prevenção. É aí que entra o médico da família. Existem 22 mil desses médicos, que atendem a uma média de 120 famílias cada um.

O que o médico da família não pode tratar é encaminhado à rede urbana de policlínicas, que possui cardiologistas, ortopedistas, oncologistas, etc.; além de pequenos laboratórios. Cuba tem 428 policlínicas urbanas e 66 hospitais de montanha, estes localizados em áreas rurais. Ainda na área rural, as gestantes são encaminhadas aos hogares maternos a partir do 7º. mês de gravidez. Em função disso, 92% dos partos são feitos em hospitais.

O mapeamento epidemiológico é feito por área, facilitando o trabalho preventivo. Num segundo nível, existem os hospitais municipais (162) e provinciais (14). Os provinciais são hospitais de referência, que atendem até 50 especialidades. Resultado: 99,9% dos casos são resolvidos na própria província. O restante fica por conta das 11 Instituiciones de Medicación, hospitais de referência nacional, que realizam transplantes e tratamentos que exigem tecnologia de ponta.

O Hospital Hermanos Amejeiras, no centro de Havana, é um dos maiores de Cuba. Possui 950 leitos para internamento e 62 para terapia intensiva. Funciona como pós-graduação para os alunos da Faculdade de Medicina de Havana e sua manutenção custa US$ 25 milhões/ano. Como não existe vacina contra a falta de dinheiro, o jeito foi abrir o hospital para os estrangeiros, que contam com dois andares exclusivos para a realização de cirurgias e tratamentos que podem custar até 15 mil dólares.

“Precisamos dos estrangeiros para obter dinheiro, mas garanto que eles não tem qualquer privilégio na hora dos transplantes”, garante o médico Zenóbio Gonzáles, diretor do Hermanos. O mesmo tratamento feito em Cuba sai de 40% a 60% mais barato do que nos EUA. Problemas? Claro que existem. “Cuba produzia 85% dos remédios que consumia. Hoje faltam matérias primas e temos que apelar a amigos de outros países para conseguir medicamentos para cirurgias mais complexas. Antes a gente receitava sem se preocupar com os remédios, hoje temos que saber o que está disponível antes de receitar”, diz Zenóbio.

Cuba tem um dos menores índices de mortalidade infantil do mundo (9,9 por mil), uma expectativa de vida elevada (76 anos) e uma média de filhos nos padrões europeus (2 por casal). O aborto é liberado. O número de casos de AIDS até agosto de 1994 era de 1.080, com 72 mortes. A maioria dos casos atinge jovens entre 17 e 24 anos. Esses números podem ser perfeitamente questionados, já que o homossexualismo é reprimido no país e não existe distribuição de preservativos. “A repressão faz com que a troca de parceiros não seja tão freqüentes e além disso não temos problemas em larga escala com drogas”, justifica Zenóbio Gonzáles.

EDUCAÇÃO PARA TODOS- “Hablás inglês?”, pergunta o taxista, diante do nosso confuso portunhol. Taxistas, garçons, balconistas. Os filhos da revolução não tem do que reclamar, pelo menos na área educacional. O ensino é gratuito, obrigatório e garantido pelo governo. São nove ciclos no que no Brasil chamamos de ensino fundamental e ensino médio, incluindo um pré-universitário de dois anos e em seguida a opção entre um curso técnico ou a universidade.

As crianças passam o dia todo na escola. Muitas salas de aula são improvisadas em velhos casarões ou garagens, o material escolar é escasso, mas o nível do ensino é elevado. Crianças de 7, 8 anos, surpreendem pela desenvoltura com que conversam e pelo nível cultural. Os irmãos Carlos, 9 anos, e Michel, 7, sabem que apesar dos sacrifícios, terão garantia de estudo até a universidade. Carlos quer ser médico e Michel arquiteto. Nas colas das camisas, o bordado com o nome de Che, mito de todas as gerações pós-revolução.

Que maravilha! Nem tanto. A crise transforma arquitetos em garçons, químicos em motoristas de táxi e professores universitários em guias turísticos. É excesso de mão de obra num país parado por falta de meios de produção.

FÁBRICA DE CAMPEÕES- O esporte cubano dispensa maiores apresentações. Campeões no vôlei, multi-campeões no atletismo, destaques no boxe, no beisebol. Apesar da origem espanhola de boa parte da população, o esporte é dominado pelos negros. Javier Sottomayor e Mirella Luis são ídolos inquestionáveis. Ginásios de esportes e pistas de atletismo existem às dezenas, em todo o país.

O beisebol é o esporte número 1 de Cuba. É praticado como aqui se praticava o futebol, quando ainda havia espaço para campinhos de terra. O futebol inexiste. Deus seja louvado: nos sete dias que passamos em Cuba, ninguém perguntou por Romário!

TUDO PELO SOCIALISMO

O imponente prédio na Plaza de La Revolución, em Havana, abriga um jornal de faz-de-conta. O sentido não é pejorativo, pelo contrário. No Gramma, o jornal oficial do governo cubano, cerca de 70 jornalistas fingem que trabalham, apenas para manter o moral elevado. Para não ´jogar a toalha´, usando uma expressão bem brasileira.

O problema, como sempre, é a crise econômica vivida pelo país. O Gramma, que nos áureos tempos do Bloco Socialista tirava uma média de 700 mil exemplares/dia (chegou a 1 milhão/dia em ocasiões especiais) hoje tira cerca de 400 mil exemplares. Não é pouco num país com 11 milhões de habitantes, mas é uma situação que obviamente não agrada os jornalistas, até porque a edição circula com apenas quatro páginas, impresso num papel sem qualidade. “A gente faz as matérias normalmente, mesmo sabendo que a maioria delas não será publicada”, resigna-se a editora de do noticiário internacional, Nidia Diaz.

Trabalhar num jornal e ter que seguir estritamente as diretrizes do governo parece não constranger Nidia e seus companheiros.”Por acaso vocês no Brasil trabalham para algum órgão que não esteja comprometido com grupos financeiros ou políticos”, responde ela, perguntando.

Tento explicar que diz apenas meia-verdade, porque no Brasil pode se escrever contra ou a favor do governo. Nidia não se dá por vencida e afirma que “se a maioria da população aprova a revolução, não existe problema que a imprensa seja comprometida com os ideais socialistas”. A ´conversa de surdos´ termina aí, porque Nidia teria 500 milhões de argumentos para justificar a existência de imprensa livre em Cuba.

Além do Gramma, que circula cinco dias por semana, Cuba possui 14 jornais semanais provinciais, um jornal da juventude cubana e outro dos trabalhadores (também semanais). Existem ainda 55 emissoras de rádio (49 locais, 5 nacionais e uma internacional) e 11 emissoras de televisão (2 nacionais, 8 regionais e uma internacional). Toda “a serviço do socialismo”. A programação da tevê é insossa, com filmes mexicanos, novelas, documentários e um noticiário comprometido até a medula com o regime.

Pelas parabólicas (em número cada vez mais crescente, com a tolerância do governo) captam-se emissoras do México, Colômbia e Venezuela, cujos noticiários simplesmente ignoram o Brasil.

95% dos cubanos tem aparelhos de televisão. A maioria dos aparelhos veio da extinta União Soviética e está caindo aos pedaços. Mas, a exemplo dos carros antigos, funcionam por um desses milagres que nem os cubanos conseguem explicar.

AS MULHERES DE GUINERA

 


Há dez anos Fidel Castro foi inaugurar uma creche no bairro Guinera, nos arredores de Havana. Na época, o bairro era o mais miserável da capital, um amontoado de barracos. “Porque vocês não constroem prédios aqui?”, perguntou El Viejo Comandante a Josefina Bucur, conhecida como dona Fifi.

Com a garra de quem não fez outra coisa na vida que não fosse lutar pela sobrevivência, Fifi e suas companheiras iniciaram um mutirão que mudou o aspecto do Guinera. O governo forneceu o material, os moradores entraram com o trabalho e hoje os barracos foram substituídos por 396 apartamentos prontos, do total de 1.200 que serão construídos. Não é pouco, considerando-se as dificuldades atravessadas pelo país. O material de construção é produzido no próprio bairro. Os moradores dos apartamentos pagam 20% do salário por mês e são donos dos imóveis. Uma psicóloga orienta o processo de mudança do barraco para o apartamento.

O Guinera possui agencia bancária, posto dos correios, mercado e toda a estrutura de um bairro urbanizado. Os apartamentos são servidos com água, luz e rede de esgoto. Mas, porque as mulheres lideram o mutirão? Dona Fifi é quem responde:
-Os homens passam o dia fora. Nós é que sentimos o drama de morar em barracos. Por isso, fomos à luta.

A centelha se espalhou. Hoje são 7 bairros em processo de desfavelização em Havana e em outras cidades cubanas. Fifi, a mulher guerreira, é quase uma atração turística, visitada diariamente por pessoas de todo o mundo.

Continua morando no Guinera, num dos apartamentos que ajudou a construir com as próprias mãos.

(na próxima série de reportagens: a prostituição, o cambio negro e o sucesso das novelas brasileiras)

Daniel Thame
Daniel Thame, jornalista no Sul da Bahia, com experiência em radio, tevê, jornal, assessoria de imprensa e marketing político danielthame@gmail.com

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