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Memórias de um Dinossauro

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Helenilson Chaves, um Grapiúna

 

Itabuna, 1987. Recém-chegado de Osasco para Itabuna, dando os primeiros passos nessa aventura de amor e (quase)  perdição que foi o jornal A Região. Manuel Leal, o Capo, me pede para fazer uma matéria com Helenilson Chaves, já pavimentando o caminho para substituir seu pai, Manoel Chaves, no comando do então maior conglomerado econômico do sul da Bahia.

Típica matéria água com açúcar, que escrevi com dignidade, mas plenamente esquecível com o passar do tempo.

daniel e helenilson chaves 2Jornal nas bancas, Helenilson me liga pra agradecer. Afirma que o texto seguiu fielmente o que ele havia dito e não tinha os adjetivos bajulatórios que me disse desprezar. E encerrou a conversa com um vago “passe aqui no Grupo Chaves depois”.

Vago, pero no mucho. Não passei.

Um mês depois, lá estou eu com Helenilson Chaves, agora a pedido dele a Leal,  para fazer uma matéria sobre cacau, que era sua paixão por dever de ofício (o Grupo Chaves possuía inúmeras fazendas e era um dos grandes compradores de amêndoas na Bahia) e pelo prazer de ver o pai iniciar um império a partir de um modesto armazém de compra do produto, com muita propriedade chamado de fruto de ouro.

De novo jornal nas bancas, de novo Helenilson me liga pra agradecer pelo texto. E, de novo, me manda “passar no Grupo Chaves”.

Dessa vez não apenas entendi como deixei claro que entendi. E fui claríssimo:

– Helenilson você é um cara diferenciado, bom papo, tem visão de mundo, mas se insistir nisso, eu vou pedir a Leal pra mandar outra pessoa da próxima vez.

Nascia ali, nesse diálogo surreal, uma amizade que atravessaria mais de três décadas, encerrada, ao menos no plano físico, com a morte de Helenilson. E olha que no quesito amigos, se tivesse apenas uma das mãos e contasse nos dedos as amizades verdadeiras que construí em Itabuna, me sobrariam dedos.

Helenilson Chaves. O empresário arrojado, bem-sucedido e disposto a correr riscos todo mundo conhece. Conduziu com serenidade o Grupo Chaves num momento de tormenta provocada pela vassoura-de-bruxa, em que o maior desafio era sobreviver,  implantou a TV Santa Cruz, um marco nas comunicações regionais e  criou a primeiras empresa processadora de soja no oeste da Bahia (quando ainda era um território a ser desbravado). Construiu, no auge da crise regional, num cenário de profunda desesperança, o Shopping Jequitibá, algo que, à época, onze entre dez empresários diziam ser a mais rematada loucura. Não para um visionário como Helenilson Chaves, como o tempo, esse quase sempre respeitável senhor, acabaria por provar.

O que poucos conhecem – e ele sabiamente fazia questão que fosse feito de forma discreta e anônima – era o Helenilson solidário, preocupado em melhorar as condições de vida das pessoas mais humildes. Que garantia aos funcionários do Grupo Chaves e seus filhos benefícios como custear estudos universitários, moradia, divisão de lucros, etc.  A Escola Ação e Cidadania, que promoveu a educação e capacitação profissional de crianças e adultos, atendendo centenas de famílias carentes, é a parte mais visível desse lado humano, mas está longe de ser a única, tantas foram as instituições apoiadas e amparadas pelo Grupo Chaves.

Helenilson era culto e cultura é uma coisa que o dinheiro não compra. Prova disso são os ricos (e depois apenas pseudo-ricos, mas ainda assim se achando riquíssimos) que o cacau produziu. Conta bancária cheia e cabeça completamente vazia, incapaz de verem o mundo além da própria ganância e do individualismo mesquinho.

Helenilson, que o dinheiro permitia flanar pelas ´oropas` num dolce far-niente, manteve os pés, a cabeça, os sonhos e as realizações em Itabuna, terra a qual amava incondicionalmente e amou até seu último suspiro. Nas incontáveis conversas que mantivemos ao longo desses anos de amizade, muitas delas regadas a música clássica, champanhe francês e charutos cubanos (admitamos, tem coisas boas que o dinheiro pode comprar, não pelo que elas valem monetariamente, mas pelo prazer que elas representam), um tema era recorrente: a Educação.

Helenilson Chaves, e isso talvez seja um de seus principais legados, fui um pregador incansável e intransigente da Educação como a única ferramenta capaz de promover a inclusão social, de abrir as portas da esperança e tornar realidade um futuro digno para as crianças e os jovens de Itabuna, dessa imensa região grapiúna. E ele fez a sua parte, seja em ações, seja indicando o caminho.

Helenilson Chaves, o melhor prefeito que Itabuna nunca teve. Cá pra nós, sorte dele, azar de Itabuna…

Helenilson Chaves,  é nisso que pretendo acreditar, beirando os 60 anos, naquela fase outonal em que a curva da existência caminha para a reta final, não deixou uma cidade órfã, porque está surgindo aí uma geração em que se pode citar (com a perdoável omissão de alguns nomes) seu filho Manoel Chaves Neto, Rafael Andrade, Eric Ettinger Junior, Edmar Margotto Junior, Rafael Moreira. Eles e mais alguns outros podem e devem ser os fios condutores de uma nova história.

Uma história que sepulte de vez a frase mais emblemática de Henenilson, misto de mordacidade cruel e de um certo desencanto, dita numa de nossas conversas, lá pela enésima garrafa de Veuve Clicqot e da fumaça inebriante de um Cohiba:

– Essa é uma região onde o cara gasta dois reais para que o outro não ganhe um real.

Descanse em paz, Helenilson Chaves. Assim que Alah me convocar, agora sim eu “passo aí”, porque aqui você vai fazer uma puta falta, amigo.

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Daniel Thame
Daniel Thame, jornalista no Sul da Bahia, com experiência em radio, tevê, jornal, assessoria de imprensa e marketing político danielthame@gmail.com

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