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Tiroteio verbal, tiroteio real


Nesta semana, a Câmara de Vereadores de Itabuna produziu um desses episódios que revelam a diferença entra a boa intenção e a ação. É inegável que o vereador Sólon Pinheiro teve uma boa intenção ao realizar uma sessão especial com o objetivo de debater a violência em Itabuna e buscar soluções para reduzi-la.

O encontro, que poderia ser produtivo, já que contava com a participação de diversos segmentos da sociedade organizada, descambou para um tiroteio verbal entre o vereador e o comandante do 15º. Batalhão da PM em Itabuna, tenente-coronel Jorge Ubirajara Pedreira, que está deixando o cargo.

Um diálogo ríspido, que provocou tamanho mal estar entre os presentes que a sessão teve que ser suspensa. As discussões e as eventuais soluções para conter a violência ficaram para depois.

O imbróglio na Câmara de Vereadores é exemplar, na medida em que não é o caso de se buscar culpados pela violência e sim promover uma ampla mobilização para que o cidadão possa ter um mínimo de tranqüilidade.

Não se trata de um problema exclusivo de Itabuna ou mesmo da Bahia.

A violência é uma praga nacional, que atinge desde as mega-metrópoles até as pequenas cidades do interior.

Em Itabuna, é bom que se frise, essa violência tem atingido níveis alarmantes, com assassinatos em série e roubos/assaltos que muitas vezes as vítimas nem se dão ao trabalho de registrar queixa na polícia, de tão inútil que é.

O tráfico de drogas, responsável pela esmagadora maioria dos casos de violência, é uma instituição onipresente na cidade, que não raro conta com uma proverbial cegueira da polícia para atuar as claras.

A violência não é apenas um problema policial.

É, também, o principal subproduto de um sistema em que a exclusão social e a ausência dos serviços públicos básicos (como saúde, educação, lazer e acesso ao mercado de trabalho) acaba levando à criminalidade, embora não seja correto dizer que pobreza é pré-requisito para a criminalidade.

Para evitar que se chegasse ao clímax de violência, seriam necessárias políticas que ofereçam oportunidades às crianças, adolescentes e minorem as carências das pessoas adultas.

É algo tão óbvio, que se torna redundante ficar repetindo isso à exaustão.
Mas, se é tão óbvio assim, porque nossos governantes -e a sociedade organizada como um todo- não tomam as medidas necessárias para coíbir a violência no nascedouro, antes que ela estoure tingindo a todos, sem exceção?
Antes que todos nos transformemos não apenas em vítimas potenciais, mais em vítimas reais?
É o caso, definitivamente, de menos discussão e mais ação.

A locomotiva escolhe cada maquinista…


São Paulo é considerado, com muita propriedade, a Locomotiva do Brasil. Um estado que, se fosse um país, estaria no mesmo patamar de algumas nações européias.

Potência econômica, responsável pela maior parte do PIB do Brasil, o interior de São Paulo possui algumas cidades interioranas, como Ribeiro Preto, Araraquara, Barretos, São José do Rio Preto, Araçatuba e Presidente Prudente que mais parecem municípios do 1º. Mundo, pela pujança econômica e qualidade de vida que ostentam.

Durante décadas, São Paulo foi o “objeto de desejo” de milhões de norte/nordestinos, que fugindo da seca e da pobreza, buscaram no Eldorado Paulista uma chance de vida melhor.

Hoje, esse Eldorado não é tão dourado assim e a capital paulista, uma das maiores cidades do mundo, paga o preço da falta de planejamento urbano, da expansão desenfreada e da superpopulação.

Vez por outra, explode o caldeirão de violência e miséria nas periferias desassistidas, que ao contrário do Rio Janeiro onde praia-rica e morro-favela convivem lado a lado, estão espalhadas pelas bordas da capital e de quase três dezenas de cidades que formam a Grande São Paulo.

Uma área onde vivem/sobrevivem cerca de 15 milhões de pessoas.

A potência de desenvolvimento, que resiste a despeito da expansão econômica para outras regiões do país, é um desastre quando se entra no quesito preferência política, com escolhas que oscilam entre o mais deslavado conservadorismo e o bizarro.

A observação se dá diante da opinião de alguns cientistas políticos (?) de que São Paulo pode decidir a eleição presidencial de 2010 em favor de José Serra, compensando com uma diferença de votos esmagadora, as perdas que o candidato do PSDB terá nas regiões Norte, Nordeste, Centro Oeste e partes do Sul/Sudeste, em que o peso político e a popularidade de Lula podem favorecer Dilma Roussef.

Era exatamente isso o que pensavam os paulistas (e os tucanos) em 2006, quando jogaram o peso de São Paulo para eleger Geraldo Alckmin e derrotar Lula.

O resultado já é conhecido: Lula teve a maior votação da história e Alckmin conseguiu a proeza de ter, no segundo turno, menos votos do que no primeiro.

Tudo bem: Dilma não é Lula, Serra não é Alckmin. Para sermos justos, não há nem comparação.

Mas, na ferrovia da política, São Paulo também não pode se jactar de ser a locomotiva que puxa para onde quer os demais vagões de eleitores.

E de mais a mais, não custa lembrar que São Paulo já elegeu Jânio Quadros e Celso Pitta prefeitos da Capital, além de aberrações e ou excentricidades como Afanasio Jazadi, Agnaldo Timóteo, Frank Aguiar, Netinho e Biro Biro para deputado e vereador.

É melhor ficar sempre com um pé atrás, diante das opções de maquinista dessa locomotiva. O trem Brasil, que anda nos trilhos, não pode correr o risco de descarrilar.

A MÃE

Algumas mães, de tão devotadas, costumam dar a vida pelos filhos.

O instinto maternal se manifesta de forma tão intensa que eles não hesitam em submeter-se ao sacrifício para preservar aqueles a quem, numa das mais sublimes manifestações da natureza, deram a vida.

Mães, invariavelmente, sonham que seus filhos e filhas se tornarão homens e mulheres respeitáveis e levarão uma vida digna.

Mães, se pudessem, teriam seus filhos e filhas junto delas, como se fossem eternamente crianças necessitando de afeto e proteção, como se o ciclo da vida ficasse paralisado, quando na verdade segue seu curso natural.
É de se imaginar, portanto, a dor de uma mãe quando um filho se desvia do caminho que ela idealizou.

Mais do que isso, quando o filho se transforma em ameaça.

Foi isso que o aconteceu num episódio ocorrido em Itabuna, exemplar pela desagregação que a droga, especialmente o crack, vem provocando como fator de desestrutura familiar.

Primeiro, a mãe percebeu que o filho, até então um dedicado estudante de uma das mais rigorosas escolas públicas de Itabuna, estava mudando de comportamento.

O menino carinhoso se tornara ausente e até agressivo com ela.

Abandonou a escola e passou a andar naquilo que mães zelosas costumam definir vagamente como “más companhias”.

Não demorou muito para ela descobrir que o filho, de 17 anos, estava viciado em crack e, pior, acumulando dívidas com traficantes, que têm o hábito nada ortodoxo de quitar esse tipo de débito com a execução do devedor. Por “execução”, entenda-se assassinato.

A mãe fez um imenso sacrifício e pagou um débito de R$ 800,00 que o filho tinha com o tráfico, mas novas dívidas foram contraídas.

Quando os apelos para que largasse o vício se tornaram inúteis, a mãe, num gesto de desespero, avisou que iria procurar a polícia.

“Se você fizer isso, eu te dou um tiro na cara”, foi a resposta do filho.

O rapaz não estava blefando.

Ao encontrar um revólver no quarto do filho, ela constatou que ele havia subido mais um perigoso degrau na escala natural do vício: ele provavelmente estava cometendo assaltos para conseguir dinheiro ou qualquer objeto (relógios, celulares, tênis, etc.) para trocar pelas pedras de crack.

Deve ter percebido também que a expressão “eu te dou um tiro na cara” não era apenas um desabafo de quem já perdeu qualquer respeito pele mãe.

Era uma ameaça real.

Tão real que, ao dar pela falta do revólver, que a mãe havia escondido, o rapaz passou a quebrar objetos da casa e a agredi-la fisicamente.

Solução: a mãe chamou a polícia e entregou o próprio filho. Como é menor e não pode ficar preso, ela pediu que ele seja internado num centro de reabilitação, instituição de efeito duvidoso, mas que se apresenta como única alternativa.

“É melhor ver meu filho preso do que ver ele morto”, desabafou a mãe, incapaz de admitir (de novo pelo instinto maternal) de que nessa história havia grandes chances de que poderia morrer pelas mãos do filho a quem deu a vida.

Essa história da vida real, que se repete à exaustão, só terá fim quando as autoridades (in)competentes e a sociedade (dês)organizada se derem conta de que o crack é um caso de calamidade pública.

Uma imensa, ameaçadora, e devastadora calamidade.

500+10: o dia em que o Brasil enfrentou o Brazil


Na foto de Lula Marques, o índio Terena no chão, cercado de policiais: truculência que atravessa os séculos

Estava tudo devidamente acertado. Naquele 22 de abril do ano 2000, em Porto Seguro, e elite empresarial e política do Brasil faria a festa vip dos 500 anos do “descobrimento”, com direito a coquetéis em hotel de luxo, passeio pelo centro histórico e uma apresentação musical numa caravela à beira-mar.

À patuléia, índios, estudantes, trabalhadores, sem-terras, estava reservada a figuração no cenário montado para celebrar o Brasil Primeiro. Mundo, existente apenas na presunção do então presidente Fernando Cardoso. Segregado por um espantoso aparato de segurança, o povo ficaria no lugar onde sempre esteve, a senzala, enquanto as autoridades e os convidados se refestelariam na casa grande.

Se estava acertado, faltou combinar com o povo.

Que naquele dia especialmente, decidiu não concordar com o papel que lhe fora reservado. O bloqueio do acesso a Porto Seguro via Eunápolis, que tinha o objetivo de barrar os sem-terras, mas barrou mesmo foram moradores locais e turistas; somado à proibição de uma marcha entre Coroa Vermelha e Porto Seguro serviu como estopim de um barril de pólvora prestes a explodir. As palavras do pataxó Luiz Tiliá funcionaram como o fogo que acende o estopim e explode o barril.

-Amanhã nós vamos fazer uma caminhada até Porto Seguro e a polícia não vai deixar. Quero que cada tribo junte os dez guerreiros mais fortes. Eles vão na frente, porque nós vai passar de qualquer jeito.

Não passariam. Um vidente previu chuvas e trovoadas em Porto Seguro no dia 22 de abril do ano de 2000. Acertou na previsão do tempo e na metáfora.

A documentarista inglesa Vik Birkbeck, radicada há trinta anos no Brasil, estava em Porto Seguro e produziu imagens que serão utilizadas no documentário “500+10”, em fase de pré-produção. “A imagem que ficou, que rodou o mundo, e foi estampada na capa dos jornais nacionais e internacionais como a imagem definitiva, símbolica dos 500 anos do dito descobrimento do Brasil foi a foto de Lula Marques do índio Gilson Terena sendo pisoteado pelo avanço da tropa de choque, na chuva, em meio de uma nuvem de gas lacrimogênio: o corpo quase nu, torso magro, calção preto, estendido no asfalto molhado, debaixo dos pés dos jovens sarados, armados para combate, de bota, escudo, capacete avançando no melhor estilo Robocop”, relata Vik.

Para ela, “ todos os elementos do desfecho estavam já presentes. Havia indícios prévios da truculência official”. Faziam três anos que o índio pataxó Galdino, de Pau Brasil, havia sido queimado vivo em Brasília por rapazes de famílias de classe media, que como explicação para o assassinato alegaram tratar-se de uma brincadeira. No dia 17 de março o Governo Federal instalou uma imensa cruz de aço na aldeia dos Pataxós hã hã hãe em Coroa Vermelha. “Ao tentar erguer o seu próprio monumento aos 500 anos de resistência indígena, os Pataxós viram suas terra invadidos por 200 policiais militares que derrubarem o monumento em construção com um trator”, lembra a cineasta.

CÃES RAIVOSOS

Vik cita ainda que “para chegarem a Coroa Vermelha, muitos dos povos indígenas tinham feita viagens de até duas semanas, saindo das florestas e lugares distantes, pelas trilhas do mato ou de canoa para ainda enfrentarem dias de viagem em velhos ônibus frêtados. A maioria jamais tinha enfrentado uma viagem desses e nem conhecia outras regiões do país”.


Na casa grande, ACM e FHC sorriem. Simbolicamente, de costas para o povo (foto Arquivo Sedoc/Uesc)

Durante o encontro de Coroa Vermelha, diante da falha de negociações com a comitiva presidencial, os indígenas, apoiados pelo Movimento Negro, MST e estudantes, decidiram realizar, no dia 22 de abril, uma grande marcha até Porto Seguro. No grupo, centenas de mulheres e crianças, a maioria pintada e com roupas tradicionais de suas tribos. Chovia torrencialmente naquele dia, como que num prenúncio das trovoadas que viriam em forma de truculência explícita. A tropa de choque da PM Baiana, orientada a impedir a chegada do grupo a qualquer custo, usou todo o seu arsenal, incluindo cães ferozes, para barrar os que se atreviam a deixam a senzala rumo à casa grande.

NAU DOS INSENSATOS


A caravela e o teatro do absurdo. Em vez de aplausos, pedras. (foto Arquivo Sedoc/Uesc)

Em Porto Seguro, brasileiros mobilizados pela Rede Globo, que praticamente monopolizou a data histórica, foram a reduzidos a meros fugurantes. Comerciantes de Porto Seguro que haviam se preparado durante meses para o evento ficaram revoltados ao ver suas lojas completamente tapadas pela imenso tapume colocado para proteger os VIPs convidados para um espetáculo numa nau ancorada na Passarela do Alcool. Resultado: populares atacaram o navio e seus convidados mais ou menos ilustres com pedras, coroando um dos dias mais deprimentes da história brasileira.

Fernando Henrique Cardoso, que deveria passer dois dias na cidade, ficou apenas três horas, limitando sua visita ao regabofe no Hotel Vela Branca, onde enfrentou um protesto de jornalistas que se sentiam cerceados no direito de trabalhar e errou duas vezes ao tentar cantar o Hino Nacional; e a uma visita ao Centro Histórico, totalmente cercado pela polícia e com sorridentes baianas de fancaria a lhe fazer corte.

Vik Birkbeck, acredita que “se deixassem os indios chegarem a Porto Seguro teria havido uma verdadeira festa, porque as tribos não estavam buscando confusão, mas sim fazendo um contraponto dos 500 anos, que para eles não eram de descobrimento, mas de ocupação. O protesto nem sempre se faz com briga mas tambem com a danca, os rituais, a beleza, sobretudo com a presença dos corpos vivos das mulheres, homens e crianças”. “Essa festa, os elites sempre negaram. Vieram o movimento negro, os sem terra, enfim todos que se sentiram alijados do processo nacional. Para eles se tratava de um momento de reflexão e questionamento de 500 anos de massacre e exploração”, afirma ela. “ Que imagem esses indios que sairam das suas florestas pela primeira vez devem ter do país, se tentar dialogar levam porrada?”, questiona..

Dez anos depois daquela pancadaria teve repercussão mundial e fez com que o Brasil real rompesse das entranhas do Brasil official, existe um monumental caminho a ser percorrido, já que, apesar dos avanços sociais verificados nos últimos anos, ainda há muito a ser feito para que não haja uma distância tão abissal entre os poucos que desfrutam os prazeres da casa grande Brasil com as mãos no primeiro mundo e as agruras dos milhões que tem os pés no Brasil sensala de padrões africanos.

Se existe alguma lição daqueles dias de abril de 2000, é a de que exclusão social não se combate com porrada. A outra lição é que o Brasil ainda tem uma imensa dívida social com os povos que construiram e constróem esse país no anonimato de suas vidas simples e não raro cheias de dificuldades.

Mas isso são outros 500. Ou não?

O CLÁSSICO DA MARMELADA


No final do Campeonato Brasileiro do ano passado, Corinthians e Flamengo protagonizaram uma das maiores marmeladas futebol. Para evitar que o São Paulo conquistasse o título pela sétima vez, o “timão” entregou o jogo para o rubro-negro.

Sem nenhuma sutileza, Ronaldo, que ainda exibia restos do maravilhoso futebol de antigamente, simulou uma contusão e saiu de campo no início da partida. Depois, disse na televisão que também se sentia campeão. O goleiro Felipe praticamente deixou a meta numa cobrança de um pênalti inventado pelo juiz e por pouco não comemora o gol com os jogadores do Flamengo.

Como o castigo vem a cavalo e às vezes vem de carro de Fórmula 1, o Corinthians pega justamente o Flamengo logo na primeira fase dos mata-matas da Libertadores.

Na fase de grupos, o time paulista foi o primeiro entre 32 equipes e os cariocas se classificaram na bacia das almas, com o último dos segundo-colocados.

E daí? E daí que vai dar Flamengo.

Só pra castigar a palhaçada bem no ano do Centenário do Corinthians.

Frases que dona Iza não vai ouvir


“Eu não queria matar”.
“Não sei como o revólver disparou”.
“Fiz uma roleta russa”.
“Na hora que eu vi, ela já estava caída”
“Estou arrependido”.
“Meu destino só é a morte”

As frases acima, gravadas pelo jornalista Emilio Gusmão e exibidas em vídeo em seu site na internet, foram ditas por João Leonardo Santos Silva, o Leo, de 20 anos.

Ele é o assassino confesso da comerciante Iza Novaes de Andrade, de 64 anos, que fornecia marmitas em Ilhéus e era uma pessoa muito querida na cidade. O crime chocou e indignou os ilheenses, demonstrando que ainda se choca e se indigna diante da brutalidade, mesmo com a rotina de assassinatos no Sul da Bahia.
Leo teve como parceiro no crime Jailton Neves, o Tom.

A dupla estava em busca de 25 mil reais, que dona Iza supostamente guardava em casa.

Para obrigar a comerciante a dizer onde estava o dinheiro, Leo e Tom resolveram “brincar” de roleta russa, em que existe um único projétil no tambor do revólver e os disparos são feitos aleatoriamente, numa espécie de loteria macabra.

A morte venceu a loteria da vida. Dona Iza está morta.

Inútil o arrependimento de Leo, admitindo-se a hipótese de que seja sincero.

Quem aponta uma arma para a cabeça de uma pessoa indefesa, ainda que com a intenção de assustar e não de matar, tem noção dos riscos que está correndo.

E quem aperta o gatilho, mesmo sem querer como alegou Leo, deixa de ser o assassino em potencial para se tornar um assassino real, que tirou a vida de uma mulher que, aos 64 anos e já aposentada, ainda trabalhava para sobreviver.

O destino de Leo corre menos risco de ser a morte, como ele alega, e mais a liberdade dentro de alguns anos, num sistema judiciário arcaico, de penas reduzidas progressivamente, em que a única condenada de verdade acaba sendo a própria vítima.

A morte de dona Iza, torna-se ainda mais dramática, posto que se Leo disparou o gatilho com a participação de Tom, foram o sobrinho da comerciante, Carlos Rogério de Andrade, e a empregada doméstica dela Neoci Barreto Silva quem repassaram a informação para os bandidos de que haviam 25 mil reais em dinheiro prontos para serem surrupiados e divididos entre os quatro.

Um crime gerado pela cobiça e pela ingratidão.

Com uma câmera ligada diante deles, é possível que o sobrinho e a empregada se declarem igualmente arrependidos, que não era para matar e sim para pegar o dinheiro da tia e da patroa.

Verborragia inútil para dona Iza, mais uma vítima de um mundo à deriva, onde a vida virou, literalmente, uma roleta russa.

Olha o Waldir aí, gente


Definido o nome de Otto Alencar como candidato a vice de Jaques Wagner, tem grandes chances de acertar quem apostar no nome de Waldir Pires como candidato ao Senado.

O que era apenas pleito de uma parte do PT baiano, parece ter atingido o coração de Wagner.

Waldir Pires pode não ter ser o nome dos sonhos numa composição com vários partidos, mas é uma legenda de moralidade, decência e espírito democrático na política baiana e brasileira.

Além disso, sua vitória faria um reparo histórico na injustiça de que foi vítima, quando ganhou a eleição para o Senado no voto e perdeu na bandalheira então vigente no sistema eleitoral baiano.

Maquineta rubro negra


Muita gente estranhou o significativo aumento nas vendas de calculadoras na manhã de hoje em Itabuna.

Os camelôs da avenida do Cinqüentenário quase não deram conta de tanta procura.

Descobriu-se logo que os ávidos compradores eram torcedores do Flamengo, que desde a vitória apertada de ontem à noite sobre o Caracas (quem?) danaram a fazer contas para ver se o time se classifica para a próxima fase da Taça Libertadores.

Papo de bola


Final de semana de futebol, com os campeonatos regionais, que já não empolgam tanto o torcedor, chegando ao final.

No Rio de Janeiro, o Campeonato Carioca, tido e havido como o mais badalado do Brasil, já acabou, com o Botafogo campeão dos dois turnos e sem necessidade de jogos finais. Justamente o Botafogo, que era apontado como o mais fraco entre os quatro grandes e que andou levando de 6×0 do Vasco da Gama, mas que na hora de decisão, mostrou eficiência contra times teoricamente melhores, como o próprio Vasco no primeiro turno e o Flamengo no segundo turno.

Na decisão de domingo, carregando nas costas o peso de três vice-campeonatos diante do rubro-negro, o Botafogo jogou para o gasto, tomou alguns sustos, mas venceu por 2×1, gols de pênaltis convertidos pelo argentino Herrera e pelo uruguaio Loco Abreu.

Para completar a festa, Adriano ainda perdeu um pênalti, mostrando que seus problemas extracampo começam a afetar o desempenho com a camisa do Flamengo. A exemplo de Ronaldo, Adriano está tão acima do peso que deveria optar por outro esporte, mais de acordo com sua atual silhueta: disputar lutas de sumo.

Título merecido para o Botafogo, que pode não ser a oitava maravilha do mundo mas deu para o gasto num campeonato meia-boca.

Maravilha mesmo é esse time do Santos, que nas semifinais do Campeonato Paulista, deu um baile no time do São Paulo, venceu por 3×0 e poderia ter vencido por 6×0, tantas foram as chances criadas. Pode-se dizer que o Santos jogou contra ninguém, tamanha superioridade diante de um São Paulo que parece ter entrado em campo apenas para perder de pouco.

O Santos decide o Paulistão contra o Santo André. Favoritíssimo, embora o futebol às vezes pregue peças.

Na Bahia, Vitória e Bahia decidem um campeonato insosso. A única surpresa foi a dificuldade que tiveram em passar pelo Camaçari e pelo Bahia de Feira, que não chegam a ser sumidades no mundo da bola. E pensar que num campeonato desse nível (sic), o Itabuna conseguiu a proeza de cair para Segunda Divisão.

Ainda em relação aos regionais, um registro necessário. No jogo entre Cruzeiro e Ipatinga, pelas semifinais do Campeonato Mineiro, o árbitro não deu dois pênaltis claríssimos e anulou dois gols legítimos do Ipatinga.

Um roubo, que só não virou caso de policia porque mesmo assim o Ipatinga venceu por 3×1 e está na decisão contra o Atlético Mineiro.

Atenção Dunga: se Robinho tem vaga cativa na Seleção, Neymar e Ganso não podem ficar de fora, ainda mais que Adriano se afunda nos problemas pessoais e Kaká sofre com uma contusão que o impede de jogar pelo Real Madri.

Rifa aí dois guerreiros e chama

Chove chuva, chove sem parar


Durante toda a semana, o Sul da Bahia foi atingido por chuvas torrenciais que, se não chegaram a provocar a tragédia verificada no Rio de Janeiro nem o caos instalado em Salvador, vem causando vários transtornos às populações.

Em Ilhéus a prefeitura teve que decretar situação de emergência, por conta do risco de deslizamentos nos morros da cidade e determinou a desocupação e destruição de barracos localizados em várias impróprias para a construção de habitações.

A ocupação desenfreada dos morros é a parte visível do processo de empobrecimento que empurrou milhares de pessoas para as periferias de Ilhéus e Itabuna. Em Ilhéus, essa ocupação se deu nos morros, com riscos permanentes de deslizamentos durante o período chuvoso, e em áreas de manguezais, a exemplo de uma parte do bairro Teotônio Vilela.

Quando vem a chuva, acende-se a luz vermelha, diante da tragédia que pode acontecer a qualquer momento. Passado susto, os moradores acabam voltando às suas casas e barracos, por absoluta falta de opções de moradia segura.

E em Ilhéus, além da emergência nos morros, a população ainda sofre com inúmeros pontos de alagamentos nos bairros e na área central da cidade. A avenida Soares Lopes se transforma num rio, praticamente paralisando o tráfego. E aí, o problema reside na falta de um sistema de eficiente de escoamento das águas pluviais, incluindo a falta de limpeza de bocas de lobo e o péssimo costume de jogar lixo em qualquer lugar.

Se não enfrenta o problema de ocupação de morros, Itabuna também sobre com as chuvas. No centro da cidade, a água paralisa o trânsito e invade as lojas, por conta do entupimento das bocas de lobo, mesmo problema que se verifica em alguns bairros como Pontalzinho, São Caetano e Conceição. A culpa é mais do descaso do que da natureza.

Para as populações ribeirinhas, como as que moram nos barracos da Bananeira, o temor atende pelo nome de Rio Cachoeira, que recebe boa parte das águas da chuva, transborda e invade as residências localizadas em suas margens nem sempre plácidas e quase sempre desassistidas pelo poder público.

Às populações de Itabuna e Ilhéus, tão vulneráveis aos efeitos das chuvas, só resta olhar aos céus, implorar por um raio de sol e apelar para que São Pedro feche as comportas celestiais.

Porque se depender das autoridades aqui na terra…

Uma segunda (e talvez derradeira) chance

Em alguns momentos da primeira metade do século passado as imensas riquezas geradas pela produção de cacau criaram todas as condições para que uma parte desses recursos fosse aplicada em projetos de diversificação, permitindo um duradouro processo de desenvolvimento e bem estar social, algo impossível de ocorrer quando se vive da monocultura, por mais lucrativo que o produto seja.

Ou aparente ser.

O fato é que, por falta de visão ou pela ilusão de que aquelas riquezas seriam eternas, aliadas a uma notória ausência de espírito coletivo, as raras iniciativas no sentido de se evitar a extrema dependência do cacau se mostraram ineficientes.

O resultado é que quando a crise provocada pela vassoura-de-bruxa se revelou mais devastadora do que todas as outras crises, o Sul da Bahia mergulhou num abismo e viu sua economia reduzida a frangalhos.

As conseqüências foram e ainda são visíveis: produtores descapitalizados, centenas de propriedades rurais relegadas ao abandono, desemprego em larga escala, empobrecimento das pequenas e médias cidades e criação de bolsões de miséria nas periferias, cada vez mais carentes e violentas, de Ilhéus e Itabuna.

Mesmo com um processo de recuperação a partir dos primeiros anos deste século, com a expansão do turismo e de um incipiente pólo de informática em Ilhéus e da consolidação dos pólos de comércio, prestação de serviços, saúde e ensino superior em Itabuna, ainda existe uma imensa demanda por empregos, que resultariam numa vida mais digna para milhares de pessoas.

E eis que o Sul da Bahia se vê diante de uma segunda chance de encontrar o caminho do desenvolvimento, com a implantação de projetos importantes como o Porto Sul e a Ferrovia Oeste Leste, cujos benefícios não se limitarão apenas a Ilhéus, mas se estenderão aos demais municípios do Sul da Bahia.

O porto e a ferrovia farão da região um pólo industrial, além de aquecer outros setores da economia, criando as bases para um novo ciclo de desenvolvimento. São obras capazes de ter, para o Sul da Bahia, o mesmo impacto que o Pólo Petroquímico teve para a Região Metropolitana de Salvador.

Mais eis que, em vez de gerar uma ampla mobilização de todos os segmentos regionais, em função das múltiplas oportunidades que oferecem, a Ferrovia Oeste-Leste e o Porto Sul enfrentam a resistência de alguns setores, a exemplo dos ambientalistas e alguns hoteleiros, que num misto de má fé, desinformação e interesses inconfessáveis, tentam transformar o porto e a ferrovia numa versão grapiuna do apocalipse, como se em vez de progresso e desenvolvimento, eles fossem trazer destruição.

Em nome de uma causa justa, a conservação ambiental, esses setores estão usando todos os artifícios para barrar os projetos, como se fosse possível, em função das rígidas leis ambientais de hoje, realizar obras de tamanha envergadura sem os necessários estudos e as compensações por eventuais danos, mínimos se comparados aos benefícios que o Porto Sul e a Ferrovia Oeste Leste proporcionarão.

O debate é necessário, salutar e contribui para que sejam dadas todas as garantias para que os impactos ambientais sejam mínimos e compensáveis.

Já a radicalização em nome de uma causa (será que é apenas isso?) é condenável, numa região que não pode se dar um luxo de desperdiçar essa segunda e talvez derradeira chance, em nome de uns poucos caranguejos, uma penca de guaiamuns, meia dúzia de siris e um pedaço de mata.

Ou será que eles são mais importantes do que os milhares de pais de família que estão aí, a espera de um emprego que lhes permita viver com dignidade e quem sabe, num domingo de sol, desfrutar com os amigos as decantadas praias e as maravilhas naturais de Ilhéus?

PIRATAS DO ALÉM


A pirataria agiu rápido e já “psicografou” uma cópia do filme Chico Xavier, o maior sucesso do cinema brasileiro em 2010.

O filme está sendo vendido pelos camelôs de Itabuna, ao preço módico de dois reais, sem direito a pechincha.

Apesar de fã de Chico Xavier, juro que não comprei.

Sou um sujeito sério, direito e respeitador das leis.

Como diria Tim Maia, só minto um pouquinho de vez em quando…

Daniel Thame
Daniel Thame, jornalista no Sul da Bahia, com experiência em radio, tevê, jornal, assessoria de imprensa e marketing político danielthame@gmail.com

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