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Suprema Impunidade

Em dois dias seguidos, o Supremo Tribunal Federal, a principal instituição do judiciário brasileiro, tomou decisões que, mesmo sob o pretexto de garantir o direito de defesa e evitar constrangimentos, deixam no ar a velha e conhecida sensação de impunidade.
Primeiro, decidiu que políticos que respondem a processos, incluindo-se aí a improbidade administrativa, popularmente conhecida como “meter a mão no dinheiro público”, poderão ser candidatos nas eleições deste ano. A exceção fica por conta dos julgamentos em que não cabe recurso.
Como sempre há uma brecha jurídica e os processos se arrastam por décadas, na prática isso significa que sujeito pode se candidatar indefinidamente e, se essa for a sua vocação, roubar indefinidamente, porque a lei, mesmo de forma enviesada estará ao seu lado.
Políticos envolvidos em roubalheiras, algumas delas fartamente documentadas, estão aí de novo na disputa eleitoral, boa parte deles com chances concretas de vitória.
A decisão do STF vai de encontro aos anseios da sociedade, farta de tantos escândalos, de tanta rapinagem. O impedimento para que esses maus políticos (para usar uma expressão leve) se candidatassem, poderia servir como uma espécie de freio.
Ocorreu justamente o contrário. A sinalização é de estímulo à corrupção, mesmo que evidentemente não tenha sido essa a intenção do Supremo.
Enquanto isso, o cidadão comum que é aprovado num concurso público e que por uma circunstância qualquer foi parar no Serviço de Proteção ao Crédito, como não pagar uma prestação de loja ou a conta de telefone, fica impedido de assumir o cargo até quitar o débito.
Ninguém está aqui incentivando o calote, mas não deixa de ser uma ironia que a lei seja uma para o sujeito que deixou de pagar 80 reais de prestação e vai parar no SPC e outra para o político que rouba milhões de reais e pode se candidatar, sob as bênçãos dos STF.
Em outra decisão igualmente polêmica, Supremo Tribunal Federal decidiu que algemas só podem ser usadas em casos excepcionais ou de evidente perigo de fuga. Na verdade, o STF estava julgando um caso isolado, de um condenado que apelou da sentença por se sentir constrangido a usar algemas diante dos jurados.
O Supremo não só anulou o tal julgamento como, aproveitando a deixa, estendeu o benefício para todo mundo.
Todo mundo?
Um Daniel Dantas, um Paulo Maluf, um Zuleido Veras, um empresário ou político de peso sempre terão um advogado ou assessor para lembrar à polícia que eles não podem ser constrangidos com o uso das algemas. Mais um pouco e os policiais terão que usar a polidez, tipo: “por favor, se não for incômodo, queira fazer a gentileza de nos acompanhar”.
Camburão, nem pensar, que isso também constrange. Que tal dispor de uma frota de limusines?
Será que o pobre coitado que roubou um quilo de feijão no supermercado ou mesmo o bandido que surrupiou um aparelho de DVD, terão tratamento idêntico?
Ou continuarão sendo algemados e caindo na porrada, como acontece nas melhorias famílias, perdão, nas melhores delegacias?
Num país em que perante a lei todos são iguais, mas que na prática uns são mais iguais que os outros, a impunidade pode até ser suprema.
Mas é para poucos.

“nossos reclames gratuitos”

É Velox, mas pode
chamar de Lentox

Nestor, a seu dispor!

Jailton do Raio X, Caburé, Rosildo do Banco de Sangue, Zé Zoiudo, Aquiles da Parabólica, Ganso do Posto, Quina, Vavá dos 8 Baixos, Papagaio, Marechal o Popular Deputado, Lula Bar, Eliseu do Pastel, Juarez da Honda, Néu do Bar, Chico Bateria e Pedro da Funerária Santa Fé.
Tantos apelidos, que dão para compor um time com seus respectivos reservas, podem nos remeter aos tempos em que os times eram recheados de craques cujos nomes de batismo a torcida praticamente desconhecia e que se jogava aquilo que a gente conhecia por futebol, no sentido de genialidade e talento.
Como o Santos de Pelé, Zito e Pepe. O Botafogo de Didi e Garrincha. O São Paulo de Zizinho e Canhoteiro. Ou o Flamengo de Zico e Tita. Times de antologia, em que os nomes dos jogadores não eram pomposos como os de hoje, recheados de nomes compostos como Marcelo Augusto, André Dias, Fernando Diniz, Alan Delon, Fernando Henrique e quetais.
Mas o jogo era mais vistoso.
Os nomes que abrem esse texto bem que poderiam ser de um time de futebol, mas não são. Eles lutam, e lutam muito, para conseguir um lugar ao sol em outro campo: a política.
Todos eles, a bordo de seus apelidos devidamente registrados na Justiça Eleitoral, são candidatos a vereador em Itabuna. Disputam, no sentido literal da palavra, uma cobiçada vaga na Câmara de Vereadores.
Os apelidos sugerem disposição para ajudar.
Está difícil conseguir um exame nesse período de saúde pública caótica? Nada que Jailton do Raio X ou Rosildo do Banco de Sangue não possam resolver.
Sua televisão está com a imagem pior do que a de certos deputados envolvidos em seguidos escândalos? Chama o Aquiles da Parabólica.
Acabou a gasolina no meio da rua? Ganso do Posto a seu dispor. Se o problema for a bateria, chama o Chico, rapaz!
Ruim de grana? Que tal uma fezinha na Quina? Precisa animar a festa? Lá vem o Vavá dos 8 Baixos…
Bateu aquela vontade de tomar uma cervejinha gelada? Lula Bar e Neu do Bar fazem até fiado.
Se depois cerveja, der fome, liga pro Juarez do Pastel.
Cansou de esperar horas e horas pelo transporte coletivo? O Juarez avisa que a Honda tem uma promoção incrível pra você sair de moto zerinha.
E se as coisas andam pela hora da morte, é só contar com os préstimos do Pedro da Funerária Santa Fé.
E tem até o Marechal, que ainda nem se elegeu vereador e já se apresenta como o Popular Deputado. Otimismo assim nem nos melhores livros de auto-ajuda.
É por demais injusto limitar a participação desses candidatos na campanha eleitoral ao exotismo, como se eles entrassem na disputa apenas para dar um toque de graça num processo onde a conquista de votos muitas vezes impõe golpes abaixo da linha da cintura.
Apesar dos apelidos curiosos, todos eles são sujeitos honrados, batalhadores, que tem o legítimo direito de postular uma vaga na Câmara de Vereadores e, a depender da vontade do eleitor, se eleger, exercer um mandato decente e lutar pelos interesses da população.
Assim como qualquer torcedor prefere um Pelé a um Alfredo Orlando, é preferível um vereador com apelido curioso, do que um político de nome lustroso e conduta lamacenta.
Boa sorte, portanto, ao time dos apelidos.
E,isso vale para todos os demais candidatos, que se jogue o jogo limpo.
A torcida -ou neste caso, o eleitor- penhoradamente agradece.

ELEIÇÃO É FORD !!!!!

Banho de Coca Cola

A inauguração da TV Cabrália, em dezembro de 1987, não apenas levantou a auto-estima de Itabuna (afinal, tratava-se da primeira emissora de televisão numa cidade do interior do Norte/Nordeste, o que não era nem é pouca coisa), como produziu situações que hoje parecem lenda, mas que à época eram rotineiras.
Ainda não havia a global TV Santa Cruz, que só seria inaugurada um ano depois, e a Cabrália reinava soberana. E eu, que nem sabia como funcionava uma emissora de televisão, fui guindado à condição de gerente de jornalismo, pela extrema generosidade de Nestor Amazonas. Não sei quem foi mais maluco: ele, por me nomear, ou eu, por aceitar o cargo.
Segue o bonde…
Para se ter uma idéia do que a televisão representava, até eventos importantes eram marcados de acordo com a disponibilidade da equipe de jornalismo fazer a cobertura, para a devida veiculação nos telejornais.
É claro que não faltavam pedidos inusitados, que a gente não sabia se achava graça ou se mandava o sujeito pra puta que pariu.
E não é que um pai cismou que a equipe da Cabrália teria que cobrir a festa de aniversário da filha? Era o presente que ele havia prometido à pimpolha e ligava todo dia pra perguntar se a gente iria mesmo.
Não adiantava explicar que aquilo era impossível, alegar que se cobríssemos a festa da filha dele teríamos que cobrir outros tantos aniversários e por extensão, batizados, primeira comunhão, casamentos, velórios e quetais.
Resolvi apelar e pra me livrar do sujeito disse que se ele enchesse uma banheira com Coca Cola e colocasse a filha dentro, a gente iria fazer a cobertura do aniversário.
Pronto, dessa mala estamos livres.
Livres? No dia seguinte, véspera do tal aniversário, o cara me liga e diz que havia comprado Coca Cola suficiente para encher uma banheira e dar um banho de refrigernte na filhota.
Não sei se além de chato, o cara era um gozador e resolveu sacanear comigo. Ou se era só chato mesmo e realmente ia dar um banho de Coca Cola na filha, só pelo prazer de vê-la na telinha da Cabrália.
Na dúvida, preferi ficar na dúvida mesmo.
O aniversário, com ou sem banho de Coca Cola, permaneceu para sempre no anonimato.

Uma rua chamada Medo

Há pouco menos de cinco anos, a rua Henrique Alves era um exemplo de um Pontalzinho boêmio, com uma vida noturna efervescente, e ao mesmo tempo com ares de cidade interiorana, onde os vizinhos colocavam cadeiras na calçada para jogar conversa fora, as crianças brincavam livremente e casais de namorados davam seus amassos discretos ou nem tanto na porta de casa.
O chamado bairro ideal, com tudo perto. Farmácia, padaria, mercado, açougue e uma profusão de bares, estrelado pelo Katiquero, com sua cerveja sempre gelada e caranguejos que merecem ser degustados de joelhos.
Essa rua e esse bairro, infelizmente não existem mais, embora a padaria, a farmácia, o mercado, o açougue e o Katiquero continuem nos mesmos lugares.
A rua Henrique Alves, que de tão pacata às vezes parecia modorrenta, tornou-se a síntese de uma violência que se estende a todas as ruas e a todos os bairros dessa cidade sitiada pela bandidagem.
Não passa um dia sem que haja um assalto, não passa uma semana sem que haja um arrombamento de casa ou estabelecimento comercial. E vieram também os assassinatos. O ultimo deles vitimou um engenheiro de 48 anos, morto a tiros durante uma tentativa de assalto.
Tornou-se banal, em qualquer hora do dia, alguém gritar que teve seu telefone celular roubado. Os marginais, sozinhos ou em duplas, agem livremente. O simples barulho de uma moto provoca calafrios, tantos são os motobandidos cometendo crimes com a quase certeza da impunidade.
O que era paz, virou pavor. É raro encontrar alguém na rua a partir das 20 horas. Pais só se tranqüilizam quando os filhos retornam para casa, como se chegar vivo do trabalho, da escola ou do lazer fosse uma espécie de prêmio de loteria.
As residências viraram verdadeiras fortalezas, com grades, correntes e sistemas de vigilância eletrônica. Uma falsa sensação de segurança, já que ninguém passa a vida toda trancado. E também porque nem esse aparato evita a ação dos bandidos, cada vez mais ousados e destemidos.
Beira o inacreditável, mas há cerca de dois meses, um marginal escalou três andares para roubar roupas que estavam secando na varanda de uma casa. As grades que deveriam servir de proteção, serviram como escada para o ladrão.
Parte dessa tranqüilidade perdida deve-se à expansão do consumo de crack, essa droga devastadora que leva empurra os viciados ao mundo do crime.
Roupas, calçados, celulares, pulseiras e anéis se transformam em moeda de troca na hora de adquirir as pedras que eles consomem sem parar.
E o bairro, que já foi uma espécie de paraíso na terra para quem quer conciliar as facilidades da cidade grande com a tranqüilidade de uma pequena cidade, se transformou num inferno, onde as pessoas não estão seguras nem dentro de casa.

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Talvez com saudade de um tempo que não volta mais, uma moradora colou a cadeira na calçada e ficou observando o movimento. O telefone tocou e ela entrou em casa para atender.
Quando retornou minutos depois, haviam roubado a cadeira…

Faltam dois

Era uma vez um vilarejo surgido às margens de um rio de águas tão caudalosas que recebeu o nome de Cachoeira. O vilarejo, quase um entreposto no efervescente comércio alimentado pela expansão de um fruto de ouro, se transformou em vila, até que, em 1910, a luta incansável pela emancipação fez nascer o município de Itabuna.
Começava aí a saga de uma cidade que em poucas décadas se consolidaria como um dos principais pólos econômicos do Norte/Nordeste e que ao longo do tempo demonstraria uma inacreditável capacidade de superar crises, vencer adversidades, renascer.
Um exemplo dessa superação, entre os tantos que foram dados ao longo de sua história, é recente.
As duas últimas décadas do século passado prenunciavam o apocalipse. A cidade foi jogada no olho do furacão por conta da devastação causada pela vassoura-de-bruxa.
O empobrecimento dos pequenos e médios municípios, que dependiam única e exclusivamente do cacau, não apenas estancou o fluxo de consumidores a Itabuna, como enviou para as bordas da periferia uma legião de desempregados do setor rural, pressionando uma demanda por serviços públicos que era praticamente impossível atender.
O que parecia o fim revelou-se o recomeço.
A cidade, com o dinamismo e a força empreendedora que são característicos de sua população, conseguiu se reerguer e é hoje, de maneira indiscutível, o principal pólo comercial, prestador de serviços, educacional e de saúde do Sul da Bahia.
Alguns de seus bairros, como o São Caetano, o Santo Antonio, o Conceição, Fátima e Califórnia tem estrutura similar aos médios municípios da região.
O Centro, com suas incontáveis opções de comércio, serviços e lazer, se equivale a várias capitais do Nordeste.
Existem problemas, sim, e eles não podem ser mascarados. Os serviços públicos (e o mais notório deles é o sistema de saúde) são deficientes, os bairros sofrem com o descaso e a violência atinge níveis alarmantes. A falta de planejamento, combinada com o crescimento econômico, tornou o trânsito caótico nas áreas centrais, e o transporte coletivo está longe do ideal.
O crescimento gerado pela iniciativa privada, se associado a uma administração pública eficiente, será capaz de produzir desenvolvimento sustentável, que resulta na atividade econômica associado à qualidade de vida.
Faltando dois anos para o seu primeiro centenário, data histórica que irá coroar um sonho transformado em realidade no distante ano de 1910, Itabuna reúne todas as condições de ser a metrópole que todos nós, seus filhos nascidos aqui e os que a cidade recebeu de braços abertos, desejamos.
Mais do que desejar, podemos fazer acontecer.

Exame de "Prostógenes"

Paulo Lima, coroné do cacau

Lençóis, 1998. Encontro Estadual de Jornalistas. Apesar do nome pomposo, o evento já conhecera tempos melhores e praticamente havia se transformado num convescote. As discussões se limitavam ao nhem nhem nhem de sempre: exigência do diploma, surgimento de novos cursos de comunicação nas faculdades e valorização profissional.
Na verdade, essa baboseira toda só valia a pena pela oportunidade de rever amigos do Extremo Sul, de Jequié, de Vitória da Conquista e Feira de Santana, tudo regado a hectolitros de cerveja.
No encontro em questão, Itabuna estava representada por Ederivaldo Benedito, Joselito Reis,José Carlos Bombinha. Juarez Vicente, Paulo Lima e este escriba.
Devidamente hospedados no Portal Lençóis, hotel com uma vista maravilhosa da Chapada Diamantina, constatamos que Paulo Lima havia viajado sem um puto no bolso. Lisinho, lisinho.
Até ai, nada demais. O hotel era por conta do Sindicato dos Jornalistas com direito a café da manhã, almoço e jantar e a bebida estava garantida pelos inúmeros regabofes oferecidos pelas autoridades locais, ávidas pra fazer média com a imprensa.
Bastava apenas evitar que Paulo Lima fizesse as chamadas “despesas extras”. Em comum acordo, foi decidido que eu avisaria a portaria do hotel que com aquele cliente nada de despesas para pagar no check-out, popularmente conhecido como fechar a conta saída do hotel. Chato, mas melhor do que ter que passar a sacolinha no final do evento.
Por volta das 19 horas, enquanto aguardava a abertura do seminário, fui ao bar do hotel, ser apresentado a uma legítima cachacinha da Chapada.
Eis que, me deparo com Paulo Lima, num impecável terno azul marinho, sentado numa das mesas com duas senhoras que, pelas roupas e pelas jóias, eram o que se pode chamar de cheias da grana. Sinal amarelo. Perigo, perigo, perigo…
Discretamente, sentei no balcão do bar, nem tão perto que incomodasse, nem tão longe que me impedisse de ouvir aquele bolodório.
Paulo Lima estava inspiradíssimo. Dizia que tinha várias fazendas de cacau no Sul da Bahia (incrível como, com a vassoura-de-bruxa devastando as roças e transformando ricaços em pobretões, alguém ainda aplicava o conto do fazendeiro de cacau!), que possuía iate em Ilhéus, apartamentos no Rio, São Paulo e Salvador. E ainda se gabava de suas viagens à Europa e aos Estados Unidos, com a freqüência com que nós, pobres mortais, vamos ao boteco da esquina.
As diletas senhoras pareciam estar adorando a conversa e eu até achava graça daquela situação. Mas a história não acabaria ali. Enquanto eu sorvia meu terceiro copo de cachaça (bem abaixo da minha média, reconheço), aconteceu. Sinal vermelho!
Quando as mulheres pediram a conta de um jantar pra lá de fornido e o garçom apresentou a fatura, Paulo Lima se antecipou e perpetrou:
-Mesa em que Paulo Lima senta, mulher não paga a conta. Deixa que eu assino essa nota…
Não sei se foi meu olhar de desespero, se foi a engasgada que eu dei com a cachaça ou se duas senhoras sabiam que a tal riqueza dos coronéis do cacau já eram lendas reduzidas aos livros de Jorge Amado.
O fato é que elas gentilmente tomaram a nota das mãos Paulo Lima, sacaram um humilhante cartão American Express e a conta foi devidamente paga. Por elas, ufa!
Resumo da ópera: o nosso prejuízo se limitou aos dois uísques que Paulo Lima bebeu enquanto representava o papel de milionário com a galhardia que lhe é peculiar.
Pensando bem, até que foi lucro.
Se as duas damas, na verdade turistas de São Paulo em tour pela Bahia, não fossem tão distintas, era bem capaz da gente jogar o Paulo Lima lá do alto do Morro do Pai Inácio.
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PS- Essa história, confirmada aos risos pelo protagonista, só está sendo publicada com a devida autorização de Paulo Lima, seguramente uma das mais fantásticas figuras humanas desse chão grapiuna.

Fique Ligado

Meados da década de 90, jornal A Região.
Como que surgido do nada, o médico Roland Lavigne, dono de um hospital em Una, se transformara num fenômeno eleitoral. Deputado estadual, deputado federal, com grandes chances de dar o grande salto adiante (como diria o camarada Mao), elegendo-se prefeito de Ilhéus.
Aqui e acolá, pululavam denuncias de que Roland usava métodos nada ortodoxos para encher seu balaio de votos, entre eles a esterilização em massa de mulheres, as famosas ligaduras de trompas. Além da esterilização de índias (o que tempos depois se transformaria num escândalo de repercussão internacional), o ´público-alvo´ era composto de mulheres carentes das periferias de Ilhéus e Itabuna.
Em sendo assim, lá fomos eu o fotógrafo Sabino Primitivo (a quem a cidade deve o merecido reconhecimento, ainda que póstumo) para o bairro da Bananeira, onde o que não faltava e nem falta até hoje é mulher carente.
Sabino, que era ranheta na mesma proporção que era talentoso, e que não escondia a má vontade quando a gente fazia incursões pela periferia, repetia a mesma ladainha:
-Vamos perder tempo! Você acha que alguma mulher vai dizer pra gente que fez ligadura de trompa? E ainda por cima tirar fotografia?
O que Sabino não sabia é que, como dizia o velho Tim Maia (que a essa hora deve estar queimando unzinho em algum lugar chamado eternidade) é que eu tinha uma estratégia.
Em vez de falar que era repórter de jornal, cometi mais um dos meus inúmeros pecadilhos em busca da notícia. Cheguei ao bairro e disse que eu e Sabino éramos funcionários do Dr. Roland e estávamos lá para saber se as mulheres estavam satisfeitas com a cirurgia e se precisavam de alguma coisa.
Bingo!
Com num passe de mágica, foram surgindo mulheres e mais mulheres que haviam feito ligaduras. Com foto, nome, endereço e depoimentos devidamente gravados. Enfim, uma reportagem que valia o risco de se embrenhar pela Bananeira, ainda mais dizendo que a gente era o que não era.
Mesmo com Sabino reclamando que estava bom demais, que a gente deveria ir embora dali, achei que faltava alguma coisa. Foto das mulheres a gente tinha, depoimentos a gente tinha, mas faltava a ligação (ops) inquestionável disso tudo com Roland.
Como o destino costuma dar uma mãozinha até aos trapaceiros, eis que fomos levados a um casebre, onde uma mulher, ainda se convalescendo da cirurgia, queria agradecer ao dr. Roland.
Lá estou eu conversando com a mulher, que nada acrescentava ao material já coletado, quando me deparo com um cartão com a foto de Roland e sua indefectível frase “Saúde é vida”, colado no espelho de uma penteadeira que já conhecera dias melhores.
Era a cereja do bolo e ela seria devidamente degustada:
-Moça, o dr. Roland vai ficar muito feliz se a senhora tirar uma foto segurando o cartãozinho dele…
Sabino podia ser ranheta, mas não era burro e tinha larga quilometragem nesse negócio de reportagem. E fez a foto no enquadramento perfeito.
A foto da mulher deitada na cama, exibindo toda sorridente o cartão com a foto do médico igualmente sorridente, ganhou a capa do jornal e a reportagem gerou (ops, de novo!) uma série de filhotes nas edições seguintes do jornal até que…
Bem, essa é outra história.
Que talvez um dia eu conte.
Ou talvez eu não conte.

CONTIGO ESTAREI

Há mais um menos uma década, Itabuna ganhou repercussão nacional e internacional com o casamento de Ferreirinha, beirando os 70 anos, com a adolescente Yolanda, em seus tenros 14 aninhos.
Ferreirinha posava de garanhão grapiúna e dava entrevistas para Deus e o mundo, mas Yolanda não abria a boca.
Fotografias posadas ao lado de Ferreirinha, tipo casal feliz, então, nem pensar.
Como colocar Ferreirinha no jornal era assunto velho, eu e Manoel Leal decidimos que Yolanda faria a foto do casal, mesmo tendo que chutar a canela da ética. E lá fomos nós para a casa do velho garanhão.
Ferreirinha nos recebeu de braços e portas abertas, mas foi logo cortando qualquer esperança. Yolanda não falaria nem tiraria fotos.
Foi aí que veio a luz.
Virei pra Manuel Leal e falei: “vamos dizer que a reportagem é pra revista Contigo”.
A Contigo era uma espécie de Caras da época. Meu sotaque de paulista abriu as ´porrrrrrrrrrrrrrtas´ e, como era pra Contigo, Yolanda tirou fotos que davam para encher uma edição da revista e ainda falou de sua relação (ops!) com Ferreirinha.
A proeza, primeira foto e entrevista do casal juntos, fez com que exemplares de A Região pousassem no SBT e despertasse a atenção do programa Jô Onze e Meia, um sucesso monumental de audiência na emissora de Silvio Santos.
Ferreirinha deu uma entrevista impagável a Jô Soares, onde revelou suas proezas de conquistador, atribuiu sua potência sexual ao suco de cacau (na verdade, quem pediu pare ele dizer isso foi Manuel Leal) e levou a platéia que acompanhava a gravação ao delírio ao revelar que havia noites em que Yolanda, exausta, era quem pedia para ele parar…
Exausta Yolanda deve ter ficado mesmo foi de tanto esperar a tal reportagem na Contigo, com direito a foto de capa, já que se é pra prometer o impossível, a gente promete o impossível e mais um pouco.

Daniel, que Daniel?


Do site de humor KibeLoco ao respeitado jornal Folha de São Paulo, passando por sites e blogs de todo o Brasil, o Diário do Sul foi destaque ontem.
Os 15 minutos de fama não foram fruto de um furo jornalístico, daqueles com que toda a imprensa nanica sonha para, ainda que momentaneamente, romper a intransponível barreira que a separa da grande mídia.
Por um desses descuidos inacreditáveis em sua edição de quarta-feira, ao noticiar a prisão do banqueiro Daniel Dantas, o jornal tascou a foto do ator Daniel Dantas.
A explicação para a trombada é simples: o diagramador do jornal, ao capturar na internet uma foto do Daniel Dantas banqueiro nem se deu conta de que existe o ator homônimo, certamente por não ser dado a preocupações com economia e com o mundo das novelas.
O editor do jornal, na clássica pressa de mandar as páginas para impressão, e muito provavelmente enfastiado de ter que agüentar um outro Daniel cometendo suas aleivosias diariamente neste espaço, deixou passar batido.
O que é um Daniel, outro Daniel e mais outro Daniel quando se tem que colocar o jornal nas bancas no dia seguinte e a edição não se resume ao banqueiro, ao ator e muito menos ao jornalista, que agora quer por que quer entrar nessa história, em busca de, ao menos, alguns milésimos de segundo de fama.
A explicação pode ser simples, mas a repercussão daquilo que nos tempos de antanho a gente chamava de barrigada, foi monumental.
Com Daniel Dantas, o banqueiro, pipocando nas manchetes do mundo todo e Daniel Dantas, o ator, fazendo um papel que não era dele nas páginas do Diário do Sul, a reprodução da página do jornal foi parar nos sites baianos, dali para os sites nacionais, incluindo os de humor, até pousar na Folha de São Paulo, na companhia de publicações do calibre do New York Times, The Washington Post, Financial Times, The Wall Street Jornal, China Daily, O Globo, O Estado de São Paulo e outros menos votados. Ou menos lidos.
Ô glória inglória!
De mais a mais, o pecadilho tem lá sua justificativa, meia chocha, mas tem.
Daniel Dantas, como todos sabem (menos o nosso diagramador) é um banqueiro inescrupuloso, daqueles que se não vendem mãe, botam até a irmã como `laranja`.
E Daniel Dantas, o ator, na novela Ciranda de Pedra, da Rede Globo, interpreta um empresário inescrupuloso, que corrompe políticos e prende a mulher com corrente e cadeado.
Com um pouco de boa vontade (pensando bem, com uma dose cavalar da boa vontade!) faz até sentido.
Quando essa barafunda toda passar, terá ficado apenas uma situação prosaica, engraçada, daquelas que estarão em qualquer compêndio que se faça sobre a imprensa grapiuna.
Nada que afete o aquecimento global, segure a inflação ou que faça alguns de nossos políticos e empresários se tornarem sujeitos honestos, porque este jornal pode até, involuntariamente, fazer graça.
Mas não faz milagres.

Daniel Dantas,
ops, Thame

Daniel Thame
Daniel Thame, jornalista no Sul da Bahia, com experiência em radio, tevê, jornal, assessoria de imprensa e marketing político danielthame@gmail.com

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