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A nossa permanente impermanência

 

Eulina Lavigne

eulina lavigneDesde o início do ano estou lidando com a minha impermanência diante de fatos que geram mortes coletivas e individuais. Morte de pessoas que serão sempre, para mim, referência de amor, de sabedoria, de aprendizados inesquecíveis.

E sempre que a morte se revela para mim de forma tão abrupta, lembro o quanto a minha e a nossa vida é efêmera, principalmente para aqueles que acreditam que a vida se encerra quando o nosso corpo físico sucumbe. Lembramos o quanto precisamos olhar para a nossa vida e fazer dela valiosa.

vida e morteA grande maioria das tradições espirituais do mundo, inclusive o Cristianismo, reconhece a continuidade da vida após a morte. Acontece que fui ensinada a negar, rejeitar a morte e a acreditar que ela é o fim de tudo. Fui ensinada a ter medo da morte como se ela fosse um bicho papão que devemos manter à distância. E, sendo assim, eu corria alucinadamente para usufruir de todas as coisas materiais, a ter o melhor carro, o melhor apartamento, a melhor bolsa e assim fui me distanciando de mim.

Sogyal Rinpoche no livro tibetano do viver e do morrer, concluiu que os efeitos desastrosos da negação da morte vão muito além da esfera individual: eles afetam o planeta inteiro. Pois esta falta de visão a longo prazo está levando as pessoas a devastarem o nosso planeta e a destruírem os nossos recursos naturais como não se houvesse o amanhã.

Passei então a refletir sobre isto e há muito tempo ando nesta busca de mim e confesso que ainda tenho medo da morte, embora seja muito menos. Ainda tenho um caminho longo a percorrer comigo.


Mesmo que acreditem que a morte é o fim de tudo, ao menos devem pensar nas gerações que permanecem e são continuidade da nossa linhagem.

Existem aqueles que acreditam ser a morte algo natural e outros que pensam que devem correr léguas dela. E os tibetanos nos convidam a observar sobre o verdadeiro significado da morte. A morte nos convida a ficarmos frente a frente conosco. E no fundo temos medo disto. Temos medo de quando a morte se aproximar não sabermos responder à pergunta: quem sou eu? O que mesmo fiz com a minha vida?

E este medo apavorante da morte, que no fundo é o medo de nós, de descobrirmos quem somos e o que fizemos com isto é que causa este distanciamento.

Michel de Montaigne, filósofo, escritor e humanista francês, nos convida a tirar da morte o seu grande trunfo sobre nós e acostumarmo-nos a ela, tendo ela sempre em mente. Ele diz: não sabemos onde a morte nos espera, então vamos por ela esperar em toda parte. Praticar a morte é praticar a liberdade. Um homem que aprendeu como morrer desaprendeu a ser escravo.
E como aprender a morrer? Penso que morrendo. Morrendo um pouco a cada dia. Me desapegando daquilo que não me preenche e daquilo que me faz aparentar. Aparentar que sou rica se não sou, aparentar que sou feliz se eu não sou, aparentar que sou o que acham que sou. E não sou. Deixar viver o ser que eu sou e do jeito que sou quem sabe me fará mais feliz.

Deixar morrer um pensamento, uma ideia que não mais me serve, deixar ir alguém que não me faz bem é, também, o exercício do morrer. E assim vamos nos desapegando ao ponto de sermos felizes conosco para assim sermos com os outros.

Para mim, a nossa missão na Terra é de sermos escultores. Eu escultora de mim. E a vida vai me dizendo para que pedaço de mim preciso olhar para integrar sob uma nova forma. E assim me torno um ser humano mais humano e, quem sabe, quando a morte chegar estarei plena. Ou aceitando ela melhor. Assim espero

Não sei quando a morte chegará, penso que desconfiamos quando ela vem chegando e, de forma inconsciente nos despedimos dos mais próximos a nós. Sem dúvida um dia ela vem.

Aprendi com Bert Hellinger por meio das Constelações familiares que quanto mais corremos da morte mais ela corre atrás de nós. E um dia nos alcança e diz: vim te buscar. E já que isto é uma verdade devemos sempre olhar para a morte e dizer: eu te vejo.

E quando ela vier nos buscar podemos pedir mais uma chance. Se ela achar que é possível nos dará. Então, aproveitamos para fazer aquilo que precisávamos fazer e ainda não tínhamos feito, com a certeza de que ela voltará para nos buscar.

Que assim seja e assim é!

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Daniel Thame
Daniel Thame, jornalista no Sul da Bahia, com experiência em radio, tevê, jornal, assessoria de imprensa e marketing político danielthame@gmail.com

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