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CUBA, A ILHA DE FIDEL E DOS CONTRASTES

Cadê a Biafra que deveria estar aqui? A julgar pelo que se lê e o que se ouve sobre essa ilha de 11 milhões de habitantes, apertada entre o Golfo do México e o extremo oriental da Flórida, o mínimo que se deveria encontrar ao desembarcar no aeroporto José Marti seria uma legião de esfomeados e um país caindo aos pedaços.

Cuba, a Meca do que restou do socialismo mundial e a pedra no sapato do “Gigante Americano”, certamente não é o melhor dos mundos, nem aquele lugar onde se gostaria de passar o resto da vida. Mas está longe de ser o inferno apregoado pela mídia.

“No es facil”, dizem os cubanos, com certa resignação. Não é fácil, certamente, suportar quase cinco anos de racionamento de alimentos, de roupas, de combustíveis, de energia elétrica. O tal ´período especial´. Como não é fácil entender como, a despeito de tantas dificuldades e de um bloqueio sufocante imposto pelos Estados Unidos, existe um povo que vai tocando a vida e driblando os problemas com criatividade e uma imensa capacidade de improvisação.

DOIS PESOS- A Biafra já foi deixada de lado. Ou quem sabe, abaixo do Trópico, num país de 130 milhões de habitantes que fala português. O que vamos encontrar em Cuba é um festival de contrastes, com situações que desafiam qualquer lógica. Havana, a capital da ilha, é a síntese de tudo. São cerca de dois milhões de habitantes na área metropolitana, vivendo dois mundos distintos e ao mesmo tempo interligados entre si.

Essa situação quase inverossímel, que se estende às outras cidades de Cuba, foi criada a partir da abertura para o turismo, na década de 80. O governo criou uma ilusória paridade entre o dólar americano e o peso cubano, na base do 1/1. É o que os cubanos chamam de peso virtual, que só vale para os turistas. No peso real, válido para os cubanos 1 dólar é cotado entre 40 e 60 pesos.

Tomando-se por base essa cotação, os salários dos cubanos variam entre 5 e 8 dólares por mês. A guia turística Miurca, que fala inglês, alemão, português, russo e castelhano (além disso, é licenciada em literatura russa), ganha o equivalente a seis dólares por mês. Imagine-se, portanto, a felicidade com que ela, ao final de uma excursão de uma semana, recebeu cerca de 300 dólares coletados entre os participantes do Vôo da Solidariedade, que saiu de São Paulo e passou por Salvador, levando um grupo de bancários, professores, estudantes, políticos e este jornalista.

A crise fez brotar, primeiro espontaneamente e depois incentivada pelo Governo, uma economia de mercado que parece incontrolável. Em Havana já existem mercados comercializando verduras, legumes, frutas, etc. Os preços estão no meio do caminho entre o peso real e o peso virtual e a própria lei da oferta e da procura tem se encarregado de ajustar as coisas.

TAXI-DRIVER- Outra saída é o que aqui chamamos de ´bico´. Durante o dia, Rafael, 56 anos, e seu filho Ricardo, 32, trabalham no restaurante de um dos mais charmosos hotéis de Havana, o Inglaterra. À noite, transformam o velho Chevrolet 1956 num táxi. O preço da corrida varia entre 3 e 5 dólares. Ninharia para nós, uma fortuna para eles. O trabalho no restaurante também facilita a obtenção de comida no mercado negro. Numa das viagens que fizemos entre Habana Vieja e Vedado (cerca de 20 quilômetros de distância, 5 dólares a corrida), Rafael, que usa uma boina a la Che Guevara e não tira o charuto da boca, perguntou se poderia passar em alguns lugares antes de chegar ao hotel. E passou em três casas, todas de familiares, deixando providenciais sacolas de comida. “Está difícil, mas o pior já passou”, diz Rafael, com a concordância do filho.

Quem não tem dinheiro para recorrer ao mercado negro, tem que se conformar com alimentos alternativos. Em Cuba, existe a Libreta de La Nutricion, uma espécie de caderneta que garante a alimentação básica. Os alimentos são fornecidos de acordo com o número de pessoas de cada família. As quantidades são mínimas e é preciso fazer mágica para ´esticar´ a duração dos produtos. Dona Rafaela Detresse, 63 anos, mora num antigo prédio em Habana Vieja. São 14 pessoas, entre filhos, netos e genros. Em 15 dias, os mantimentos acabam. Ai o jeito é recorrer ao ´chicaro´, uma pasta verde de altíssimo poder nutritivo, mas de sabor repugnante como a soja. Junto com o ´chicaro´, o feijão.

Fome, como a que milhões de brasileiros passam, os cubanos desconhecem. O problema é que comer não é apenas uma questão de consumir proteínas, mas de ´olhar´. E aí eles têm que aprender a comer de olhos fechados. “Mas vai melhorar”, aposta Rafaela, enrolada num velho lençol para suportar o surpreendente frio de 14 graus, uma raridade em Havana. Blusas? Cada cubano tem direito a um conjunto de roupas. Por ano!

CONQUISTAS- Fidel Castro (“El Comandante”, “El Jefe”) é tratado com respeito, mas sem idolatria. Mesmo em ´período especial´ e com todo o sacrifício a que o povo vem sendo submetido, há um sentimento quase generalizado de gratidão pelo que Fidel fez por Cuba. Para não parecer que a afirmação tem cunho ideológico, nos baseamos numa pesquisa feita pelo respeitável Instituto Gallup e publicada em jornais do México, Argentina e Colômbia.

Na pesquisa, a maioria da população aprova a atuação do Governo e aponta como principais destaques a saúde e a educação. A aprovação a Fidel pode parecer um contra-senso para quem passa o que os cubanos estão passando. Ou uma constatação de que poderia ser pior sem as chamadas conquistas do socialismo. O que se avançou, com todos os problemas visíveis e impossíveis de ignorar não é pouco num país que antes da Revolução era um misto de cassino e bordel dos Estados Unidos.

SONHO DE LIBERDADE- Reclamações contra o regime (o nome de Fidel raramente é mencionado) se ouvem em vários pontos de Havana. Os cubanos se aproximam, puxam conversa e se percebem que a pessoa está disposta a ouvi-los, falam. E como falam! As enfermeiras Norca, 20 anos, e Carmen, 22, estão sentadas num jardim em frente ao Palácio de Artesanato. Tem nas mãos um exemplar em espanhol do Miami Herald. É propaganda pura contra o regime, financiada pelos cubanos exilados na Flórida.

Norca reclama que “os turistas tem tudo e o povo fica com o resto”, lembrando que pela Libreta não vem sabão há seis meses, manteiga há três e carne bovina há um ano. Carmen fala da falta de liberdade. Tão logo nos afastamos das enfermeiras, dois policiais se aproximam delas para saber o que estavam conversando com um estrangeiro. Essa situação se repetiu várias vezes, sem locais diferentes. Ressalte-se que, pelo menos à nossa vista, ninguém foi detido. “É apenas para evitar que fiquem pedindo coisas para vocês”, esclareceu um dos guardas. Nada que lembrasse a terrível policia política, dos tempos em que o regime era mantido a ferro e fogo.

Não é à toa que a palavra mais em voga hoje em Cuba é concessão. Afinal, um país que precisa desesperadamente de dólares tem mesmo é que fazer concessões. E é através do turismo, com suas vantagens e desvantagens, que Cuba está se abrindo. No que isso vai dar, ninguém sabe. Talvez nem Fidel, El Viejo Comandante.

(nas próximas reportagens, os contrastes de Havana e a opção pelo turismo; a saúde e educação preservadas a qualquer preço; mercado negro e prostituição,os malucos geniais que batem recordes de produtividade e a onipresença de Che Guevara na terra onde ele virou lenda e se tornou eterno)

Horário pós-eleitoral gratuito

Diz a lenda do marketing político que campanha derrotada é coisa pra se esquecer. Mas, uma das peças da campanha de Juçara à prefeita de Itabuna (BA) não é pra ser esquecida. Por uma dessas coisas que só o dinamismo da campanha explica, esse rap foi veiculado apenas no último dia da propaganda na televisão e, com a temperatura da eleição atingindo níveis mercuriais, praticamente passou despercebido.

Política à parte, é um tributo à criatividade.

Horário pós-eleitoral gratuito

Diz a lenda do marketing político que campanha derrotada é coisa pra se esquecer. Mas, uma das peças da campanha de Juçara à prefeita de Itabuna (BA) não é pra ser esquecida. Por uma dessas coisas que só o dinamismo da campanha explica, esse rap foi veiculado apenas no último dia da propaganda na televisão e, com a temperatura da eleição atingindo níveis mercuriais, praticamente passou despercebido.

Política à parte, é um tributo à criatividade.

Lição de casa

Urubatão era um desses técnicos de futebol que perambulam pelos pequenos times de futebol do interior do país, um cigano do mundo da bola. Teve uma breve passagem pelo Santos, tão breve que só um fanático por futebol como esse blogueiro consegue lembrar. Seu ofício era treinar times tipo América de Rio Preto, Ferroviária de Araraquara, Noroeste de Bauru e afins, que se equivalem ao Itabuna, Colo Colo e Conquista.

Não era dado a essas veleidades de tática, escalações mirabolantes e outras “luxemburguices”. Suas preleções antes dos jogos eram um primor de síntese:

-Vamos ganhar esse jogo pra que depois a gente possa tomar nossa cervejinha em paz, sem que a torcida fique enchendo o nosso saco.

Mais do que nunca, é hora de colocar em prática a frase do velho Urubatão.

____________________________

PS em 6/10/2008: a lição fica pra próxima, porque próximas haverão…

Bate (ou apanha) coração


Como sempre acontece em Itabuna, as eleições para prefeito serão novamente um teste para cardíacos.
Os corações estarão a mil até o inicio da noite do próximo domingo, quando o povo dirá quem é o escolhido ou a escolhida para gerir os destinos da cidade prestes a se tornar centenária.
Os cardiologistas estão de plantão, com seus eletrocardiogramas a postos.

E segue o jogo…

Dois juizes (de futebol, de futebol) se encontram e travam o seguinte diálogo:

-Você vai pescar?
-Não, eu vou pescar!
-Ah, bom, pensei que você ia pescar…

No que se depreende que certos juizes não são apenas cegos, como também surdos.

FRUTO DE OURO, BREGA DE OURO


O dia em que as histórias de Olívia
e de Sonia viraram uma só história

Se acaso me quiseres/sou dessas mulheres que só dizem sim…
E se tiveres renda/aceito uma prenda/qualquer coisa assim/
Como uma pedra falsa/um sonho de valsa/ou um corte de cetim… (1)

A história de Olívia é clássica. Filha de trabalhadores rurais, morando numa rua de casas paupérrimas em Itapé, engravidou do namorado, que não quis saber de assumir a criança.
O pai, depois de uma surra homérica na “filha vagabunda”, colocou-a para fora de casa.Olívia foi parar na casa da avó em Ibicaraí, teve o filho que também não queria e, seguindo o curso natural da história, virou empregada doméstica, ou “secretária”, esse eufemismo para um trabalho que resistiu ao fim da escravidão.
Ganhava mal, era humilhada pela patroa e ainda tinha que ceder aos desejos sexuais do dono da casa.
É nesse ponto que a história de Olívia vai se cruzar com uma história glamourosa, recheada de lendas e fatos que, embora hoje pareçam fruto de uma alucinação coletiva, foram absoluta e absurdamente verdadeiros.

E eu te farei vaidoso supor/que é o maior/e que me possuis/
Mas na manhã seguinte/não conte até vinte/te afasta de mim/
Pois já não vales nada/és página virada no meu folhetim.(1)

Quando Olívia se cansou da dobradinha ´fodida e mal paga´, uma amiga lhe falou da casa de Sonia.Pronto.Olívia e Sonia agora fazem parte da mesma história, embora a história de Sonia tenha, além de Olívia, patrícias, meires, solanges, thábatas, elianas e tantos outros nomes verdadeiros ou de guerra.

KASARÃO RELAX DRINK´S

Kasarão o que? Ah, o Brega de Sonia. Quem nunca, ao menos uma vez, não ouviu falar de Sonia? A casa espaçosa em estilo colonial no bairro de Fátima, na periferia de Itabuna, é quase um referencial na cidade.Povoa a imaginação das pessoas.
Sonia teve seus 15 minutos de fama ao ser incluída num Globo Repórter sobre a crise na lavoura cacaueira.Na época, a novela Renascer, ambientada no Sul da Bahia, fazia estrondoso sucesso e a repórter Ilze Scamparini produziu um programa onde a crise, uma coisa séria, que afeta milhares de pessoas, mais parecia um romance de Jorge Amado.
Em vez de lideranças da lavoura, sindicalistas e trabalhadores rurais, Ilze mostrou coronéis de mentirinha como Sá Barreto e uma personagem real mas que poderia perfeitamente fazer parte de um script de novela, Sonia, autora de uma frase antológica que reverberou nos lares de milhões de brasileiros: “a crise do cacau está tirando o tesão dos homens”.

Mergulhado na solidão/um vazio no coração/e o meu corpo pedindo um pouco de carinho/de repente então me lembrei/
De um anuncio e telefonei/Marquei um encontro amoroso/pra não ficar sozinho/Eu agora estou apaixonado por essa garota de programa (2)

Esqueçamos por um instante a crise, a falta de tesão dos homens grapiunas e Sonia. Voltemos a Olívia.
18 anos, o corpinho bem feito, seios durinhos, bundinha bem torneada. Chegou a caiu nas graças da clientela. No início, vergonha. Depois…Bem, depois veio o dinheiro farto, os clientes generosos. “Num mês bom cheguei a tirar o que hoje seriam três mil reais. Era muito dinheiro”.
Era muito dinheiro mas não era tudo.Dois anos depois, Olívia resolveu tentar a vida em São Paulo. Bem que tentou. Abandonou a prostituição e foi trabalhar como doméstica em São Miguel Paulista, um bairro miserável e violento no cinturão de pobreza da periferia da maior cidade do país.
Outra vez o dinheiro curto, a exploração. Os namorados que só queriam saber de trepar com aquela baianinha fogosa. E já que era para trepar, o caminho foi óbvio: a Boca do Lixo, zona de prostituição de baixíssima categoria do centro velho de São Paulo.

Eu agora estou apaixonado/por essa garota de programa/e não interessa o que ela fez no seu passado/o meu coração me pede, eu digo/tire essa saudade do meu peito/traga seu amor e vem ficar aqui comigo (2)

Deixemos Olívia transando com os pobres coitados de São Paulo e voltemos ao Kasarão Relax Drink´s. Ou melhor, voltemos ao Brega de Sonia.
Há pouco mais de vinte anos, quando Sonia decidiu se dedicar a essa modalidade nada ortodoxa de prestação de serviços, a Região Cacaueira vivia o extertor de um ciclo de ouro onde todas as loucuras possíveis e imagináveis, em todos os sentidos, foram cometidas.
Sonia pegou a última alta do cacau, aquele aviso do anjo, como se Deus dissesse “vocês não souberam aplicar bem o dinheiro que o cacau produziu, mas EU estou dando mais uma chance.Não a desperdicem”.
Mas, cá entre nós, quem é que vai estar preocupado com essas coisas de anjos e mensagens divinas com o cacau batendo nos três mil dólares a tonelada?

Olha, a primeira vez que eu estive aqui/foi só pra me distrair, eu vim em busca de amor/Olha, foi então que eu te conheci, naquela noite fria, em seus braços meus problemas esqueci… (3)

Fala Sônia:
-Era farra em cima de farra.Os fazendeiros chegavam aqui e exigiam as melhores meninas, o melhor uísque…
Os melhores, as melhores. A casa chegou a abrigar 30 garotas. Trinta misses, trinta top models. Meninas na casa dos 18, 20 anos. Vindas do Rio de Janeiro, de São Paulo, do Paraná, de Salvador. “Até do Exterior”, diz Sonia, não sem uma ponta de melancolia.
Era festa dia e noite, porque quando se tem dinheiro esse negócio de tempo perde o sentido.
Meninas lindas que se entregavam por dinheiro aos fazendeiros e empresários (chamados – Deus, como isso hoje soa ridículo!- de coronéis e barões) e também se entregavam por paixão ao primeiro que lhes oferecesse um mínimo de afeto. Afinal vivemos num país onde traficante cheira, puta de apaixona e sociólogos tidos como respeitáveis esquecem tudo o que disseram/escreveram depois que chegam ao poder.

Olha, a segunda vez que eu estive aqui/já não foi pra me distrair/eu senti saudade de você/olha eu precisava de carinho/eu já me sentia tão sozinho/e já não podia mais te esquecer… (3)

Justiça seja feita. Sonia pode não ser o modelo pronto e acabado de beata e muito provavelmente terá uma certa dificuldade em conseguir uma vaga no reino dos céus, mas entendeu perfeitamente a mensagem do anjo.
Empresários e fazendeiros, como qualquer cego pode ver, não entenderam.
Sonia construiu um patrimônio sólido, que hoje inclui duas pousadas no litoral sul-baiano e algumas casas de aluguel. “Graças a Deus soube aplicar bem o dinheiro, não fiz bobagens”, diz. E completa: “fiz questão de orientar bem minhas meninas, mostrando que tudo aqui era passageiro, que não esbanjassem. Muitas delas estão casadas, bem de vida”. Cite uma. “Imagina, isso a gente não fala”.
“Minhas meninas” poderiam ser substituídas por “minhas filhas”, porque Sonia se sente um pouco mãe de todas elas. “É uma vida dura, ninguém se prostitui porque quer, mas faço que elas encarem isso como uma profissão, não se envergonhem disso”.
Que mantenham a dignidade. Que não percam a sensibilidade. Que não matem a capacidade de sonhar.

Eu vou tirar você desse lugar/ eu vou levar você pra ficar comigo/e não me importa o que os outros vão pensar… (3)

Depois da ultima alta do cacau.Ou do aviso do anjo enviado por Deus. Pecadores continuaram em pecado. E o Senhor resolveu que depois de tanto dinheiro fácil, o castigo teria que vir não à cavalo, mas numa vassoura. E em forma de bruxa.
A vassoura-de-bruxa, e de novo até os cegos podem ver, surgiu e se alastrou como uma praga devastadora.Em menos de uma década transformou o Eldorado Grapiuna em terra arrasada.
Fez valer a verdade da geografia e colocou o Sul da Bahia (tão Sul do País nos modismos e no padrão de vida de suas classes média e alta) no Nordeste.
Estamos reaproximando Olívia de Sonia.Recolocando-as na mesma história. A crise levou embora as meninas de São Paulo, Rio e Curitiba. E, se é que um dia existiram (as vezes os nem os próprios protagonistas dessa História sabem o que é história e o que é estória), as meninas do Exterior tomaram um avião, um navio ou partiram em cavalos alados.

Eu sei que você tem medo de não dar certo/pensa que o passado vai estar sempre perto/e que um dia eu possa me arrepender/eu quero que você não pense em nada triste/pois quando o amor existe/não existe tempo pra sofrer. (3)

Hoje, o Kasarão Relax Drink´s (em tempos de decadência explícita faremos concessão ao nome pomposo) abriga cinco, seis meninas.De Conquista, de Jequié, de Itajuipe. Da periferia de Itabuna.
Coronéis, fazendeiros? Estudantes em busca de farra, empregados do comércio, de vez em quando um garoto disposto a pagar 20 reais pelo quarto e 50 pela transa. 50? Tudo depende da pechincha, coisa impensável nos anos dourados.
“A maioria das pessoas vem aqui só pra ficar alisando a gente.Pedem uma cerveja e ficam enrolando. Chego a ficar dois, três dias sem um único cliente”, confidencia uma das meninas. “Acabou, acabou. Nem o cacau volta a ser o que era nem a gente vai ter o movimento que tinha”, sentencia Sonia. “Com essas menininhas aí trepando a torto e direito, quem é que vai pagar pra trepar?”, pergunta, a língua ferina de sempre.
Olívia sorri, uma espécie de líder, fazendo as vezes de recepcionista.
Mas, Olívia não deveria estar em São Paulo?
“Uma vida dura, violenta. Dá até pra ganhar um dinheirinho, mas não vale a pena”.
Filha pródiga, assim que decidiu fazer o caminho de volta, Olívia não pensou na casa dos pais em Itapé. Nem na casa da avó em Ibicaraí.
Pensou na casa de Sonia, onde está há um ano. Os tempos são outros, os clientes estão cada vez mais escassos.”Mas dá pra tirar uns 500 reais livres por mês”. Olívia é ótima de conta. Abate a refeição, abate a moradia, abate a roupa lavada.
500 reais livres por mês. O dobro de uma professora primária, pouco menos que um professor universitário, salário médio de um jornalista. Quatro vezes mais do que uma doméstica.
“Claro que eu sonho em sair daqui, encontrar um cara legal, casar. Mas não fico pensando nisso. Se acontecer, aconteceu”.

Eu vou tirar você desse lugar/eu vou levar você pra ficar comigo/e não interessa o que os outros vão pensar… (3)

Olívia tem um sorriso franco, cativante. Não fosse o namorado canalha.Não fosse o pai insensível. Não fosse a patroa exploradora. Não fosse o cacau que em tempos áureos ou na decadência sempre excluiu a maioria das pessoas.
Talvez fosse esposa de um trabalhador rural, de um comerciário batalhador. Com um pouco de sorte, do dono de uma rocinha com centenas de arrobas de cacau.
Não há tempo para divagações.Chegam três rapazes e Olívia pede licença para atende-los, não sem antes comentar baixinho “esses aí tem cara de que só vem aqui enrolar”. Ossos do ofício, Olívia escolhe seu melhor sorriso e se esmera-se em mesuras aos rapazes.
No quarto, Sonia, essa respeitável senhora, mãe de cinco filhos, empresária hoteleira, esparrama-se pela cama e assiste a um filme na Globo.
Lá fora, a vida passa como um filme onde Olívia, Sonia e cada
um segue o curso natural da história.
Entrelaçando histórias, vidas, sonhos. Desejos.
Um poeta vagabundo, parafraseando Fernando Pessoa, diria que “a vida vale a pena quando se vive intensamente cada minuto”.
Ou, simplesmente, “quando se vive”. Vive, vive, vive e vive…

___________________________________
(1)– Chico Buarque, Folhetim
(2)– Odair José, Garota de Programa
(3)– Odair José, Eu Vou Tirar Você Desse Lugar

____________

TEXTO PUBLICADO NO JORNAL A REGIÃO (ITABUNA) JUNHO/2001

HOJE O OUTRORA GLORIOSO BREGA DE SONIA É APENAS UMA LENDA…O CACAU, QUASE ISSO.

ET´s eleitorais

O Diário do Sul de hoje (17/09) traz uma reportagem sobre um suposto disco voador, visto por moradores da zona rural de Coaraci, cidadezinha da Região Cacaueira da Bahia.
Antes que ufólogos baixem na cidade, o mistério já foi esclarecido.
O fenômeno é muito comum na reta final das campanhas eleitorais.
Em Coaraci, como em outras cidades, a essa altura da campanha o que tem de candidaturas indo para o espaço…

HORÁRIO ELEITORAL GRATUITO




A caminhada de Jaques Wagner em Itabuna, que sacramentou o apoio a Juçara Feitosa, produziu imagens que falam menos de política e mais de uma coisa subjetiva chamada esperança.
No domingo ensolarado em Itabuna, a esperança ganhou tons vermelhos. Que é cor da paixão, igualmente subjetiva, mas que se torna objetiva nos gestos que ela proporciona.
As três fotos de Ed Ferreira, pela emoção que estampam e pelo simbolismo que embutem, falam mais do que milhões de palavras.

No paíz da imducasção

A resposta acima foi dada por um aluno que fez o Enem em Itabuna.
Uma autêntica obra-prima.
Da burrice, bem entendido.
Todo mundo sabe que apóstrofos são esses folhetos de baixo nível, tão comuns em tempos de campanha eleitoral.
Seria?

Onze contra dois

Rádio Difusora Oeste, Osasco (SP), 1985. Para quem trabalha em radio pequena, cobrir uma partida da Seleção Brasileira é a glória. Assim, até um jogo mulambento entre Brasil e Bolívia no Estádio do Morumbi, pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 86, no México, ganhava ares de decisão.
O Brasil, dirigido pelo saudoso Telê Santana, já estava classificado e o time era recheado de jogadores do São Paulo, como Oscar, Silas, Careca, Muller, Sidney e um Falcão já em fase outonal. Enfim, a velha e boa média com a sempre exigente torcida paulista.
Para nós da aguerrida Difusora Oeste, era a chance rara de poder contar (como estou contando aqui) que cobrimos um jogo da Seleção Brasileira. Grande m…, dirão alguns, diante da maneira como o nosso time nacional foi banalizado e transformado em mercadoria para as nikes e cbfs da vida. Mas, naquele tempo a Seleção ainda era uma instuição quase sagrada.
A equipe da rádio para o jogo em questão tinha Alceu de Castro na narração, Carlos Roberto nos comentários e eu como repórter de pista. Os “famosos quem?”.
Alceu, como eu já contei neste blog, era um sujeito simplório, vindo do interior, que adorava imitar o Fiori Giglioti. Sem muito estudo, quando cismava com uma palavra bonita usava toda hora, mesmo que ela não fizesse o menor sentido na transmissão.
Ao receber a escalação da Bolívia, com aqueles nomes todos em espanhol, parecia que Alceu havia se deparado com a escalação de um time grego ou polonês, com seus nomes impronunciáveis.
Vendo a dificuldade do narrador, Carlos Roberto passou dica:
-Ô Alceu, pega uns cinco ou seis nomes mais fáceis e toca a transmissão numa boa.
Alceu acatou a sugestão, mas talvez empolgado por estar narrando um jogo da Seleção Brasileira, em vez de cinco ou seis, ele só guardou o nome de dois jogadores da Bolívia: Garcia e Vaca.
E era um tal de “Garcia toca para Vaca”, “Vaca lança para Garcia”, “Vaca faz falta feia em Careca”, recheados pelo “bola com o número 8”, “olha o número 5 avançando pela ponta”. E a gente sem querer ou poder “escalar” mais alguns jogadores da Bolívia, com medo de que Alceu chutasse o pau da bandeira e a transmissão desandasse de vez.
O fato é que, jogando “só” com Garcia e Vaca, a Bolívia encarou o Brasil de igual para igual e arrancou um heróico empate em 2×2. Naquele tempo, empatar com o Brasil merecia o apodo “heróico”. Hoje, até Venezuela ganha da gente sem que Hugo Chavez decrete feriado nacional.
Encerrada a transmissão, fomos todos tomar nosso fogo paulista (uma mistura de cachaça com groselha, verdadeira bomba, mas era o que o orçamento minguado permitia) em paz.

_________0-0-0-0-

Tempos de fogo paulista, pão com mortadela, calça velha azul e desbotada (porque só tinha uma). Não parecia, mas éramos felizes e só viríamos saber bem depois.

Waldomiro de Deus


DE ITAGIBÁ PARA O MUNDO
DO MUNDO PARA ITAGIBÁ

Há cerca de 50 anos, um menino saiu no interior do Nordeste, subiu num pau de arara com a família e foi buscar uma vida melhor em São Paulo. Passou fome e frio, lutou muito, venceu e hoje é conhecido mundialmente.
Apesar das incríveis semelhanças, não é quem o leitor certamente está pensando.
O menino em questão é Waldomiro de Deus, nascido em Itagibá, cidadezinha acolhedora encravada nas bordas da região cacaueira da Bahia, num tempo em que o cacau gerava riqueza, mas não a dividia, como acontece hoje e acontecerá para todo o sempre. Sua família perambulou por Ipiaú, Gandu e Prado, no sul-baiano, até decidir embarcar para São Paulo.
Considerado pela crítica um dos três maiores pintores primitivistas do Brasil ao lado de Djanira e José Antonio da Silva, ele acaba de fazer uma exposição com 54 obras no recém-inaugurado Museu Brasileiro de Escultura (Mube) em São Paulo. A exposição, calorosamente saudada pela crítica, comemora os 60 anos de vida e os 44 anos da arte de Waldomiro.
Uma arte descoberta de maneira quase inverossímel (tudo em Waldomiro parece inverossímel, a começar pela sua autêntica ingenuidade). Trabalhando como jardineiro, aproveitava as frias noites paulistanas para pintar em pedaços de papel. Como pintava na hora em que deveria estar dormindo e dormia na hora em que deveria estar trabalhando, foi mandado embora.
Sem alternativa, resolveu expor seus trabalhos no Viaduto do Chá, um dos símbolos da Capital Paulista, já naquela época o Eldorado de milhões de nordestinos. A mão do destino pintou a tela de sua vida.
O marquês italiano Terry Della Stuffa passou pelo local, se apaixonou por aquela pintura ingênua e adotou Waldomiro, que ganhou casa, comida e, melhor, tempo de sobra e material a vontade para exercer sua arte.
A partir daí, as mãos de Deus, o pintor, ganharam o mundo. Suas obras estão expostas em museus e galerias de arte e foram adquiridas por colecionadores da Europa, Estados Unidos, Japão, Oriente Médio. Os franceses, principalmente, se encantaram com o estilo que denominaram “naif” (ingênuo).
Um ingênuo, que ao participar do movimento tropicalista ao lado de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tom Zé, Gal Costa e Cia., escandalizou o Brasil conservador do final dos turbulentos anos 60 ao pintar Nossa Senhora Aparecida de minissaia, numa série de quadros que hoje se tornaram relíquias.
Um exílio artístico fez de Waldomiro cidadão do mundo. Morou na França, Itália, Alemanha e Israel, onde espalhou seus quadros e cravou seu nome como um dos grandes artistas brasileiros, adorado pelos críticos e pela nobreza européia.
De volta ao Brasil, fixou residência em Osasco, cidade industrial da Grande São Paulo. Sua casa, repleta de quadros e esculturas e com um quarto cheio de bonecas e com um caixão de defunto no lugar da cama, tornou-se ponto de referência para artistas, colecionadores, empresários, jornalistas, socialites e afins.
Naquela época, apesar de algumas obras contestadoras, Waldomiro ainda fazia o estilo lírico, mostrando o cotidiano das cidades e do meio rural. De uns dez anos para cá, já dividindo sua residência entre Osasco e Goiânia, passou para aquilo que pode ser definido como primitivismo temático. Os sem-terra, o desemprego, o atentado de 11 de setembro nos EUA, a guerra do Iraque são retratados em cores fortes, traços definidos.
Pinturas que falam. “Waldomiro tem uma sensibilidade muito grande, vê o mundo com alma de menino e sua obra é sempre atual. Ele está cada vez melhor”, diz a marchand carioca Ruth Almeida Prado, uma de suas maiores admiradoras. “É um artista em vários, um camaleão, que está sempre mudando, sem perder a essência primitivista”, completa o crítico Oscar D´Ambrósio, autor do livro “Os pincéis de Deus- Vida e obra do pintor naif Waldomiro de Deus”.
E é esse respeitável senhor com alma de menino que reencontramos durante as festas de São João em 2004, na Itagibá de uma infância que ele parece nunca ter perdido. Convidado pelo então prefeito Léo Quadros, passou cinco dias na cidade, acompanhado das esposa Lourdes de Deus (também pintora primitivista), mãe de seus seis filhos, que levam nomes exóticos com Amon Hebron, Edon Hesrom, Esdras Shalon, Rebeca…
Décadas depois de ter partido num pau de arara, voltou como uma espécie de “celebridade anônima”. Os moradores sabiam que aquele sujeito simpático, conversador, que saia distribuindo cartões para compradores absolutamente improváveis (suas obras variam entre R$ 6 mil e R$ 50 mil) ´era alguém`. Mas não sabiam exatamente quem. No Brasil onde santo de casa não faz milagres, a Bahia é o lugar onde nem Deus de casa faz. Apesar da fama internacional, o pintor simplesmente é ignorado pelos museus e galerias do Estado.
Visitou a casa onde nasceu, compareceu todas as noites à Praça do Forró (Itagibá é famosa pelo São João que promove), dançou meio sem jeito com Lourdes, se empanturrou com pamonha, canjica, bolo de tapioca, vatapá e sarapatel e, evangélico, passou longe dos licores de genipapo, jabuticaba, abacaxi, cacau e laranja, uma tentação maior do que a outra.
“Foi um mergulho na minha infância, nas minhas raízes. Minha obra é fruto das coisas simples que eu vi aqui, dessa gente que apesar da vida difícil está sempre com um sorriso aberto”. E dá-lhe distribuição de cartões, aperto de mão (era sempre Waldomiro quem tomava a iniciativa e não o contrário, tudo nele parece ilógico), fotografias…
Numa visita à zona rural, vira-se para Léo Quadros, cuja admiração pelo pintor só é inferior a seu sincero fervor evangélico, e pergunta:
-Seu minino, quanto é que a gente gasta pra comprar umas terrinhas aqui?
Lourdes apenas balbucia “Waldomiro, não vá me dizer que…”
O que espanta não é terminar essa história acalentando a possibilidade de que o menino retirante das terras do cacau se transforme no sessentão fazendeiro, uma saga que nem o grande Jorge Amado (fã de Waldomiro de Deus, registre-se) ousaria escrever, cravando uma tela surrealista no mais ingênuo dos nossos primitivistas.
O que espanta é que na vida e na obra de Waldomiro nada espanta.
O menino Waldomiro perambulando pelas ruas tranqüilas de Itagibá depois de escrever sua história com as mãos do destino, as mãos de Deus e as próprias mãos, é uma belíssima obra de arte.
Espantosamente ingênua, espantosamente genial.

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Texto publicado em junho de 2004 nos jornais Agora (BA) e Diário de Osasco (SP)

Daniel Thame
Daniel Thame, jornalista no Sul da Bahia, com experiência em radio, tevê, jornal, assessoria de imprensa e marketing político danielthame@gmail.com

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