hanna thame fisioterapia animal
prefeitura ilheus livros do thame

E segue o jogo…

Dois juizes (de futebol, de futebol) se encontram e travam o seguinte diálogo:

-Você vai pescar?
-Não, eu vou pescar!
-Ah, bom, pensei que você ia pescar…

No que se depreende que certos juizes não são apenas cegos, como também surdos.

FRUTO DE OURO, BREGA DE OURO


O dia em que as histórias de Olívia
e de Sonia viraram uma só história

Se acaso me quiseres/sou dessas mulheres que só dizem sim…
E se tiveres renda/aceito uma prenda/qualquer coisa assim/
Como uma pedra falsa/um sonho de valsa/ou um corte de cetim… (1)

A história de Olívia é clássica. Filha de trabalhadores rurais, morando numa rua de casas paupérrimas em Itapé, engravidou do namorado, que não quis saber de assumir a criança.
O pai, depois de uma surra homérica na “filha vagabunda”, colocou-a para fora de casa.Olívia foi parar na casa da avó em Ibicaraí, teve o filho que também não queria e, seguindo o curso natural da história, virou empregada doméstica, ou “secretária”, esse eufemismo para um trabalho que resistiu ao fim da escravidão.
Ganhava mal, era humilhada pela patroa e ainda tinha que ceder aos desejos sexuais do dono da casa.
É nesse ponto que a história de Olívia vai se cruzar com uma história glamourosa, recheada de lendas e fatos que, embora hoje pareçam fruto de uma alucinação coletiva, foram absoluta e absurdamente verdadeiros.

E eu te farei vaidoso supor/que é o maior/e que me possuis/
Mas na manhã seguinte/não conte até vinte/te afasta de mim/
Pois já não vales nada/és página virada no meu folhetim.(1)

Quando Olívia se cansou da dobradinha ´fodida e mal paga´, uma amiga lhe falou da casa de Sonia.Pronto.Olívia e Sonia agora fazem parte da mesma história, embora a história de Sonia tenha, além de Olívia, patrícias, meires, solanges, thábatas, elianas e tantos outros nomes verdadeiros ou de guerra.

KASARÃO RELAX DRINK´S

Kasarão o que? Ah, o Brega de Sonia. Quem nunca, ao menos uma vez, não ouviu falar de Sonia? A casa espaçosa em estilo colonial no bairro de Fátima, na periferia de Itabuna, é quase um referencial na cidade.Povoa a imaginação das pessoas.
Sonia teve seus 15 minutos de fama ao ser incluída num Globo Repórter sobre a crise na lavoura cacaueira.Na época, a novela Renascer, ambientada no Sul da Bahia, fazia estrondoso sucesso e a repórter Ilze Scamparini produziu um programa onde a crise, uma coisa séria, que afeta milhares de pessoas, mais parecia um romance de Jorge Amado.
Em vez de lideranças da lavoura, sindicalistas e trabalhadores rurais, Ilze mostrou coronéis de mentirinha como Sá Barreto e uma personagem real mas que poderia perfeitamente fazer parte de um script de novela, Sonia, autora de uma frase antológica que reverberou nos lares de milhões de brasileiros: “a crise do cacau está tirando o tesão dos homens”.

Mergulhado na solidão/um vazio no coração/e o meu corpo pedindo um pouco de carinho/de repente então me lembrei/
De um anuncio e telefonei/Marquei um encontro amoroso/pra não ficar sozinho/Eu agora estou apaixonado por essa garota de programa (2)

Esqueçamos por um instante a crise, a falta de tesão dos homens grapiunas e Sonia. Voltemos a Olívia.
18 anos, o corpinho bem feito, seios durinhos, bundinha bem torneada. Chegou a caiu nas graças da clientela. No início, vergonha. Depois…Bem, depois veio o dinheiro farto, os clientes generosos. “Num mês bom cheguei a tirar o que hoje seriam três mil reais. Era muito dinheiro”.
Era muito dinheiro mas não era tudo.Dois anos depois, Olívia resolveu tentar a vida em São Paulo. Bem que tentou. Abandonou a prostituição e foi trabalhar como doméstica em São Miguel Paulista, um bairro miserável e violento no cinturão de pobreza da periferia da maior cidade do país.
Outra vez o dinheiro curto, a exploração. Os namorados que só queriam saber de trepar com aquela baianinha fogosa. E já que era para trepar, o caminho foi óbvio: a Boca do Lixo, zona de prostituição de baixíssima categoria do centro velho de São Paulo.

Eu agora estou apaixonado/por essa garota de programa/e não interessa o que ela fez no seu passado/o meu coração me pede, eu digo/tire essa saudade do meu peito/traga seu amor e vem ficar aqui comigo (2)

Deixemos Olívia transando com os pobres coitados de São Paulo e voltemos ao Kasarão Relax Drink´s. Ou melhor, voltemos ao Brega de Sonia.
Há pouco mais de vinte anos, quando Sonia decidiu se dedicar a essa modalidade nada ortodoxa de prestação de serviços, a Região Cacaueira vivia o extertor de um ciclo de ouro onde todas as loucuras possíveis e imagináveis, em todos os sentidos, foram cometidas.
Sonia pegou a última alta do cacau, aquele aviso do anjo, como se Deus dissesse “vocês não souberam aplicar bem o dinheiro que o cacau produziu, mas EU estou dando mais uma chance.Não a desperdicem”.
Mas, cá entre nós, quem é que vai estar preocupado com essas coisas de anjos e mensagens divinas com o cacau batendo nos três mil dólares a tonelada?

Olha, a primeira vez que eu estive aqui/foi só pra me distrair, eu vim em busca de amor/Olha, foi então que eu te conheci, naquela noite fria, em seus braços meus problemas esqueci… (3)

Fala Sônia:
-Era farra em cima de farra.Os fazendeiros chegavam aqui e exigiam as melhores meninas, o melhor uísque…
Os melhores, as melhores. A casa chegou a abrigar 30 garotas. Trinta misses, trinta top models. Meninas na casa dos 18, 20 anos. Vindas do Rio de Janeiro, de São Paulo, do Paraná, de Salvador. “Até do Exterior”, diz Sonia, não sem uma ponta de melancolia.
Era festa dia e noite, porque quando se tem dinheiro esse negócio de tempo perde o sentido.
Meninas lindas que se entregavam por dinheiro aos fazendeiros e empresários (chamados – Deus, como isso hoje soa ridículo!- de coronéis e barões) e também se entregavam por paixão ao primeiro que lhes oferecesse um mínimo de afeto. Afinal vivemos num país onde traficante cheira, puta de apaixona e sociólogos tidos como respeitáveis esquecem tudo o que disseram/escreveram depois que chegam ao poder.

Olha, a segunda vez que eu estive aqui/já não foi pra me distrair/eu senti saudade de você/olha eu precisava de carinho/eu já me sentia tão sozinho/e já não podia mais te esquecer… (3)

Justiça seja feita. Sonia pode não ser o modelo pronto e acabado de beata e muito provavelmente terá uma certa dificuldade em conseguir uma vaga no reino dos céus, mas entendeu perfeitamente a mensagem do anjo.
Empresários e fazendeiros, como qualquer cego pode ver, não entenderam.
Sonia construiu um patrimônio sólido, que hoje inclui duas pousadas no litoral sul-baiano e algumas casas de aluguel. “Graças a Deus soube aplicar bem o dinheiro, não fiz bobagens”, diz. E completa: “fiz questão de orientar bem minhas meninas, mostrando que tudo aqui era passageiro, que não esbanjassem. Muitas delas estão casadas, bem de vida”. Cite uma. “Imagina, isso a gente não fala”.
“Minhas meninas” poderiam ser substituídas por “minhas filhas”, porque Sonia se sente um pouco mãe de todas elas. “É uma vida dura, ninguém se prostitui porque quer, mas faço que elas encarem isso como uma profissão, não se envergonhem disso”.
Que mantenham a dignidade. Que não percam a sensibilidade. Que não matem a capacidade de sonhar.

Eu vou tirar você desse lugar/ eu vou levar você pra ficar comigo/e não me importa o que os outros vão pensar… (3)

Depois da ultima alta do cacau.Ou do aviso do anjo enviado por Deus. Pecadores continuaram em pecado. E o Senhor resolveu que depois de tanto dinheiro fácil, o castigo teria que vir não à cavalo, mas numa vassoura. E em forma de bruxa.
A vassoura-de-bruxa, e de novo até os cegos podem ver, surgiu e se alastrou como uma praga devastadora.Em menos de uma década transformou o Eldorado Grapiuna em terra arrasada.
Fez valer a verdade da geografia e colocou o Sul da Bahia (tão Sul do País nos modismos e no padrão de vida de suas classes média e alta) no Nordeste.
Estamos reaproximando Olívia de Sonia.Recolocando-as na mesma história. A crise levou embora as meninas de São Paulo, Rio e Curitiba. E, se é que um dia existiram (as vezes os nem os próprios protagonistas dessa História sabem o que é história e o que é estória), as meninas do Exterior tomaram um avião, um navio ou partiram em cavalos alados.

Eu sei que você tem medo de não dar certo/pensa que o passado vai estar sempre perto/e que um dia eu possa me arrepender/eu quero que você não pense em nada triste/pois quando o amor existe/não existe tempo pra sofrer. (3)

Hoje, o Kasarão Relax Drink´s (em tempos de decadência explícita faremos concessão ao nome pomposo) abriga cinco, seis meninas.De Conquista, de Jequié, de Itajuipe. Da periferia de Itabuna.
Coronéis, fazendeiros? Estudantes em busca de farra, empregados do comércio, de vez em quando um garoto disposto a pagar 20 reais pelo quarto e 50 pela transa. 50? Tudo depende da pechincha, coisa impensável nos anos dourados.
“A maioria das pessoas vem aqui só pra ficar alisando a gente.Pedem uma cerveja e ficam enrolando. Chego a ficar dois, três dias sem um único cliente”, confidencia uma das meninas. “Acabou, acabou. Nem o cacau volta a ser o que era nem a gente vai ter o movimento que tinha”, sentencia Sonia. “Com essas menininhas aí trepando a torto e direito, quem é que vai pagar pra trepar?”, pergunta, a língua ferina de sempre.
Olívia sorri, uma espécie de líder, fazendo as vezes de recepcionista.
Mas, Olívia não deveria estar em São Paulo?
“Uma vida dura, violenta. Dá até pra ganhar um dinheirinho, mas não vale a pena”.
Filha pródiga, assim que decidiu fazer o caminho de volta, Olívia não pensou na casa dos pais em Itapé. Nem na casa da avó em Ibicaraí.
Pensou na casa de Sonia, onde está há um ano. Os tempos são outros, os clientes estão cada vez mais escassos.”Mas dá pra tirar uns 500 reais livres por mês”. Olívia é ótima de conta. Abate a refeição, abate a moradia, abate a roupa lavada.
500 reais livres por mês. O dobro de uma professora primária, pouco menos que um professor universitário, salário médio de um jornalista. Quatro vezes mais do que uma doméstica.
“Claro que eu sonho em sair daqui, encontrar um cara legal, casar. Mas não fico pensando nisso. Se acontecer, aconteceu”.

Eu vou tirar você desse lugar/eu vou levar você pra ficar comigo/e não interessa o que os outros vão pensar… (3)

Olívia tem um sorriso franco, cativante. Não fosse o namorado canalha.Não fosse o pai insensível. Não fosse a patroa exploradora. Não fosse o cacau que em tempos áureos ou na decadência sempre excluiu a maioria das pessoas.
Talvez fosse esposa de um trabalhador rural, de um comerciário batalhador. Com um pouco de sorte, do dono de uma rocinha com centenas de arrobas de cacau.
Não há tempo para divagações.Chegam três rapazes e Olívia pede licença para atende-los, não sem antes comentar baixinho “esses aí tem cara de que só vem aqui enrolar”. Ossos do ofício, Olívia escolhe seu melhor sorriso e se esmera-se em mesuras aos rapazes.
No quarto, Sonia, essa respeitável senhora, mãe de cinco filhos, empresária hoteleira, esparrama-se pela cama e assiste a um filme na Globo.
Lá fora, a vida passa como um filme onde Olívia, Sonia e cada
um segue o curso natural da história.
Entrelaçando histórias, vidas, sonhos. Desejos.
Um poeta vagabundo, parafraseando Fernando Pessoa, diria que “a vida vale a pena quando se vive intensamente cada minuto”.
Ou, simplesmente, “quando se vive”. Vive, vive, vive e vive…

___________________________________
(1)– Chico Buarque, Folhetim
(2)– Odair José, Garota de Programa
(3)– Odair José, Eu Vou Tirar Você Desse Lugar

____________

TEXTO PUBLICADO NO JORNAL A REGIÃO (ITABUNA) JUNHO/2001

HOJE O OUTRORA GLORIOSO BREGA DE SONIA É APENAS UMA LENDA…O CACAU, QUASE ISSO.

ET´s eleitorais

O Diário do Sul de hoje (17/09) traz uma reportagem sobre um suposto disco voador, visto por moradores da zona rural de Coaraci, cidadezinha da Região Cacaueira da Bahia.
Antes que ufólogos baixem na cidade, o mistério já foi esclarecido.
O fenômeno é muito comum na reta final das campanhas eleitorais.
Em Coaraci, como em outras cidades, a essa altura da campanha o que tem de candidaturas indo para o espaço…

HORÁRIO ELEITORAL GRATUITO




A caminhada de Jaques Wagner em Itabuna, que sacramentou o apoio a Juçara Feitosa, produziu imagens que falam menos de política e mais de uma coisa subjetiva chamada esperança.
No domingo ensolarado em Itabuna, a esperança ganhou tons vermelhos. Que é cor da paixão, igualmente subjetiva, mas que se torna objetiva nos gestos que ela proporciona.
As três fotos de Ed Ferreira, pela emoção que estampam e pelo simbolismo que embutem, falam mais do que milhões de palavras.

No paíz da imducasção

A resposta acima foi dada por um aluno que fez o Enem em Itabuna.
Uma autêntica obra-prima.
Da burrice, bem entendido.
Todo mundo sabe que apóstrofos são esses folhetos de baixo nível, tão comuns em tempos de campanha eleitoral.
Seria?

Onze contra dois

Rádio Difusora Oeste, Osasco (SP), 1985. Para quem trabalha em radio pequena, cobrir uma partida da Seleção Brasileira é a glória. Assim, até um jogo mulambento entre Brasil e Bolívia no Estádio do Morumbi, pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 86, no México, ganhava ares de decisão.
O Brasil, dirigido pelo saudoso Telê Santana, já estava classificado e o time era recheado de jogadores do São Paulo, como Oscar, Silas, Careca, Muller, Sidney e um Falcão já em fase outonal. Enfim, a velha e boa média com a sempre exigente torcida paulista.
Para nós da aguerrida Difusora Oeste, era a chance rara de poder contar (como estou contando aqui) que cobrimos um jogo da Seleção Brasileira. Grande m…, dirão alguns, diante da maneira como o nosso time nacional foi banalizado e transformado em mercadoria para as nikes e cbfs da vida. Mas, naquele tempo a Seleção ainda era uma instuição quase sagrada.
A equipe da rádio para o jogo em questão tinha Alceu de Castro na narração, Carlos Roberto nos comentários e eu como repórter de pista. Os “famosos quem?”.
Alceu, como eu já contei neste blog, era um sujeito simplório, vindo do interior, que adorava imitar o Fiori Giglioti. Sem muito estudo, quando cismava com uma palavra bonita usava toda hora, mesmo que ela não fizesse o menor sentido na transmissão.
Ao receber a escalação da Bolívia, com aqueles nomes todos em espanhol, parecia que Alceu havia se deparado com a escalação de um time grego ou polonês, com seus nomes impronunciáveis.
Vendo a dificuldade do narrador, Carlos Roberto passou dica:
-Ô Alceu, pega uns cinco ou seis nomes mais fáceis e toca a transmissão numa boa.
Alceu acatou a sugestão, mas talvez empolgado por estar narrando um jogo da Seleção Brasileira, em vez de cinco ou seis, ele só guardou o nome de dois jogadores da Bolívia: Garcia e Vaca.
E era um tal de “Garcia toca para Vaca”, “Vaca lança para Garcia”, “Vaca faz falta feia em Careca”, recheados pelo “bola com o número 8”, “olha o número 5 avançando pela ponta”. E a gente sem querer ou poder “escalar” mais alguns jogadores da Bolívia, com medo de que Alceu chutasse o pau da bandeira e a transmissão desandasse de vez.
O fato é que, jogando “só” com Garcia e Vaca, a Bolívia encarou o Brasil de igual para igual e arrancou um heróico empate em 2×2. Naquele tempo, empatar com o Brasil merecia o apodo “heróico”. Hoje, até Venezuela ganha da gente sem que Hugo Chavez decrete feriado nacional.
Encerrada a transmissão, fomos todos tomar nosso fogo paulista (uma mistura de cachaça com groselha, verdadeira bomba, mas era o que o orçamento minguado permitia) em paz.

_________0-0-0-0-

Tempos de fogo paulista, pão com mortadela, calça velha azul e desbotada (porque só tinha uma). Não parecia, mas éramos felizes e só viríamos saber bem depois.

Waldomiro de Deus


DE ITAGIBÁ PARA O MUNDO
DO MUNDO PARA ITAGIBÁ

Há cerca de 50 anos, um menino saiu no interior do Nordeste, subiu num pau de arara com a família e foi buscar uma vida melhor em São Paulo. Passou fome e frio, lutou muito, venceu e hoje é conhecido mundialmente.
Apesar das incríveis semelhanças, não é quem o leitor certamente está pensando.
O menino em questão é Waldomiro de Deus, nascido em Itagibá, cidadezinha acolhedora encravada nas bordas da região cacaueira da Bahia, num tempo em que o cacau gerava riqueza, mas não a dividia, como acontece hoje e acontecerá para todo o sempre. Sua família perambulou por Ipiaú, Gandu e Prado, no sul-baiano, até decidir embarcar para São Paulo.
Considerado pela crítica um dos três maiores pintores primitivistas do Brasil ao lado de Djanira e José Antonio da Silva, ele acaba de fazer uma exposição com 54 obras no recém-inaugurado Museu Brasileiro de Escultura (Mube) em São Paulo. A exposição, calorosamente saudada pela crítica, comemora os 60 anos de vida e os 44 anos da arte de Waldomiro.
Uma arte descoberta de maneira quase inverossímel (tudo em Waldomiro parece inverossímel, a começar pela sua autêntica ingenuidade). Trabalhando como jardineiro, aproveitava as frias noites paulistanas para pintar em pedaços de papel. Como pintava na hora em que deveria estar dormindo e dormia na hora em que deveria estar trabalhando, foi mandado embora.
Sem alternativa, resolveu expor seus trabalhos no Viaduto do Chá, um dos símbolos da Capital Paulista, já naquela época o Eldorado de milhões de nordestinos. A mão do destino pintou a tela de sua vida.
O marquês italiano Terry Della Stuffa passou pelo local, se apaixonou por aquela pintura ingênua e adotou Waldomiro, que ganhou casa, comida e, melhor, tempo de sobra e material a vontade para exercer sua arte.
A partir daí, as mãos de Deus, o pintor, ganharam o mundo. Suas obras estão expostas em museus e galerias de arte e foram adquiridas por colecionadores da Europa, Estados Unidos, Japão, Oriente Médio. Os franceses, principalmente, se encantaram com o estilo que denominaram “naif” (ingênuo).
Um ingênuo, que ao participar do movimento tropicalista ao lado de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tom Zé, Gal Costa e Cia., escandalizou o Brasil conservador do final dos turbulentos anos 60 ao pintar Nossa Senhora Aparecida de minissaia, numa série de quadros que hoje se tornaram relíquias.
Um exílio artístico fez de Waldomiro cidadão do mundo. Morou na França, Itália, Alemanha e Israel, onde espalhou seus quadros e cravou seu nome como um dos grandes artistas brasileiros, adorado pelos críticos e pela nobreza européia.
De volta ao Brasil, fixou residência em Osasco, cidade industrial da Grande São Paulo. Sua casa, repleta de quadros e esculturas e com um quarto cheio de bonecas e com um caixão de defunto no lugar da cama, tornou-se ponto de referência para artistas, colecionadores, empresários, jornalistas, socialites e afins.
Naquela época, apesar de algumas obras contestadoras, Waldomiro ainda fazia o estilo lírico, mostrando o cotidiano das cidades e do meio rural. De uns dez anos para cá, já dividindo sua residência entre Osasco e Goiânia, passou para aquilo que pode ser definido como primitivismo temático. Os sem-terra, o desemprego, o atentado de 11 de setembro nos EUA, a guerra do Iraque são retratados em cores fortes, traços definidos.
Pinturas que falam. “Waldomiro tem uma sensibilidade muito grande, vê o mundo com alma de menino e sua obra é sempre atual. Ele está cada vez melhor”, diz a marchand carioca Ruth Almeida Prado, uma de suas maiores admiradoras. “É um artista em vários, um camaleão, que está sempre mudando, sem perder a essência primitivista”, completa o crítico Oscar D´Ambrósio, autor do livro “Os pincéis de Deus- Vida e obra do pintor naif Waldomiro de Deus”.
E é esse respeitável senhor com alma de menino que reencontramos durante as festas de São João em 2004, na Itagibá de uma infância que ele parece nunca ter perdido. Convidado pelo então prefeito Léo Quadros, passou cinco dias na cidade, acompanhado das esposa Lourdes de Deus (também pintora primitivista), mãe de seus seis filhos, que levam nomes exóticos com Amon Hebron, Edon Hesrom, Esdras Shalon, Rebeca…
Décadas depois de ter partido num pau de arara, voltou como uma espécie de “celebridade anônima”. Os moradores sabiam que aquele sujeito simpático, conversador, que saia distribuindo cartões para compradores absolutamente improváveis (suas obras variam entre R$ 6 mil e R$ 50 mil) ´era alguém`. Mas não sabiam exatamente quem. No Brasil onde santo de casa não faz milagres, a Bahia é o lugar onde nem Deus de casa faz. Apesar da fama internacional, o pintor simplesmente é ignorado pelos museus e galerias do Estado.
Visitou a casa onde nasceu, compareceu todas as noites à Praça do Forró (Itagibá é famosa pelo São João que promove), dançou meio sem jeito com Lourdes, se empanturrou com pamonha, canjica, bolo de tapioca, vatapá e sarapatel e, evangélico, passou longe dos licores de genipapo, jabuticaba, abacaxi, cacau e laranja, uma tentação maior do que a outra.
“Foi um mergulho na minha infância, nas minhas raízes. Minha obra é fruto das coisas simples que eu vi aqui, dessa gente que apesar da vida difícil está sempre com um sorriso aberto”. E dá-lhe distribuição de cartões, aperto de mão (era sempre Waldomiro quem tomava a iniciativa e não o contrário, tudo nele parece ilógico), fotografias…
Numa visita à zona rural, vira-se para Léo Quadros, cuja admiração pelo pintor só é inferior a seu sincero fervor evangélico, e pergunta:
-Seu minino, quanto é que a gente gasta pra comprar umas terrinhas aqui?
Lourdes apenas balbucia “Waldomiro, não vá me dizer que…”
O que espanta não é terminar essa história acalentando a possibilidade de que o menino retirante das terras do cacau se transforme no sessentão fazendeiro, uma saga que nem o grande Jorge Amado (fã de Waldomiro de Deus, registre-se) ousaria escrever, cravando uma tela surrealista no mais ingênuo dos nossos primitivistas.
O que espanta é que na vida e na obra de Waldomiro nada espanta.
O menino Waldomiro perambulando pelas ruas tranqüilas de Itagibá depois de escrever sua história com as mãos do destino, as mãos de Deus e as próprias mãos, é uma belíssima obra de arte.
Espantosamente ingênua, espantosamente genial.

___________________________

Texto publicado em junho de 2004 nos jornais Agora (BA) e Diário de Osasco (SP)

Deu no Diário do Sul


Tudo bem que esse pessoal adora uma mordomia, mas aeroporto no plenário é demais…

O crack do Pontalzinho

Mario era um craque. Não um craque de futebol, mesmo os fabricados, desses que logo no início da carreira migram para a Europa em busca de fama e fortuna.
Mais modesto, sem chances de um emprego formal, fazia bicos como lavador de carros no bairro Pontalzinho, em Itabuna. Tinha, pelo menos, dinheiro para ir tocando a vida.
Mario era querido e respeitado pelos moradores de um bairro que acompanhou o progresso da cidade, as transformações do mundo, passou a conviver com o medo da violência, mas ainda conserva um pouco daquele jeito interiorano.
Enfim, era um desses personagens que fazem a vida de um bairro, de uma cidade. Um sujeito simplório que todos conheciam e gostavam.
Eis que, no meio do caminho de Mario apareceu uma pedra.
Não a pedra do poema de Carlos Drummond de Andrade, mas a pedra de uma droga que vem devastando a vida de milhares de adolescentes e jovens.
A pedra de crack!
Um subproduto da cocaína, mais barato e mais devastador, o crack rasgou as fronteiras dos guetos de São Paulo e espalhou-se pelo Brasil, está presente em todas as cidades. As grandes, as médias, as pequenas.
Fácil de comprar, o crack produz dependência extrema, obrigando o usuário a permanecer drogado o tempo todo, enquanto corrói o sistema nervoso e produz mortos-vivos.
A princípio, Mario mudou o comportamento. Já não trabalhava com tanta freqüência, nem era tão solicito. O bom humor deu lugar a uma excitação que logo se transformou na mais absoluta indiferença.
Aos poucos, todas as coisas foram perdendo sentido e a vida de Mario só encontrava sentido no crack. O que ganhava lavando carros ia para a compra de droga.
Há algum tempo, moradores do Pontalzinho começaram a conviver com um sujeito maltrapilho, perambulando pelas ruas e falando coisas desconexas. Ora é um político poderoso, ora é um fazendeiro, ora um valentão destemido, ora não é nem ele mesmo.
O certo é que, embora ainda tenha alguns lampejos de nitidez, não é mais o Mario.
O craque dos carros lavados com esmero, melhor do que nos lava-jatos, foi derrotado pela pedra do crack.
Errou de direção e mergulhou num caminho que dificilmente tem volta.
Tomou um drible (ou seria um pontapé?) do destino.
Supremo azar dos Marios indefesos, expostos às pedras no meio do
caminho: para os traficantes, que continuam agindo livremente, no meio
do caminho não existem pedras.
E, pior, na maioria dos casos não existem nem policiais para combatê-los!

0-0-0-0-0-0

Mario é nome fictício, para preservar alguém para quem esse texto e quase tudo na vida é apenas fumaça.
Mas, sua história é real, como a de tantas outras vítimas de algo que o nome dispensa adjetivos: droga.

Pra não dizer que não falei das flores


A menina que ilustra a foto que abre esse texto mora num bairro que homenageia um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos e onde as ruas ostentam nomes como Orquídea, Violeta, Angélica. Bromélia, Roseira, Margarida e Lírio, além da inevitável Rua Gabriela.
Mas, se mora num bairro que nos remete a um local bucólico, o que a menina faz numa porta protegida por grades, como se estivesse numa prisão?
A resposta é simples: o encantamento não vai além da homenagem ao escritor e aos nomes das ruas.
O bairro Jorge Amado, localizado na periferia de Itabuna, é um exemplo típico de como o poder público é incapaz, por uma série de fatores que vão do descaso, falta de recursos a inversão de prioridades; de atender demandas por serviços básicos.
No bairro, onde vivem cerca de cinco mil pessoas, não existe saneamento básico nem pavimentação. Os esgotos correm a céu aberto e nos dias de chuva se misturam à lama que toma conta das ruas esburacadas. Quando faz sol, o mau cheiro torna-se insuportável.
O posto de saúde, uma construção imponente para os padrões do local, funciona precariamente e a escola mais próxima fica na Urbis IV. À noite, os moradores ficam expostos à violência e poucos se arriscam a deixar suas casas, construções de alvenaria feitas à custa de muitos sacrifícios, ou barracos de madeira.
Com um comércio rudimentar, composto de pequenos bares e mercearias, o bairro Jorge Amado reflete outro drama: o desemprego. Jovens e adultos que poderiam estar produzindo e ganhando salários para sustentar a família, simplesmente não tem acesso ao mercado de trabalho, num circulo vicioso em que crianças, pela absoluta falta de oportunidades, seguem pelo mesmo caminho.
O transporte coletivo demora uma eternidade e a coleta de lixo tem que ser feita com carroças em ruas que mais parecem crateras. Aquela que seria a única praça do bairro não passou do projeto. Existe, mas só no papel, como tantas e tantas propostas que nunca deixam a categoria da boa intenção. Quando não é a da enganação mesmo.
Para a maioria das pessoas do bairro, a ´tábua de salvação´ atende pelo nome de Bolsa Família, o programa de transferência de renda do Governo Federal, que apesar do viés assistencialista tem o mérito de tirar milhões de brasileiros da pobreza. Não é raro encontrar fotos de Lula nas paredes das casas, numa admiração que é quase uma reverência.
O bairro Jorge Amado, é bom que se diga, está longe de ser uma exceção. Ao contrário, é regra. Apenas para ficarmos em Itabuna, essa mesma realidade pode ser encontrada no Novo Fonseca, no Nova Califórnia, no Gogó da Ema, no São Lourenço, na Bananeira, no Maria Pinheiro, em tantos outros bairros da abandonada periferia da cidade.
A diferença é que os moradores do Jorge Amado sofrem essas agruras em meio a ruas de nomes floridos.
Eles, incluindo a menina da porta que mais parece uma grade, trocariam de bom grado a sonoridade e beleza dos nomes de suas vias públicas por coisas mais concretas como esgotamento sanitário, asfalto, educação de qualidade, acesso ao mercado de trabalho, etc.
Por enquanto, a exemplo da literatura do escritor que dá nome ao bairro, tudo isso não passa de obra de ficção.
Que um dia deixe de ser, para se tornar realidade.

Cobras e vagalumes

“Era uma vez uma cobra que começou a perseguir um vagalume. Ele fugia rápido com medo da feroz predadora..
O vagalume fugiu um dia, mas a cobra não desistia. Dois dias e nada…
No terceiro dia, já sem forças, o vagalume parou e disse à cobra:
– Antes de me devorar, posso fazer três perguntas?
– Bom, não costumo abrir precedentes para ninguém, mas já que vou te comer mesmo, pode perguntar…
– Primeira: pertenço a sua cadeia alimentar?
– Não.
– Segunda: te fiz alguma coisa?
– Não.
– Então, por que você quer me devorar?
– Porque não suporto ver você brilhar!”

0-0-0-0-0-

Historietas como a relatada acima, cairiam melhor nesses manuais de auto-ajuda tão em voga ultimamente. Mas, ela é atualíssima numa região como a nossa que enfrenta uma crise que já dura duas décadas e nem assim consegue se unir para atuar em torno de um projeto comum de desenvolvimento.
Não aprendemos, apesar de todas as lições (e todas as decepções), que o individualismo é uma praga infinitamente mais danosa do que a vassoura-de-bruxa.
Continuamos, em todas as esferas, colocando o interesse individual acima do interesse coletivo. Confundindo política, que é uma prática saudável e indispensável à democracia, com politicagem, onde o que vale é o golpe baixo e a total falta de compromisso com a verdade.
Vibramos mais com o fracasso alheio do que com os nossos próprios êxitos.
Um conhecido empresário itabunense, que já viveu o céu e o inferno da gangorra prosperidade/crise e que conseguiu se recuperar ao trabalhar duro costuma dizer que “no Sul da Bahia, o sujeito gasta dois reais para que o outro não ganhe um real”.
A conta parece absurda, mas é o que acontece com freqüência nessas plagas grapiunas.
Não há jeito de dar a volta por cima enquanto continuarmos nos comportando como cobras, a devorar vagalumes que seu brilho poderiam apontar a luz no fim do túnel e nos conduzir a novos caminhos.

A Via Crucis, segundo dona Adelaide

Dona Adelaide tem 63 anos e mora na periferia de Itabuna. Sofre de artrite nas duas pernas, o que praticamente a impede de andar, e o glaucoma reduziu sua visão a menos de 5%. Precisa de cuidados médicos, que incluem exames periódicos, e atenção permanente.
Num país que respeitasse minimamente pessoas na situação de dona Adelaide, o acesso aos serviços de saúde seria facilitado, possibilitando uma convivência menos dolorosa com a enfermidade.
Mas, dona Adelaide não mora nesse país.
No país, e na cidade, em que dona Adelaide mora a realização de um simples exame de rotina se transforma numa verdadeira via crucis, como se verá nesta seqüência.
3;30 horas da madrugada. Dona Adelaide é acordada pelo filho, que a ajuda a tomar banho e se vestir. O corpo dói. Entrar no carro apertado é um sacrifício que ela enfrenta com resignação.
4;00 horas. Na clínica conveniada, a fila é imensa, para o a distribuição das senhas, que começaria duas horas depois. Teve gente que chegou na noite anterior mas, com um pouco de sorte, dona Adelaide conseguirá uma das sessenta senhas para o exame de Raio X. Conseguiu. Uma espécie de bilhete premiado, nessa autêntica “loteria do desrespeito”.
6:00 horas. Os olhos cansados e doentes de dona Adelaide mal conseguem enxergar os primeiros raios de uma manhã especialmente abafada. O calvário está longe de terminar. Na clinica, o retrato de uma nação que ainda divide seus habitantes entre a casa grande e a senzala. Para quem pode pagar pelos exames, elevador, ar condicionado, cafezinho, água mineral, sistema informatizado de consultas e atendentes com sorriso típico dos comerciais de creme dental que passam na televisão. Para a patuléia atendida pelo SUS, o acesso se dá por uma pequena porta, uma escada com cerca de 30 degraus (verdadeiro tormento para quem mal consegue dar um passo, como dona Adelaide), bancos de madeira, água de bebedouro, consultas anotadas em folhas de papel e atendentes com mau humor de TPM.
11;00 horas. Entre fila para retirar a senha e a espera pela realização do Raio X, já se passaram cinco horas. Se para uma pessoa normal já é um sacrifício, imagine-se para alguém com a saúde debilitada. Dona Adelaide não imagina, sofre na pele.
12:00 horas. Exame realizado, dona Adelaide está em casa. Os joelhos doem, o corpo exige repouso. O filho, que a acompanhou em toda a via crucis, ainda vai preparar o almoço, antes de ir para mais um dia de trabalho. Ou, meio dia de trabalho.
Fim da via crucis.
Fim?
Mês que vem tem mais.
E haverá sempre mais, enquanto a saúde pública continuar sendo tratada com descaso e enquanto os recursos, que não são poucos, continuarem desaparecendo no ralo da corrupção, alimentando os sanguessugas e outros monstros insaciáveis.
Dona Adelaide, em seu calvário, percorre a via crucis em que escárnio, desrespeito, insensibilidade e irresponsabilidade caminham juntos.
Ela e milhões de brasileiros e brasileiras que dependem de um sistema único de saúde que é único porque nivela por baixo adelaides, josefas, marias, joãos, antonios, paulos, etc.
É único na qualidade. Ou melhor, na completa falta de qualidade.
E na falta de respeito ao cidadão!

Daniel Thame
Daniel Thame, jornalista no Sul da Bahia, com experiência em radio, tevê, jornal, assessoria de imprensa e marketing político danielthame@gmail.com

Busca por data
abril 2018
D S T Q Q S S
« mar    
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
2930