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Manuel e Daniel

Daniel Thame

 

dt panamá-Eu soube que o senhor vai lançar um jornal e está precisando de repórteres…Você é de onde?

-São Paulo, cheguei há um mês aqui…

-Então começa amanhã…

-Mas o senhor não vai nem me pedir pra fazer um texto pra avaliar?

-Não precisa. Se você é de São Paulo é bom, pode vir amanhã cedo e começar a trabalhar…

-0-0-0-

Contado assim, 30 anos depois, parece até uma daquelas narrações inverossímeis, feitas para dourar a pílula e transformar um ato banal em algo digno de registro.

Mas foi exatamente assim que aconteceu naqueles meados de abril de 1987, num fim de tarde em que, levado por Vilma Medina (testemunha desse diálogo surreal), meu destino se cruzou com o de Manuel Leal e me fez mergulhar na aventura de uma vida que foi, durante os 13 anos em que lá passei como repórter e depois editor, trabalhar no jornal A Região, do qual ainda sou colaborador extemporâneo.

manuel leal13 anos, dez deles convivendo com Leal. O tempo permite o que em outras situações soaria como cabotinismo: o inigualável faro para a notícia e o destemor  de Leal, somados a um texto cortante como uma navalha afiada e uma compulsão por grandes reportagens deste que ora vos escreve (puta que pariu, `dourar a pílula` e ´deste que  ora vos escreve` são dignos de aposentadoria compulsória se Michel Temer permitisse), foram a essência de um jornal que mais do que papel e tinta, era impresso com alma.

O arco se encontrou com a flecha.

Antes que a banda siga e o mundo gire, um adendo necessário: gente com muito mais talento para a escrita passou por A Região, mas não citarei nomes para não despertar egos adormecidos. Estou me referindo à simbiose de duas almas que o acaso (ou não) reuniu numa redação de jornal. Nisso, a rima de Manuel com Daniel produziu uma rima e uma solução.

Foram 10 anos de Malhas Finas e Malhas Grossas, de reportagens inesquecíveis, manchetes de antologia, histórias (ao menos as publicáveis)  que dariam um livro.

primeira capaQuem senão A Região teria coragem de dar a manchete de fraude no Vestibular da Uesc, apostando num suposto gabarito jogado por baixo da porta da sede do jornal? A edição rodando, Leal me liga de madrugada:

-E se aquilo for uma falsificação?

Respondi com a única frase possível:

-Nós dois estamos fodidos.

As denuncias  de fraude, com conhecimento prévio dos gabaritos por alguns privilegiados, principalmente nos cursos mais disputados, como Direito, eram recorrentes. Comprovada, mudou para sempre a história do vestibular.

Quem senão Leal para perceber que um romance entre um fazendeiro  de 70 anos e uma estudante de 13 era notícia nacional? Foi além: a história de Ferreirinha e Yolanda foi destaque até no Japão, com direito a uma impagável entrevista a Jô Soares em que Ferreirinha, orientado por Leal, repetia que sua propalada virilidade se devia ao suco de cacau. E eram tempos pré-viagra…

Aproveitando a deixa: eram também tempos duros, por conta das inúmeras denuncias feitas pelo jornal, que incomodava os poderosos de plantão, entre eles o mais poderosos de todos, Antonio Carlos Magalhães, que de tão poderoso virou sigla.

Pois ACM em pessoa, não a sigla, inventou a inauguração de um poste para vir a Itabuna e desancar o então ex-amigo Leal (a relação de ambos era de amor e ódio como o próprio jornal atesta em suas páginas), num comício na praça Adami. Tão ridículo que Leal riu. O tempo, entretanto, mostraria que nem todos os poderosos (ou que se acham poderosos) são de anedota.

A Região (e Manuel Leal porque o jornal essencialmente era ele) das denuncias de tráfico de crianças, de privilégios na liberação de recursos para combater a vassoura-de-bruxa, da primeira importação de cacau em décadas, que mereceu uma manchete em letras garrafais: ACABOU!, com direito a exclamação. Definitiva.

Manuel Leal, Manuel Leal, Manuel Leal. Manchetes e histórias. Do coração frágil sustentado por pontes de safena, mas  imenso e generoso.

-Leal, estou querendo fazer uma série de reportagens em Cuba (na verdade, conhecer Cuba era o sonho impossível dos meus tempos de rebeldia e dureza em Osasco).

Um jornal do interior da Bahia mandando um jornalista pra Cuba em 1995 tinha tanto sentido quanto mandar um repórter a Marte. Mas Leal bancou a viagem e me vi na obrigação de deixar a ideologia de lado e fazer aquelas que, modestamente, considero as melhores reportagens da minha vida. E olha que nesse negócio eu costumo colocar a modéstia no paredón.

A Cuba dos avanços na saúde, na educação, nos esportes foi mostrada ao lado da falta de liberdade, da prostituição, da fome extrema (eram tempos pós queda do Muro de Berlim), das levas de cubanos que se arriscavam em balsas improvisadas pare tentar chegar aos estados Unidos. Isso quando os tubarões não chegavam antes.

Dois anos depois, premiado com uma viagem a Itália, numa tentativa de amenizar as denuncias de tráfico de crianças, ele simplesmente disse:

-Vai você. Eu iria só passear e você vai trazer boas reportagens pro jornal.

A mais dolorida das capas

A mais dolorida das capas

E  da Itália, onde ainda deu tempo de cantar ´il sole mio` numa gondola em Veneza, vieram reportagens sobre adoções de crianças que não terminavam necessariamente em pizza. Veio também uma premonitória história sobre uma italiana, Cinzia, agraciada com o bem estar social europeu,  e um africano, Baussa, que vivia de esmolas na Verona de Romeu e Julieta. Qualquer semelhança com as levas de africanos e árabes hoje em dia  que morrem afogados no Mar Mediterrâneo antes de alcançar o suposto paraíso, não é mera coincidência.

Padre mio, esse era Leal, que num sentido espiritual, foi mesmo um pai. Deixemos o coração escrever: Leal foi, pra mim, um pai em todos os sentidos.

Dezembro de 1997. A manchete mais emblemática de todas. “Delegado que apura a fraude  do IPTU recebeu R$ 4.500,00 da Prefeitura de Itabuna”.  A única reportagem em que, como um leitor comum e atendendo um pedido meu por conta de sua  mania de anunciar as `bombas` antes que elas fossem detonadas, Leal só viu o jornal depois de impresso. A flecha disparada sem o arco…Deus, como isso é cruel e atormenta até hoje.

Janeiro de 1998. Manuel Leal foi assassinado covardemente quando chegava a sua residência no Jardim Primavera, localizada entre a Delegacia Regional de Policia e a sede do Batalhãoi da Polícia Militar.

A percepção de seus algozes covardes era cirúrgica: morto Leal, morre também A Região.

Como se pode depreender, 30 anos se passaram desde abril e 1987 e 19 anos se passaram desde o trágico janeiro de 1998, e  A Região está viva, a cada edição tirada a fórceps e custa de uma abnegação que é quase um sentido de missão.

E Manuel Leal, de certa forma, também vive através do jornal que foi a sua razão de viver.

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Daniel Thame
Daniel Thame, jornalista no Sul da Bahia, com experiência em radio, tevê, jornal, assessoria de imprensa e marketing político danielthame@gmail.com

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