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VENDE-SE UM SOFÁ


Existem situações em que não dá para se comportar como o marido que pega a esposa com o amante no sofá e. numa atitude drástica…vende o sofá!

É o caso da professora da rede estadual, que ameaçada por um aluno do Imeam, por exigir que ele assistisse às aulas, foi transferida para outra escola.

O que se exige, sim, é um trabalho que coíba a violência nas escolas e garanta que professores possam ensinar e os alunos possam aprender em paz.

CENTENADA


As palavras deste blogueiro (sãopaulino até a raiz dos raros fios de cabelo que lhe restam) aos torcedores corintianos são de consolo, não de escárnio.

Se não deu para ganhar a Libertadores no ano do Centenário, acalmai-vos e esperai: 100 anos passam rapidinho.

Quem sabe no ano do Bi-centenário…

A Mãe e o Monstro


O que leva uma pessoa de classe média-alta e pretensamente instruída a agredir covardemente uma criança de apenas dois anos?

O que leva um ser humano (humano?) a cometer tamanha brutalidade contra alguém frágil, sem condições de se defender e que está despertando para a vida?

O que leva alguém a adotar uma criança abandonada pela mãe e em vez de lhe dar carinho e atenção, a ofende e agride a ponto de deixar marcas em todo o corpo?

Quantas e quantas crianças não são ofendidas, agredidas e molestadas por pessoas que deveriam protegê-las e zelar por elas, até que tenham condições de cuidar da própria vida?

Essas perguntas vem à propósito diante do revoltante caso da procuradora de Justiça aposentada Vera Lúcia Sant’Anna Gomes, de 57 anos.

Vera Lúcia, que mora num bom apartamento, desfruta de confortável situação financeira e é daquelas pessoas que, quando encontramos na rua podemos apontar como “respeitável senhora”, tinha um lado obscuro, que se revelava entre quatro paredes.

Na intimidade do lar, Vera Lúcia agredia, de forma covarde e sistemática, uma menina de dois anos e dez meses, que estava sob sua guarda provisória, em processo de adoção.

De acordo com empregadas que trabalharam na casa da procuradora aposentada, a criança era vítima de agressões verbais e de espancamentos freqüentes. Os laudos da polícia confirmam a pancadaria: a menor tem marcas nos braços, nas pernas e no rosto.

Os olhos da menina, de tão inchados, mais se parecem com os de um boxeador exposto à fúria de um adversário mais forte.

No caso da criança, esse adversário – forte, brutal, terrivelmente agressivo- era alguém que ela estava aprendendo a chamar de “mãe”, mas talvez fosse mais apropriado chamar de “monstro”.

Abandonada pela mãe biológica, agredida por aquela que se oferecia como a mãe adotiva e redentora, a criança terá que passar por um penoso processo de acompanhamento multidisciplinar, para evitar traumas que podem comprometer o seu desenvolvimento físico e mental.

Para que possa receber carinho sem se assustar com medo de, em vez do afago, vier o tapa, a pancada, a dor.

Que mundo é esse em que uma criança é exposta à tamanha barbárie?

A resposta para essa e tantas outras perguntas em situações que nos igualam ao mais irracional dos animais, talvez não esteja no vento.

Talvez esteja em cada um de nós, numa sociedade que despreza o ser o valoriza o ter. Que despreza valores morais e prioriza as coisas materiais.

Soa meio ingênuo, mas em parte explica porque existem por aí tantos demônios a massacrar anjos indefesos…

A pátria sem chuteiras


Em outros tempos, ano de Copa do Mundo era só futebol e mais nada. A Seleção Brasileira catalisava as atenções e o país parecia se unir e se vestir de verde amarelo.

Era como se a pátria calcasse chuteiras e entrasse em campo para jogar com os craques, em busca de mais uma taça.

A seleção dominava as conversas e num país onde quase todo mundo se julga técnico de futebol (e de seleção ainda por cima!) cada um tinha o time de sua preferência.

Que por sinal, quase nunca era o do técnico que, de fato, comandava o time canarinho.

Canarinho? Está aí um termo em desuso, daqueles tempos de “a taça do mundo é nossa, com o brasileiro não há quem possa” ou do “todos juntos vamos, pra frente Brasil, salve a seleção”.

Hoje, de tão banalizada e comercializada como se fosse um reles produto, a seleção brasileira perdeu parte de seu carisma.

Como virou negócio, jogadores de talento duvidoso -ou, fora de dúvidas, sem talento algum- passaram a vestir o manto outrora sagrado (outro termo fora de moda), apenas para serem negociados a peso de ouro.

E a Copa do Mundo, embora continue sendo o maior evento esportivo do planeta, já não desperta tanta atenção. Ou, pelo menos, não provoca a mesma mobilização de antes.

Exemplo disso é que, faltando pouco mais de um mês para o início do Mundial na África do Sul, se existe o tal “clima de Copa” ele se limita à propaganda, em que as empresas se engalfinham para associar suas marcas à Seleção Brasileira, pagando caro por isso, obviamente.

Nas ruas, ainda não se vê aquela profusão de verde-amarelo, nem o torcedor discutindo se o time de Dunga tem chances ou não de conquistar o hexacampeonato.

Até a recente discussão sobre a convocação de Neymar e Paulo Henrique Ganso, jovens promessas do Santos, soa artificial, alimentada que é por setores de mídia.

Não é motivo de acaloradas discussões, como em 1978 foi a não convocação de Falcão, e num passado mais recente, em 1998 no clamor por Romário, que também não foi ao Mundial.

Ganso, mais do que Neymar, merece uma vaga na Seleção, mas se não for convocado, no máximo Dunga será taxado de “burro” se não ganhar a Copa. Do mesmo modo que será taxado de “burro” ser perder com Ganso no time.

O que não muda é que, perdendo o título, o treinador é que paga o pato.
Imagina-se com a aproximação da Copa, o Brasil entre no clima e volte seus olhos para a Seleção, porque o futebol é uma paixão entranhada na alma do brasileiro.

De qualquer forma, é bom que o futebol, mesmo apaixonante, seja apenas um jogo.

Onde se ganha, se empata ou se perde.

E o mundo não acaba por isso…

Nota zero! Nota dez!

Na semana passada, a polícia militar deteve sete estudantes de três escolas públicas de Itabuna, o Imeam, Grupo Escolar General Osório e Colégio Josué Brandão. Os sete invadiram o Imean para tentar espancar uma professora de Matemática.

O “crime” cometido pela professora foi cobrar dos alunos rendimento escolar satisfatório e cumprimento das atividades em sala de aula.

Um dos estudantes não gostou e chamou colegas de outras escolas para dar uma “lição” na professora.

A agressão só não se consumou porque funcionários do colégio decidiram acionar a polícia, que deteve os estudantes, todos eles menores de idade e que, portanto, no máximo cumprirão medidas sócioeducativas, se é que vão cumprir.

O que aconteceu no Imeam é um fato isolado?

Infelizmente, a resposta é: não!

Esse tipo de ameaça se não chega a ser rotineira, não é raridade nas escolas da rede municipal de ensino, notadamente naquelas em que estudam crianças e adolescentes da periferia da cidade, onde a falta de oportunidades a desestrutura familiar são meio caminho andado para a delinqüência.

Porque só pode ser definido como delinqüente um estudante que decide bater na professora porque ela exigiu que ele não apenas freqüente as aulas, como assimile o que está sendo ensinado.

Ou que, como já ocorreu em Itabuna, entra armado na sala de aula e aponta ostensivamente o revólver para a professora, por conta de uma nota baixa na prova.

O mais lamentável é que muita vezes esses menores contam com a mais completa omissão dos pais, que chegam ao extremo de culpar o professor pelas reações destemperadas de seus filhos.

Como se os “pobrezinhos” fossem vítimas de perseguição por parte dos professores.

Temendo represálias, muitos professores não denunciam as ameaças feitas por estudantes. Preferem conviver silenciosamente com o problema ou então, numa reação natural, pedir transferência para outra escola.

Uma professora relatou que um de seus alunos chegou a dizer textualmente que “sei onde a senhora mora, a hora que sai de casa e onde seus filhos estudam”.

Mais ameaçador impossível.

Resultado: pediu uma licença médica e não retornou à sala de aula.

Óbvio que não é esse o caminho, mas ninguém é obrigado a se expor diante da ameaça cada vez mais freqüente de sofrer com a violência de delinqüentes travestidos de estudantes.

Até porque, professor não é mártir para arriscar a vida, numa profissão que exige dedicação, sacrifício e abnegação, mas em que pelo menos a integridade física deve ser preservada.

Quando a educação, ferramenta indispensável para a cidadania, passa a ser um caso de polícia é sinal de que alguma coisa está errada, não apenas no sistema educacional, mas na sociedade como um todo.

Nota zero para a violência nas escolas.

E nota dez para os professores, que a despeito aos baixos salários e das precárias condições de trabalho, insistem em atuar como verdadeiros educadores, fugindo do padrão “eu finjo que ensino, eles fingem que aprendem”.

DÁ GOSTO DE VER

Esse é o novo institucional do Governo da Bahia, produzido pela Leiaute, com dona Iaiá, beneficiada por um programa oftalmológico da Secretaria de Saúde.

Dá gosto de ver.

Por quem choram os deuses e os anjos da bola?


Pelé, maior jogador de futebol de todos os tempos, tricampeão mundial de futebol, o primeiro título conquistado aos 17 anos, campeão de tudo pelo Santos, parou o auge, não sem antes fazer uma escala no incipiente futebol dos EUA, onde foi popularizar o esporte e reforçar a conta bancária.

Zico, craque incontestável, Rei do Maracanã, ganhou tudo pelo Flamengo e até hoje é reverenciado pela torcida, parou no auge, não sem antes fazer uma escala no árido futebol japonês, onde, a exemplo de Pelé, ajudou a popularizar o esporte e reforçou a conta bancária.

Pelé e Zico mantêm na memória de seus fãs os gols de antologia, o talento com a bola nos pés, a genialidade e a postura de ídolos exemplares.

Garrincha, o anjo torto de pernas tortas, foi bicampeão mundial de futebol (a Copa de 62 ele ganhou sozinho) e fez misérias pela ponta direita, destroçando laterais planeta afora com seus dribles de fantasia. Quando o álcool e as contusões roubaram-lhe a magia, perambulou por time marca bufa, como Olaria e Portuguesa Carioca, fantasma de si mesmo, em jornadas deprimentes. Morreu solitário num quarto de hospital, consumido pela cachaça e pelo desespero de não ser o que um dia fora.

Romário, o baixinho capaz de transformar um palmo de grama num latifúndio de dribles e de gols, encantou as torcidas do Vasco, do Flamengo e do Barcelona, onde foi eleito o melhor jogador do mundo. Foi decisivo na conquista da Copa de 94. Quando a idade chegou e o palmo de grama transformou-se num palco vazio de talento, criou a fantasia dos mil gols. Para atingir a marca milenar, contabilizou gols de pebolim, futebol de botão, futebol de areia e babas entre casados e solteiros. Quando saiu de cena, estava prestes a entrar para o folclore, quando seu lugar merecido é no panteão dos grandes craques do futebol mundial.

Ronaldo, craque do Barcelona, campeão do mundo em 2002, maior artilheiro da história das copas, goleador implacável, exemplo de superação, ressuscitou seguidas vezes para o futebol, depois de ser dado como morto. Sua ultima ressurreição, jogando pelo Corinthians naquela que parecia apenas jogada de marketing, merece entrar para a categoria milagre.

Campeão Paulista, Campeão da Copa do Brasil, celebrado por torcidas de todo o país, Ronaldo poderia ter percebido, naquela bafejada da fortuna, que era a hora de seguir a trilha dourada de Pelé e de Zico. Pendurar as chuteiras no auge.

Não parou e o Ronaldo de 2010, o Ronaldo que na noite chuvosa de quarta-feira (seriam lágrimas dos deuses e anjos da bola?) no maior palco do futebol brasileiro, o Maracanã, mais parecia um desengonçado zagueiro do Flamengo do que um cerebral atacante do Corinthians, caminha a passos (lentos, pelo peso) para seguir a trilha da melancolia final de Garrincha e de Romário.

Ele não merece nem precisa disso.

Tiroteio verbal, tiroteio real


Nesta semana, a Câmara de Vereadores de Itabuna produziu um desses episódios que revelam a diferença entra a boa intenção e a ação. É inegável que o vereador Sólon Pinheiro teve uma boa intenção ao realizar uma sessão especial com o objetivo de debater a violência em Itabuna e buscar soluções para reduzi-la.

O encontro, que poderia ser produtivo, já que contava com a participação de diversos segmentos da sociedade organizada, descambou para um tiroteio verbal entre o vereador e o comandante do 15º. Batalhão da PM em Itabuna, tenente-coronel Jorge Ubirajara Pedreira, que está deixando o cargo.

Um diálogo ríspido, que provocou tamanho mal estar entre os presentes que a sessão teve que ser suspensa. As discussões e as eventuais soluções para conter a violência ficaram para depois.

O imbróglio na Câmara de Vereadores é exemplar, na medida em que não é o caso de se buscar culpados pela violência e sim promover uma ampla mobilização para que o cidadão possa ter um mínimo de tranqüilidade.

Não se trata de um problema exclusivo de Itabuna ou mesmo da Bahia.

A violência é uma praga nacional, que atinge desde as mega-metrópoles até as pequenas cidades do interior.

Em Itabuna, é bom que se frise, essa violência tem atingido níveis alarmantes, com assassinatos em série e roubos/assaltos que muitas vezes as vítimas nem se dão ao trabalho de registrar queixa na polícia, de tão inútil que é.

O tráfico de drogas, responsável pela esmagadora maioria dos casos de violência, é uma instituição onipresente na cidade, que não raro conta com uma proverbial cegueira da polícia para atuar as claras.

A violência não é apenas um problema policial.

É, também, o principal subproduto de um sistema em que a exclusão social e a ausência dos serviços públicos básicos (como saúde, educação, lazer e acesso ao mercado de trabalho) acaba levando à criminalidade, embora não seja correto dizer que pobreza é pré-requisito para a criminalidade.

Para evitar que se chegasse ao clímax de violência, seriam necessárias políticas que ofereçam oportunidades às crianças, adolescentes e minorem as carências das pessoas adultas.

É algo tão óbvio, que se torna redundante ficar repetindo isso à exaustão.
Mas, se é tão óbvio assim, porque nossos governantes -e a sociedade organizada como um todo- não tomam as medidas necessárias para coíbir a violência no nascedouro, antes que ela estoure tingindo a todos, sem exceção?
Antes que todos nos transformemos não apenas em vítimas potenciais, mais em vítimas reais?
É o caso, definitivamente, de menos discussão e mais ação.

A locomotiva escolhe cada maquinista…


São Paulo é considerado, com muita propriedade, a Locomotiva do Brasil. Um estado que, se fosse um país, estaria no mesmo patamar de algumas nações européias.

Potência econômica, responsável pela maior parte do PIB do Brasil, o interior de São Paulo possui algumas cidades interioranas, como Ribeiro Preto, Araraquara, Barretos, São José do Rio Preto, Araçatuba e Presidente Prudente que mais parecem municípios do 1º. Mundo, pela pujança econômica e qualidade de vida que ostentam.

Durante décadas, São Paulo foi o “objeto de desejo” de milhões de norte/nordestinos, que fugindo da seca e da pobreza, buscaram no Eldorado Paulista uma chance de vida melhor.

Hoje, esse Eldorado não é tão dourado assim e a capital paulista, uma das maiores cidades do mundo, paga o preço da falta de planejamento urbano, da expansão desenfreada e da superpopulação.

Vez por outra, explode o caldeirão de violência e miséria nas periferias desassistidas, que ao contrário do Rio Janeiro onde praia-rica e morro-favela convivem lado a lado, estão espalhadas pelas bordas da capital e de quase três dezenas de cidades que formam a Grande São Paulo.

Uma área onde vivem/sobrevivem cerca de 15 milhões de pessoas.

A potência de desenvolvimento, que resiste a despeito da expansão econômica para outras regiões do país, é um desastre quando se entra no quesito preferência política, com escolhas que oscilam entre o mais deslavado conservadorismo e o bizarro.

A observação se dá diante da opinião de alguns cientistas políticos (?) de que São Paulo pode decidir a eleição presidencial de 2010 em favor de José Serra, compensando com uma diferença de votos esmagadora, as perdas que o candidato do PSDB terá nas regiões Norte, Nordeste, Centro Oeste e partes do Sul/Sudeste, em que o peso político e a popularidade de Lula podem favorecer Dilma Roussef.

Era exatamente isso o que pensavam os paulistas (e os tucanos) em 2006, quando jogaram o peso de São Paulo para eleger Geraldo Alckmin e derrotar Lula.

O resultado já é conhecido: Lula teve a maior votação da história e Alckmin conseguiu a proeza de ter, no segundo turno, menos votos do que no primeiro.

Tudo bem: Dilma não é Lula, Serra não é Alckmin. Para sermos justos, não há nem comparação.

Mas, na ferrovia da política, São Paulo também não pode se jactar de ser a locomotiva que puxa para onde quer os demais vagões de eleitores.

E de mais a mais, não custa lembrar que São Paulo já elegeu Jânio Quadros e Celso Pitta prefeitos da Capital, além de aberrações e ou excentricidades como Afanasio Jazadi, Agnaldo Timóteo, Frank Aguiar, Netinho e Biro Biro para deputado e vereador.

É melhor ficar sempre com um pé atrás, diante das opções de maquinista dessa locomotiva. O trem Brasil, que anda nos trilhos, não pode correr o risco de descarrilar.

A MÃE

Algumas mães, de tão devotadas, costumam dar a vida pelos filhos.

O instinto maternal se manifesta de forma tão intensa que eles não hesitam em submeter-se ao sacrifício para preservar aqueles a quem, numa das mais sublimes manifestações da natureza, deram a vida.

Mães, invariavelmente, sonham que seus filhos e filhas se tornarão homens e mulheres respeitáveis e levarão uma vida digna.

Mães, se pudessem, teriam seus filhos e filhas junto delas, como se fossem eternamente crianças necessitando de afeto e proteção, como se o ciclo da vida ficasse paralisado, quando na verdade segue seu curso natural.
É de se imaginar, portanto, a dor de uma mãe quando um filho se desvia do caminho que ela idealizou.

Mais do que isso, quando o filho se transforma em ameaça.

Foi isso que o aconteceu num episódio ocorrido em Itabuna, exemplar pela desagregação que a droga, especialmente o crack, vem provocando como fator de desestrutura familiar.

Primeiro, a mãe percebeu que o filho, até então um dedicado estudante de uma das mais rigorosas escolas públicas de Itabuna, estava mudando de comportamento.

O menino carinhoso se tornara ausente e até agressivo com ela.

Abandonou a escola e passou a andar naquilo que mães zelosas costumam definir vagamente como “más companhias”.

Não demorou muito para ela descobrir que o filho, de 17 anos, estava viciado em crack e, pior, acumulando dívidas com traficantes, que têm o hábito nada ortodoxo de quitar esse tipo de débito com a execução do devedor. Por “execução”, entenda-se assassinato.

A mãe fez um imenso sacrifício e pagou um débito de R$ 800,00 que o filho tinha com o tráfico, mas novas dívidas foram contraídas.

Quando os apelos para que largasse o vício se tornaram inúteis, a mãe, num gesto de desespero, avisou que iria procurar a polícia.

“Se você fizer isso, eu te dou um tiro na cara”, foi a resposta do filho.

O rapaz não estava blefando.

Ao encontrar um revólver no quarto do filho, ela constatou que ele havia subido mais um perigoso degrau na escala natural do vício: ele provavelmente estava cometendo assaltos para conseguir dinheiro ou qualquer objeto (relógios, celulares, tênis, etc.) para trocar pelas pedras de crack.

Deve ter percebido também que a expressão “eu te dou um tiro na cara” não era apenas um desabafo de quem já perdeu qualquer respeito pele mãe.

Era uma ameaça real.

Tão real que, ao dar pela falta do revólver, que a mãe havia escondido, o rapaz passou a quebrar objetos da casa e a agredi-la fisicamente.

Solução: a mãe chamou a polícia e entregou o próprio filho. Como é menor e não pode ficar preso, ela pediu que ele seja internado num centro de reabilitação, instituição de efeito duvidoso, mas que se apresenta como única alternativa.

“É melhor ver meu filho preso do que ver ele morto”, desabafou a mãe, incapaz de admitir (de novo pelo instinto maternal) de que nessa história havia grandes chances de que poderia morrer pelas mãos do filho a quem deu a vida.

Essa história da vida real, que se repete à exaustão, só terá fim quando as autoridades (in)competentes e a sociedade (dês)organizada se derem conta de que o crack é um caso de calamidade pública.

Uma imensa, ameaçadora, e devastadora calamidade.

500+10: o dia em que o Brasil enfrentou o Brazil


Na foto de Lula Marques, o índio Terena no chão, cercado de policiais: truculência que atravessa os séculos

Estava tudo devidamente acertado. Naquele 22 de abril do ano 2000, em Porto Seguro, e elite empresarial e política do Brasil faria a festa vip dos 500 anos do “descobrimento”, com direito a coquetéis em hotel de luxo, passeio pelo centro histórico e uma apresentação musical numa caravela à beira-mar.

À patuléia, índios, estudantes, trabalhadores, sem-terras, estava reservada a figuração no cenário montado para celebrar o Brasil Primeiro. Mundo, existente apenas na presunção do então presidente Fernando Cardoso. Segregado por um espantoso aparato de segurança, o povo ficaria no lugar onde sempre esteve, a senzala, enquanto as autoridades e os convidados se refestelariam na casa grande.

Se estava acertado, faltou combinar com o povo.

Que naquele dia especialmente, decidiu não concordar com o papel que lhe fora reservado. O bloqueio do acesso a Porto Seguro via Eunápolis, que tinha o objetivo de barrar os sem-terras, mas barrou mesmo foram moradores locais e turistas; somado à proibição de uma marcha entre Coroa Vermelha e Porto Seguro serviu como estopim de um barril de pólvora prestes a explodir. As palavras do pataxó Luiz Tiliá funcionaram como o fogo que acende o estopim e explode o barril.

-Amanhã nós vamos fazer uma caminhada até Porto Seguro e a polícia não vai deixar. Quero que cada tribo junte os dez guerreiros mais fortes. Eles vão na frente, porque nós vai passar de qualquer jeito.

Não passariam. Um vidente previu chuvas e trovoadas em Porto Seguro no dia 22 de abril do ano de 2000. Acertou na previsão do tempo e na metáfora.

A documentarista inglesa Vik Birkbeck, radicada há trinta anos no Brasil, estava em Porto Seguro e produziu imagens que serão utilizadas no documentário “500+10”, em fase de pré-produção. “A imagem que ficou, que rodou o mundo, e foi estampada na capa dos jornais nacionais e internacionais como a imagem definitiva, símbolica dos 500 anos do dito descobrimento do Brasil foi a foto de Lula Marques do índio Gilson Terena sendo pisoteado pelo avanço da tropa de choque, na chuva, em meio de uma nuvem de gas lacrimogênio: o corpo quase nu, torso magro, calção preto, estendido no asfalto molhado, debaixo dos pés dos jovens sarados, armados para combate, de bota, escudo, capacete avançando no melhor estilo Robocop”, relata Vik.

Para ela, “ todos os elementos do desfecho estavam já presentes. Havia indícios prévios da truculência official”. Faziam três anos que o índio pataxó Galdino, de Pau Brasil, havia sido queimado vivo em Brasília por rapazes de famílias de classe media, que como explicação para o assassinato alegaram tratar-se de uma brincadeira. No dia 17 de março o Governo Federal instalou uma imensa cruz de aço na aldeia dos Pataxós hã hã hãe em Coroa Vermelha. “Ao tentar erguer o seu próprio monumento aos 500 anos de resistência indígena, os Pataxós viram suas terra invadidos por 200 policiais militares que derrubarem o monumento em construção com um trator”, lembra a cineasta.

CÃES RAIVOSOS

Vik cita ainda que “para chegarem a Coroa Vermelha, muitos dos povos indígenas tinham feita viagens de até duas semanas, saindo das florestas e lugares distantes, pelas trilhas do mato ou de canoa para ainda enfrentarem dias de viagem em velhos ônibus frêtados. A maioria jamais tinha enfrentado uma viagem desses e nem conhecia outras regiões do país”.


Na casa grande, ACM e FHC sorriem. Simbolicamente, de costas para o povo (foto Arquivo Sedoc/Uesc)

Durante o encontro de Coroa Vermelha, diante da falha de negociações com a comitiva presidencial, os indígenas, apoiados pelo Movimento Negro, MST e estudantes, decidiram realizar, no dia 22 de abril, uma grande marcha até Porto Seguro. No grupo, centenas de mulheres e crianças, a maioria pintada e com roupas tradicionais de suas tribos. Chovia torrencialmente naquele dia, como que num prenúncio das trovoadas que viriam em forma de truculência explícita. A tropa de choque da PM Baiana, orientada a impedir a chegada do grupo a qualquer custo, usou todo o seu arsenal, incluindo cães ferozes, para barrar os que se atreviam a deixam a senzala rumo à casa grande.

NAU DOS INSENSATOS


A caravela e o teatro do absurdo. Em vez de aplausos, pedras. (foto Arquivo Sedoc/Uesc)

Em Porto Seguro, brasileiros mobilizados pela Rede Globo, que praticamente monopolizou a data histórica, foram a reduzidos a meros fugurantes. Comerciantes de Porto Seguro que haviam se preparado durante meses para o evento ficaram revoltados ao ver suas lojas completamente tapadas pela imenso tapume colocado para proteger os VIPs convidados para um espetáculo numa nau ancorada na Passarela do Alcool. Resultado: populares atacaram o navio e seus convidados mais ou menos ilustres com pedras, coroando um dos dias mais deprimentes da história brasileira.

Fernando Henrique Cardoso, que deveria passer dois dias na cidade, ficou apenas três horas, limitando sua visita ao regabofe no Hotel Vela Branca, onde enfrentou um protesto de jornalistas que se sentiam cerceados no direito de trabalhar e errou duas vezes ao tentar cantar o Hino Nacional; e a uma visita ao Centro Histórico, totalmente cercado pela polícia e com sorridentes baianas de fancaria a lhe fazer corte.

Vik Birkbeck, acredita que “se deixassem os indios chegarem a Porto Seguro teria havido uma verdadeira festa, porque as tribos não estavam buscando confusão, mas sim fazendo um contraponto dos 500 anos, que para eles não eram de descobrimento, mas de ocupação. O protesto nem sempre se faz com briga mas tambem com a danca, os rituais, a beleza, sobretudo com a presença dos corpos vivos das mulheres, homens e crianças”. “Essa festa, os elites sempre negaram. Vieram o movimento negro, os sem terra, enfim todos que se sentiram alijados do processo nacional. Para eles se tratava de um momento de reflexão e questionamento de 500 anos de massacre e exploração”, afirma ela. “ Que imagem esses indios que sairam das suas florestas pela primeira vez devem ter do país, se tentar dialogar levam porrada?”, questiona..

Dez anos depois daquela pancadaria teve repercussão mundial e fez com que o Brasil real rompesse das entranhas do Brasil official, existe um monumental caminho a ser percorrido, já que, apesar dos avanços sociais verificados nos últimos anos, ainda há muito a ser feito para que não haja uma distância tão abissal entre os poucos que desfrutam os prazeres da casa grande Brasil com as mãos no primeiro mundo e as agruras dos milhões que tem os pés no Brasil sensala de padrões africanos.

Se existe alguma lição daqueles dias de abril de 2000, é a de que exclusão social não se combate com porrada. A outra lição é que o Brasil ainda tem uma imensa dívida social com os povos que construiram e constróem esse país no anonimato de suas vidas simples e não raro cheias de dificuldades.

Mas isso são outros 500. Ou não?

O CLÁSSICO DA MARMELADA


No final do Campeonato Brasileiro do ano passado, Corinthians e Flamengo protagonizaram uma das maiores marmeladas futebol. Para evitar que o São Paulo conquistasse o título pela sétima vez, o “timão” entregou o jogo para o rubro-negro.

Sem nenhuma sutileza, Ronaldo, que ainda exibia restos do maravilhoso futebol de antigamente, simulou uma contusão e saiu de campo no início da partida. Depois, disse na televisão que também se sentia campeão. O goleiro Felipe praticamente deixou a meta numa cobrança de um pênalti inventado pelo juiz e por pouco não comemora o gol com os jogadores do Flamengo.

Como o castigo vem a cavalo e às vezes vem de carro de Fórmula 1, o Corinthians pega justamente o Flamengo logo na primeira fase dos mata-matas da Libertadores.

Na fase de grupos, o time paulista foi o primeiro entre 32 equipes e os cariocas se classificaram na bacia das almas, com o último dos segundo-colocados.

E daí? E daí que vai dar Flamengo.

Só pra castigar a palhaçada bem no ano do Centenário do Corinthians.

Daniel Thame
Daniel Thame, jornalista no Sul da Bahia, com experiência em radio, tevê, jornal, assessoria de imprensa e marketing político danielthame@gmail.com

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