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Onze contra dois

Rádio Difusora Oeste, Osasco (SP), 1985. Para quem trabalha em radio pequena, cobrir uma partida da Seleção Brasileira é a glória. Assim, até um jogo mulambento entre Brasil e Bolívia no Estádio do Morumbi, pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 86, no México, ganhava ares de decisão.
O Brasil, dirigido pelo saudoso Telê Santana, já estava classificado e o time era recheado de jogadores do São Paulo, como Oscar, Silas, Careca, Muller, Sidney e um Falcão já em fase outonal. Enfim, a velha e boa média com a sempre exigente torcida paulista.
Para nós da aguerrida Difusora Oeste, era a chance rara de poder contar (como estou contando aqui) que cobrimos um jogo da Seleção Brasileira. Grande m…, dirão alguns, diante da maneira como o nosso time nacional foi banalizado e transformado em mercadoria para as nikes e cbfs da vida. Mas, naquele tempo a Seleção ainda era uma instuição quase sagrada.
A equipe da rádio para o jogo em questão tinha Alceu de Castro na narração, Carlos Roberto nos comentários e eu como repórter de pista. Os “famosos quem?”.
Alceu, como eu já contei neste blog, era um sujeito simplório, vindo do interior, que adorava imitar o Fiori Giglioti. Sem muito estudo, quando cismava com uma palavra bonita usava toda hora, mesmo que ela não fizesse o menor sentido na transmissão.
Ao receber a escalação da Bolívia, com aqueles nomes todos em espanhol, parecia que Alceu havia se deparado com a escalação de um time grego ou polonês, com seus nomes impronunciáveis.
Vendo a dificuldade do narrador, Carlos Roberto passou dica:
-Ô Alceu, pega uns cinco ou seis nomes mais fáceis e toca a transmissão numa boa.
Alceu acatou a sugestão, mas talvez empolgado por estar narrando um jogo da Seleção Brasileira, em vez de cinco ou seis, ele só guardou o nome de dois jogadores da Bolívia: Garcia e Vaca.
E era um tal de “Garcia toca para Vaca”, “Vaca lança para Garcia”, “Vaca faz falta feia em Careca”, recheados pelo “bola com o número 8”, “olha o número 5 avançando pela ponta”. E a gente sem querer ou poder “escalar” mais alguns jogadores da Bolívia, com medo de que Alceu chutasse o pau da bandeira e a transmissão desandasse de vez.
O fato é que, jogando “só” com Garcia e Vaca, a Bolívia encarou o Brasil de igual para igual e arrancou um heróico empate em 2×2. Naquele tempo, empatar com o Brasil merecia o apodo “heróico”. Hoje, até Venezuela ganha da gente sem que Hugo Chavez decrete feriado nacional.
Encerrada a transmissão, fomos todos tomar nosso fogo paulista (uma mistura de cachaça com groselha, verdadeira bomba, mas era o que o orçamento minguado permitia) em paz.

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Tempos de fogo paulista, pão com mortadela, calça velha azul e desbotada (porque só tinha uma). Não parecia, mas éramos felizes e só viríamos saber bem depois.

Waldomiro de Deus


DE ITAGIBÁ PARA O MUNDO
DO MUNDO PARA ITAGIBÁ

Há cerca de 50 anos, um menino saiu no interior do Nordeste, subiu num pau de arara com a família e foi buscar uma vida melhor em São Paulo. Passou fome e frio, lutou muito, venceu e hoje é conhecido mundialmente.
Apesar das incríveis semelhanças, não é quem o leitor certamente está pensando.
O menino em questão é Waldomiro de Deus, nascido em Itagibá, cidadezinha acolhedora encravada nas bordas da região cacaueira da Bahia, num tempo em que o cacau gerava riqueza, mas não a dividia, como acontece hoje e acontecerá para todo o sempre. Sua família perambulou por Ipiaú, Gandu e Prado, no sul-baiano, até decidir embarcar para São Paulo.
Considerado pela crítica um dos três maiores pintores primitivistas do Brasil ao lado de Djanira e José Antonio da Silva, ele acaba de fazer uma exposição com 54 obras no recém-inaugurado Museu Brasileiro de Escultura (Mube) em São Paulo. A exposição, calorosamente saudada pela crítica, comemora os 60 anos de vida e os 44 anos da arte de Waldomiro.
Uma arte descoberta de maneira quase inverossímel (tudo em Waldomiro parece inverossímel, a começar pela sua autêntica ingenuidade). Trabalhando como jardineiro, aproveitava as frias noites paulistanas para pintar em pedaços de papel. Como pintava na hora em que deveria estar dormindo e dormia na hora em que deveria estar trabalhando, foi mandado embora.
Sem alternativa, resolveu expor seus trabalhos no Viaduto do Chá, um dos símbolos da Capital Paulista, já naquela época o Eldorado de milhões de nordestinos. A mão do destino pintou a tela de sua vida.
O marquês italiano Terry Della Stuffa passou pelo local, se apaixonou por aquela pintura ingênua e adotou Waldomiro, que ganhou casa, comida e, melhor, tempo de sobra e material a vontade para exercer sua arte.
A partir daí, as mãos de Deus, o pintor, ganharam o mundo. Suas obras estão expostas em museus e galerias de arte e foram adquiridas por colecionadores da Europa, Estados Unidos, Japão, Oriente Médio. Os franceses, principalmente, se encantaram com o estilo que denominaram “naif” (ingênuo).
Um ingênuo, que ao participar do movimento tropicalista ao lado de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tom Zé, Gal Costa e Cia., escandalizou o Brasil conservador do final dos turbulentos anos 60 ao pintar Nossa Senhora Aparecida de minissaia, numa série de quadros que hoje se tornaram relíquias.
Um exílio artístico fez de Waldomiro cidadão do mundo. Morou na França, Itália, Alemanha e Israel, onde espalhou seus quadros e cravou seu nome como um dos grandes artistas brasileiros, adorado pelos críticos e pela nobreza européia.
De volta ao Brasil, fixou residência em Osasco, cidade industrial da Grande São Paulo. Sua casa, repleta de quadros e esculturas e com um quarto cheio de bonecas e com um caixão de defunto no lugar da cama, tornou-se ponto de referência para artistas, colecionadores, empresários, jornalistas, socialites e afins.
Naquela época, apesar de algumas obras contestadoras, Waldomiro ainda fazia o estilo lírico, mostrando o cotidiano das cidades e do meio rural. De uns dez anos para cá, já dividindo sua residência entre Osasco e Goiânia, passou para aquilo que pode ser definido como primitivismo temático. Os sem-terra, o desemprego, o atentado de 11 de setembro nos EUA, a guerra do Iraque são retratados em cores fortes, traços definidos.
Pinturas que falam. “Waldomiro tem uma sensibilidade muito grande, vê o mundo com alma de menino e sua obra é sempre atual. Ele está cada vez melhor”, diz a marchand carioca Ruth Almeida Prado, uma de suas maiores admiradoras. “É um artista em vários, um camaleão, que está sempre mudando, sem perder a essência primitivista”, completa o crítico Oscar D´Ambrósio, autor do livro “Os pincéis de Deus- Vida e obra do pintor naif Waldomiro de Deus”.
E é esse respeitável senhor com alma de menino que reencontramos durante as festas de São João em 2004, na Itagibá de uma infância que ele parece nunca ter perdido. Convidado pelo então prefeito Léo Quadros, passou cinco dias na cidade, acompanhado das esposa Lourdes de Deus (também pintora primitivista), mãe de seus seis filhos, que levam nomes exóticos com Amon Hebron, Edon Hesrom, Esdras Shalon, Rebeca…
Décadas depois de ter partido num pau de arara, voltou como uma espécie de “celebridade anônima”. Os moradores sabiam que aquele sujeito simpático, conversador, que saia distribuindo cartões para compradores absolutamente improváveis (suas obras variam entre R$ 6 mil e R$ 50 mil) ´era alguém`. Mas não sabiam exatamente quem. No Brasil onde santo de casa não faz milagres, a Bahia é o lugar onde nem Deus de casa faz. Apesar da fama internacional, o pintor simplesmente é ignorado pelos museus e galerias do Estado.
Visitou a casa onde nasceu, compareceu todas as noites à Praça do Forró (Itagibá é famosa pelo São João que promove), dançou meio sem jeito com Lourdes, se empanturrou com pamonha, canjica, bolo de tapioca, vatapá e sarapatel e, evangélico, passou longe dos licores de genipapo, jabuticaba, abacaxi, cacau e laranja, uma tentação maior do que a outra.
“Foi um mergulho na minha infância, nas minhas raízes. Minha obra é fruto das coisas simples que eu vi aqui, dessa gente que apesar da vida difícil está sempre com um sorriso aberto”. E dá-lhe distribuição de cartões, aperto de mão (era sempre Waldomiro quem tomava a iniciativa e não o contrário, tudo nele parece ilógico), fotografias…
Numa visita à zona rural, vira-se para Léo Quadros, cuja admiração pelo pintor só é inferior a seu sincero fervor evangélico, e pergunta:
-Seu minino, quanto é que a gente gasta pra comprar umas terrinhas aqui?
Lourdes apenas balbucia “Waldomiro, não vá me dizer que…”
O que espanta não é terminar essa história acalentando a possibilidade de que o menino retirante das terras do cacau se transforme no sessentão fazendeiro, uma saga que nem o grande Jorge Amado (fã de Waldomiro de Deus, registre-se) ousaria escrever, cravando uma tela surrealista no mais ingênuo dos nossos primitivistas.
O que espanta é que na vida e na obra de Waldomiro nada espanta.
O menino Waldomiro perambulando pelas ruas tranqüilas de Itagibá depois de escrever sua história com as mãos do destino, as mãos de Deus e as próprias mãos, é uma belíssima obra de arte.
Espantosamente ingênua, espantosamente genial.

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Texto publicado em junho de 2004 nos jornais Agora (BA) e Diário de Osasco (SP)

Deu no Diário do Sul


Tudo bem que esse pessoal adora uma mordomia, mas aeroporto no plenário é demais…

O crack do Pontalzinho

Mario era um craque. Não um craque de futebol, mesmo os fabricados, desses que logo no início da carreira migram para a Europa em busca de fama e fortuna.
Mais modesto, sem chances de um emprego formal, fazia bicos como lavador de carros no bairro Pontalzinho, em Itabuna. Tinha, pelo menos, dinheiro para ir tocando a vida.
Mario era querido e respeitado pelos moradores de um bairro que acompanhou o progresso da cidade, as transformações do mundo, passou a conviver com o medo da violência, mas ainda conserva um pouco daquele jeito interiorano.
Enfim, era um desses personagens que fazem a vida de um bairro, de uma cidade. Um sujeito simplório que todos conheciam e gostavam.
Eis que, no meio do caminho de Mario apareceu uma pedra.
Não a pedra do poema de Carlos Drummond de Andrade, mas a pedra de uma droga que vem devastando a vida de milhares de adolescentes e jovens.
A pedra de crack!
Um subproduto da cocaína, mais barato e mais devastador, o crack rasgou as fronteiras dos guetos de São Paulo e espalhou-se pelo Brasil, está presente em todas as cidades. As grandes, as médias, as pequenas.
Fácil de comprar, o crack produz dependência extrema, obrigando o usuário a permanecer drogado o tempo todo, enquanto corrói o sistema nervoso e produz mortos-vivos.
A princípio, Mario mudou o comportamento. Já não trabalhava com tanta freqüência, nem era tão solicito. O bom humor deu lugar a uma excitação que logo se transformou na mais absoluta indiferença.
Aos poucos, todas as coisas foram perdendo sentido e a vida de Mario só encontrava sentido no crack. O que ganhava lavando carros ia para a compra de droga.
Há algum tempo, moradores do Pontalzinho começaram a conviver com um sujeito maltrapilho, perambulando pelas ruas e falando coisas desconexas. Ora é um político poderoso, ora é um fazendeiro, ora um valentão destemido, ora não é nem ele mesmo.
O certo é que, embora ainda tenha alguns lampejos de nitidez, não é mais o Mario.
O craque dos carros lavados com esmero, melhor do que nos lava-jatos, foi derrotado pela pedra do crack.
Errou de direção e mergulhou num caminho que dificilmente tem volta.
Tomou um drible (ou seria um pontapé?) do destino.
Supremo azar dos Marios indefesos, expostos às pedras no meio do
caminho: para os traficantes, que continuam agindo livremente, no meio
do caminho não existem pedras.
E, pior, na maioria dos casos não existem nem policiais para combatê-los!

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Mario é nome fictício, para preservar alguém para quem esse texto e quase tudo na vida é apenas fumaça.
Mas, sua história é real, como a de tantas outras vítimas de algo que o nome dispensa adjetivos: droga.

Pra não dizer que não falei das flores


A menina que ilustra a foto que abre esse texto mora num bairro que homenageia um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos e onde as ruas ostentam nomes como Orquídea, Violeta, Angélica. Bromélia, Roseira, Margarida e Lírio, além da inevitável Rua Gabriela.
Mas, se mora num bairro que nos remete a um local bucólico, o que a menina faz numa porta protegida por grades, como se estivesse numa prisão?
A resposta é simples: o encantamento não vai além da homenagem ao escritor e aos nomes das ruas.
O bairro Jorge Amado, localizado na periferia de Itabuna, é um exemplo típico de como o poder público é incapaz, por uma série de fatores que vão do descaso, falta de recursos a inversão de prioridades; de atender demandas por serviços básicos.
No bairro, onde vivem cerca de cinco mil pessoas, não existe saneamento básico nem pavimentação. Os esgotos correm a céu aberto e nos dias de chuva se misturam à lama que toma conta das ruas esburacadas. Quando faz sol, o mau cheiro torna-se insuportável.
O posto de saúde, uma construção imponente para os padrões do local, funciona precariamente e a escola mais próxima fica na Urbis IV. À noite, os moradores ficam expostos à violência e poucos se arriscam a deixar suas casas, construções de alvenaria feitas à custa de muitos sacrifícios, ou barracos de madeira.
Com um comércio rudimentar, composto de pequenos bares e mercearias, o bairro Jorge Amado reflete outro drama: o desemprego. Jovens e adultos que poderiam estar produzindo e ganhando salários para sustentar a família, simplesmente não tem acesso ao mercado de trabalho, num circulo vicioso em que crianças, pela absoluta falta de oportunidades, seguem pelo mesmo caminho.
O transporte coletivo demora uma eternidade e a coleta de lixo tem que ser feita com carroças em ruas que mais parecem crateras. Aquela que seria a única praça do bairro não passou do projeto. Existe, mas só no papel, como tantas e tantas propostas que nunca deixam a categoria da boa intenção. Quando não é a da enganação mesmo.
Para a maioria das pessoas do bairro, a ´tábua de salvação´ atende pelo nome de Bolsa Família, o programa de transferência de renda do Governo Federal, que apesar do viés assistencialista tem o mérito de tirar milhões de brasileiros da pobreza. Não é raro encontrar fotos de Lula nas paredes das casas, numa admiração que é quase uma reverência.
O bairro Jorge Amado, é bom que se diga, está longe de ser uma exceção. Ao contrário, é regra. Apenas para ficarmos em Itabuna, essa mesma realidade pode ser encontrada no Novo Fonseca, no Nova Califórnia, no Gogó da Ema, no São Lourenço, na Bananeira, no Maria Pinheiro, em tantos outros bairros da abandonada periferia da cidade.
A diferença é que os moradores do Jorge Amado sofrem essas agruras em meio a ruas de nomes floridos.
Eles, incluindo a menina da porta que mais parece uma grade, trocariam de bom grado a sonoridade e beleza dos nomes de suas vias públicas por coisas mais concretas como esgotamento sanitário, asfalto, educação de qualidade, acesso ao mercado de trabalho, etc.
Por enquanto, a exemplo da literatura do escritor que dá nome ao bairro, tudo isso não passa de obra de ficção.
Que um dia deixe de ser, para se tornar realidade.

Cobras e vagalumes

“Era uma vez uma cobra que começou a perseguir um vagalume. Ele fugia rápido com medo da feroz predadora..
O vagalume fugiu um dia, mas a cobra não desistia. Dois dias e nada…
No terceiro dia, já sem forças, o vagalume parou e disse à cobra:
– Antes de me devorar, posso fazer três perguntas?
– Bom, não costumo abrir precedentes para ninguém, mas já que vou te comer mesmo, pode perguntar…
– Primeira: pertenço a sua cadeia alimentar?
– Não.
– Segunda: te fiz alguma coisa?
– Não.
– Então, por que você quer me devorar?
– Porque não suporto ver você brilhar!”

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Historietas como a relatada acima, cairiam melhor nesses manuais de auto-ajuda tão em voga ultimamente. Mas, ela é atualíssima numa região como a nossa que enfrenta uma crise que já dura duas décadas e nem assim consegue se unir para atuar em torno de um projeto comum de desenvolvimento.
Não aprendemos, apesar de todas as lições (e todas as decepções), que o individualismo é uma praga infinitamente mais danosa do que a vassoura-de-bruxa.
Continuamos, em todas as esferas, colocando o interesse individual acima do interesse coletivo. Confundindo política, que é uma prática saudável e indispensável à democracia, com politicagem, onde o que vale é o golpe baixo e a total falta de compromisso com a verdade.
Vibramos mais com o fracasso alheio do que com os nossos próprios êxitos.
Um conhecido empresário itabunense, que já viveu o céu e o inferno da gangorra prosperidade/crise e que conseguiu se recuperar ao trabalhar duro costuma dizer que “no Sul da Bahia, o sujeito gasta dois reais para que o outro não ganhe um real”.
A conta parece absurda, mas é o que acontece com freqüência nessas plagas grapiunas.
Não há jeito de dar a volta por cima enquanto continuarmos nos comportando como cobras, a devorar vagalumes que seu brilho poderiam apontar a luz no fim do túnel e nos conduzir a novos caminhos.

A Via Crucis, segundo dona Adelaide

Dona Adelaide tem 63 anos e mora na periferia de Itabuna. Sofre de artrite nas duas pernas, o que praticamente a impede de andar, e o glaucoma reduziu sua visão a menos de 5%. Precisa de cuidados médicos, que incluem exames periódicos, e atenção permanente.
Num país que respeitasse minimamente pessoas na situação de dona Adelaide, o acesso aos serviços de saúde seria facilitado, possibilitando uma convivência menos dolorosa com a enfermidade.
Mas, dona Adelaide não mora nesse país.
No país, e na cidade, em que dona Adelaide mora a realização de um simples exame de rotina se transforma numa verdadeira via crucis, como se verá nesta seqüência.
3;30 horas da madrugada. Dona Adelaide é acordada pelo filho, que a ajuda a tomar banho e se vestir. O corpo dói. Entrar no carro apertado é um sacrifício que ela enfrenta com resignação.
4;00 horas. Na clínica conveniada, a fila é imensa, para o a distribuição das senhas, que começaria duas horas depois. Teve gente que chegou na noite anterior mas, com um pouco de sorte, dona Adelaide conseguirá uma das sessenta senhas para o exame de Raio X. Conseguiu. Uma espécie de bilhete premiado, nessa autêntica “loteria do desrespeito”.
6:00 horas. Os olhos cansados e doentes de dona Adelaide mal conseguem enxergar os primeiros raios de uma manhã especialmente abafada. O calvário está longe de terminar. Na clinica, o retrato de uma nação que ainda divide seus habitantes entre a casa grande e a senzala. Para quem pode pagar pelos exames, elevador, ar condicionado, cafezinho, água mineral, sistema informatizado de consultas e atendentes com sorriso típico dos comerciais de creme dental que passam na televisão. Para a patuléia atendida pelo SUS, o acesso se dá por uma pequena porta, uma escada com cerca de 30 degraus (verdadeiro tormento para quem mal consegue dar um passo, como dona Adelaide), bancos de madeira, água de bebedouro, consultas anotadas em folhas de papel e atendentes com mau humor de TPM.
11;00 horas. Entre fila para retirar a senha e a espera pela realização do Raio X, já se passaram cinco horas. Se para uma pessoa normal já é um sacrifício, imagine-se para alguém com a saúde debilitada. Dona Adelaide não imagina, sofre na pele.
12:00 horas. Exame realizado, dona Adelaide está em casa. Os joelhos doem, o corpo exige repouso. O filho, que a acompanhou em toda a via crucis, ainda vai preparar o almoço, antes de ir para mais um dia de trabalho. Ou, meio dia de trabalho.
Fim da via crucis.
Fim?
Mês que vem tem mais.
E haverá sempre mais, enquanto a saúde pública continuar sendo tratada com descaso e enquanto os recursos, que não são poucos, continuarem desaparecendo no ralo da corrupção, alimentando os sanguessugas e outros monstros insaciáveis.
Dona Adelaide, em seu calvário, percorre a via crucis em que escárnio, desrespeito, insensibilidade e irresponsabilidade caminham juntos.
Ela e milhões de brasileiros e brasileiras que dependem de um sistema único de saúde que é único porque nivela por baixo adelaides, josefas, marias, joãos, antonios, paulos, etc.
É único na qualidade. Ou melhor, na completa falta de qualidade.
E na falta de respeito ao cidadão!

Impotência Olímpica

Os brasileiros que se deixaram inebriar com o ufanismo perpetrado pela Rede Globo, Galvão Bueno à frente, durante os Jogos Panamericanos disputados no Rio de Janeiro, e que conseguem varar madrugadas acompanhando os Jogos Olímpicos de Pequim, devem estar se perguntando onde anda aquela potência esportiva de colheu um balaio de medalhas de ouro, prata e bronze nas pistas, quadras, campos, tatamis e piscinas.
No Pan do Rio, o Brasil ficou em terceiro lugar, atrás apenas dos Estados Unidos e de Cuba. Vendeu-se a idéia de que na China, os atletas nacionais iriam brigar pelos primeiros lugares.
Faltou-se dizer, até porque não era conveniente ser dito, que Estados Unidos, Canadá e Argentina mandaram para o Rio suas equipes B, C e D e que Cuba (assim como Fidel Castro) vive seu ocaso, a despeito de ostentar um desempenho esportivo superior a de países mais ricos.
Faltou dizer, também, que no Pan do Rio, a exemplo do que ocorre nos Jogos Olímpicos de Pequim, os veículos de comunicação e os atletas e/ou equipes são patrocinados em sua maioria por estatais como a Caixa Econômica Federal, Correios, Banco do Brasil e Petrobrás.
Sob essa ótica, é mais do que conveniente superdimensionar competições meia-boca como o Pan e criar uma expectativa, que depois se revela falsa, para as Olimpíadas, onde se reúne nata do esporte.
O problema é que quando chega a hora da verdade, percebe-se que nem tudo que reluz no Pan é ouro nas Olimpíadas.
Nem prata, nem bronze…
As medalhas que o Brasil conquistou até agora se devem a feitos heróicos, como a atleta de Brasília que ganhou o bronze no judô depois de encarar todos os tipos de privações a ponto de, no início da carreira, sua mãe ter que optar entre comprar comida ou comprar o quimono. Teve direito até a uma entrevista ao vivo no Jornal Nacional, mas voltará para o anonimato (e as dificuldades) antes mesmo que sua medalha comece a perder a cor.
Países como os EUA. China, Rússia, Canadá, Japão e as nações européias tratam o esporte como política pública. Investem no trabalho de base, que começa na escola e se estende à universidade. Os talentos fora de série são garimpados em meio a uma profusão de esportistas.
Não são obras do acaso ou de alguma generosidade genética. Como não é por acaso que esses países dominem o quadro de medalhas e que seus atletas pulverizem recordes.
Para o Brasil, resta o consolo da frase esportiva mais idiota de todos os tempos, a de que “o importante é competir”, quando a essência da competição é vencer. Ou o acalento bíblico de que “os últimos são os primeiros”.
Passados sete dias do início dos Jogos Olímpicos, o Brasil ostenta a 39ª. posição, com quatro medalhas de bronze (três do judô e uma da natação), atrás de países como Geórgia, Azerbaijão, Zimbaue, Tailândia, Cazaquistão, Guirguistão (uma medalha para quem acertar, de primeira!, onde fica esse tal de Guirguistão), Mongólia, Vietnã, Ruanda e Armênia.
Tudo bem: temos boas chances na ginástica, no vôlei de quadra e de praia, nos esportes náuticos e no futebol masculino e feminino. Com um pouco de sorte dá para chegar entre os vinte primeiros colocados no quadro de medalhas. Longe, bem longe das verdadeiras potencias do esporte.
Na China, estamos mais para impotência olímpica.
E não tem viagra, nem patriotada, que dê jeito.

“nossos reclames gratuitos”

É tanta gente alardeando que vai fazer
a verdadeira mudança, que é o caso de se perguntar:

Afinal, é eleição pra prefeito de Itabuna ou pra gerente da Transportadora Ramos?

HOMEM SAMAMBAIA

TV Cabrália, início da década de 90. O recém inaugurado Hotel Transamérica, na paradisíaca (que certa feita um repórter da emissora confundiu com afrodisíaca, sabe-se lá porque) Ilha de Comandatuba, recebia famosos e endinheirados de São Paulo, Rio e Brasília.,
A gente tinha um esquema lá que sempre que chegava alguém famoso era avisado. Para uma tevê regional, era uma festa entrevistar personalidades que só apareciam na então monopolista Rede Globo.
Os vips sentiam a nossa empolgação e quase sempre colaboravam, dando entrevistas para a Cabrália como se estivessem falando para o mundo. A gente fazia a gravação e ia almoçar no continente, porque a grana da diária não dava pra encarar um copo de água mineral no hotel, quanto mais um almoço.
Até que certa feita, fomos entrevistar o então governador de São Paulo, Orestes Quércia, que descansava no hotel com a família.
Político não pode ver um microfone, seja ele a BBC, seja ele do serviço de alto falante de Potiraguá.
E deu uma longa entrevista, que a gente poderia usar durante uma semana nos telejornais. Encerrada a gravação, Quércia convidou a equipe para almoçar.
Para quem iria pegar um rango mulambento, aquilo era o que se pode chamar de convite irrecusável.
Não recusamos. O almoço, como se previa, era um banquete. Todo tipo de saladas, pratos frios, pratos quentes, sobremesas. De se lamber os beiços.
Na equipe, havia um auxiliar de cinegrafista (função que hoje nem existe mais) chamado Bolinho. Meio caipirão, ele ficou observando como as pessoas se serviam, pra não passar vergonha.
O excesso de cuidados não evitou que ele, na hora de colocar a salada no prato, pegasse um vistoso pedaço de samambaia, que obviamente foi colocada na mesa como decoração. A gente percebeu, mas ninguém teve coragem de falar nada. Foi um milagre conter o riso.
O almoço estava uma delícia e todo mundo se fartou. Quércia foi muito simpático e fez questão de convidar a gente pra voltar outro dia, o que era apenas gentileza, não era pra valer.
Quando a equipe entrou na balsa pra pegar o carro e voltar pra Itabuna, Bolinho, exibindo o ar de felicidade de quem acabara de ser apresentado ao paraíso, saiu-se com essa:
-Almoço bom da porra! Só não gostei daquela salada. Rico tem cada gosto estranho.
Quase vinte anos depois, tem gente que dá um braço para comer uma tal de Mulher Samambaia.

Suprema Impunidade

Em dois dias seguidos, o Supremo Tribunal Federal, a principal instituição do judiciário brasileiro, tomou decisões que, mesmo sob o pretexto de garantir o direito de defesa e evitar constrangimentos, deixam no ar a velha e conhecida sensação de impunidade.
Primeiro, decidiu que políticos que respondem a processos, incluindo-se aí a improbidade administrativa, popularmente conhecida como “meter a mão no dinheiro público”, poderão ser candidatos nas eleições deste ano. A exceção fica por conta dos julgamentos em que não cabe recurso.
Como sempre há uma brecha jurídica e os processos se arrastam por décadas, na prática isso significa que sujeito pode se candidatar indefinidamente e, se essa for a sua vocação, roubar indefinidamente, porque a lei, mesmo de forma enviesada estará ao seu lado.
Políticos envolvidos em roubalheiras, algumas delas fartamente documentadas, estão aí de novo na disputa eleitoral, boa parte deles com chances concretas de vitória.
A decisão do STF vai de encontro aos anseios da sociedade, farta de tantos escândalos, de tanta rapinagem. O impedimento para que esses maus políticos (para usar uma expressão leve) se candidatassem, poderia servir como uma espécie de freio.
Ocorreu justamente o contrário. A sinalização é de estímulo à corrupção, mesmo que evidentemente não tenha sido essa a intenção do Supremo.
Enquanto isso, o cidadão comum que é aprovado num concurso público e que por uma circunstância qualquer foi parar no Serviço de Proteção ao Crédito, como não pagar uma prestação de loja ou a conta de telefone, fica impedido de assumir o cargo até quitar o débito.
Ninguém está aqui incentivando o calote, mas não deixa de ser uma ironia que a lei seja uma para o sujeito que deixou de pagar 80 reais de prestação e vai parar no SPC e outra para o político que rouba milhões de reais e pode se candidatar, sob as bênçãos dos STF.
Em outra decisão igualmente polêmica, Supremo Tribunal Federal decidiu que algemas só podem ser usadas em casos excepcionais ou de evidente perigo de fuga. Na verdade, o STF estava julgando um caso isolado, de um condenado que apelou da sentença por se sentir constrangido a usar algemas diante dos jurados.
O Supremo não só anulou o tal julgamento como, aproveitando a deixa, estendeu o benefício para todo mundo.
Todo mundo?
Um Daniel Dantas, um Paulo Maluf, um Zuleido Veras, um empresário ou político de peso sempre terão um advogado ou assessor para lembrar à polícia que eles não podem ser constrangidos com o uso das algemas. Mais um pouco e os policiais terão que usar a polidez, tipo: “por favor, se não for incômodo, queira fazer a gentileza de nos acompanhar”.
Camburão, nem pensar, que isso também constrange. Que tal dispor de uma frota de limusines?
Será que o pobre coitado que roubou um quilo de feijão no supermercado ou mesmo o bandido que surrupiou um aparelho de DVD, terão tratamento idêntico?
Ou continuarão sendo algemados e caindo na porrada, como acontece nas melhorias famílias, perdão, nas melhores delegacias?
Num país em que perante a lei todos são iguais, mas que na prática uns são mais iguais que os outros, a impunidade pode até ser suprema.
Mas é para poucos.

“nossos reclames gratuitos”

É Velox, mas pode
chamar de Lentox

Daniel Thame
Daniel Thame, jornalista no Sul da Bahia, com experiência em radio, tevê, jornal, assessoria de imprensa e marketing político danielthame@gmail.com

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