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Por amor a Itabuna, façam diferente

Embora a propaganda gratuita no rádio e na televisão, considerada decisiva para alavancar ou sepultar candidaturas, só comece na segunda quinzena de agosto, a partir da próximo semana as campanhas eleitorais ganharão um novo impulso, com a permissão para a utilização de carros de som, pintura de muros, colocação de adesivos e manifestações de rua como caminhadas e carreatas.
Campanhas eleitorais em Itabuna, como até as pedras do cada vez mais poluído Rio Cachoeira sabem, sempre foram sinônimos de empolgação, com caminhadas que reúnem milhares de pessoas na avenida do Cinqüentenário e nos bairros, e de uma disputa ferrenha, que muitas vezes descamba para entreveros e, não raro, para as baixarias, com xingamentos e folhetos apócrifos de parte a parte.
Nas duas últimas décadas, com a política praticamente centrada em duas figuras, Geraldo Simões e Fernando Gomes, a disputa se tornou ainda mais acirrada. Alguns fernandistas e geraldistas não se contentavam apenas em serem adversários políticos, natural num regime democrático, mas se comportavam como inimigos.
Em épocas de campanha, o que era disputa eleitoral se transformava em guerra, com a utilização de todas as armas disponíveis.
Essa divisão acabava se refletindo na própria administração, como se o fato de alguém ter votado em Fernando ou Geraldo o transformasse numa espécie de “não cidadão”, a depender de quem ganhou e quem perdeu a eleição.
Condenável, mas parecia fazer parte do jogo. Uma regra não escrita, mas encarada com normalidade, como se campanha sem agressões de parte a parte, sem os folhetos apócrifos que tornam mãe de juiz de futebol uma santa de altar, não valesse ou não tivesse graça.
Agora, vive-se uma situação inédita em vinte anos.
Geraldo e Fernando não são candidatos e novos nomes estão colocados à disposição do eleitorado, como Juçara Feitosa, Capitão Fábio, Capitão Azevedo, José Adervan, Roberto Barbosa e Edson Dantas (os dois últimos ainda a depender de negociações que se estenderão até os 48 minutos do segundo tempo, à prorrogação ou possivelmente aos pênaltis).
Será, sem dúvidas, uma campanha menos apaixonante, visto que nenhum dos candidatos ainda desperta tanta fidelidade quanto a dispensada por uma parcela considerável do eleitorado a Geraldo e Fernando.
Mas será, também, uma excelente oportunidade para estabelecer uma campanha focada no debate, na discussão das propostas de governo, na conquista do voto sem recorrer a expedientes nada ortodoxos.
O mito de que o eleitor gosta de uma baixaria não passa disso mesmo: um mito!
Como todos os candidatos, embora conhecidos, são novidade para o eleitorado, seria de bom alvitre gastar tempo e energia mostrando quem tem o melhor projeto para uma cidade prestes a completar 100 anos, uma metrópole que por sua grandeza e importância dispensa métodos que não caem bem nem em disputas ferrenhas em localidades mulambentas que nem aparecem no mapa.
Pode parecer ingenuidade, excesso de purismo, coisa de quem acredita em papai noel, cegonha, saci pererê, mula sem cabeça e quetais.
O fato é que, apropriando-se do slogan de campanha de dois dos principais candidatos a prefeito, é o caso de sugerir:
-Por amor a Itabuna, façam diferente.

“Mataram meu filho!”

3;30 horas de uma madrugada chuvosa e fria em Itabuna. Os gritos de uma mãe desesperada ecoam pela rua, acordam os vizinhos e antecipam a manhã de dor e de tristeza.
Minutos antes, João Paulo Bulhões, de 23 anos, havia sido morto de forma estúpida no bairro do Pontalzinho, que há muito tempo perdeu o ar de tranqüilidade e se transformou num foco dessa violência insana que assola a cidade.
João estava na casa de amigos, numa comemoração tipicamente familiar, quando escutou um barulho estranho na rua. Ao sair na sacada do prédio, notou que se tratava de um assalto e, numa reação quase mecânica, tentou assustar os bandidos.
Mecânica também foi a reação de um dos assaltantes, posteriormente identificado como sendo o menor E.B;B. de apenas 17 anos. Ele simplesmente apontou a arma para a direção de onde vinha o pedido para deixar a vítima do assalto em paz e atirou.
Um único tiro. Fatal.
O projétil acertou o coração de João, que morreu na hora.
E só restou à mãe, gritar:
-Mataram meu filho! Mataram meu filho!
Mataram João.
Matam pedros, antonios, josés, marias, joanas, rosas…
Matam filhos, matam pais, matam amigos.
Matam gente que a gente nem conhece, numa carnificina que parece não ter fim. Numa explosão de violência e de sangue em que cada um de nós pode ser a próxima vítima.
Em Itabuna, apenas no final de semana, quatro pessoas foram assassinadas, sem contar os assaltos, arrombamentos, agressões, roubos de veículos.
É como se a cidade estivesse à mercê dos marginais, como se o policiamento inexistisse. E às vezes parece que inexiste mesmo, dada a facilidade com que os bandidos agem. De dia, de noite, em qualquer horário e em qualquer lugar.
O tiro que acertou o coração de João, interrompendo uma vida e enchendo de dor a vida de seus familiares e amigos, é um tiro no coração daqueles que já não podem desfrutar de um direito básico: o direito à segurança.
O direito de andar na rua, freqüentar um bar, entrar numa loja ou mesmo se reunir com os amigos.
O grito da mãe que perdeu o filho deve ser o grito de uma indignação que não pode ser sufocada pela resignação.
É hora de agir, mobilizar, exigir que as autoridades dêem um basta a tanta violência.
Porque, quando a vida vira uma loteria, é sinal de que a morte está ganhando o jogo.

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A polícia foi rápida ao identificar e prender o assassino de João.
Louvável, mas não seria o caso de atuar de maneira que assassinatos como o de João e de tantas outras vítimas inocentes fossem evitados?

Olhar infantil




Mais do que o adesivo no vestido ou os nomes no balão, a menina fotografada por Pedro Augusto na convenção do PT, chama a atenção pelo olhar.

Seus olhinhos infantis miram o futuro.

O desafio, de Juçara e de todos os candidatos que se propõem a administrar Itabuna no seu primeiro centenário é construir essa ponte que permita a tantos meninos e meninas superarem a barreira da exclusão social.

É fazer com que cidadania deixe de ser apenas uma palavra que nossas crianças aprendem na escola e não tem a mais vaga idéia do que seja isso, porque muito provavelmente nunca serão cidadãos.

Dona Senhora

Diariamente, milhares de pessoas passam por uma praça chamada Laura Conceição e nem se dão conta de que a praça tem esse nome. E, menos ainda, se dão conta de quem foi Laura Conceição.
Ainda que Laura Conceição fosse mais conhecida como Dona Senhora, nem assim a imensa maioria dos itabunenses há de se lembrar dela.
Pois, Laura da Conceição, ou melhor, Dona Senhora, é dona de uma biografia que deve ser resgatada. Não pode ser apenas um lapso na memória de uma cidade que não tem o hábito de preservar sua história.
Dona Senhora, mais do que uma personagem fascinante, é um exemplo que vem a calhar nestes tempos atuais, em que entre a ação e a lamentação, boa parte das pessoas prefere ficar com o choro, o ranger de dentes, o ressentimento.
Na distante década de 40 do século passado, Dona Senhora, que chegara a Itabuna quando o município, recém emancipado de Ilhéus, ainda engatinhava, trabalhou como bordadeira e logo se tornou uma pessoa bastante querida na sociedade; presenciou o desabamento da Igreja Matriz de São José, o Santo Padroeiro, então localizada na Praça Olinto Leoni.
Uma tragédia, num tempo em que o catolicismo era religião predominante e a igreja um ponto de convergência.
O que fez Dona Senhora, católica fervorosa?
Em vez de ficar se lamentando e/ou esperando uma providência divina, ela resolveu agir. E como agiu!
Aquela mulher de aparência frágil dedicou-se à missão de construir uma nova Matriz. E fez disso, durante muito tempo, sua razão de viver.
Dona Senhora, mulher de fibra, mobilizou a cidade em torno desse objetivo. Para conseguir os recursos necessários, recebia desde sacos de cacau oferecidos pelos fazendeiros e doações de comerciantes (muitas delas obtidas após insistentes plantões na porta das lojas) a quantias irrisórias doadas por humildes operários e trabalhadores rurais.
A luta de Dona Senhora foi o tijolo e o cimento que levantaram a Igreja Matriz. Mas uma igreja não é feita apenas de tijolo e de cimento.
É feita daquela algo mais, do transcendental, daquilo que podemos definir como fé.
Dona Senhora tinha uma fé inabalável, não apenas em Deus, mas de que era possível unir esforços em torno de um projeto coletivo. A Igreja Matriz, hoje transformada em Catedral de São José, é um exemplo vivo dessa espécie de “fé de resultados”, de que líderes são necessários, mas ninguém se faz sozinho.
O exemplo de Dona Senhora é uma condenação ao individualismo, que tantos males tem nos causado nas últimas décadas, fruto de um lugar comum equivocado que se tornou uma quase-regra: o de que cada um se basta e ninguém precisa de ninguém.
Precisa sim. E aí está Dona Senhora para mostrar às novas gerações que o sonho de um, só se torna realidade se for o sonho de todos. E se houver o trabalho de todos.
Em tempo: Laura Conceição, a Dona Senhora, dá nome à praça em frente à Catedral de São José.
Talvez mais importante do que saber o nome da praça e o porquê desse nome, seria resgatar também esse espírito guerreiro e empreendedor, tão necessário numa cidade que, metaforicamente, busca sua reconstrução.

-o-o-o-o-

Esse texto só foi possível graças às informações e à gentileza do historiador Adelindo Kfoury. Se não está à altura da homenagem que se quer prestar à Dona Senhora, isso se deve mais à falta de atributos de quem o escreveu, do que da inestimável deferência desse mestre que é Kfoury.

São Omo

Diante da qualidade (?) de algumas bandas que se apresentam durante os festejos juninos em cidades do Sul da Bahia e os cachês que elas recebem (pelo menos os valores que constam nos contratos) é de se conjecturar que o São João não é apenas o principal festejo nordestino.
É também uma bela maneira de lavar dinheiro.
Em ano eleitoral, então, o Arraiá da Lavanderia funciona que é uma beleza.

pac do cacau e dívidas

Dirigentes da Secretaria de Agricultura da Bahia, Ceplac, Desenbahia, Banco do Brasil e Banco do Nordeste se reuniram hoje (18) para definir normas da renegociação das dívidas dos produtores de cacau junto à instituições financeiras. A renegociação das dívidas, que envolve cerca de 8 mil contratos de financiamento, faz parte do PAC do Cacau.
“A partir dessa renegociação será possível iniciar a liberação de novos créditos, fundamentais para a retomada da produção de cacau e a implantação de projetos de diversificação e a agroindústria”, afirmou o diretor geral da Seagri, Itazil Benício dos Santos, que participou da reunião, realizada na sede regional da Ceplac.

Em tempo: a questão do valor do desconto sobre o total da dívida ainda vai render. A chiadeira

entre os grandes produtores, que terão descontos menores, é grande.

Eles são minoria, mas fazem um barulho danado.

Farinha e Pirão

“Farinha pouca, meu pirão primeiro”, diz o adágio popular, verdadeira elegia ao individualismo, ao ´cada um por si´.
Pois na zona rural de Buerarema, agricultores familiares stão subvertendo o ditado e mostrando que, unidos, podem gerar emprego e renda.
A recém-inaugurada Fábrica de Farinha reúne trinta cooperados e vai produzir 30 toneladas/mês, com renda de um salário mínimo mensal para cada um.
A renda pode aumentar, com a certificação do produto, já que a farinha de Buerarema é considerada uma das melhores do Brasil.
Farinha pouca pode virar farinha muita.
E o pirão pode dar pra todo mundo.

Quando a saúde vira caso de polícia

Desesperado porque não conseguia atendimento para seu filho numa unidade de saúde pública, o pai deixou o garoto com um vigia do posto e se dirigiu a uma delegacia de polícia, onde registrou queixa por negligência e omissão de socorro.
A medida, extrema e inusitada, garantiu o atendimento ao menor.
O fato aconteceu em Salvador, mas poderia perfeitamente ter acontecido em Itabuna, onde a despeito de gastos astronômicos com propaganda, a saúde pública vive uma situação caótica, que por desnecessário, há muito deixou de receber o apodo “está na UTI”.
Melhor dizer que está em fase terminal, moribunda, menos pela falta de recursos, já que o setor recebe cerca de 130 milhões de reais por ano de repasses federais e estaduais, e mais por absoluta incapacidade de gestão, para dizer o mínimo.
O Hospital de Base, que por uma imensa ironia é a principal obra e ao mesmo tempo o principal fracasso administrativo das quatro gestões do atual prefeito, é um exemplo pronto e acabado dessa situação que penaliza, principalmente, a população mais carente, que não tem acesso a um plano de saúde.
No HdB, falta tudo, de remédios básicos a médicos. Chegou-se a um ponto em que familiares dos pacientes são obrigados a levar lençóis, toalhas e alimentação. Estagiários de Medicina e Enfermagem se dizem abismados com a falta de estrutura e não raro observam que, antes de receitar um remédio aos internados, médicos procuram saber o que está disponível no estoque.
Uma enfermeira está sendo processada porque, no afã de ajudar um paciente manipulou um remédio e o doente veio a falecer. Como se a culpa fosse dela e não de quem dirige (?) o hospital. O Pronto Socorro tornou-se um “teatro de horrores”, com pacientes deitados no chão e uma espera interminável pelo atendimento.
A situação não é diferente nas unidades de saúde, onde também faltam remédios e médicos. O nome pomposo, Unidade de Saúde da Família, é quase uma afronta às pessoas que procuram atendimento e não conseguem receber nem medicamentos básicos.
Centros de referência como o Creadh, o Cepron e o Brasil Sorridente minguaram e a Farmácia Popular só não foi pelo mesmo caminho porque, providencialmente, o Governo Federal manteve o controle de gestão através de um convênio com a Fundação Oswaldo Cruz.
Há exatos quatro anos, a saúde pública foi a pedra de toque da campanha eleitoral em Itabuna, quando no afã de obter votos, prometeu-se o impossível, como o inacreditável atendimento no Hospital de Base em quatro minutos, promessa devidamente registrada para a posteridade.
Descartado o impossível, por impossível que é, deixou-se de fazer ao menos o possível, gerando o caos que está aí.
Saúde pública, que isso fique bem claro (porque uma nova campanha se inicia) não é moeda eleitoreira, é um direito do cidadão.
Quando se torna caso de polícia, o jeito é recorrer ao delegado.
Se o exemplo de Salvador for seguido, haja polícia para tanta demanda.

Uma imprensa democrática?

Uma rádio comunitária recebe a ameaça de fechamento por veicular notícias que contrariam os interesses de um deputado. Em meio a discussões sobre a liberdade de imprensa e acesso à informação, o assunto é colocado em votação. A sociedade, ciente de que a comunicação ocupa o cerne dos conflitos entre os interesses dos poderes dominantes e das comunidades, decide pela permanência da rádio no ar. Essa foi a história contada na segunda plenária da 1ª Conferência de Comunicação Social da Bahia, aberta na manhã de domingo (8) na Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc).
O drama da rádio em questão foi encenado pelo grupo teatral 1º de Maio, de Salvador, que abordou de forma divertida a necessidade de reformulação das políticas públicas de comunicação. A peça mostrou ainda que a comunicação deve ser vista como um direito do cidadão, e não como um objeto de manipulação de poucos que querem controlar o que deve ou não ser divulgado. “Comunicação é um tema público, e não privado. Diz respeito à identidade de um povo, logo tem que estar aberta à discussão para toda a sociedade. E esse é justamente o objetivo da conferência: tratar a comunicação como política pública”, destacou o Assessor Geral de comunicação do estado, Robinson Almeida.
O secretário de Agricultura, Geraldo Simões, lembrou a experiência das cinco rádios educativas, instaladas em escolas da rede municipal de ensino, durante sua gestão como prefeito. “As rádios ofereciam entretenimento e orientação a população sobre noções de saúde, além de incentivar a presença dos alunos em sala de aula através da mobilização da família”, disse Simões, destacando que “a democratização dos meios de comunicação e a transparência nas relações com a sociedade contribuem para a implantação de um modelo de gestão participativo”.
PARTICIPAÇÃO DE ESTUDANTES
Outros temas pertinentes, como a diferença entre a opinião publicada e a opinião pública, além de mitos como a célebre frase de que “uma mentira contada dez vezes torna-se verdade”, foram discutidos pelas cerca de 245 pessoas que se inscreveram para a plenária em Ilhéus, entre profissionais da área, estudantes e representantes de segmentos da sociedade civil. A Bahia é o primeiro estado do país a realizar uma conferência com esse tema.
Os alunos de comunicação da Uesc (habilitação para Rádio e Tevê) tiveram participação expressiva, como o jovem Tássio Brito, também coordenador geral do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da universidade. “A comunicação não pode ser algo que fique nas mãos de pequenas minorias. Deve haver democratização do acesso e da disponibilidade do conteúdo, cujo conhecimento é direito de todos”, falou ele. Sua colega Égila da Silva Passos concorda com ele e espera que as discussões promovidas no evento sejam colocadas em prática. “Uma comunicação eficiente depende da atitude
de todos nós.

Na mesa de abertura da conferência, os discursos de representantes da sociedade deixaram claro que a população deve entender que o governo e a imprensa privada, quando prestam informações, não estão fazendo um favor, e sim atendendo a um direito que o cidadão tem de receber essas informações. E o público também deve ter em mente que comunicação não significa apenas acessar orkut e MSN, muito menos digerir sem senso crítico o que é veiculado no telejornal de maior audiência ou no periódico de maior circulação.
“Hoje, a comunicação ultrapassou os limites da profissionalização, pois todo mundo comunica e produz informação, principalmente com o advento das novas mídias. A comunicação é inerente ao ser humano e é muito importante que esta discussão passe por todos os segmentos da sociedade”, afirmou Rosely Arantes, representante da Central Única dos Trabalhadores (CUT-BA) no evento. Após a abertura no auditório, os participantes da plenária passaram discutiram os quatro eixos temáticos colocados em pauta: cidadania e novas tecnologias de informação; políticas públicas de comunicação; comunicação e educação e comunicação e desenvolvimento territorial.

Cachimbo da Paz

Como bom articulador que é, está mais do que na hora do governador Jaques Wagner colocar ordem na tribo petista.
As disputas internas, a guerra de egos e a troca de sopapos na disputa por espaços políticos podem comprometer um governo que tem tudo para dar certo e que não deve ser abatido pelo chamado “fogo amigo”.
Amigo?

A vida como ela é

No livro “Stalin”, uma alentada biografia de dois volumes sobre o ditador russo Josef Stalin, o escritor Dmitri Volkogonov mostra como, a despeito de viver sob um regime sanguinário que torturava e matava inimigos reais e imaginários e impunha privações terríveis, o povo não reagia e, ao contrário, achava que a vida estava melhor.
Sufocados pelo terror e manipulados por uma irresistível máquina de propaganda, os russos, num misto de medo e ilusão, demoraram décadas para descobrir o tirano que se escondia por trás da máscara do “ Líder Genial dos Povos”, entre outros epitetos que elevaram o culto à personalidade a níveis insuperáveis.
Até hoje, com o regime comunista reduzido a pó, ainda há os que sentem saudades dos ´bons tempos` do camarada Stalin.
Guardadas as devidas e necessárias proporções, é mais ou menos o que está ocorrendo na Bahia.
Durante duas décadas, o Estado viveu sob o comando de um grupo político, o carlismo, que combinou perseguição aos adversários, concessão de beneficios a uma pequena casta e propaganda maciça aliada ao controle total dos veículos de comunicação, o que significava a glorificação do grande líder e a exaltação de sua obra, transformando a Bahia numa pretensa ilha de prosperidade e bem estar social.
Na prática, ocorria justamente o contrário. O estado ostentava índices de saúde, educação, desemprego, violência e exclusão similares a de miseráveis países africanos. Os eventuais avanços econômicos -e seria injusto negá-los- se limitavam à Região Metropolitana e a um ou outro polo isolado.
O povo ficava com as migalhas mas ainda assim tendia a achar que a vida era boa.
Em 2006, na esteira da popularidade do presidente Lula, respaldada por uma representativa e até então inédita união de partidos progressistas, Jaques Wagner elegeu-se governador da Bahia já no primeiro turno, impondo ao carlismo a maior de todas as suas derrotas
Não houve apenas uma mudança de governo, mas de paradigma.
A transparência, até então inexistente, passou a ser realidade e a sociedade organizada passou a ter voz e vez na definição de políticas públicas, através da realização de fóruns regionais com expressiva participação popular.
A centralização, que tantos males causou ao Interior, está sendo substituída pela criação de pólos regionais de desenvolvimento, aproveitando-se as potencialidades de cada região.
No Sul da Bahia, por exemplo, o PAC do Cacau, que terá recursos de R$ 2,5 bilhões, além de equacionar as dívidas dos produtores rurais e possibilitar a obtenção de novos créditos, vai investir na retomada da produção de cacau de alto rendimento e resistente a doenças, em programas de diversificação como seringueira, pupunha, dendê, etc; e na agroindústria, fazendo com que a região deixe de ser apenas produtora de matéria prima.
Além disso, estão sendo implantadas obras importantes como o Porto Sul e o Gasoduto da Petrobrás, que darão um novo impulso à economia regional, após décadas de abandono.
A parceria Governo Federal/Governo da Bahia deixou de ser apenas retórica e aí está o Plano de Aceleração do Crescimento, com ações em todo o Estado.
Fiel a seu estilo, Wagner não é de prometer o que não pode cumprir nem vender o que não pode entregar. Não é dado -e isso é uma outra marca saudável de seu governo- a pirotecnias que a curto prazo podem até render dividendos eleitorais, mas que não passam de embuste.
Os avanços de sua administração são visíveis e expressivos, ainda que não haja mágica que conserte em pouco mais de um ano, distorções sedimentadas em duas décadas. É um longo caminho, que está sendo percorrido a passos seguros e decididos.
Os arautos do caos, curiosamente os mesmos que funcionaram como operadores de um sistema perverso e excludente, estão com as garras afiadas, aproveitando-se das armas disponíveis para tentar desqualificar Wagner e seu governo.
Faz parte do jogo, admita-se, e o papel da oposição é esse mesmo.
Mas a História, e outra vez recorramos à Stalin, mostra que por linhas tortas ou retas, a verdade sempre aparece, assim como os pés de barro de deuses que se julgavam eternos e dos seguidores que tentam perpetuar seus métodos de ação.

Um Lula, vários Lulas (*)

Num dia qualquer do ano de 1952 um menino chamado Luiz Inácio da Silva saiu do sertão de Pernambuco em companhia da mãe e dos irmãos. Subiu num pau de arara para tentar a vida no Eldorado Paulista. Na `sunpólo´ de milhões de nordestinos.
Luiz Inácio estudou a duras penas, fez um curso no Senai, virou líder metalúrgico, fundou um partido de trabalhadores e…
Bem, essa é a história do Lula que todo mundo já sabe.
O que vai se contar aqui é a história do Luiz Inácio da Silva, também apelidado de Lula, filho de dona Maria de Jesus e de seu Dionísio Inácio da Silva. Nascido em 30 de março de 1964. Bem no dia em que eclodiu o golpe militar. Aquele que mergulhou o país nas trevas, matou, prendeu, censurou.
E que, por linhas tortas, deu origem ao gene do Lula famoso, que se notabilzou por combater a ditadura e abrir caminho para a volta da democracia.
O Lula de dona Maria e seu Dionísio nasceu em Ipirá, no sertão baiano. Só estudou até o segundo ano primário. Desde cedo, começou a trabalhar na roça, a conviver com o drama da seca, embora por ironia more num povoado chamado Caixa Dágua. “Moço, sabe o que é ficar um ano sem ver chuva?. A gente planta o milho, o feijão. Aí vinha a seca e acabava com tudo”.
Luiz Inácio da Silva casou-se com Miranice, também da Silva, e teve quatro filhos, Jailton 14 anos, Juliana 12, Rodrigo 11 e Diego 6. “A gente vê os meninos crescerem na maior dificuldade, mas nunca perde a esperança de que eles vão ter um futuro melhor”.

Um futuro que parecia não vir nunca na Ipirá onde o Lula baiano nasceu e cresceu. “Esse ano a seca foi demais moço. Arrasou tudo. Eu tirava 15 reais por semana capinando roça, mas nem isso tava conseguindo. A fome batendo, a gente olha pra mulher e os filhos e dá um aperto no coração”.
Caminhando em busca de trabalho, o sol a pino ardendo na cabeça, Luiz Inácio da Silva decidiu vir para Itabuna. Sem ter a mais vaga idéia de como era a cidade, sem conhecer ninguém. “Ouvia falar do cacau, que aqui era um lugar muito rico, com dinheiro para todo mundo”.
Lula juntou o dinheirinho da viagem de ônibus. Antes reservou R$ 9,00 (nove reais!) e fez uma feirazinha para mulher e os filhos. “Lembro bem. Um quilo de açucar, um quilo de feijão, dois litros de farinha, um pacote de café, um pedacinho de jabá”.
Após nove horas de viagem, desembarcou em Itabuna. Com uma esperança do tamanho do mundo e exatos R$ 2,50 no bolso. “Achava que era chegar aqui e arrumar emprego, alugar uma casinha e trazer a mulher e os filhos pra morar comigo”.
Não se sabe o que acabou primeiro, o dinheiro ou a esperança. Na Itabuna real, não havia emprego nem dinheiro nascendo em árvores. Luiz Inácio descobriu isso desde que deixou a rodoviária, percorreu a pé a avenida Inácio Tosta Filho e chegou à praça José Bastos. “Que cidade grande, muito verde, muita água. A gente até se assusta. Mas logo percebi que não conseguiria nada aqui”.
Foram nove dias sobrevivendo com a ajuda de pessoas que se emocionavam com seu infortúnio. Nove noites dormindo nos bancos na Estação Rodoviária. “Dormindo sentado, moço, que não deixam a gente se deitar”.
Na quinta-feira, 30 de outubro, naquele que seria seu derradeiro dia no inexistente Eldorado Grapiuna, Lula almoçou de verdade pela primeira vez. Depois, enrolou um pedaço de frango assado num papel alumínio e colocou no bolso.
A frase que segue aqui soaria num exagero, não fosse dita com a sinceridade típica do sertanejo. “Moço, isso é pra dividir com a mulher e os meninos”.

(Atenção Presidente Lula: o parágrafo acima não é uma invenção de jornalista para dramatizar o texto. É um cruel retrato de milhões de brasileiros, xarás seus ou não).

Por volta da meia noite do mesmo dia 30, com passagem fornecida pela prefeitura e uma pequena quantia em dinheiro obtida através de doações , Luiz Inácio embarcou de volta para seu povoado de Caixa Dágua, na distante Ipirá. “Lá eu passo necessidade, mas estou perto da família. Aqui eu iria virar um mendigo”.
Sobre o seu xará famoso, Luiz Inácio é só admiração, numa quase veneração ao retirante que foi mais longe, infinitamente mais longe, do que ele:
-Sempre votei no Lula. Ele perdia, mas eu acreditava que um dia ele iria ganhar para melhorar a vida da gente. E ele vai fazer isso, ajudar os pobres. Tem o Fome Zero, que eu ainda não recebo, mas com fé em Deus vou receber, pra colocar comida em casa.
Na improvável hipótese de encontrar o presidente, garante que não pediria nada:
-Pedir o que, moço! Eu ia era dar um abraço bem forte nele e dizer que dou valor pra gente teimosa, que não desanima. Que eu tenho orgulho de ser nordestino como ele.
O ônibus da Aguia Branca arranca na noite sem estrelas, rasgando a BR 101, deixando a imensidão de verde e de água e encarando a poeira do sertão seco e miserável.
Na poltrona 26, agarrado aos poucos pertences e ao seu pedacinho de frango frito, Luiz Inácio Silva, cidadão de Ipirá, dorme.
Talvez sonhe com um outro Luiz Inácio da Silva, cidadão do mundo. Aquele que pode lhe garantir um cartão do Fome Zero.
Ou, o que é mais provável, sonhe acordado com a hora em que irá abraçar a mulher e os filhos.
Na imensidão do nada em que o sol transforma seu povoado e sua vida, Lula vai se lembrar de Itabuna como uma espécie de Terra Prometida às avessas. Ou de uma promessa apenas adiada. “Um dia talvez eu volte e volte pra ficar. Pode escrever aí, moço, que eu não sou homem de me entregar fácil”.

(Atenção, de novo, presidente Lula. Esse Luiz Inácio aí poderia ser você. Ou melhor, pela ordem natural das coisas, você poderia ser esse Luiz Inácio. Quis o destino que você fosse o escolhido. Para mudar o destino de Luiz Inácio, sua mulher, seus quatro filhos e dessa gente que apesar de tudo não perde a capacidade de sorrir.)
O sorriso do nosso Lula do povoado de Caixa Dágua certamente é a mais perfeita tradução da palavra esperança.

——–
Texto publicado no Diario do Sul- novembro/2004

Daniel Thame
Daniel Thame, jornalista no Sul da Bahia, com experiência em radio, tevê, jornal, assessoria de imprensa e marketing político danielthame@gmail.com

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