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Exame de "Prostógenes"

Paulo Lima, coroné do cacau

Lençóis, 1998. Encontro Estadual de Jornalistas. Apesar do nome pomposo, o evento já conhecera tempos melhores e praticamente havia se transformado num convescote. As discussões se limitavam ao nhem nhem nhem de sempre: exigência do diploma, surgimento de novos cursos de comunicação nas faculdades e valorização profissional.
Na verdade, essa baboseira toda só valia a pena pela oportunidade de rever amigos do Extremo Sul, de Jequié, de Vitória da Conquista e Feira de Santana, tudo regado a hectolitros de cerveja.
No encontro em questão, Itabuna estava representada por Ederivaldo Benedito, Joselito Reis,José Carlos Bombinha. Juarez Vicente, Paulo Lima e este escriba.
Devidamente hospedados no Portal Lençóis, hotel com uma vista maravilhosa da Chapada Diamantina, constatamos que Paulo Lima havia viajado sem um puto no bolso. Lisinho, lisinho.
Até ai, nada demais. O hotel era por conta do Sindicato dos Jornalistas com direito a café da manhã, almoço e jantar e a bebida estava garantida pelos inúmeros regabofes oferecidos pelas autoridades locais, ávidas pra fazer média com a imprensa.
Bastava apenas evitar que Paulo Lima fizesse as chamadas “despesas extras”. Em comum acordo, foi decidido que eu avisaria a portaria do hotel que com aquele cliente nada de despesas para pagar no check-out, popularmente conhecido como fechar a conta saída do hotel. Chato, mas melhor do que ter que passar a sacolinha no final do evento.
Por volta das 19 horas, enquanto aguardava a abertura do seminário, fui ao bar do hotel, ser apresentado a uma legítima cachacinha da Chapada.
Eis que, me deparo com Paulo Lima, num impecável terno azul marinho, sentado numa das mesas com duas senhoras que, pelas roupas e pelas jóias, eram o que se pode chamar de cheias da grana. Sinal amarelo. Perigo, perigo, perigo…
Discretamente, sentei no balcão do bar, nem tão perto que incomodasse, nem tão longe que me impedisse de ouvir aquele bolodório.
Paulo Lima estava inspiradíssimo. Dizia que tinha várias fazendas de cacau no Sul da Bahia (incrível como, com a vassoura-de-bruxa devastando as roças e transformando ricaços em pobretões, alguém ainda aplicava o conto do fazendeiro de cacau!), que possuía iate em Ilhéus, apartamentos no Rio, São Paulo e Salvador. E ainda se gabava de suas viagens à Europa e aos Estados Unidos, com a freqüência com que nós, pobres mortais, vamos ao boteco da esquina.
As diletas senhoras pareciam estar adorando a conversa e eu até achava graça daquela situação. Mas a história não acabaria ali. Enquanto eu sorvia meu terceiro copo de cachaça (bem abaixo da minha média, reconheço), aconteceu. Sinal vermelho!
Quando as mulheres pediram a conta de um jantar pra lá de fornido e o garçom apresentou a fatura, Paulo Lima se antecipou e perpetrou:
-Mesa em que Paulo Lima senta, mulher não paga a conta. Deixa que eu assino essa nota…
Não sei se foi meu olhar de desespero, se foi a engasgada que eu dei com a cachaça ou se duas senhoras sabiam que a tal riqueza dos coronéis do cacau já eram lendas reduzidas aos livros de Jorge Amado.
O fato é que elas gentilmente tomaram a nota das mãos Paulo Lima, sacaram um humilhante cartão American Express e a conta foi devidamente paga. Por elas, ufa!
Resumo da ópera: o nosso prejuízo se limitou aos dois uísques que Paulo Lima bebeu enquanto representava o papel de milionário com a galhardia que lhe é peculiar.
Pensando bem, até que foi lucro.
Se as duas damas, na verdade turistas de São Paulo em tour pela Bahia, não fossem tão distintas, era bem capaz da gente jogar o Paulo Lima lá do alto do Morro do Pai Inácio.
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PS- Essa história, confirmada aos risos pelo protagonista, só está sendo publicada com a devida autorização de Paulo Lima, seguramente uma das mais fantásticas figuras humanas desse chão grapiuna.

Fique Ligado

Meados da década de 90, jornal A Região.
Como que surgido do nada, o médico Roland Lavigne, dono de um hospital em Una, se transformara num fenômeno eleitoral. Deputado estadual, deputado federal, com grandes chances de dar o grande salto adiante (como diria o camarada Mao), elegendo-se prefeito de Ilhéus.
Aqui e acolá, pululavam denuncias de que Roland usava métodos nada ortodoxos para encher seu balaio de votos, entre eles a esterilização em massa de mulheres, as famosas ligaduras de trompas. Além da esterilização de índias (o que tempos depois se transformaria num escândalo de repercussão internacional), o ´público-alvo´ era composto de mulheres carentes das periferias de Ilhéus e Itabuna.
Em sendo assim, lá fomos eu o fotógrafo Sabino Primitivo (a quem a cidade deve o merecido reconhecimento, ainda que póstumo) para o bairro da Bananeira, onde o que não faltava e nem falta até hoje é mulher carente.
Sabino, que era ranheta na mesma proporção que era talentoso, e que não escondia a má vontade quando a gente fazia incursões pela periferia, repetia a mesma ladainha:
-Vamos perder tempo! Você acha que alguma mulher vai dizer pra gente que fez ligadura de trompa? E ainda por cima tirar fotografia?
O que Sabino não sabia é que, como dizia o velho Tim Maia (que a essa hora deve estar queimando unzinho em algum lugar chamado eternidade) é que eu tinha uma estratégia.
Em vez de falar que era repórter de jornal, cometi mais um dos meus inúmeros pecadilhos em busca da notícia. Cheguei ao bairro e disse que eu e Sabino éramos funcionários do Dr. Roland e estávamos lá para saber se as mulheres estavam satisfeitas com a cirurgia e se precisavam de alguma coisa.
Bingo!
Com num passe de mágica, foram surgindo mulheres e mais mulheres que haviam feito ligaduras. Com foto, nome, endereço e depoimentos devidamente gravados. Enfim, uma reportagem que valia o risco de se embrenhar pela Bananeira, ainda mais dizendo que a gente era o que não era.
Mesmo com Sabino reclamando que estava bom demais, que a gente deveria ir embora dali, achei que faltava alguma coisa. Foto das mulheres a gente tinha, depoimentos a gente tinha, mas faltava a ligação (ops) inquestionável disso tudo com Roland.
Como o destino costuma dar uma mãozinha até aos trapaceiros, eis que fomos levados a um casebre, onde uma mulher, ainda se convalescendo da cirurgia, queria agradecer ao dr. Roland.
Lá estou eu conversando com a mulher, que nada acrescentava ao material já coletado, quando me deparo com um cartão com a foto de Roland e sua indefectível frase “Saúde é vida”, colado no espelho de uma penteadeira que já conhecera dias melhores.
Era a cereja do bolo e ela seria devidamente degustada:
-Moça, o dr. Roland vai ficar muito feliz se a senhora tirar uma foto segurando o cartãozinho dele…
Sabino podia ser ranheta, mas não era burro e tinha larga quilometragem nesse negócio de reportagem. E fez a foto no enquadramento perfeito.
A foto da mulher deitada na cama, exibindo toda sorridente o cartão com a foto do médico igualmente sorridente, ganhou a capa do jornal e a reportagem gerou (ops, de novo!) uma série de filhotes nas edições seguintes do jornal até que…
Bem, essa é outra história.
Que talvez um dia eu conte.
Ou talvez eu não conte.

CONTIGO ESTAREI

Há mais um menos uma década, Itabuna ganhou repercussão nacional e internacional com o casamento de Ferreirinha, beirando os 70 anos, com a adolescente Yolanda, em seus tenros 14 aninhos.
Ferreirinha posava de garanhão grapiúna e dava entrevistas para Deus e o mundo, mas Yolanda não abria a boca.
Fotografias posadas ao lado de Ferreirinha, tipo casal feliz, então, nem pensar.
Como colocar Ferreirinha no jornal era assunto velho, eu e Manoel Leal decidimos que Yolanda faria a foto do casal, mesmo tendo que chutar a canela da ética. E lá fomos nós para a casa do velho garanhão.
Ferreirinha nos recebeu de braços e portas abertas, mas foi logo cortando qualquer esperança. Yolanda não falaria nem tiraria fotos.
Foi aí que veio a luz.
Virei pra Manuel Leal e falei: “vamos dizer que a reportagem é pra revista Contigo”.
A Contigo era uma espécie de Caras da época. Meu sotaque de paulista abriu as ´porrrrrrrrrrrrrrtas´ e, como era pra Contigo, Yolanda tirou fotos que davam para encher uma edição da revista e ainda falou de sua relação (ops!) com Ferreirinha.
A proeza, primeira foto e entrevista do casal juntos, fez com que exemplares de A Região pousassem no SBT e despertasse a atenção do programa Jô Onze e Meia, um sucesso monumental de audiência na emissora de Silvio Santos.
Ferreirinha deu uma entrevista impagável a Jô Soares, onde revelou suas proezas de conquistador, atribuiu sua potência sexual ao suco de cacau (na verdade, quem pediu pare ele dizer isso foi Manuel Leal) e levou a platéia que acompanhava a gravação ao delírio ao revelar que havia noites em que Yolanda, exausta, era quem pedia para ele parar…
Exausta Yolanda deve ter ficado mesmo foi de tanto esperar a tal reportagem na Contigo, com direito a foto de capa, já que se é pra prometer o impossível, a gente promete o impossível e mais um pouco.

Daniel, que Daniel?


Do site de humor KibeLoco ao respeitado jornal Folha de São Paulo, passando por sites e blogs de todo o Brasil, o Diário do Sul foi destaque ontem.
Os 15 minutos de fama não foram fruto de um furo jornalístico, daqueles com que toda a imprensa nanica sonha para, ainda que momentaneamente, romper a intransponível barreira que a separa da grande mídia.
Por um desses descuidos inacreditáveis em sua edição de quarta-feira, ao noticiar a prisão do banqueiro Daniel Dantas, o jornal tascou a foto do ator Daniel Dantas.
A explicação para a trombada é simples: o diagramador do jornal, ao capturar na internet uma foto do Daniel Dantas banqueiro nem se deu conta de que existe o ator homônimo, certamente por não ser dado a preocupações com economia e com o mundo das novelas.
O editor do jornal, na clássica pressa de mandar as páginas para impressão, e muito provavelmente enfastiado de ter que agüentar um outro Daniel cometendo suas aleivosias diariamente neste espaço, deixou passar batido.
O que é um Daniel, outro Daniel e mais outro Daniel quando se tem que colocar o jornal nas bancas no dia seguinte e a edição não se resume ao banqueiro, ao ator e muito menos ao jornalista, que agora quer por que quer entrar nessa história, em busca de, ao menos, alguns milésimos de segundo de fama.
A explicação pode ser simples, mas a repercussão daquilo que nos tempos de antanho a gente chamava de barrigada, foi monumental.
Com Daniel Dantas, o banqueiro, pipocando nas manchetes do mundo todo e Daniel Dantas, o ator, fazendo um papel que não era dele nas páginas do Diário do Sul, a reprodução da página do jornal foi parar nos sites baianos, dali para os sites nacionais, incluindo os de humor, até pousar na Folha de São Paulo, na companhia de publicações do calibre do New York Times, The Washington Post, Financial Times, The Wall Street Jornal, China Daily, O Globo, O Estado de São Paulo e outros menos votados. Ou menos lidos.
Ô glória inglória!
De mais a mais, o pecadilho tem lá sua justificativa, meia chocha, mas tem.
Daniel Dantas, como todos sabem (menos o nosso diagramador) é um banqueiro inescrupuloso, daqueles que se não vendem mãe, botam até a irmã como `laranja`.
E Daniel Dantas, o ator, na novela Ciranda de Pedra, da Rede Globo, interpreta um empresário inescrupuloso, que corrompe políticos e prende a mulher com corrente e cadeado.
Com um pouco de boa vontade (pensando bem, com uma dose cavalar da boa vontade!) faz até sentido.
Quando essa barafunda toda passar, terá ficado apenas uma situação prosaica, engraçada, daquelas que estarão em qualquer compêndio que se faça sobre a imprensa grapiuna.
Nada que afete o aquecimento global, segure a inflação ou que faça alguns de nossos políticos e empresários se tornarem sujeitos honestos, porque este jornal pode até, involuntariamente, fazer graça.
Mas não faz milagres.

Daniel Dantas,
ops, Thame

Algemas de Ouro

O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal de Justiça, condenou a maneira espetaculosa com que foram feitas as prisões do banqueiro Daniel Dantas, do investidor Naji Nahas e do ex-prefeito de São Paulo Celso Pita.
Por “espetaculosa”, o ministro quis dizer que a operação da Polícia Federal foi midiática, buscando apenas os holofotes. Condenou a colocação de algemas nos detidos e não é de todo equivocado supor que considere as prisões desnecessárias.
Não é a primeira vez que uma autoridade de peso se volta contra o ´modus operandi´ da Polícia Federal, especialmente quando as operações envolvem gente graúda do mundo político ou empresarial.
A crítica é sempre contra a tal “espetacularização” das prisões, como se o fato da pessoa ser importante/rica/poderosa/influente lhe concedesse algum tipo de privilégio. Já não bastam os inúmeros outros privilégios de que essas pessoas desfrutam?
O mais incrível é que essa indignação parece se restringir apenas aos figurões. Não podem ser abordados, não podem ser filmados nem fotografados. Algemados, então, é um verdadeiro sacrilégio.
E quanto aos mortais comuns?
Para esses, a lei, mesmo que ela impute verdadeiros absurdos.
No domingo passado, o programa Fantástico, da Rede Globo, mostrou um caso que beira o ridículo, embora rigorosamente dentro da lei. Um senhor com cerca de 70 anos, está preso juntamente com marginais de alta periculosidade, pelo fato de manter umas vaquinhas pastando na beira de uma rodovia.
A Justiça entendeu que as vaquinhas ofereciam risco de acidentes (e ofereciam mesmo) e depois de seguidas advertências, o dono dos animais foi parar na cadeia. E de lá não saiu até agora, por não dispor de um bom advogado.
E -porque não dizer- por não despertar a indignação de nenhum ministro, não contra a “espetacularização” da prisão do criador de vacas, mas da indecência de manter preso um sujeito que cometeu uma infração que é coisa de monge franciscano perto da roubalheira e da corrupção em alta escala e de alto escalão, que se instalou feito praga nesse país.
Para o pobre coitado (em todos os sentidos) que rouba uma lata de leite e vai parar na cadeia, que não existe protesto e nem um habbeas corpus providencial.
Para o rico que desvia milhões de reais, há sempre alguém disposto a defender e encontrar uma brecha na lei que garanta a doce liberdade.
Num país em que todos são iguais perante a lei, mas que na prática uns são mais iguais do que os outros, é confortante ver gente da estirpe de Dantas, Pita e Nahas atrás das grades.
Ainda que o espetáculo seja de curta temporada.
Em breve, reabrem-se as cortinas, perdão, as grades e recomeça o show de impunidade.
E nisso o trio tem uma companhia que parece ilimitada.

O ano em que jogamos em lugar nenhum

O Itabuna inicia neste final de semana sua saga na Terceira Divisão do Campeonato Brasileiro, diante do CSA de Alagoas.
Saga no sentido literal, por tratar-se de uma autêntica aventura em nome dessa paixão chamada futebol. Só mesmo a paixão que desafia a lógica e não raro o bom senso leva um time a disputar um campeonato deficitário, sem apelo para o torcedor e com jogos em estádios mambembes, sem contar viagens que mais parecem para outra galáxia, caso o time vá avançando de fase.
Tudo bem, a 3ª. Divisão é o caminho para a 2ª. Divisão que é o caminho para a 1ª. Divisão, que é o caminho para a Libertadores, que é o caminho para o Mundial de Clubes.
Mas, vá ser otimista assim lá no Japão! Ou na China!
Diante das limitações, da falta de apoio, o Itabuna fará muito se chegar ao Ceará, ao Amazonas. Ou ao sul do país, caso consiga passar por essas fases regionais, em que a improvisação é regra.
Sobra boa vontade da diretoria, os jogadores estão empolgados e o torcedor costuma estar sempre ao lado do time, nos bons e maus momentos. Por esse prisma, justifica-se a participação do Itabuna num campeonato que a televisão costuma ignorar e que só teve alguma visibilidade quando Bahia e Vitória patinaram por lá.
É mais ou menos como jogar em lugar nenhum, contra times que já viveram tempos mais gloriosos e/ou equipes que nem o mais fanático dos torcedores ouviu falar.
Nesta fase, o Itabuna joga contra times de Sergipe e velhos e novos conhecidos do futebol baiano. Times parelhos, sem grandes nomes, o que torna a classificação possível.
A partir daí, vira loteria e começam as viagens malucas, as despesas aumentam e o desgaste também, porque avião é um privilégio que mais parece sonho inatingível para os times da série C.
O jeito é encarar as viagens de ônibus, por estradas esburacadas e poeirentas, se alimentando em restaurantes de beira de pista.
E ainda tem que jogar futebol!
Afinal, seja na série C, na B, ou na A, essa história de que o importante é competir não cola para o torcedor. No Brasil, vice-campeão e lanterna são a mesma coisa.
A bola vai rolar a sorte está lançada.
Em sendo assim, vamos lá Itabuna!
Que o caminho, embora cheio de obstáculos, seja longo para o nosso bravo azulino nessa série C.

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Quem fala demais dá bom dia a cavalo.
Piada carioca: Renato Gaúcho falou demais e deu boa noite a Cevallos, o goleiro da LDU que pegou três pênaltis e levou a Taça Libertadores para o Equador.

Por amor a Itabuna, façam diferente

Embora a propaganda gratuita no rádio e na televisão, considerada decisiva para alavancar ou sepultar candidaturas, só comece na segunda quinzena de agosto, a partir da próximo semana as campanhas eleitorais ganharão um novo impulso, com a permissão para a utilização de carros de som, pintura de muros, colocação de adesivos e manifestações de rua como caminhadas e carreatas.
Campanhas eleitorais em Itabuna, como até as pedras do cada vez mais poluído Rio Cachoeira sabem, sempre foram sinônimos de empolgação, com caminhadas que reúnem milhares de pessoas na avenida do Cinqüentenário e nos bairros, e de uma disputa ferrenha, que muitas vezes descamba para entreveros e, não raro, para as baixarias, com xingamentos e folhetos apócrifos de parte a parte.
Nas duas últimas décadas, com a política praticamente centrada em duas figuras, Geraldo Simões e Fernando Gomes, a disputa se tornou ainda mais acirrada. Alguns fernandistas e geraldistas não se contentavam apenas em serem adversários políticos, natural num regime democrático, mas se comportavam como inimigos.
Em épocas de campanha, o que era disputa eleitoral se transformava em guerra, com a utilização de todas as armas disponíveis.
Essa divisão acabava se refletindo na própria administração, como se o fato de alguém ter votado em Fernando ou Geraldo o transformasse numa espécie de “não cidadão”, a depender de quem ganhou e quem perdeu a eleição.
Condenável, mas parecia fazer parte do jogo. Uma regra não escrita, mas encarada com normalidade, como se campanha sem agressões de parte a parte, sem os folhetos apócrifos que tornam mãe de juiz de futebol uma santa de altar, não valesse ou não tivesse graça.
Agora, vive-se uma situação inédita em vinte anos.
Geraldo e Fernando não são candidatos e novos nomes estão colocados à disposição do eleitorado, como Juçara Feitosa, Capitão Fábio, Capitão Azevedo, José Adervan, Roberto Barbosa e Edson Dantas (os dois últimos ainda a depender de negociações que se estenderão até os 48 minutos do segundo tempo, à prorrogação ou possivelmente aos pênaltis).
Será, sem dúvidas, uma campanha menos apaixonante, visto que nenhum dos candidatos ainda desperta tanta fidelidade quanto a dispensada por uma parcela considerável do eleitorado a Geraldo e Fernando.
Mas será, também, uma excelente oportunidade para estabelecer uma campanha focada no debate, na discussão das propostas de governo, na conquista do voto sem recorrer a expedientes nada ortodoxos.
O mito de que o eleitor gosta de uma baixaria não passa disso mesmo: um mito!
Como todos os candidatos, embora conhecidos, são novidade para o eleitorado, seria de bom alvitre gastar tempo e energia mostrando quem tem o melhor projeto para uma cidade prestes a completar 100 anos, uma metrópole que por sua grandeza e importância dispensa métodos que não caem bem nem em disputas ferrenhas em localidades mulambentas que nem aparecem no mapa.
Pode parecer ingenuidade, excesso de purismo, coisa de quem acredita em papai noel, cegonha, saci pererê, mula sem cabeça e quetais.
O fato é que, apropriando-se do slogan de campanha de dois dos principais candidatos a prefeito, é o caso de sugerir:
-Por amor a Itabuna, façam diferente.

“Mataram meu filho!”

3;30 horas de uma madrugada chuvosa e fria em Itabuna. Os gritos de uma mãe desesperada ecoam pela rua, acordam os vizinhos e antecipam a manhã de dor e de tristeza.
Minutos antes, João Paulo Bulhões, de 23 anos, havia sido morto de forma estúpida no bairro do Pontalzinho, que há muito tempo perdeu o ar de tranqüilidade e se transformou num foco dessa violência insana que assola a cidade.
João estava na casa de amigos, numa comemoração tipicamente familiar, quando escutou um barulho estranho na rua. Ao sair na sacada do prédio, notou que se tratava de um assalto e, numa reação quase mecânica, tentou assustar os bandidos.
Mecânica também foi a reação de um dos assaltantes, posteriormente identificado como sendo o menor E.B;B. de apenas 17 anos. Ele simplesmente apontou a arma para a direção de onde vinha o pedido para deixar a vítima do assalto em paz e atirou.
Um único tiro. Fatal.
O projétil acertou o coração de João, que morreu na hora.
E só restou à mãe, gritar:
-Mataram meu filho! Mataram meu filho!
Mataram João.
Matam pedros, antonios, josés, marias, joanas, rosas…
Matam filhos, matam pais, matam amigos.
Matam gente que a gente nem conhece, numa carnificina que parece não ter fim. Numa explosão de violência e de sangue em que cada um de nós pode ser a próxima vítima.
Em Itabuna, apenas no final de semana, quatro pessoas foram assassinadas, sem contar os assaltos, arrombamentos, agressões, roubos de veículos.
É como se a cidade estivesse à mercê dos marginais, como se o policiamento inexistisse. E às vezes parece que inexiste mesmo, dada a facilidade com que os bandidos agem. De dia, de noite, em qualquer horário e em qualquer lugar.
O tiro que acertou o coração de João, interrompendo uma vida e enchendo de dor a vida de seus familiares e amigos, é um tiro no coração daqueles que já não podem desfrutar de um direito básico: o direito à segurança.
O direito de andar na rua, freqüentar um bar, entrar numa loja ou mesmo se reunir com os amigos.
O grito da mãe que perdeu o filho deve ser o grito de uma indignação que não pode ser sufocada pela resignação.
É hora de agir, mobilizar, exigir que as autoridades dêem um basta a tanta violência.
Porque, quando a vida vira uma loteria, é sinal de que a morte está ganhando o jogo.

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A polícia foi rápida ao identificar e prender o assassino de João.
Louvável, mas não seria o caso de atuar de maneira que assassinatos como o de João e de tantas outras vítimas inocentes fossem evitados?

Olhar infantil




Mais do que o adesivo no vestido ou os nomes no balão, a menina fotografada por Pedro Augusto na convenção do PT, chama a atenção pelo olhar.

Seus olhinhos infantis miram o futuro.

O desafio, de Juçara e de todos os candidatos que se propõem a administrar Itabuna no seu primeiro centenário é construir essa ponte que permita a tantos meninos e meninas superarem a barreira da exclusão social.

É fazer com que cidadania deixe de ser apenas uma palavra que nossas crianças aprendem na escola e não tem a mais vaga idéia do que seja isso, porque muito provavelmente nunca serão cidadãos.

Dona Senhora

Diariamente, milhares de pessoas passam por uma praça chamada Laura Conceição e nem se dão conta de que a praça tem esse nome. E, menos ainda, se dão conta de quem foi Laura Conceição.
Ainda que Laura Conceição fosse mais conhecida como Dona Senhora, nem assim a imensa maioria dos itabunenses há de se lembrar dela.
Pois, Laura da Conceição, ou melhor, Dona Senhora, é dona de uma biografia que deve ser resgatada. Não pode ser apenas um lapso na memória de uma cidade que não tem o hábito de preservar sua história.
Dona Senhora, mais do que uma personagem fascinante, é um exemplo que vem a calhar nestes tempos atuais, em que entre a ação e a lamentação, boa parte das pessoas prefere ficar com o choro, o ranger de dentes, o ressentimento.
Na distante década de 40 do século passado, Dona Senhora, que chegara a Itabuna quando o município, recém emancipado de Ilhéus, ainda engatinhava, trabalhou como bordadeira e logo se tornou uma pessoa bastante querida na sociedade; presenciou o desabamento da Igreja Matriz de São José, o Santo Padroeiro, então localizada na Praça Olinto Leoni.
Uma tragédia, num tempo em que o catolicismo era religião predominante e a igreja um ponto de convergência.
O que fez Dona Senhora, católica fervorosa?
Em vez de ficar se lamentando e/ou esperando uma providência divina, ela resolveu agir. E como agiu!
Aquela mulher de aparência frágil dedicou-se à missão de construir uma nova Matriz. E fez disso, durante muito tempo, sua razão de viver.
Dona Senhora, mulher de fibra, mobilizou a cidade em torno desse objetivo. Para conseguir os recursos necessários, recebia desde sacos de cacau oferecidos pelos fazendeiros e doações de comerciantes (muitas delas obtidas após insistentes plantões na porta das lojas) a quantias irrisórias doadas por humildes operários e trabalhadores rurais.
A luta de Dona Senhora foi o tijolo e o cimento que levantaram a Igreja Matriz. Mas uma igreja não é feita apenas de tijolo e de cimento.
É feita daquela algo mais, do transcendental, daquilo que podemos definir como fé.
Dona Senhora tinha uma fé inabalável, não apenas em Deus, mas de que era possível unir esforços em torno de um projeto coletivo. A Igreja Matriz, hoje transformada em Catedral de São José, é um exemplo vivo dessa espécie de “fé de resultados”, de que líderes são necessários, mas ninguém se faz sozinho.
O exemplo de Dona Senhora é uma condenação ao individualismo, que tantos males tem nos causado nas últimas décadas, fruto de um lugar comum equivocado que se tornou uma quase-regra: o de que cada um se basta e ninguém precisa de ninguém.
Precisa sim. E aí está Dona Senhora para mostrar às novas gerações que o sonho de um, só se torna realidade se for o sonho de todos. E se houver o trabalho de todos.
Em tempo: Laura Conceição, a Dona Senhora, dá nome à praça em frente à Catedral de São José.
Talvez mais importante do que saber o nome da praça e o porquê desse nome, seria resgatar também esse espírito guerreiro e empreendedor, tão necessário numa cidade que, metaforicamente, busca sua reconstrução.

-o-o-o-o-

Esse texto só foi possível graças às informações e à gentileza do historiador Adelindo Kfoury. Se não está à altura da homenagem que se quer prestar à Dona Senhora, isso se deve mais à falta de atributos de quem o escreveu, do que da inestimável deferência desse mestre que é Kfoury.

São Omo

Diante da qualidade (?) de algumas bandas que se apresentam durante os festejos juninos em cidades do Sul da Bahia e os cachês que elas recebem (pelo menos os valores que constam nos contratos) é de se conjecturar que o São João não é apenas o principal festejo nordestino.
É também uma bela maneira de lavar dinheiro.
Em ano eleitoral, então, o Arraiá da Lavanderia funciona que é uma beleza.

Daniel Thame
Daniel Thame, jornalista no Sul da Bahia, com experiência em radio, tevê, jornal, assessoria de imprensa e marketing político danielthame@gmail.com

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