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Os galos e os holandeses

 

Gerson Marques

gerson marquesO galo de Manoel Ascanio  cocoricou três vezes, era o arauto do Sol, o título mais imponente na hierarquia do mundo dos galos, era dele a primazia de inaugurar o dia, status conseguido ao longo de muitos anos, madrugada após madrugada, até ter o peito forte e a garganta afinada para impor seu carcarejar[g1] , e ser respeitado pela galaiada da Vila.

O galo da viúva Maria Dolores, alguns quintais depois, era sempre o segundo, fazia a contra resposta ao primeiro e chamava o seguinte, assim, galo após galo e cada vez mais distante  todos cumpriam seu papel de tecer o amanhã.

O arauto reinava de cima do galho mais alto do pé de araçá, no quintal de Manoel Ascanio, atento ouvia orgulhoso tempos depois a resposta do galo mais distante, lá pelos quintais da ilha dos sapos, ai então, começava tudo novamente.

Pronto, estava decretado o fim do silêncio da alta madrugada, agora já era  boca do amanhecer,  quando nossas vistas ainda ver tudo escuro  mas os galos, com olhos de galos já enxergam os primeiros raios do sol em um horizonte que ainda nem existe.

Contrariado, Manoel Ascanio levantou da tarimba meio cambaleante, arrastou os pés no chão frio de terra batida, caminhou com dificuldade no escuro em direção a porta do fundo que não passava e um pano velho, seguiu em meio do mato manso do quintal até debaixo do pé araçá, deu bom dia pro galo, baixou as calças e começou a mijar, lembrou do tenebroso sonho que teve há pouco, a morte lhe chegava sem avisar na forma de fogo e ferro, partia seu corpo em milhares de pedaços e sua alma atordoada não sabia para onde ir, tudo tão rápido como piscar dos olhos, teve medo e frio, com esforço afastou o pensamento ruim da cabeça e lembrou dos tempos de criança, nos anos da invasão dos sapos, quando mijava ali mesmo debaixo do pé de araçá, derrubando um por um com seu mijo de rapaz sadio, te tanto praticar desenvolveu uma técnica de lançar jatos intermitentes e fortes como uma bala de canhão, sorrio em silêncio quando comparou com seu mijo fraco e gotejando do homem velho que se tornou,  estava absorto nestes pensamentos urinários quando ouviu um barulho tão forte como o fim do mundo.

Quando o galo de Manoel anunciou o dia, já na segunda chamada, o português Felisberto Homem Del Rei estava fornicando com a índia Maíra da Lua, assim faziam todas manhãs, entre a primeira e segunda chamada do galo de Manoel.

De forma mecânica e rápida Felisberto levantou-se do leito de palha seca improvisado de ninho de amor, caminhou para o quintal e observou as estrelas matinais ainda brilhando no céu escuro, sentia calor, estava nu e se pós a mijar, admirava a força que a urina saia e lembrou do sonho que teve antes de Maíra acorda-lo em ardências  sexuais, no sonho viu um monstro de ferro cuspindo fogo que saiu do fundo do mar e voava sobre a Vila dos Ilhéus e destruindo tudo em uma velocidade de piscar de olhos, via também sua bela e jovem índia Maíra da Lua ser devorada pelo monstro, se assustou com o barulho tenebroso que ouviu, um barulho dos fins do mundo.

O padre Domingos foi o primeiro capuchinho a chegar por aqui depois dos tempos que os jesuítas ocuparam-se sozinhos de doutrinar o povo pecador dos Ilhéus, diferente dos outros, Domingos tinha duas mulheres e cinco filhos, quase um herege, moravam todos na antiga casa dos padres construída ainda no tempo dos Jesuítas e abandonada desde que o padre Manoel de Andrade          enlouqueceu com a invasão dos sapos, já fazia  quarenta anos, e foi queimado na Santa Fogueira da Inquisição.

Domingos nunca se acostumou a acordar aos primeiros cocoricados do galo de Manoel, jurava todos os dias que ainda colocava aquele galo na panela, chegou a oferecer um farnel de farinha boa  em troca do galo, subiu para dois e até três,  propostas que ofendeu Manoel já que o galo era da família, a raiva foi tanta que Manoel resolveu promover uma pequena vingança levando o galo com ele para a missa dominical, sem falar nas missas anuais de São Francisco para ser benzido e na noite de Natal na missa do galo, é claro.

Levantou com dificuldade da cama de tábuas, forrada por um colchão de taboa onde dormia com as duas  esposas, arrastou penosamente seu corpo volumoso até o quintal onde há tempos mandou fazer um buraco dentro de um cercado, ali abaixou as calças para mijar quando lembrou que não tinha feito a reza matinal agradecendo a Deus por estar vivo mais um dia, sem cerimônias rezou ali mesmo segurando o pinto mole e imaginando como fazer para por o galo arauto de Manoel na panela. Lembrou que uma das  mulheres o acordou no meio da noite assustada com um sonho em que um monstro de ferro cuspindo fogo devorava ela, os filhos, Domingos e a outra esposa, tudo em um piscar de olhos, ele riu da mulher e disse que ela sonhou com monstro porque dormiu ser rezar,  nessa hora ouviu sem saber de onde um barulho que parecia o fim do mundo.

Como descreveu tempos depois o traficante de escravos Deocleciano Campos Oliveira Sá, o acontecimento daquela manhã, ao dizer que o monstro de ferro cuspidor  de fogo foi o próprio  diabo que  apareceu em pessoa, montado em um raio dos infernos acompanhado por uma comitiva de capetas vindo das trevas cavalgando em cães de fogo, o chão todo tremeu e um vento de tão quente fez o sangue ferver.

Foi assim que o primeiro tiro de canhão rasgou a Vila dos Ilhéus ao meio, levou tudo inclusive a vida de quem estava a frente, um monstro de ferro que cuspia fogo, como sonhou Manoel Ascanio, Maíra da Lua e uma das mulheres do gordo padre Domingos.

O corpo de Manoel foi estardalhaço em milhares de pedaços, sua alma ficou atordoada, o pé de Araçá e o galo arauto da madrugada foram pulverizados, na casa de Felisberto Del Rei sua Maíra ainda deitada foi levada em regozijo e na velha casa dos padres a colheita foi farta, duas esposas, cinco filhos e um capuchinho gordo, tudo em um piscar de olhos.

O amanhecer desenhou o perfil do monstro, no mar dos Ilhéus, o tenebroso galeão de guerra holandês Príncipe Da’Austria, acompanhado de outros dois monstros marítimos de igual envergadura.

A primeira nau entrou na pequena baía dos Ilhéus, sem receber resistência, Ataulfo Neves o oficial da guarda encarregado de proteger a Vila com pelotão de seis homens anunciou aos gritos que eram embarcações  de bandeira flamenga e ordenou a retirada de sua tropa, ordem sem nem uma serventia já que a esta altura nem um dos soldados de Ataulfo estavam mais na Vila.

A armada holandesa de uma certa forma já era esperada pelos ilheenses, a algum tempo corriam notícias de seus ataques a  Salvador, mesmo assim foi com grande surpresa que a gente dos Ilhéus foi acordada pelo monstro de ferro cuspindo fogo, todos fugiram apressados para as matas e fazendas das vizinhanças.

Na primeira manhã depois da ocupação nenhum galo cantou, a Vila amanheceu em silêncio funesto, não porque os galos tomaram partido na guerra, isso não, mas por guardarem um luto cerimonioso em homenagem ao Arauto do Sol, o galo de Manoel Ascanio que fora devorado pelo monstro  junto com seu dono e seu trono no pé de Araçá. No mundo dos galos a morte de importante e eminente autoridade é motivo de respeito obsequioso.

Não foi fácil organizar a resistência para enfrentar a poderosa armada, não ficou ninguém, nem mesmo quem deveria proteger a Vila, no fim da tarde um pequeno grupo de moradores arregimentado pelo veterano Catussadas, o eterno herói da guerra dos sapos,  se encontraram  pelas bandas da mata da Sesmaria Esperança e formaram um improvisado exército de resistência, se bem que era necessário muita boa vontade para chamar aquilo de exército, a tropa não passava  um agrupamento de andrajos molambentos em vestes farrapentas e nenhuma aparência com um corpo militar.

Mas foram eles, oito índios, doze escravos, seis portugueses, dez mestiços, quatro crianças e duas mulheres, além de um cego sob a liderança do agora “General” Catussadas que partiu para o embate necessário e sangrento, usando como armas três  garruchas, um alfanje, duas espadas e dois mosquetes, além de meia dúzia de punhais, flechas, tacapes as mãos e a coragem. Usando a surpresa como tática, ocorreram duas escaramuças violentas que resultaram na morte de seis soldados holandeses e quatro ilheenses.

Passado três dias do luto oficial dos galos, o galo da viúva Maria Dolores assume o posto de novo Arauto do Sol, agora era dela a honra de acordar a Vila e anunciar a chegada de um novo dia. O exército mambembe de Catussadas ao ouvir o galo de Maria Dolores cantar inicia o terceiro e definitivo ataque aos invasores.

A completa falta de conhecimento das táticas militares de combate, tornou-se uma vantagem,  pegando os holandeses de surpresa, sem conseguir entender os procedimentos do inimigo, que de fato não tinha, era uma turba em correria de encontro a linha de ataque que transformava a ação sempre em um corpo a corpo, os holandeses levavam desvantagem com suas roupas pesadas e armazenamento para ataque e pouca defesa.

A batalha final foi um corpo a corpo e as habilidades de Catussadas com seu punhal acrescentado a superioridade numérica dos ilheenses, com muitos reforços que foram chegando de todos lugares, forçou uma retirada desesperada e atabalhoada dos holandeses, culminando com o incêndio do navio já  carregado de açúcar e pau brasil que foi alcançado ainda no porto. A guerra terminou com vinte e cinco mortos do lado holandês e sete entre os ilheenses, além de muita destruição.

Catussadas foi aclamado herói de duas guerras, nunca foi condecorado nem homenageado, morreria esquecido e sem glórias seis anos depois atacado por tuberculose.

Gerson Marques é presidente da Associação dos Produtores de Chocolate do Sul da Bahia

 [g1]

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Daniel Thame
Daniel Thame, jornalista no Sul da Bahia, com experiência em radio, tevê, jornal, assessoria de imprensa e marketing político danielthame@gmail.com

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