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Archive for dezembro 4th, 2016

Estudantes interagem com fábricas de chocolate no Sul da Bahia

choco-1Os estudantes do curso de pós-graduação em Negócios de Cacau e Chocolate da Faculdade de Ilhéus  concluíram os módulos Práticas de Produção de Chocolate e Higiene e Legislação Aplicada a Chocolate, ministrados pela professora Neyde Alice Bello Marques Pereira, pesquisadora de Tecnologia e Ciências Agrícolas da CEPLAC – Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira. A partir desse ciclo, os pós-graduandos estão intensificando o processo de interação com fábricas de beneficiamento de Cacau instaladas em Ilhéus.

Acompanhados pela professora que ministrou as disciplinas, os estudantes e empreendedores visitaram a Fábrica de Chocolates Mendoá, na Fazenda Riachuelo, instalada na rodovia Ilhéus/Uruçuca, e a Fábrica de Chocolate da CEPLAC, no Centro de Pesquisa do Cacau (Cepec), localizado na rodovia Ilhéus-Itabuna. Neste sábado e no domingo, 3 e 4 de dezembro, eles participam de uma aula sobre Aplicações em Chocolataria, com a maître chocolatier Mirian Rocha Pinkowski, no Centro de Inovação de Cacau da Joanes/Olam, recentemente inaugurado no Distrito Industrial de Ilhéus.

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OS REVOLUCIONÁRIOS DO PRAZER

Antes de Revolução liderada por Fidel Castro, Cuba era o bordel dos Estados Unidos. A afirmação não contém qualquer exagero e é confirmada pelos próprios cubanos. A jogatina e a prostituição faziam as delícias dos norte-americanos, numa ilha perto da casa deles. Cassinos e prostíbulos eram controlados pela máfia, numa espécie de território livre.

Tempos depôs, Fidel se orgulharia de ter acabado com a prostituição no país, alardeando o fato como uma das conquistas da revolução socialista. Com a abertura para o turismo, Fidel só não vê o ressurgimento da prostituição de larga escala em Cuba se ficar trancafiado em alguém bunker. E ainda assim com os olhos vendados.

Tem-se a impressão de que a prostituição não é apenas tolerada, mas incentivada. Afinal, os dólares gerados pelo mercado do sexo permanecem no país. A atividade é acintosa. A nossa permanência em Cuba coincidiu com a realização do Congresso Mundial de Pedagogia, que reuniu cerca de 5 mil educadores de 40 países.

Houve um determinado momento em que, num dos mais luxuosos hotéis de Havana, só era possível distinguir hóspedes de prostitutas e prostitutos pelas roupas e pelos modos (os cubanos usam roupas modestas e não conseguem esconder o constrangimento ao serem usados como objeto).

O tal congresso deve ter afetado os preços. Uma jinetera, como elas chamam as prostitutas, cobrava entre 30 e 50 dólares por uma noite de sexo. Em condições normais, o preço não ultrapassa 20 dólares, com direito à negociação. As histórias são sempre as mesmas: “a situação está difícil”, “preciso de dinheiro pra sustentar a família”, “não tenho outra opção” e outras frases feitas do gênero. A garota M., uma loirinha de 22 anos, divorciada, mãe de um menino, começou a noite cobrando 50 dólares. Lá pelas três da madrugada, recusada por um brasileiro e por um venezuelano, o preço já estava em 20 dólares.

S. de 21 anos, e R. de 20, ambas enfermeiras, faziam ponto num hotel afastado de Havana, que serviu de hospedagem aos atletas que disputaram os Jogos Panamericanos em 1991. O preço da noite: 30 dólares, fora as bebidas. Acrescente-se ao programa pelo menos 10 dólares, que é a propina cobrada pelos porteiros dos hotéis, chamados de custódios, zelosos amigos que se incumbem de ir buscar a jinetera no quarto, antes que o dia amanheça. Aliás, os porteiros e recepcionistas dos hotéis ficam cegos, surdos e mudos diante de uma notinha de 10 dólares (notinha para nosotros, obviamente).

Jineteras e jineteros não são propriamente profissionais do sexo. Se envolvem a ponto de levarem o parceiro ou a parceira para conhecer a família e, não raro, deixam de cobrar a partir do segundo encontro, contentando-se com perfumes, batons, cigarros ou roupas. A professora K, de 23 anos e aparência de 30, se contentava com uma camisa ou, quem sabe, 5 dólares para comprar alimentos para os dois filhos pequenos.

Sintoma da escassez de comida, a primeira coisa que as jineteras costumam pedir é um lanche, que devoram com felicidade de quem come um prato de caviar. Transar depois de uma cena dessas é para quem tem a sensibilidade de uma pedra.

Ao contrário do Brasil, a prostituição masculina é às claras. Eles fazem a abordagem e se a mulher entra na conversa, está fisgada. Respeitáveis senhoras de meia idade fazem a festa. Uma professora colombiana, simpática nos seus presumíveis 60 anos e dona de respeitável situação financeira, pelas jóias que ostentava, era vista durante o café da manhã do restaurante de um hotel, cada dia com um jinetero diferente. Tinha o semblante feliz de quem passara uma noite esplendorosa.

Congresso de Pedagogia? Só se for de Sexologia. O comentário, evidentemente, partiu de um brasileiro. Puro despeito.

Os jineteros se definem como guias turísticos. Eufemismo desnecessário. L., de 29 anos, prefere contar vantagem: “tem uma italiana, rica, casada, que vêm aqui uma vez por ano, só pra transar comigo. Me dá mil dólares. Também tenho uma amiga espanhola e outra alemã. Vivo disso e acho normal”. Mil dólares pode ser um exagero, mas as “amigas” não, a julgar pela quantidade de “guias turísticos” que se colocam à disposição das estrangeiras. “Eles são tão doces, carinhosos”, confidenciou uma professora brasileira, que revezou suas atenções com dois cubanos, um loiro, outro mulato. O loirinho, mais sortudo, teve direito a festa de despedida.

Nos dois últimos dias do Congresso de Pedagogia, a coisa ficou mais discreta, embora o vai-e-vem (nos dois sentidos) nos hotéis continuasse intenso. Transformar-se num paraíso de turismo sexual é tudo o que Cuba não quer, porque isso afasta os turistas mais endinheirados e atrai apenas os operários de países onde o padrão de vida é mais elevado, fenômeno que ocorre em algumas capitais nordestinas no Brasil como Recife e Fortaleza.

“A prostituição é o preço mais desgraçado que se paga por abrir Cuba aos turistas e conseguir dólares tão necessários para manter a Revolução”. A frase é do médico Zenóbio Gonzáles, diretor do Hospital Hermanos Ameijeiras, o principal de Cuba.

Suprema ironia: jineteras e jineteros, com suas armas pouco convencionais, ajudam a salvar o socialismo.

Revolucionários, porque não?

_____________

PS- À frase do dr. Zenóbio, seguiu-se um choro mal disfarçado. É fácil mostrar o esfacelamento de um país. Difícil é compreender a alma de um povo que luta não apenas pela sobrevivência, mas para manter a cabeça erguida. Por respeito a essa alma indevassável, omitimos os nomes dos jineteros e jineteras aqui citados, embora as pessoas e situações sejam reais.

TUDO PELO SOCIAL

É impossível conter a primeira lágrima quando uma doente mental, corpo franzino, 56 anos, toca no piano os primeiros acordes de Chopin, no auditório do Hospital Psiquiátrico de Havana. Pra que segurar o choro quando a emoção transborda no momento em que uma outra doente mental canta Allegro? O hospital, localizado numa área de 40 hectares na periferia da capital cubana pode ser apontado pelos opositores do socialismo como marketing puro.

Marketing ou não, o que se vê é um trabalho excepcional no tratamento de doentes mentais. São cerca de 3.700 internos, num ambiente que em nada lembra os manicômios tradicionais. No hospital, eles têm todo o tipo de terapia ocupacional (corte e costura, artesanato, pintura, confecção de utensílios domésticos, horta, etc.), além de aulas de balé e dança, música e atividades esportivas. O hospital possui pista de atletismo e até um estádio de beisebol. Mente sã, corpo são. O criatório de frango com maior índice de produtividade de Cuba está localizado na área do hospital psiquiátrico e é operado pelos internos. “Ô loco!”, diria um rechonchudo apresentador da tevê brasileira.

O setor de saúde é uma das pilastras, talvez a principal, do regime cubano e o hospital psiquiátrico serve para ilustrar isso. Num país cuja medicina é socializada, o forte é o trabalho de prevenção. É aí que entra o médico da família. Existem 22 mil desses médicos, que atendem a uma média de 120 famílias cada um.

O que o médico da família não pode tratar é encaminhado à rede urbana de policlínicas, que possui cardiologistas, ortopedistas, oncologistas, etc.; além de pequenos laboratórios. Cuba tem 428 policlínicas urbanas e 66 hospitais de montanha, estes localizados em áreas rurais. Ainda na área rural, as gestantes são encaminhadas aos hogares maternos a partir do 7º. mês de gravidez. Em função disso, 92% dos partos são feitos em hospitais.

O mapeamento epidemiológico é feito por área, facilitando o trabalho preventivo. Num segundo nível, existem os hospitais municipais (162) e provinciais (14). Os provinciais são hospitais de referência, que atendem até 50 especialidades. Resultado: 99,9% dos casos são resolvidos na própria província. O restante fica por conta das 11 Instituiciones de Medicación, hospitais de referência nacional, que realizam transplantes e tratamentos que exigem tecnologia de ponta.

O Hospital Hermanos Amejeiras, no centro de Havana, é um dos maiores de Cuba. Possui 950 leitos para internamento e 62 para terapia intensiva. Funciona como pós-graduação para os alunos da Faculdade de Medicina de Havana e sua manutenção custa US$ 25 milhões/ano. Como não existe vacina contra a falta de dinheiro, o jeito foi abrir o hospital para os estrangeiros, que contam com dois andares exclusivos para a realização de cirurgias e tratamentos que podem custar até 15 mil dólares.

“Precisamos dos estrangeiros para obter dinheiro, mas garanto que eles não tem qualquer privilégio na hora dos transplantes”, garante o médico Zenóbio Gonzáles, diretor do Hermanos. O mesmo tratamento feito em Cuba sai de 40% a 60% mais barato do que nos EUA. Problemas? Claro que existem. “Cuba produzia 85% dos remédios que consumia. Hoje faltam matérias primas e temos que apelar a amigos de outros países para conseguir medicamentos para cirurgias mais complexas. Antes a gente receitava sem se preocupar com os remédios, hoje temos que saber o que está disponível antes de receitar”, diz Zenóbio.

Cuba tem um dos menores índices de mortalidade infantil do mundo (9,9 por mil), uma expectativa de vida elevada (76 anos) e uma média de filhos nos padrões europeus (2 por casal). O aborto é liberado. O número de casos de AIDS até agosto de 1994 era de 1.080, com 72 mortes. A maioria dos casos atinge jovens entre 17 e 24 anos. Esses números podem ser perfeitamente questionados, já que o homossexualismo é reprimido no país e não existe distribuição de preservativos. “A repressão faz com que a troca de parceiros não seja tão freqüentes e além disso não temos problemas em larga escala com drogas”, justifica Zenóbio Gonzáles.

EDUCAÇÃO PARA TODOS- “Hablás inglês?”, pergunta o taxista, diante do nosso confuso portunhol. Taxistas, garçons, balconistas. Os filhos da revolução não tem do que reclamar, pelo menos na área educacional. O ensino é gratuito, obrigatório e garantido pelo governo. São nove ciclos no que no Brasil chamamos de ensino fundamental e ensino médio, incluindo um pré-universitário de dois anos e em seguida a opção entre um curso técnico ou a universidade.

As crianças passam o dia todo na escola. Muitas salas de aula são improvisadas em velhos casarões ou garagens, o material escolar é escasso, mas o nível do ensino é elevado. Crianças de 7, 8 anos, surpreendem pela desenvoltura com que conversam e pelo nível cultural. Os irmãos Carlos, 9 anos, e Michel, 7, sabem que apesar dos sacrifícios, terão garantia de estudo até a universidade. Carlos quer ser médico e Michel arquiteto. Nas colas das camisas, o bordado com o nome de Che, mito de todas as gerações pós-revolução.

Que maravilha! Nem tanto. A crise transforma arquitetos em garçons, químicos em motoristas de táxi e professores universitários em guias turísticos. É excesso de mão de obra num país parado por falta de meios de produção.

FÁBRICA DE CAMPEÕES- O esporte cubano dispensa maiores apresentações. Campeões no vôlei, multi-campeões no atletismo, destaques no boxe, no beisebol. Apesar da origem espanhola de boa parte da população, o esporte é dominado pelos negros. Javier Sottomayor e Mirella Luis são ídolos inquestionáveis. Ginásios de esportes e pistas de atletismo existem às dezenas, em todo o país.

O beisebol é o esporte número 1 de Cuba. É praticado como aqui se praticava o futebol, quando ainda havia espaço para campinhos de terra. O futebol inexiste. Deus seja louvado: nos sete dias que passamos em Cuba, ninguém perguntou por Romário!

TUDO PELO SOCIALISMO

O imponente prédio na Plaza de La Revolución, em Havana, abriga um jornal de faz-de-conta. O sentido não é pejorativo, pelo contrário. No Gramma, o jornal oficial do governo cubano, cerca de 70 jornalistas fingem que trabalham, apenas para manter o moral elevado. Para não ´jogar a toalha´, usando uma expressão bem brasileira.

O problema, como sempre, é a crise econômica vivida pelo país. O Gramma, que nos áureos tempos do Bloco Socialista tirava uma média de 700 mil exemplares/dia (chegou a 1 milhão/dia em ocasiões especiais) hoje tira cerca de 400 mil exemplares. Não é pouco num país com 11 milhões de habitantes, mas é uma situação que obviamente não agrada os jornalistas, até porque a edição circula com apenas quatro páginas, impresso num papel sem qualidade. “A gente faz as matérias normalmente, mesmo sabendo que a maioria delas não será publicada”, resigna-se a editora de do noticiário internacional, Nidia Diaz.

Trabalhar num jornal e ter que seguir estritamente as diretrizes do governo parece não constranger Nidia e seus companheiros.”Por acaso vocês no Brasil trabalham para algum órgão que não esteja comprometido com grupos financeiros ou políticos”, responde ela, perguntando.

Tento explicar que diz apenas meia-verdade, porque no Brasil pode se escrever contra ou a favor do governo. Nidia não se dá por vencida e afirma que “se a maioria da população aprova a revolução, não existe problema que a imprensa seja comprometida com os ideais socialistas”. A ´conversa de surdos´ termina aí, porque Nidia teria 500 milhões de argumentos para justificar a existência de imprensa livre em Cuba.

Além do Gramma, que circula cinco dias por semana, Cuba possui 14 jornais semanais provinciais, um jornal da juventude cubana e outro dos trabalhadores (também semanais). Existem ainda 55 emissoras de rádio (49 locais, 5 nacionais e uma internacional) e 11 emissoras de televisão (2 nacionais, 8 regionais e uma internacional). Toda “a serviço do socialismo”. A programação da tevê é insossa, com filmes mexicanos, novelas, documentários e um noticiário comprometido até a medula com o regime.

Pelas parabólicas (em número cada vez mais crescente, com a tolerância do governo) captam-se emissoras do México, Colômbia e Venezuela, cujos noticiários simplesmente ignoram o Brasil.

95% dos cubanos tem aparelhos de televisão. A maioria dos aparelhos veio da extinta União Soviética e está caindo aos pedaços. Mas, a exemplo dos carros antigos, funcionam por um desses milagres que nem os cubanos conseguem explicar.

AS MULHERES DE GUINERA

 


Há dez anos Fidel Castro foi inaugurar uma creche no bairro Guinera, nos arredores de Havana. Na época, o bairro era o mais miserável da capital, um amontoado de barracos. “Porque vocês não constroem prédios aqui?”, perguntou El Viejo Comandante a Josefina Bucur, conhecida como dona Fifi.

Com a garra de quem não fez outra coisa na vida que não fosse lutar pela sobrevivência, Fifi e suas companheiras iniciaram um mutirão que mudou o aspecto do Guinera. O governo forneceu o material, os moradores entraram com o trabalho e hoje os barracos foram substituídos por 396 apartamentos prontos, do total de 1.200 que serão construídos. Não é pouco, considerando-se as dificuldades atravessadas pelo país. O material de construção é produzido no próprio bairro. Os moradores dos apartamentos pagam 20% do salário por mês e são donos dos imóveis. Uma psicóloga orienta o processo de mudança do barraco para o apartamento.

O Guinera possui agencia bancária, posto dos correios, mercado e toda a estrutura de um bairro urbanizado. Os apartamentos são servidos com água, luz e rede de esgoto. Mas, porque as mulheres lideram o mutirão? Dona Fifi é quem responde:
-Os homens passam o dia fora. Nós é que sentimos o drama de morar em barracos. Por isso, fomos à luta.

A centelha se espalhou. Hoje são 7 bairros em processo de desfavelização em Havana e em outras cidades cubanas. Fifi, a mulher guerreira, é quase uma atração turística, visitada diariamente por pessoas de todo o mundo.

Continua morando no Guinera, num dos apartamentos que ajudou a construir com as próprias mãos.

(na próxima série de reportagens: a prostituição, o cambio negro e o sucesso das novelas brasileiras)

FIDEL ENTREGA OS ANÉIS

Com uma indústria sucateada, depois que o bloco soviético desmoronou como um castelo de areia e o governo norte-americano apertou o cerco, ampliando o bloqueio econômico, Fidel Castro teve que dar os anéis para não perder os dedos. E assim, Cuba se abriu ao turismo. Era a única saída para fazer dinheiro rápido num país que fazia 80% dos seus negócios com os agora ex-camaradas do Leste Europeu.

O problema é que, se traz efetivamente os dólares indispensáveis para a manutenção das conquistas socialistas, como a saúde e a educação, o turismo pode levar não apenas os anéis, mas também os dedos e as mãos. “O turismo é fundamental para nós nesse momento, apesar de todas as influências negativas que ele pode trazer numa sociedade tão carente como a nossa. Mas não temos outro caminho”. A opinião é de Maria Lívia Rodriguez, diretora para a América Latina do Instituto Cubano de Amizade entre os Povos. É a mais óbvia tradução do ´se correr o bico pega, se ficar o bicho come´.

Em Havana, o bicho pega e come. Com os turistas, os cubanos passaram a ter acesso a uma série de informações e, pior do que isso, notaram que no país que os submete a tantos sacrifícios, existem locais exclusivos para os estrangeiros. A segregação é feita pelo poder econômico. Que cubano em condições normais pode dispor de 7 dólares (o salário de um mês) para freqüentar um bom restaurante ou de 35 dólares para se hospedar num hotel como o charmoso Inglaterra, encravado no coração de Habana Vieja?

Para ter acesso a esses privilégios, o caminho mais curto é a prostituição, mas isso vai merecer um capítulo a parte.

Se falta luxo e mesmo nos grande hotéis como o Habana Livre, o Kolly, o Nacional, o Copacabana e o já citado Inglaterra, se nota um ar de decadência, sobre o que se ver em Havana. A parte velha é um mergulho no passado, com um importante patrimônio arquitetônico onde se destacam o Capitólio, o Palácio da Justiça, o Palácio dos Capitães Gerais, o Castelo dos Três Reis, a Praça da Catedral, o Grande Teatro de Havana, o Museu da Revolução e a Praça de São Francisco.

RUN EM LA BODEGUITA- Programa imperdível é circular pelas ruas desertas de Habana Vieja em plena madrugada, num daqueles carros antigos que nos países capitalistas só existem nas mãos de colecionadores. Imperdível também é uma visita a La Bodeguita Del Médio, ou simplesmente La Bodeguita, o botequim preferido de dez entre dez intelectuais que visitam Cuba. Ai, tomar um rum negro (que eles chaman de ron, forçando o erre) ou um mojito (bebida feita com limão, água mineral, rum branco, açúcar e hortelã) é quase um ritual. Nesse festival de simbologia, pode-se escrever uma frase ou um poema na parede, marcando para a posteridade a passagem pelo local.

Havana possui ainda bons restaurantes, com todo tipo de comida. Quando os dólares começam a escassear, pode se recorrer à chamada comida criolla (frango, arroz, feijão, batata frita e salada). O preço é inacreditável: 3 dólares.

Na área cultural, a dificuldade é escolher o que fazer. Museus, teatros, bibliotecas. Nos ´sebos´, encontram-se preciosidades como o Diário de Che Guevara ou poemas de José Marti por 1 dólar, com direito à pechincha. Justiça seja feita: se a entrada nos restaurantes é limitada pelo dólar, o povo cubano tem todo acesso a cultura. Para se ter um parâmetro: o turista paga dez dólares para assistir ao Balé Nacional de Cuba. Para o cubano, o mesmo espetáculo sai por 2 pesos, o equilavente a 2 centavos de dólar.

Aqui um parêntese: durante a estréia do Lago dos Cisnes, a primeira bailarina errou o passo e tropeçou. Aqui no Brasil, teria levado uma sonora vaia. Ao perceberem o erro da bailarina, os cubanos se levantaram e aplaudiram a jovem de pé, por longos três minutos.

Os chamados consumistas compulsivos não têm do que se queixar. Em Havana, quase todos os grande hotéis possuem as chamadas ´diplotiendas´, verdadeiros mini-shoppings com todos os tipos de produtos importados, desde alimentos a aparelhos eletro-eletrônicos, passando por roupas, perfumes e bebidas. As ´diplotiendas` que existem fora dos hotéis são abertas aos cubanos, desde que eles possuam dólares. O máximo a que eles se permitem é comprar alimentos. Ou, em casos excepcionais, batom, esmalte e maquiagem, objeto de desejo das cubanas.

Nas ´diplotiendas´ não é raro encontrar muitos cubanos. Sinal de que a economia informal está funcionando. E também que os dólares enviados pelos parentes e amigos exilados em Miami são cada vez mais bem vindos. Execrados até dois anos atrás, os cubanos de Miami são vistos com bons olhos até pelo governo. E olha que eles não fazem outra coisa que não seja bombardear de todas as maneiras (menos no sentido literal) o regime. Anéis, dedos, mãos. Fidel que tome cuidado com os braços.

FLÓRIDA CUBANA- Fora de Havana, outra cidade conserva um importante patrimônio arquitetônico é Santiago de Cuba. Mas para quem já está cansado de museus e prédios antigos, existem paraísos que mais parecem a Flórida, como Cayo Largo e Varadero. Em Varadero, distante cerca de 140 quilômetros de Havana, os grupos espanhóis Meliá e Gitart construíram grandes complexos hoteleiros, com estrutura de Primeiro Mundo. Piscinas hollywoodianas, shopping centers, restaurantes e danceterias num ambiente que as águas transparentes do Caribe tratam de completar um cenário de sonho.

São nesses hotéis de alto padrão, construídos através de um sistema de parceria com o governo cubano (que fica com 50% do faturamento) que turistas de várias partes do mundo, especialmente dos países de língua espanhola, se deliciam. A espanhola Marta Alvarez não dispensa o ´topless´ e com naturalidade topa posar para fotografias. “Gracias”, improvisa o fotógrafo brasileiro. A espanhola nem se dá ao trabalho de responder, mais interessada no sol e nas atenções de um guapo cubano. Atenções desmesuradas também não faltam a dois turistas alemães, embasbacados com as calientes cubanas.

Cuba é um dos recantos turísticos do planeta onde os preços são acessíveis até para os padrões brasileiros. Mas é bom aproveitar enquanto é tempo. As coisas tem andado tão rápido que os cubanos vão perceber que podem conseguir um preço bem melhor pelos anéis. E cobrar ainda mais caro pelos dedos e pelas mãos.

(Na próxima reportagem: saúde, educação e esporte, as pérolas e o marketing do socialismo. Ou do que resta dele)

UM PAULISTA-GRAPIUNA NA ILHA DE FIDEL

Cuba, do mítico Che Guevara e do agora eterno comandante en jefe  Fidel Castro, era um sonho de juventude em Osasco, cidade operária da Grande São Paulo. Sonho impossível, naqueles tempos duros, em que pão com mortadela era filé com fritas e a calça velha azul e desbotada não era apenas um slogan da moda. Era a única que eu tinha mesmo.

Tempos duros, mas também inesquecíveis, do trabalho em pequenos jornais e rádios, de viagens sem rumo pelo Brasil, e incursões pela Bolívia, Paraguai e Peru, na Machu Pichu que era a Meca dos mochileiros e ´fumaceiros´ de todo o planeta.

Cuba só virou realidade em 1995, por obra e graça de Manuel Leal, o meu velho capo do jornal A Região, eu já labutando em Itabuna, na Bahia. Quando soube que um daqueles vôos de solidariedade, tão comuns na época, faria escala em Salvador, não tive dúvidas. Propus a Leal realizar uma reportagem especial sobre Cuba. Não existia lógica para um jornal regional fazer esse tipo de pauta, mais para a Folha, Globo, Veja, Estadão e quetais, mas o fato é que Leal topou na hora.

O jornal bancou a viagem (800 dólares incluindo passagem aérea, hotel e meia pensão, uma barbada numa época em que com 85 centavos de real se comprava um 1 dólar) e fiquei com as despesas extras.

E lá fui eu desbravar Cuba e fazer a primeira cobertura internacional da gloriosa história de A Região, onde produzi uma série de matérias, republicadas pelo Diário de Osasco (afinal meus conterrâneos paulistas tinham que saber que vim, vi e venci) e que resgato para esse blog, numa celebração à passagem´de Fidel Castro  da vida para a História..

Apenas a título de contextualização, vale lembrar que Cuba vivia o ápice do chamado ´período especial`, com a perda dos recursos injetados pela recém desintegrada União Soviética. Comida racionada, roupa racionada, energia racionada. Mesmo assim, descobri um país fascinante, um povo fascinante. E descobri a paixão pelos charutos que se mantém viva até hoje, apesar dos meus cada vez mais freqüentes e exasperantes ataques de asma.

Antes de passar às reportagens, um adendo: se eu me apresentasse em Cuba como jornalista, não daria dois passos sem ser seguido por zelosos policiais. Na ficha preenchida no aeroporto José Marti assinalei “profissão: bancário”. E pude circular a vontade, com a máquina fotográfica que guardo até hoje, herança do meu inesquecível Manuel Leal.

Como já foi dito neste mesmo blog, por uma boa reportagem, eu chuto a canela da ética. E por uma boa caixa de charutos cubanos, vendo a mãe. E não entrego!

PS- Alguém sugeriu que essa série de reportagens fosse transformado em livro. Fora de cogitação. Nesse quesito, um tal de Fernando Moraes dá de um milhão a zero em mim.

Daniel Thame
Daniel Thame, jornalista no Sul da Bahia, com experiência em radio, tevê, jornal, assessoria de imprensa e marketing político danielthame@gmail.com

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